Sutra do Nirvana – Cap. 21 – Ações Puras 1

“Meu Dharma não vê a existência própria ou o eu de quem quer que seja; nele, todos os seres são vistos igualmente e sem mente dividida. Isto é grande equanimidade. Abandona-se a própria felicidade e se a dá para outros. Isto é grande equanimidade [ou grande renúncia].”

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Destaques deste Capítulo:

Os Doze Tipos de Escrituras do Dharma

O Conhecimento do Tempo

O Respeitável e o Desprezível (As Sete Boas Leis)

A Sabedoria da Mente Ilimitada

Amor-Benevolente e Compaixão

O Grande Amor-Benevolente

A Prática do Amor-Benevolente

O Coração do Bodhisattva

O Voto do Bodhisattva em Doação de Comidas

O Voto do Bodhisattva em Doação de Bebidas

O Voto do Bodhisattva em Doação de Veículos

O Voto do Bodhisattva em Doação de Roupas

O Voto do Bodhisattva em Doação de Flores e Incensos

O Voto do Bodhisattva em Doação de Roupas de Cama

O Voto do Bodhisattva em Doação de Casas

O Voto do Bodhisattva em Doação de Lâmpadas (Velas)

O Medo e a Felicidade

Elefantes Enfurecidos

A Espera do Shramana Gautama

A Criança de Vasistha

Namo Buddhaya! Benefícios Equânimes

As Cinco Ações da Criança

“Oh bom homem! Por que falamos da ‘ação de uma criança’. Oh bom homem! Uma criança não pode se colocar de pé, permanecer, ir e vir, ou falar. Essa é a condição de uma criança. É o mesmo com o Tathagata. Dizemos ‘incapaz de se colocar de pé’. O Tathagata não levanta qualquer aspecto de uma coisa. Dizemos ‘incapaz de permanecer’. O Tathagata não adere a qualquer coisa. Dizemos ‘incapaz de vir’. Na ação do corpo do Tathagata não há nenhuma agitação. Dizemos ‘incapaz de ir’. O Tathagata já entrou no Grande Nirvana. Dizemos ‘incapaz de falar’. Ele conversa, mas não fala. Por que não? Se falasse, isso seria algo da categoria dos (seres) criados. O Tathagata é um Não-Criado. Portanto, ele não fala. Também, dizemos ‘sem palavras’. Aquilo que uma criança diz não pode ser bem compreendido. Embora existam palavras, elas (as crianças) são quase sem palavras. O caso é o mesmo com o Tathagata. A palavra que não é clara é a palavra secreta de todos os Budas. Embora pronunciada, os seres não as compreendem. Isto é o que chamamos ‘sem palavras’.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 26 – Sobre a Ação da Criança.

A Sina de Bimbisara

“Oh grande Rei! Bimbisara (o pai do Rei Ajatasatru) certa vez caiu num mau estado mental e saiu para caçar na Montanha Vipula. Ele vagou por toda a selva, mas não encontrou caça. Ele viu um Rishi que era dotado com os cinco poderes divinos. Vendo-o, a ira e os pensamentos distorcidos surgiram em sua mente; ele pensou que a razão de não conseguir caça vinha do fato de que o Rishi poderia ter causado a fuga dos animais de caça. Ele disse aos seus assistentes para matar o Rishi. O Rishi, quando estava para dar o seu último suspiro, caiu num mau estado mental. Ele perdeu os seus poderes divinos e fez um juramento: ‘Eu sou realmente inocente. Mas você, através da sua boca, impiedosamente levou a cabo o ato de matar. Na vida que virá – como você fez – causar-lhe-ei a morte através da minha boca’. Então o rei, ouvindo isso, arrependeu-se. Ele cremou o corpo morto com oferecimentos. Assim se deu com o ex-rei. A conseqüência cármica foi leve, e ele não caiu no inferno. Em contraste com isso, você nada fez desse gênero, assim, como você poderia sofrer no inferno? O ex-rei fez a coisa em si e teve que pagar por ela. Como poderia você dizer, Rei, que você fez a matança e que você tem que sofrer? Você diz que seu pai era inocente. Como poderia você dizer que ele era inocente? Ora, uma pessoa que pecou tem que sofrer por aquilo que ela fez. Uma pessoa que não pecou não tem que sofrer pelas retribuições cármicas. Se o seu falecido pai, o rei, não tivesse cometido pecado, como poderia haver qualquer retribuição cármica? Bimbisara adquiriu boas e más retribuições cármicas em sua vida. Em razão disto, nada era determinado com o rei falecido. Sendo indeterminado, o assassínio também era indeterminado. O assassínio sendo indeterminado, como pode você dizer que terá que cair no inferno?”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 25 – Sobre Ações Puras 5.

O Âmago do Dharma Maravilhoso

Então o Buda disse a Ajatasatru: “Oh grande Rei! Agora lhe falarei sobre o âmago do Dharma Maravilhoso. Ouça-me atentamente com todo seu pensamento! Os mortais comuns devem sempre meditar sobre 20 coisas: 1) este corpo é vazio e não há nada lá que seja imaculado, 2) não há raiz saudável nele, 3) não há nenhum ajuste no nascimento e na morte, 4) cai-se num poço profundo e não há lugar onde não se possa ter medo, 5) através de quais meios pode-se ver a Naturez-de-Buda?, 6) como se pode praticar meditação e ver a Natureza-de-Buda?, 7) nascimento e morte são sempre causa de sofrimento e lá não há o Eterno, o Êxtase, o Eu, e o Puro, 8 ) não é possível separar-se das oito situações inoportunas, 9) sempre se é perseguido por inimigos, 10) não há um dharma que possa livrar-se de todas as coisas que existem, 11) não há alguém emancipado dos três reinos do infortúnio, 12) várias visões distorcidas acompanham (uma pessoa), 13) nenhum barco está à mão para passar alguém através das águas dos cinco pecados mortais, 14) nascimento e morte se sucedem indefinidamente e nenhum limite para isso é alcançado, 15) quando nenhum karma é criado, não há retribuição a seguir, 16) nenhuma fruição surge para outros por aquilo que alguém tenha feito para si mesmo, 17) sem a causa da felicidade, não pode haver o resultado (efeito) da felicidade, 18) uma vez que a semente do karma seja plantada, o resultado não será perdido, 19) a ignorância evoca a vida e por ela se morre, 20) o que se tem ao longo dos três tempos do passado, do presente e do futuro é indolência.

Oh grande Rei! Os mortais comuns devem sempre meditar sobre essas vinte coisas. Tendo meditado assim, a pessoa não virá mais a desejar nascimento e morte. Se nenhum desejo existe de nascimento e morte, ganhar-se-á o samatha-vipasyana [tranqüilidade e insight (introspecção)]. Então, de uma maneira ordenada, a pessoa meditará sobre o que se obtém em relação ao nascimento, vida e extinção. Assim, ela segue com o dhyana, sabedoria, esforços e preceitos (shila). Tendo meditado sobre o nascimento, vida e extinção; se vem a saber o que se obtém com a mente sujeita aos preceitos morais. Abstendo-se do mal até o fim, não pode haver medo da morte ou dos três reinos do infortúnio. Qualquer pessoa cuja mente não está atenta para essas 20 coisas possui uma mente indolente, e não haverá fim do mal que ainda não está feito.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 25 – Sobre Ações Puras 5.

A Mente Imutável do Buda

Então o Buda disse para o povo ao seu redor: “O Rei Ajatasatru ainda tem dúvidas. Agora vou fixar a minha mente.”

Naquela ocasião, havia lá um Bodhisattva chamado ‘Todo-Perseverança’. Ele disse ao Buda: “Oh Honrado-pelo-Mundo! Como você, o Buda, estabeleceu anteriormente: todas as coisas não têm um estado fixo (imutável). A matéria não tem uma forma imutável, e Nirvana também não tem uma forma imutável. Como é que você, o Tathagata, diz que para o benefício de Ajatasatru você atingirá uma mente imutável?”

O Buda disse: “Bem falado, bem falado, oh bom homem! Agora atinjo uma mente imutável para o benefício de Ajatasatru. Por quê? Se as dúvidas do rei forem aniquiladas, isto significa que não pode haver formas imutáveis para todas as coisas. Em razão disto, para o benefício de Ajatasatru, atingirei uma mente imutável (fixa). Saiba que essa mente (do rei) não é algo imutável. Oh bom homem! Se a mente do rei fosse imutável, como se poderiam destruir os pecados mortais do rei? Como não existe um estado imutável, podemos de fato esmagar o pecado. Portanto, para o benefício de Ajatasatru, atingirei uma mente imutável (estado da Mente Búdica).”

Então o grande rei foi para a floresta das árvores sala, foi para onde o Buda se encontrava, olhou e viu as 32 marcas distintivas da perfeição e as 80 características menores de excelência, todas as quais se manifestavam como uma toda-maravilhosa montanha dourada.

Então o Buda emitiu os oito tipos de vozes e disse: “Oh grande Rei!”

Então Ajatasatru olhou para a direita, para a esquerda, e disse: “Quem é o grande rei em meio a todos aqueles que estão aqui? Eu sou um pecador e não possuo virtudes que mereçam ser mencionadas. Dessa forma, o Tathagata não pode estar se dirigindo a mim.”

Então o Tathagata novamente o chamou: “Oh grande Rei Ajatasatru!”

Ao ouvir isto, o rei ficou enormemente satisfeito e disse: “O Tathagata usa palavras amáveis para mim. Agora sei que o Tathagata verdadeiramente tem grande piedade para todos nós seres; ele não faz distinções (não julga, portanto, Mente Imutável).” E ainda disse ao Buda: “Oh Honrado-pelo-Mundo! Agora acabei eternamente com as dúvidas. Definitivamente, sei agora que o Tathagata é realmente o Grande Mestre Insuperável.”

Então, o Bodhisattva Kashyapa disse a Todo-Perseverança: “O Tathagata atingiu uma Mente Imutável para o benefício de Ajatasatru.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 25 – Sobre Ações Puras 5.

O Bom Amigo da Via

O rei disse a Jivaka: “Se as coisas se procedem assim com o Tathagata, amanhã consultarei a sorte do dia e as estrelas para ver se são favoráveis, e então irei.”

Jivaka disse ao rei: “Não há que descobrir os melhores dias e estrelas nos ensinamentos do Tathagata. É como com uma pessoa sofrendo de uma doença grave: ela não escolhe o bom ou mau dia e ocasião, mas procura um médico. Ora, a sua doença, Rei, é grave e você está à procura de um médico, que é o Buda. Por favor, não fale sobre se é um bom ou mau dia. Oh grande Rei! Isto é como no caso do fogo do sândalo e da eranda, os quais queimam da mesma maneira, sem qualquer diferença. É o mesmo com os melhores dias e aqueles de mau-agouro. No lugar (onde se encontra) o Buda, ganha-se a mesma expiação dos pecados. Por favor, oh grande Rei, corra para lá hoje!”

Então o grande rei deu ordens a um ministro chamado ‘Auspicioso’, dizendo: “Oh você ministro! Hoje eu resolvi ir ao Buda-Honrado-pelo-Mundo. Apressa-te e apronte as coisas para os oferecimentos!”

O ministro disse: “Oh grande Rei! Bem falado, bem falado! Temos já todas as coisas prontas para os oferecimentos.”

O Rei Ajatasatru tinha com ele a sua consorte real. Os palanquins nos quais eles montaram eram em número de 12.000; seus grandes e potentes elefantes eram 50.000. Sobre cada elefante estavam três atendentes, que seguravam estandartes e parassóis em suas mãos. Não faltavam flores, incenso ou instrumentos musicais. Tudo estava completo. Havia 180.000 cavalos à frente e na retaguarda. As pessoas de Magadha que seguiam o rei eram em número de 580.000. Naquela ocasião, o povo de Kusinagara ocupava uma área de 12 yojanas no tamanho. Todos viram o Rei Ajatasatru e seus seguidores vindo de longe, perguntando o caminho.

Então, o Buda falou à congregação: “Todos vocês! O mais estreitamente relacionado ao Insuperável Bodhi é o Bom Amigo da Via. Por quê? Se Ajatasatru não tivesse seguido as palavras de Jivaka, ele morreria no sétimo dia do próximo mês e cairia no inferno. Por essa razão, não há ninguém melhor que o mais estreitamente relacionado e Bom Amigo da Via.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 25 – Sobre Ações Puras 5.

A Audição de Todos os Seres

A Parábola do Bom Médico e o Icchantika

O rei disse: “Oh Jivaka! Certa vez ouvi que o icchantika é uma pessoa que não acredita, ouve, vê ou compreende o significado. Como o Tathagata poderia falar do Dharma para uma pessoa como aquela?”

Jivaka respondeu: “Oh grande Rei! Como uma ilustração: existe um homem que contrai uma doença grave. À noite, a pessoa vai a um pagode (‘one pillared palace’, por ex., o ‘Ek Thambia Mahal’), compartilha da manteiga, a esfrega no seu corpo, deita em cinzas, come cinzas, sobe em uma árvore morta, brinca com macacos, senta e reclina com eles, e mergulha na água ou lama. Ele salta de uma edificação alta, de uma montanha alta, de árvores, elefantes, cavalos, vacas e carneiros. Ele veste roupas coloridas de azul, amarelo, vermelho ou cores escuras; ri, canta e dança. Ele contempla corvos, águias, raposas e guaxinins. Seus dentes e cabelos caem; ele está nu, dorme com cães como seu travesseiro em meio aos excrementos e imundícies. Além disso, ele caminha, vive e fica em meio aos mortos, de mãos dadas com eles, e ali ele come. Nos sonhos, ele vê que serpentes venenosas cobrem o caminho por onde ele deve passar. Ou ele abraça uma fêmea coberta de pelos, e veste roupas feitas de folhas de tala (espécie de palmeira). Ele sonha que está viajando num carro quebrado puxado por um burro ou está brincando na frente dele. Tendo sonhado assim, sua mente está preocupada. Devido a essa preocupação, sua doença agrava. Como a doença agrava, todas as pessoas e seus parentes enviam para lá um médico. O menino de recados despachado para (levar) o médico é de pequena estatura e mutilado. Sua cabeça está suja, ele veste roupas esfarrapadas, e pretende carregar o médico numa carroça quebrada. Ele diz para o médico: ‘Rápido! Entre no carro!’

Então, o bom médico pensou para si: ‘Ora, esse mensageiro parece doente e desagradável. Eu sei que a pessoa doente é difícil de curar’. Ele também pensa: ‘O mensageiro não me parece muito auspicioso. Consultarei agora a sorte do dia (horóscopo) e verei se posso curar [o paciente] ou não. O quarto, sexto, oitavo, décimo-segundo e décimo-quarto dias são maus, quando as doenças não se curam’. Além disso, ele pensa: ‘Este é um mau dia. Consultarei as estrelas e verei se posso curá-lo ou não. Se for tempo de estrelas como Marte, Revati, Krttika, Apabharani, Shissho e Mansho, as doenças são difíceis de curar’. Ele também pensa: ‘Como as estrelas não estão numa constelação auspiciosa, olharei agora o tempo. Se for outono, inverno, anoitecer, meia-noite, (noite) sem lua, então as doenças são difíceis de curar’. Ele também pensa: ‘Muito embora todos esses aspectos indiquem maus presságios, as coisas podem ser definidas ou indefinidas. Agora verei a pessoa doente, eu mesmo. Se a sorte for favorável, haverá uma cura; se não, nada ajudará’.

Pensando assim, ele segue adiante com o mensageiro. No caminho, ele pensa novamente: ‘Se a pessoa doente estiver destinada a viver longamente, sua doença será curada. Se não, não poderá haver cura’. E na frente do carro, ele vê duas crianças brigando e lutando, pegando cada um a cabeça do outro, puxando seus cabelos, atirando cacos e pedras, brandindo e batendo com espadas e bastões. Ele vê pessoas rumo ao fogo, que desaparecem espontaneamente, ou pessoas derrubando árvores, ou pegando na pele e levando, puxando, ou coisas abandonadas no caminho, ou pessoas segurando coisas vazias, ou um Shramana caminhando sozinho, sem uma companhia, ou um tigre, lobo, corvo, águia ou raposa. Vendo isto, ele pensa: ‘Eu vejo o mensageiro que foi enviado, tudo o que está acontecendo na estrada, e vejo que todos esses sinais indicam maus presságios. Sei que essa doença será difícil de curar’. Ele também pensa: ‘Embora os presságios sejam maus, que as coisas sejam como devem ser. Eu irei e verei essa doença’. Assim pensando, ele ouve isto no caminho: ‘Coisas como o esquecimento, morte, colapso, quebra, esfolamento, queda, queimadura e mal súbito não podem ser curadas’. Também, ao sul ele ouve os gritos de pássaros e bestas como corvos, águias, sarika, cães, ratos, raposas, porcos e lebres. Ouvindo todas essas coisas, ele pensa: ‘Sei que será difícil curar essa pessoa doente’.

Então ele chegou ao lugar e viu o homem doente. Frio e calor acometiam-no vez ou outra; suas juntas estavam doloridas, seus olhos vermelhos, e o zumbido em seu ouvido podia ser escutado de fora. Sua garganta estava tomada por convulsões e dores, e a superfície da sua língua estava rachada. A pessoa estava com uma cor verdadeiramente escura, e sua cabeça em desalinho. Seu corpo estava ressecado; nenhuma transpiração ocorria. Todos os sinais vitais estavam comprometidos; seu corpo estava extraordinariamente inchado e nas cores escarlate e vermelho, muito diferente daquelas que se tem em condições normais. Não havia equilíbrio em sua voz, que era às vezes forte e às vezes fraca. Manchas podiam ser vistas em todo o seu corpo, estranhamente azuis e amarelas na cor. Sua barriga estava inchada e sua fala não era clara.

O médico, vendo isto, indagou o atendente do paciente: ‘Como o paciente se sente?’

A resposta veio: ‘Oh grande Doutor! Esse homem previamente respeitava os Três Tesouros e todos os devas. Agora, essa pessoa mudou e não mais os respeita. Antigamente, ele doava de bom grado, mas agora se tornou avarento. No passado, ele comia com moderação, mas agora ele come demais. Antes, ele harmonizava com o bem, mas agora ele é mau. Outrora, ele tinha amor filial e respeitava seu pai e sua mãe, mas agora ele não tem em mente respeitá-los’.

O doutor, ao ouvir tudo isto, caminhou adiante e o cheirou. O que ele (o paciente) cheirava era à utpala, uma mistura de cheiros da agaru, prikka, tagaraka, tamala-pattra, kunkumam, sândalo, cheiro de carne assada, cheiro de vinho, cheiro de vértebras e ossos queimados, cheiro de peixe, e cheiro de excremento. Tendo sentido esses bons e maus odores, ele caminhou adiante e tocou o corpo [do paciente] que era tão delicado e suave como a seda, o algodão ou a flor do algodoeiro. Ou era tão duro quanto uma pedra, ou frio como gelo, ou quente como o fogo, tão áspero quanto a areia. Vendo tudo isto, o bom médico sente que o homem certamente morrerá. Disto ele não tem dúvida. Mas ele não diz que a pessoa certamente morrerá. Ele diz para o atendente do homem doente: ‘Estou ocupado agora. Voltarei amanhã. Deixe o homem comer o que quer que deseje, não diga não’. E retorna para casa. No dia seguinte o mensageiro vem, a quem o médico novamente diz: ‘Meu negócio ainda não está concluído; além disso, o remédio ainda não foi inventado’. O sábio deve saber que essa pessoa doente certamente morrerá.

Oh grande Rei! É o mesmo também com o Honrado pelo mundo. Ele conhece bem o que o icchantika é, e ainda assim ele lhe fala sobre o Dharma. Por quê? Se ele não falasse do Dharma, os mortais comuns diriam: ‘O Tathagata não tem compaixão. Se tiver, diremos ‘onisciente’; se não tiver, como poderíamos dizer que ele é onisciente?’ Assim eles diriam. Por essa razão, o Tathagata profere sermões para os icchantikas. Oh grande Rei! O Tathagata vê todas as pessoas doentes e sempre distribui o remédio do Dharma. O Tathagata não é culpado se o doente não toma o remédio. Oh grande Rei! Existem dois tipos de icchantikas. Um obtém a raiz saudável [‘kusala mula’] no presente, e o outro (obterá) a raiz saudável na vida que virá. O Tathagata sabe bem quais dos icchantikas ganharão a raiz saudável nesta vida. Assim, ele fala do Dharma. Mesmo para aqueles cuja raiz saudável se efetivará na próxima vida, ele fala do Dharma. O resultado pode não surgir agora, mas ele cria uma causa para a vida que virá. Por essa razão, o Tathagata fala do Dharma para o icchantika. Existem ainda outros dois tipos de icchantika. Um é aguçado, e o outro é de grau médio. O que é de inteligência aguçada ganha a raiz saudável nesta vida; o que é de inteligência mediana ganhará na próxima vida. O Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo não fala em vão. Oh grande Rei! Por exemplo, uma pessoa que está limpa cai na latrina; um bom mestre da Via vê, sente piedade, vai lá, agarra-o pelos cabelos e puxa-o para fora. Assim se procedem as coisas com o Buda-Tathagata. Ele vê todos os seres caindo na fossa dos três reinos do infortúnio. Ele recorre a expedientes e lhes salva. É por essa razão que o Tathagata realmente fala do Dharma mesmo para icchantikas.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 25 – Sobre Ações Puras 5.

O Samadhi do Luar

Então, o Honrado-pelo-Mundo, o Guia Todo-Compassivo, entrou no Samadhi do Luar para o benefício de Ajatasatru. Ao entrar neste Samadhi, uma grande luz emanou. A luz era pura e fria, e foi para onde estava o rei e resplandeceu sobre o seu corpo. As feridas do seu corpo sararam, e as dores dilacerantes desaparecem. Liberto das dores das feridas e sentindo pureza e frescor no corpo, o rei disse a Jivaka: “Certa vez, ouvi pessoas dizerem que quando o kalpa chega ao fim, três luas aparecem simultaneamente. Naquela ocasião, os sofrimentos dos seres são todos extintos. Esse tempo (do final do kalpa) ainda não chegou. Então, de onde vem essa luz? Ela resplandece sobre mim e toca-me; cura todas as minhas feridas e meu corpo se sente em paz.”

Jivaka respondeu: “Não é que o kalpa esteja acabando e três luas estejam aparecendo e brilhando. Isto também não é a luz de Marte, o Sol, ou as constelações, ou uma erva medicinal, uma jóia, ou a luz dos céus.”

O rei ainda disse: “Se isto não é a luz das três luas, ou de uma jóia, então que luz é esta?

“Oh grande Rei! Essa é a luz do Deus dos deuses. Essa luz não tem fonte; ela é ilimitada. Não é quente, nem fria, nem eterna; não morre; não é matéria, nem não-matéria; não tem expressão exterior; nem é não-fenomenal; não é azul, nem amarela, nem vermelha e nem branca. É vista somente onde há um desejo de salvar. Ela tem suas características e (não) pode ser explicada. Ela tem uma fonte, limite, calor, frio, azul, amarelo, vermelho e branco. Oh grande Rei! Embora essa luz possua tais aspectos de um fenômeno, não é possível explicá-la. Ela não pode ser vista; e nem há nela o azul, o amarelo, o vermelho ou o branco.”

O rei disse: “Oh Jivaka! Por que o Deus dos deuses emite essa luz?”

Jivaka respondeu: “Ora, esses sinais auspiciosos são para você, grande Rei. Oh Rei! Há pouco você disse que não havia um bom médico no mundo que pudesse curar seu corpo e mente. Por essa razão, essa luz foi enviada previamente. Ele (o bom médico) primeiro cura seu corpo, e então sua mente.”

O rei disse: “Oh Jivaka! Será que o Tathagata-Honrado-pelo-Mundo pensa em nós?”

Jivaka respondeu: “Como um exemplo: uma pessoa tem sete filhos. Um dos sete está doente. Não é que o pensamento do pai e da mãe não seja equânime, mas sua mente se inclina para aquele que está doente. Oh grande Rei! O mesmo se passa com o Tathagata. Ele é imparcial, mas ainda assim o seu pensamento está concentrado naquele que é pecador. A compaixão se volta para aquele que é indolente, e sua mente é liberada daquele que é não-indolente. Quem é não-indolente? Isto se refere aos Bodhisattvas do sexto estágio. Oh grande Rei! O Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo não vê qualquer diferença de casta, se é jovem, velho ou de meia-idade; se é rico ou pobre; o tempo, sol, lua, constelações; se humilde, pajem, empregada, ou a habilidade para o trabalho; mas vê, em meio aos seres, aquele que tem uma boa mente. Se alguém tem um bom pensamento, sua compaixão age. Oh grande Rei! Por favor, saiba que esses sinais auspiciosos indicam o fato que o Tathagata agora está no Samadhi do Luar. Por isso, essa luz.”

O rei indagou: “Samadhi do Luar?”

Jivaka respondeu: “Isto é como a luz do luar, que faz com que todos os botões da utpala (lótus) abram esplendorosamente suas pétalas. Assim também age o Samadhi do Luar. Ele abre completamente as pétalas do bom pensamento dos seres. Assim, o chamamos ‘Samadhi do Luar’. Por exemplo, a luz do luar realmente alegra o coração de todos que viajam. Assim faz o Samadhi do Luar. Ele realmente desperta a alegria nas mentes daqueles que viajam sob a proteção do Nirvana. Portanto, dizemos ‘Samadhi do Luar’. Oh grande Rei! A luz da lua aumenta diariamente na sua forma e brilho, do primeiro dia do mês (lunar) até o décimo-quinto dia. O mesmo se passa com o ‘Samadhi do Luar’. A raiz do primeiro rebento de todas as boas ações cresce gradativamente, e termina na realização do Grande Nirvana. É também por essa razão que dizemos ‘Samadhi do Luar’. Oh grande Rei! Por exemplo, a forma e o brilho do luar, do décimo-sexto ao trigésimo dia, diminuem gradualmente em tamanho. É o mesmo com o Samadhi do Luar. Onde quer que ele resplandeça, ele reduz, gradualmente, todas as impurezas. Assim dizemos ‘Samadhi do Luar’. Oh grande Rei! Em tempos de grande calor, todos os seres sempre pensam no (frescor do) luar. Conforme o luar aparece, o calor sufocante se vai. É o mesmo com o Samadhi do Luar. Ele dissipa completamente a febre da ganância e das preocupações. Oh grande Rei! Por exemplo, a lua-cheia é a rainha de todas as estrelas e é chamada ‘amrta’ [ambrosia da imortalidade]. Todos os seres a amam. É o mesmo com o Samadhi do Luar. Ele é o rei de todas as boas ações, é o amrta, e é amado por todos. Por essa razão, dizemos ‘Samadhi do Luar’.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 25 – Sobre Ações Puras 5.

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