Um Lugar Sagrado Pode Adoecer

“Na medida em que (o conceito de) Lugar no Mundo torna-se sinônimo de espaços significativos, isto certamente nem sempre é benéfico (Gordon, 2008)”.

Contrariamente aos profundos ensinamentos do Mahayana sobre a Sabedoria da Não-Distinção, muitas vezes um organismo cai vitima de sua própria identidade, ou ego.

Em seu artigo Towards a Theory of Network Locality, Eric Gordon tece a consideração que: “Esses espaços significativos (‘Lugares no Mundo’) podem ser usados para exercer o poder dentro de contextos geograficamente definidos. Eles estabelecem distinção entre aqui e ali, nós e eles. Aqueles que compartilham um Lugar no Mundo podem optar por abri-lo aos recém-chegados, ou podem fechá-lo para si, criando efetivamente uma hierarquia de autenticidade local. ‘Você pode viver aqui, mas não vive aqui autenticamente’. Em comunidades antigas, isto pode levar à mútua exclusão entre ‘nativos’ e ‘forasteiros’, ou veteranos e novatos. Esses espaços também podem ser produzidos no que concerne à raça, classe ou gênero. Diferenças de aparência exterior podem ser usadas para excluir recém-chegados” .

Nesse caso, pode-se evocar a sinonímia de secretar (fazer segredo) e segregar (apartar), cuja essência maléfica atacará o tecido conjuntivo daquela comunidade e, como uma doença auto-imune, destruirá a relação causal da sua própria origem, da sua razão de ser, e também poderá destruir as sementes para a iluminação daquele coletivo [ver “A Origem de um Lugar Sagrado”]. Em passagem do Sutra de Lótus, Capítulo 03 – A Parábola, o Buda admoesta Shariputra:

“Além disso, Shariputra,

para os arrogantes,

indolentes e aqueles que nutrem visões próprias,

não pregue este Sutra.

Pessoas comuns de escassa compreensão,

profundamente apegadas aos Cinco Desejos,

ouvindo-o, falharão em compreender;

não o pregue para eles, quem quer que sejam.

Se houver aqueles que não compreendem,

e que caluniam este Sutra,

em conseqüência,

eles destruirão todas as sementes para o Estado de Buda.”

E no Sutra do Nirvana, Capítulo 21 – Sobre Ações Puras 1, para o benefício de Kashyapa, o Buda diz num gatha:

“Se não se sente a ira,

mesmo contra um simples ser,

e roga-se para dar felicidade a esses seres,

isto é amor-benevolente.

Se sente-se compaixão

por todos os seres,

isto é a semente sagrada.

Interminável é a recompensa.”

Isto tudo nos leva à compreensão da sucumbência de algumas ditas “organizações” pretensamente propaladoras de um ensinamento que, na verdade, não assimilam. Eis porque certas entidades surgem com ímpeto revolucionário, e depois ruem sob o próprio peso. Esses fenômenos resultam de relações sociais doentias, e podem macular aquele “Lugar no Mundo”. Todavia, o Dharma é Eterno.

A Traição de Ajatasatru

Ajatasatru foi proclamado rei no dia seguinte.

A primeira coisa que ele fez foi prestar grandes honras ao seu pai. Mas Devadatta ainda temia a autoridade do velho rei; e decidiu usar a sua influência contra ele.

“Enquanto a liberdade for permitida ao seu pai”, ele disse a Ajatasatru, “você correrá perigo de perder seu poder. Ele ainda preserva muitos seguidores; você deve tomar medidas para intimidar-lhes.”

Devadata novamente foi capaz de impor sua vontade a Ajatasatru, e o pobre Bimbisara foi trancafiado numa prisão. Ajatasatru decidiu matá-lo de fome, e não permitia que se lhe desse comida.

Prisão de Bimbisara

Ruínas da Prisão de Bimbisara em Rajagriha. Imagem via Wikipedia.

Mas à Rainha Vaidehi, às vezes, era permitido visitar Bimbisara na prisão, e ela levaria o arroz que ele comia vorazmente. Ajatasatru, porém, logo pôs um fim a isto; ele ordenou aos guardas revistá-la toda a vez que ela fosse ver o prisioneiro. Ela, então, tentou esconder a comida em seu cabelo, e quando isto também foi descoberto, ela teve que usar grande engenhosidade para evitar que o rei morresse de fome. Mas ela era repetidamente descoberta, e Ajatasatru, finalmente, proibiu seu acesso à prisão.

Neste intermédio, ele estava perseguindo os fiéis seguidores do Buda. Eles foram proibidos de cuidar do templo onde Bimbisara, anteriormente, havia colocado uma mecha do cabelo do Mestre e as aparas das suas unhas. Nem mais flores ou fragrâncias eram lá permitidas como oferecimentos, e o templo nem mesmo era limpo ou varrido.

No palácio de Ajatasatru residia uma mulher chamada Srimati. Ela era muito devota. Entristeceu-lhe ficar incapaz de realizar obras de santidade, e ela perguntava como, nesses tempos tristes, ela provaria ao Mestre que mantivera a sua fé. Passando em frente ao templo, ela queixou-se amargamente de vê-lo tão abandonado, e quando ela notou quão sujo estava, ela chorou.

“O Mestre saberá que ainda há uma mulher nesta casa que lhe honraria”, pensou Srimati, e sob risco de sua vida, ela varreu e enfeitou o templo com uma guirlanda brilhante.

Ajatasatru viu a guirlanda. Ficou muito irritado e queria saber quem havia ousado desobedecer-lhe. Srimati não tentou esconder; de sua própria vontade, ela apareceu diante do rei.

“Por que você desacatou minhas ordens?”, perguntou Ajatasatru.

“Se eu desacatei suas ordens”, disse ela, “eu respeitei aquelas do seu pai, o Rei Bimbisara.”

Ajatasatru não esperava ouvir tal coisa. Pálido de fúria, ele correu para Srimati e golpeou-a com o seu punhal. Ela caiu, ferida mortalmente; mas seus olhos estavam reluzentes de alegria, e numa voz feliz, ela cantou:

“Meus olhos viram o protetor dos mundos; meus olhos viram a luz dos mundos, e para ele, à noite, tenho acendido as lâmpadas. Para ele que dissipa a escuridão, eu tenho dissipado a escuridão. Seu brilho é maior que o brilho do sol; seus raios são mais puros que os raios do sol, e meu olhar extasiado é ofuscado pelo seu esplendor. Para ele que dissipa a escuridão, eu tenho dissipado a escuridão.”

E, morta, ela parecia fulgurar com a luz da santidade.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Origem de um Lugar Sagrado

[Conforme narra anteriormente Eric Gordon em seu artigo Towards a Theory of Network Locality, “havia uma entrada secreta para um cemitério-jardim”, a qual era utilizada pelos moradores do bairro para suas caminhadas, pois a entrada principal era muito distante - veja a íntegra do artigo clicando no link acima]. Ainda em seu artigo, lê-se:

“Cultura Local (enquanto conhecimento) comumente é a acepção de costumes, espaços, ou políticas compartilhadas por um grupo de pessoas, com um interesse comum em um determinado espaço (Geertz, 1983). Esse entendimento pode ser tão trivial quanto saber de uma entrada secreta para um cemitério, ou tão significativo quanto práticas religiosas e culturais (enquanto comportamento) nativas. O que liga esses entendimentos à Cultura Local é o fato de que eles são de origem social. Se eu fosse o único que soubesse de uma entrada (secreta) para o cemitério, esse bit de informação seria meramente um segredo. Todavia, o mesmo segredo, coletivamente apreendido por um grupo bem definido, rapidamente torna-se o tecido conjuntivo de uma comunidade local. Torna-se um “Lugar no Mundo – placeworld” (Gordon e Koo, 2008)”.

Onde quer que estejamos, o lugar onde habitamos, nossos familiares, amigos e vizinhos próximos constituem um “Lugar no Mundo”, para onde sempre retornamos após jornadas diárias de trabalho, de estudo, ou de viagens de lazer ou trabalho. No mundo de hoje, para além das fronteiras de uma localidade geográfica, as relações sociais se estendem para limites inimagináveis, aproximando pessoas e costumes num verdadeiro oceano de informações. Muitas dessas informações são como verdadeiras descobertas, algo que gostaríamos muito que familiares e amigos compartilhassem, e assim o fazemos através das redes sociais. São notícias, artigos, palestras, frases, imagens, fotos e vídeos entre outras coisas.

Mas, o que fazemos quando deparamos com os profundos ensinamentos do Dharma Sagrado? Devemos guardar segredo? Não! Devemos alardear descuidadamente por ai? Não, também! Nem uma coisa, nem a outra. Mas sim, o caminho do meio. O que isto está a nos dizer? Está a nos dizer que devemos compartilhar esses profundos ensinamentos com familiares, entes queridos, e outras pessoas de aguçada inteligência que buscam o caminho.

O que aprendemos com o artigo de Eric Gordon é que quando esses ensinamentos deixam de ser segredo, sendo apreendidos coletivamente por um grupo social, eles tornam-se o tecido conjuntivo de uma Comunidade Local. Se esses ensinamentos versam sobre o Dharma Sagrado, então podemos chamar essa “Comunidade Local” de Sangha, e esse “Lugar no Mundo” torna-se Sagrado.

A Solidão do Sábio

Kausambi

Kaushambi, em Uttar Pradesh, foi visitada pelo Buda no sexto e nono anos após a sua iluminação. Click na imagem para site de origem.

O Mestre chegou à cidade de Kausambi, e lá, num primeiro momento, ele estava muito feliz. Os habitantes ansiosamente ouviam as suas palavras, e muitos deles tornaram-se monges. O Rei Udayana estava entre os crentes, e permitiu ao seu filho Rashtrapala entrar para a comunidade.

No entanto, foi em Kausambi que o Mestre deparou-se com uma das suas grandes tristezas. Um monge, certo dia, foi repreendido por cometer algumas ofensas menores. Ele não admitia estar errado; e por isso foi punido. Ele se recusou a submeter-se à punição e, como ele era um homem amigável, de grande inteligência e aprendizado, muitos tomaram o seu partido. Em vão, os outros rogaram-lhe para retomar o caminho correto.

“Não assuma esse ar presunçoso”, diziam-lhe; “não se considere incapaz (isento) de cometer erros. Ouça o nosso sábio conselho. Dirija-se aos outros monges como deveriam ser abordados aqueles que professam uma fé que também é sua; e eles se dirigirão a você como deveria ser abordado aquele que professa uma fé que também é deles. A comunidade crescerá, a comunidade florescerá, somente se os monges se aconselharem uns aos outros.”

“Vocês não têm que dizer-me o que é certo ou errado”, ele respondeu, “parem de reprovar-me.”

“Não diga isso. Suas palavras são ofensivas à lei. Você está desafiando a disciplina; você está semeando a discórdia na comunidade. Venha, corrija o seu caminho. Viva em paz com a comunidade. Evite essas brigas, e seja fiel à lei.”

Foi inútil. Então, eles decidiram expulsar o rebelde, mas, novamente, ele recusou-se a obedecer. Ele permaneceria na comunidade: uma vez que ele era inocente (pensava), não havia necessidade de submeter-se a uma punição injusta.

O Mestre finalmente interveio. Ele tentou pacificar os monges; insistiu com eles para esquecerem as suas queixas e para unirem-se, como antes, no desempenho das suas funções sagradas, mas ninguém lhe deu atenção. E, certo dia, um monge ainda teve a audácia de dizer-lhe:

“Cale-se, oh Mestre; não nos incomode com as suas falácias. Você chegou ao conhecimento da lei; medite sobre ela. Você vai achar as suas meditações muito agradáveis. Quanto a nós, saberemos para onde ir; nossas brigas não nos impedirão de encontrar o caminho. Medite, e fique quieto.”

O Mestre não enraiveceu. Tentou falar, mas era impossível. Ele viu então que nunca convenceria os monges de Kausambi; eles pareciam estar possuídos por alguma loucura súbita. O Mestre decidiu abandoná-los, mas primeiro disse-lhes:

“Feliz é aquele que tem um amigo fiel; feliz é aquele que tem um amigo discernente. Que obstáculos não poderiam transpor dois sábios e virtuosos amigos? Mas aquele que não tem um amigo fiel se assemelha a um rei sem reinado: ele deve vaguear na solidão, como o elefante na selva. No entanto, é melhor viajar solitário do que na companhia de um tolo. O homem sábio deve seguir um caminho solitário; ele deve evitar o mal e deve preservar a sua serenidade, como o elefante na selva.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Escolha de Suprabha

Em meio àquelas que buscavam instruções do Bem-Aventurado ao mesmo tempo que essa jovem escrava, estava Suprabha, a filha de um proeminente cidadão de Cravasti. Suprabha era muito bela. Era vê-la e apaixonar-se por ela. Ela era cortejada por todos os jovens distintos da cidade. Isto fez com que seu pai se preocupasse muito. “A quem a darei em casamento?”, ele indagava-se repetidamente; “aqueles a quem recusar tornar-se-ão meus inimigos implacáveis.”

E por horas a fio, ele permanecia imerso em pensamentos.

Certo dia, Suprabha disse-lhe:

“Você parece estar sobrecarregado, querido pai. Qual é a razão?”

“Filha”, ele respondeu, “unicamente você é a causa da minha ansiedade. Há tantos em Cravasti que desejam casar-se com você!”

“Você está com medo de fazer uma escolha entre meus pretendentes?”, disse Suprabha. “Pobres homens! Se eles soubessem meus pensamentos! Não fique ansioso, pai! Diga-lhes para se reunirem e, de acordo com o antigo costume, irei em meio a eles, e eu mesma escolherei um marido dentre eles.”

“Farei como você deseja, filha.”

O pai de Suprabha foi ao Rei Prasenajit e recebeu permissão para ter um arauto a proclamar através da cidade:

“Daqui há sete dias, será realizada uma reunião de todos os homens jovens que queiram desposar Suprabha. A própria donzela escolherá um esposo dentre os que se apresentarem.”

No sétimo dia, uma multidão de pretendentes reuniu-se no majestoso jardim pertencente ao pai de Suprabha. Ela pareceu, montada em uma carruagem. Ela estava segurando um estandarte amarelo no qual estava pintada a imagem do Bem-Aventurado. Ela estava cantando os seus louvores. Todos eles olharam para ela com espanto, e se perguntaram: “O que ela nos dirá?” Ela finalmente dirigiu-se a um jovem homem.

“Não posso amar a nenhum de vocês”, disse ela, “mas não pensem que eu lhes desprezo. O amor não é o meu objetivo na vida; eu quero refugiar-me com o Buda. Irei ao parque onde ele reside, e ele me instruirá na lei.”

Tristemente, os jovens se retiraram, e Suprabha foi para o Parque de Jeta. Ela ouviu o Bem-Aventurado falar; foi admitida na comunidade, e tornou-se a mais devota Monja.

Certo dia, quando Suprabha estava deixando os jardins sagrados, ela foi reconhecida por um dos seus ex-pretendentes que passava por ali com vários amigos.

“Devemos resgatar essa mulher”, disse ele. “Eu a amei; eu ainda a amo. Ela será minha.”

Seus amigos concordaram em ajudar-lhe. Antes que Suprabha se conscientizasse, ela foi cercada, e subitamente eles decidiram raptá-la. Mas quando eles estavam prestes a agarrá-la, ela dirigiu o seu pensamento para o Buda e, imediatamente, ela levantou-se no ar. Uma multidão se juntou; Suprabha permaneceu acima deles por um tempo, e então, voando com a graça e majestade de um cisne, retornou para a sua morada sagrada.

E seus clamores seguiram-na:

“Oh Santo, você fez manifestar o poder da fé; Oh Santo, você tornou manifesto o poder do Buda. Seria injusto condenar-lhe aos prazeres terrenos do amor, oh Santo, oh Santo.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Libertação da Jovem Escrava

Ao final  de três meses, o Mestre desceu à terra e pegou a estrada para Cravasti. Quando ele estava se aproximando do Parque de Jeta, encontrou uma jovem menina. Ela era empregada de um rico habitante da cidade que estava trabalhando nos campos naquele dia. Ela estava levando-lhe uma tigela de arroz para a sua refeição. Ao se deparar com o Buda, ela sentiu-se estranhamente feliz.

“É o Mestre, o Bem-Aventurado”, ela pensou. “Meus olhos contemplam-lhe; minhas mãos quase podem tocá-lo, ele está tão próximo. Oh, que santa felicidade seria dar-lhe donativos! Mas não tenho nada que seja meu.”

Ela suspirou. Seu olhar caiu sobre a tigela de arroz.

“Este arroz… A refeição do meu mestre… Nenhum mestre pode rebaixar à escravidão alguém que já é um escravo. Meu mestre pode me bater, mas o que importa! Ele poderia colocar-me na prisão, mas eu suportaria isso tranquilamente. Darei o arroz para o Bem-Aventurado.”

Ela ofereceu a tigela de arroz ao Buda. Ele a aceitou e continuou em seu caminho para o Parque de Jeta. A jovem menina, com os olhos reluzentes de felicidade, foi à procura do seu mestre.

“Onde está meu arroz?”, ele indagou, tão logo a viu.

“Dei-lhe ao Buda como uma oferenda. Puna-me se desejar, não lamentarei; estou tão feliz pelo que fiz.”

Ele não a puniu. Ele curvou a sua cabeça e disse:

“Não, eu não a punirei. Estou dormindo e seus olhos estão despertos. Vá, você não é mais escrava.”

A jovem menina fez uma profunda reverência.

“Com sua permissão, então”, disse ela, “irei para o Parque de Jeta, e solicitarei ao Bem-Aventurado instruir-me na lei.”

“Vá”, disse o homem.

Ela foi para o Parque de Jeta; sentou-se aos pés do Buda, e tornou-se uma das mais santas mulheres na comunidade.

Ananda Kuti

Ananda Kuti (*) no Parque de Jeta. Click na imagem para site de origem.

(*) É a morada temporária de um monge budista ou principiante, designando a habitação pequena e rudimentar que cada monge construía para si próprio quando se hospedava em locais por um curto espaço de tempo. Fonte: Dhamma Dana: Pali English Glossary

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Prodígio de Kala

De Vaisali, o Mestre seguiu para Cravasti, para o Parque de Jeta. Certo dia, o Rei Prasenajit veio vê-lo. “Meu Senhoor”, disse o rei, “seis eremitas chegaram recentemente em Cravasti. Eles não acreditam na sua lei. Eles sustentam que o seu conhecimento não se iguala ao deles, e eles tentaram me surpreender realizando numerosos prodígios. Creio que suas declarações não são verdadeiras, mas seria bom, meu Senhor, que você fosse frustrar a sua audácia. A salvação do mundo depende da sua glória. Então, apareça diante desses fraudadores e impostores, e cale-os.”

“Rei”, respondeu o Mestre, “ordene que um grande salão seja construído próximo à cidade. Conclua-o em sete dias. Seguirei para lá. Providencie para que esses eremitas maldosos estejam presentes, e então você verá quem realiza os maiores prodígios, eles ou Eu.”

Prasenajit ordenou que o salão fosse construído.

Enquanto se aguardava o dia do julgamento, os eremitas mentirosos procuraram iludir os fiéis seguidores do Mestre, e aqueles que se recusavam a ouvir as suas más palavras incorriam na sua implacável inimizade. Agora, o Mestre não tinha nenhum amigo mais verdadeiro em Cravasti do que o Príncipe Kala, um irmão de Prasenajit. Kala havia demonstrado o seu desprezo pelos eremitas, e eles decidiram vingar-se.

Kala era um homem muito bonito. Certo dia, quando estava caminhando pelos jardins reias, ele encontrou uma das esposas de Prasenajit, e ela alegremente atirou-lhe uma guirlanda de flores. Os eremitas ouviram sobre esse incidente, e disseram ao rei que seu irmão havia tentado seduzir uma de suas esposas. O rei ficou furioso, e sem dar a Kala uma chance para se justificar, cortou-lhe as mãos e os pés.

O pobre Kala sofreu amargamente. Seus amigos ficavam em torno do seu leito, chorando. Aconteceu de um dos eremitas maldodos passar por ali.

“Venha, mostre o seu poder”, disseram-lhe. “Você sabe que Kala é inocente. Torne-o bom novamente!”

“Ele acredita no filho dos Shakyas”, respondeu o eremita. “Cabe ao filho dos Shakyas torná-lo bom novamente.”

Então Kala começou a cantar:

“Como pode o Mestre dos mundos falhar em ver a minha miséria? Veneremos o Senhor que não mais conhece o desejo; adoremos o Bem-Aventurado que tem piedade de todas as criaturas.”

Ananda subitamente apareceu diante dele.

“Kala”, disse ele, “o Mestre ensinou-me as palavras que curarão as suas feridas.”

Ele recitou alguns poucos versos, e o príncipe imediatamente recuperou os seus membros.

“Doravante”, ele exclamou o príncipe, “servirei ao Mestre! Por mais humildes (degradantes) que sejam as tarefas que ele me atribua, as realizarei com alegria, para satisfazê-lo.”

E seguiu com Ananda para Jetavana, o Parque de Jeta. O Mestre o recebeu carinhosamente, e admitiu-lhe na comunidade.

Parque de Jeta

Vista Geral do Parque de Jeta. Click na imagem para site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Pensamento de Anathapindika

O Buda e seus discípulos estabeleceram-se no Parque de Jeta, Anathapindika ficou feliz; mas, certo dia, um pensamento solene lhe ocorreu.

“Estou sendo efusivamente elogiado”, disse para si, “e, no entanto, o que é tão admirável em minhas ações? Ofereci doações ao Buda e aos monges, e por isso adquiri o direito à uma retribuição futura; mas minha virtude beneficia apenas a mim! Devo levar outros a compartilhar do privilégio. Irei através das ruas da cidade, e daqueles a quem encontrar, obterei doações para o Buda e para os monges. Assim, muitos participarão no bem que estiver fazendo.”

Ele foi a Prasenajit, Rei de Cravasti, que era um homem sábio e justo. Disse-lhe o que tinha decidido fazer, e o rei aprovou. Um arauto foi enviado através da cidade com sua proclamação real:

“Ouçam bem, habitantes de Cravasti! Daqui a sete dias, o mercador Anathapindika, montando um elefante, percorrerá as ruas da cidade. Ele pedirá a todos vocês por donativos, que ele então oferecerá ao Buda e aos seus discípulos. Cada um de vocês dêem-lhe tudo o que puderem dispor.”

No dia anunciado, Anathapindika montou o seu melhor elefante e andou através das ruas, pedindo a cada um por doações para o Mestre e para a comunidade. Eles juntaram-se em torno dele: este deu ouro, aquele prata; uma mulher tirou o seu colar, uma outra o seu bracelete, e uma terceira uma tornozeleira; e mesmo as mais humildes doações foram aceitas.

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Caminhos no Parque de Jeta. Click na imagem para site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Oferecimento de Anathapindika

O Mestre estava em Rajagriha quando um rico mercador chamado Anathapindika (Sudatta) chegou de Cravasti. Anathapindika era um homem religioso, e quando ele ouviu que um Buda estava vivendo no Bosque dos Bambús, ele ficou ansioso para vê-lo.

Certa manhã ele partiu e, conforme entrou no Bosque, uma voz divina o guiou para onde o Mestre se encontrava sentado. Ele foi saudado com palavras de boas vindas; presenteou a comunidade com uma magnífica doação, e o Mestre prometeu visitá-lo em Cravasti.

Quando retornou para casa, Anathapindika começou a se perguntar onde ele poderia receber o Bem-Aventurado. Seus jardins não pareciam dignos de tal hóspede. O mais belo parque na cidade pertencia ao Príncipe Jeta, e Anathapindika decidiu comprá-lo.

“Venderei o parque”, disse-lhe Jeta, “se você cobrir o chão com moedas de ouro.”

Anathapindika aceitou os termos. Ele levou carroças carregadas de moedas de ouro para o parque e, naquela ocasião, somente uma pequena faixa de terra ficou descoberta. Então Jeta alegremente exclamou:

“O parque é vosso, mercador; terei prazer em vos dar a faixa que ainda está descoberta.”

Anathapindika tinha o parque preparado para o Mestre; então ele enviou o seu mais fiel servo ao Bosque dos Bambús, para informar-lhe que ele agora estava preparado para recebê-lo em Cravasti.

“Oh Venerável!”, disse o mensageiro, “meu mestre prostra-se aos seus pés. Espera que você tenha sido poupado da ansiedade e doença, e que você não relute em cumprir a promessa que lhe fez. Você é esperado em Cravasti, oh Venerável!”

O Bem-Aventurado não havia esquecido a promessa que fez ao mercador Anathapindika; ele desejava cumpri-la, e disse ao mensageiro: “Eu irei!”.
Ele aguardou por alguns dias; então pegou o seu manto e sua tigela de donativos, e seguido por um grande numero de discípulos, partiu para Cravasti. O mensageiro foi à frente, para dizer ao mercador que ele estava chegando.

Anathapindika decidiu ir ao encontro do Mestre. Sua esposa, seu filho e sua filha o acompanharam, e eles foram assistidos pelos mais ricos habitantes da cidade. E quando eles viram o Buda, ficaram deslumbrados pelo seu esplendor; ele parecia estar andando num caminho banhado de ouro.

Eles o escoltaram até o Parque de Jeta, e Anathapindika disse-lhe:

“Meu senhor, o que devo fazer com esse parque?” “Doe-o para a comunidade, agora e para sempre”, respondeu o Mestre.

Anathapindika ordenou ao servo trazer-lhe uma bacia de ouro cheia de água. Ele derramou a água sobre as mãos do Mestre, e disse-lhe:

“Dôo este parque para a comunidade, governada pelo Buda, agora e para sempre.”

“Muito bem!”, disse o Mestre. “Eu aceito a doação. Este parque será um refúgio feliz; aqui viveremos em paz, e encontraremos abrigo do calor e do frio. Nenhum animal vil entrará aqui: nem mesmo o zumbido de um mosquito perturbará o silêncio; e aqui haverá proteção da chuva, do vento cortante e do sol ardente. E este parque inspirará sonhos, pois aqui meditaremos hora após hora. É justo que tais doações sejam feitas para a comunidade. O homem inteligente, o homem que não negligencia seus próprios interesses, deve dar aos monges uma morada adequada; ele deve dar-lhes comida e bebida; ele deve dar-lhe roupas. Os monges, em retribuição, lhe ensinarão a lei, e aquele que conhece a lei é libertado do mal e atinge o Nirvana.”

Jetavana

Jetavana – o Parque de Jeta - Fonte Wikipedia. Click na imagem para site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Buda Deixa Kapilavastu

Rahula foi com seu pai, e Gopa alegrou-se. O rei Suddhodana, somente, ficou triste: sua família estava lhe abandonando! Ele não poderia deixar de falar o seu sentimento para o Mestre.

“Não sofra”, respondeu o Mestre, “pois grande é o tesouro que compartilharão aqueles que ouvirem minhas palavras e seguirem-me! Suporte a sua dor em silêncio; seja como o elefante ferido em batalha pelas lanças do inimigo: ninguém ouve a sua queixa. Reis montam na batalha sobre elefantes que estão sob absoluto controle; no mundo, o grande homem é aquele que aprendeu a controlar-se, o homem que suporta a sua dor em silêncio. Aquele que é verdadeiramente humilde, que doma (refreia) suas paixões como se doma cavalos selvagens, é invejado pelos Deuses. Ele não comete o mal. Nem nas cavernas da montanha, e nem nas grutas oceânicas, pode-se escapar das conseqüências de uma má ação; elas (as más ações) o seguem; elas fustigam-lhe; elas levam-no à loucura, pois não lhe dão paz! Mas se você faz o bem, quando você deixar a terra as suas boas ações lhe saudarão, como amigos após o seu regresso de uma viagem. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos sem ódio num mundo cheio de ódio. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos sãos num mundo cheio de doenças. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos incansáveis num mundo cheio de cansaço. Vivemos em perfeita felicidade, nós que nada possuímos. Alegria é a nossa comida, e somos como Deuses radiantes. O monge que vive em solidão preserva uma alma que é cheia de paz; ele contempla a verdade com um olhar límpido e calmo, e desfruta de uma felicidade desconhecida pelos mortais comuns.”

Tendo consolado o Rei Suddhodana com essas palavras, o Bem-Aventurado deixou Kapilavastu e retornou à Rajagriha.

Monte Gridhrakuta

Monte Gridhrakuta em Rajagriha. Click na imagem para post de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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