A Cura

Minha mãe foi ao médico, depois de muita espera. Ao ser atendida, o médico perguntou: “Dona Yolanda, o que a senhora tem?”

Minha mãe, como de costume, começou a relatar eventos passados como mal-estares, correrias para prontos-socorros, etc. Foi bruscamente interrompida pelo médico que lhe disse: “Dona, quem faz o diagnóstico aqui sou eu! Eu quero saber o que a senhora está sentindo agora?”

Veio a resposta lacônica de minha mãe ao grosseiro médico: “Agora, doutor? Nesse momento, não sinto nada!” Levantou-se, foi embora, nunca mais voltou àquele lugar. Dominou a ira. Viveu ainda muitos anos.

Um Lugar Sagrado Pode Adoecer

“Na medida em que (o conceito de) Lugar no Mundo torna-se sinônimo de espaços significativos, isto certamente nem sempre é benéfico (Gordon, 2008)”.

Contrariamente aos profundos ensinamentos do Mahayana sobre a Sabedoria da Não-Distinção, muitas vezes um organismo cai vitima de sua própria identidade, ou ego.

Em seu artigo Towards a Theory of Network Locality, Eric Gordon tece a consideração que: “Esses espaços significativos (‘Lugares no Mundo’) podem ser usados para exercer o poder dentro de contextos geograficamente definidos. Eles estabelecem distinção entre aqui e ali, nós e eles. Aqueles que compartilham um Lugar no Mundo podem optar por abri-lo aos recém-chegados, ou podem fechá-lo para si, criando efetivamente uma hierarquia de autenticidade local. ‘Você pode viver aqui, mas não vive aqui autenticamente’. Em comunidades antigas, isto pode levar à mútua exclusão entre ‘nativos’ e ‘forasteiros’, ou veteranos e novatos. Esses espaços também podem ser produzidos no que concerne à raça, classe ou gênero. Diferenças de aparência exterior podem ser usadas para excluir recém-chegados” .

Nesse caso, pode-se evocar a sinonímia de secretar (fazer segredo) e segregar (apartar), cuja essência maléfica atacará o tecido conjuntivo daquela comunidade e, como uma doença auto-imune, destruirá a relação causal da sua própria origem, da sua razão de ser, e também poderá destruir as sementes para a iluminação daquele coletivo [ver “A Origem de um Lugar Sagrado”]. Em passagem do Sutra de Lótus, Capítulo 03 – A Parábola, o Buda admoesta Shariputra:

“Além disso, Shariputra,

para os arrogantes,

indolentes e aqueles que nutrem visões próprias,

não pregue este Sutra.

Pessoas comuns de escassa compreensão,

profundamente apegadas aos Cinco Desejos,

ouvindo-o, falharão em compreender;

não o pregue para eles, quem quer que sejam.

Se houver aqueles que não compreendem,

e que caluniam este Sutra,

em conseqüência,

eles destruirão todas as sementes para o Estado de Buda.”

E no Sutra do Nirvana, Capítulo 21 – Sobre Ações Puras 1, para o benefício de Kashyapa, o Buda diz num gatha:

“Se não se sente a ira,

mesmo contra um simples ser,

e roga-se para dar felicidade a esses seres,

isto é amor-benevolente.

Se sente-se compaixão

por todos os seres,

isto é a semente sagrada.

Interminável é a recompensa.”

Isto tudo nos leva à compreensão da sucumbência de algumas ditas “organizações” pretensamente propaladoras de um ensinamento que, na verdade, não assimilam. Eis porque certas entidades surgem com ímpeto revolucionário, e depois ruem sob o próprio peso. Esses fenômenos resultam de relações sociais doentias, e podem macular aquele “Lugar no Mundo”. Todavia, o Dharma é Eterno.

A Origem de um Lugar Sagrado

[Conforme narra anteriormente Eric Gordon em seu artigo Towards a Theory of Network Locality, “havia uma entrada secreta para um cemitério-jardim”, a qual era utilizada pelos moradores do bairro para suas caminhadas, pois a entrada principal era muito distante - veja a íntegra do artigo clicando no link acima]. Ainda em seu artigo, lê-se:

“Cultura Local (enquanto conhecimento) comumente é a acepção de costumes, espaços, ou políticas compartilhadas por um grupo de pessoas, com um interesse comum em um determinado espaço (Geertz, 1983). Esse entendimento pode ser tão trivial quanto saber de uma entrada secreta para um cemitério, ou tão significativo quanto práticas religiosas e culturais (enquanto comportamento) nativas. O que liga esses entendimentos à Cultura Local é o fato de que eles são de origem social. Se eu fosse o único que soubesse de uma entrada (secreta) para o cemitério, esse bit de informação seria meramente um segredo. Todavia, o mesmo segredo, coletivamente apreendido por um grupo bem definido, rapidamente torna-se o tecido conjuntivo de uma comunidade local. Torna-se um “Lugar no Mundo – placeworld” (Gordon e Koo, 2008)”.

Onde quer que estejamos, o lugar onde habitamos, nossos familiares, amigos e vizinhos próximos constituem um “Lugar no Mundo”, para onde sempre retornamos após jornadas diárias de trabalho, de estudo, ou de viagens de lazer ou trabalho. No mundo de hoje, para além das fronteiras de uma localidade geográfica, as relações sociais se estendem para limites inimagináveis, aproximando pessoas e costumes num verdadeiro oceano de informações. Muitas dessas informações são como verdadeiras descobertas, algo que gostaríamos muito que familiares e amigos compartilhassem, e assim o fazemos através das redes sociais. São notícias, artigos, palestras, frases, imagens, fotos e vídeos entre outras coisas.

Mas, o que fazemos quando deparamos com os profundos ensinamentos do Dharma Sagrado? Devemos guardar segredo? Não! Devemos alardear descuidadamente por ai? Não, também! Nem uma coisa, nem a outra. Mas sim, o caminho do meio. O que isto está a nos dizer? Está a nos dizer que devemos compartilhar esses profundos ensinamentos com familiares, entes queridos, e outras pessoas de aguçada inteligência que buscam o caminho.

O que aprendemos com o artigo de Eric Gordon é que quando esses ensinamentos deixam de ser segredo, sendo apreendidos coletivamente por um grupo social, eles tornam-se o tecido conjuntivo de uma Comunidade Local. Se esses ensinamentos versam sobre o Dharma Sagrado, então podemos chamar essa “Comunidade Local” de Sangha, e esse “Lugar no Mundo” torna-se Sagrado.

A Audição

Folhas de Outono

Os olhos do mundo indagam a mim: “Como estás?”

Respondo: “Bem!”

Em termos dos valores mundanos: arruinado.

Em termos do Supramundano: não tenho olhos para ver.

Em termos dos votos passados: leve como folhas de outono.

Pronto para voar!

Marcos Ubirajara.

Em 25/01/2012.

O Supramundano

Nesse dia 23/12/2011, às 05:00 hs, meu irmão Guarani, falecido em 13/12/2011, conversou longamente comigo. Com uma voz límpida e tranquila, saudou-me dizendo: “Olá, Marcos! Tudo bem”? “Guara!”, disse eu. “Eu mesmo. Você viu aquilo lá?”, disse ele. “Mas, Guara…”, interpelei. “Estou vivo, Marcos. Aquilo lá não era eu”. E prosseguiu perguntando pelas pessoas enquanto eu apressava meus passos para levar as boas novas.

A história, da qual não me lembro mais dos muitos detalhes, é que alguém, uma pessoa vil, estava no ‘lugar dele’. E isso foi tramado para fazer certas coisas acontecerem. Caminhando apressadamente, ao me aproximar de uma grande árvore, sob ela, o sinal foi interrompido e não mais se restabeleceu. Como Budista que sou, entendi tudo. E gostaria de transmitir aos familiares e amigos essa mensagem de paz e tranquilidade que ele me passou: “Estou vivo, Marcos! Aquilo lá não era eu”.

Marcos Ubirajara.

Em 23/12/2011.

Lótus e Pedras

Lótus e Pedras 1

Lótus e Pedras 1 - Foto de Dôra em 04/09/2011

Lótus e Pedras 2

Lótus e Pedras 2 - Foto de Dôra em 04/09/2011

Lótus e Pedras 3

Lótus e Pedras 3 - Foto de Iara Lima em 04/09/2011

Lótus e Pedras 4

Lótus e Pedras 4 - Iara Lima e ´Vai`- Foto de Dôra em 04/09/2011

Resposta ao Sacerdote Gyoen Campos

O Sacerdote Gyoen Campos escreveu:

Sr. Marcos,

gostaríamos de disponibilizar o Sutra do Lótus do Sr. em nosso site www.budismo.com.br. O temos lá, mas naquela versão portuguesa de João Rodrigues. Seria muito mais interessante colocar a do Sr. e também já a divulgação dele para venda.

O que o Sr. acha da idéia? O Sr. o tem em versão digital para nos enviar? Caso aprove, por favor, me envie que tomarei as providências.

Muito obrigado por tudo.

Arigatougozaimashita!

Sacerdote Gyoen Campos.

Budismo Primordial HBS

Prezado Sacerdote Gyoen Campos,

Quanto à disponibilização do Sutra de Lótus no site do Budismo Primordial HBS – Honmon Butsuryu Shu do Brasil (www.budismo.com.br), recebo esta proposição com imensa alegria, pois se trata da primeira manifestação institucional de apoio a esse trabalho no Brasil.

Estou anexando versão digital em formato pdf, embora a mesma possa também ser obtida mediante download no Blog Cristal Perfeito, sem problemas. O link da editora para comercialização é http://www.tmaisoito.com.br/novos_autores/o_sutra_da_flor_de_lotus.html.

Gostaria de publicar essa tratativa do Sutra de Lótus acima no Blog Cristal Perfeito, juntamente com a foto onde escrevo a dedicatória para o Arcebispo Correia. Para isso, solicito vossa expressa autorização. Caso haja algum inconveniente, não é necessário justificar para mim. Apenas diga: “melhor não”.

Muito obrigado por tudo, no aguardo de vossa próxima visita à Belo Horizonte.

Arigatougozaimashita!

Marcos Ubirajara.

em 17/06/2011.

response to bhikkhu gyoen campos.mp3

Dedicatória ao Arcebispo Correia da HBS

Arcebispo Correia da HBS ao receber exemplar do Sutra de Lótus de Marcos Ubirajara. Em 19/04/2011

Uma Metáfora da Torre de Tesouro

Então, dizia:

“Estou muito satisfeito por ter iniciado esse trabalho com vocês. Doravante, nos veremos sempre. Estaremos sempre juntos com um único pensamento. O que isso pode significar? É como uma grande edificação. Não sou ‘eu’ a pensar, mas somos todos ‘nós’. Essa grande edificação, pode-se dizer, emerge do Grande Vazio e, no futuro, poderá até sofrer algumas pequenas fissuras ou pequenas perdas materiais. Mas, será sólida demais para ruir.”

Cenário:

Encontrava-me sentado num lugar central, como numa mesa redonda. As pessoas se postavam em círculo, às quais eu prelecionava. O conteúdo da preleção baseava-se num livro precioso e, ao prelecionar, já pensava no que viria a seguir. Entre essas pessoas estavam amizades recentes, mas também pessoas que há muito tempo não vejo como, por exemplo, uma amiga de faculdade para a qual eu não olhava diretamente, por estar à minha costa, mas sabia que ela estava lá.

Após a preleção, nos dirigimos para uma mesa onde muitas comidas estavam servidas. Conversávamos e falávamos das expectativas do nosso trabalho. Novamente disse: “Estou muito satisfeito”.

Acordei em 12/06/2011, às 03:30 hs. Foi apenas um sonho do qual acordei com uma sensação indescritível de bem-estar, uma satisfação plena. Levantei e pus-me a escrever o pouco que ainda recordava. Sonho? Estávamos todos lá. Pergunto-lhes: onde?

Marcos Ubirajara.

Em 12/06/2011.

a metaphor of the treasure tower.mp3

Resposta a William Garcia

Sutra de Lótus

William escreveu: “Recebi há algum tempo o Sutra de Lótus da Lei Maravilhosa, demorei muito para entregar à Firmina, pois não desejava entregar a ela nas circunstâncias em que me encontrava.

Diante da retomada de forças que me impulsionaram no desafio da contínua transformação cármica, adentrei o ambiente sombrio e triste de uma delegacia de polícia, e entreguei a gema preciosa.”

Fifa recebendo o Sutra de Lótus

Firmina ao receber o Sutra de Lótus das mãos de William Garcia

O Buda disse:

“Bons homens,

após a minha extinção,

quem poderá receber, ostentar,

ler e recitar este Sutra?

Agora, na presença dos Budas,

façam seu voto.

Este Sutra é difícil de ostentar,

se alguém ostentá-lo mesmo que por um instante,

eu rejubilarei,

bem como todos os outros Budas.

Uma pessoa assim será elogiada por todos os Budas:

‘Isto é coragem!

Isto é diligência,

isto é o que se chama observar os preceitos e praticar Dhutas’.”

Sutra de LótusCapítulo 11 – O Aparecimento da Torre de Tesouro.

Caro William,

os esforços para o cumprimento dos votos que fizemos no passado nunca serão em vão. Parabenizo-o pela façanha.

Marcos Ubirajara.

Em 19 de maio de 2011.

response to william garcia.mp3

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