Os Sustentáculos do Trabalho do Buda

Ele é pregado pelo Tathagata para aqueles que se propuseram ao Grande Veículo. O Tathagata não pregou o sutra para Ouvintes do pequeno fruto. Foi em prol de pessoas que inicialmente eram Bodhisattvas do Grande Veículo que o sutra foi pregado.

Aqueles que se propuseram ao Grande Veículo (ou Veículo Supremo). O sutra não foi proferido apenas para aqueles que se propuseram à Via do Bodhisattva, mas também para aqueles que miravam diretamente a Via do Buda e queriam levar multidões de seres viventes à travessia – isto é, para aqueles do mais elevado e insuperável Veículo do Buda.

Se uma pessoa recebe, ostenta, lê, recita e preleciona o sutra para outros, o Tathagata vê e conhece tal pessoa através do poder do olho celestial. Essa pessoa obtém inexprimível mérito e virtude e sustenta o trabalho do Buda. Ela pode obter o Anuttara-Samyak-Sambodhi, a Insuperável, Própria e Plena Iluminação Correta.

Sutra Diamante – Capítulo 15 – O Mérito e a Virtude da Ostentação do Sutra.

Original

A um Passo da Sabedoria

Um Bodhisattva quando não é apegado ao praticar a doação é como um homem à luz do dia. Ao cultivar a doação incondicionada ele produz um fruto que não tem fluxo (resultado), isto é, verdade, sabedoria real. A luz do dia representa a sabedoria, através da qual se torna capaz de ver as coisas claramente.

Se houver uma pessoa no futuro que possa receber o Sutra Diamante em seu coração e praticá-lo com o seu corpo, que possa respeitosamente ostentá-lo, que possa lê-lo em um livro, ou que possa recitá-lo de memória, o Tathagata saberá completamente desse cultivo e verá completamente aquela pessoa.

Aquela pessoa alcançará ilimitado e incomensurável mérito e virtude. Onde é que mais mérito e virtude podem ser encontrados? Nenhum lugar. Não seja apegado. Se você se tornar apegado, você não o encontrará em lugar algum. Se você não se tornar apegado, ele estará logo ali.

Sutra Diamante – Capítulo 14 – Extinção Tranquila Isenta de Marcas.

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A Retribuição da Doação Condicionada

Se o Bodhisattva ao cultivar a Via considerar necessário apegar-se aos dharmas condicionados, sua doação permanecerá dentro dos limites do apego às marcas. Tal doação condicionada pode apenas conquistar o nascimento nos céus ou o renascimento em meio aos humanos como sua retribuição.

Doação condicionada que colhe uma bênção celestial

assemelha-se a brandir uma espada no espaço vazio;

assim como quando o braço cansa e a espada deve cair,

vidas posteriores falharão em sustentar tais alturas (dos céus).

Aqueles que apenas sabem como cultivar bênçãos e não sabem como cultivar a Via, descerão em meio aos humanos quando sua recompensa celestial terminar, e serão compelidos a suportar mais sofrimento. Doação que tem fluxo (resultado) não colhe a recompensa ultimada.

O apego às marcas na doação é análogo a um homem num lugar tão escuro que ele não pode ver algo. Embora a doação condicionada com apego às marcas possa garantir um renascimento nos céus, ela não pode ajudar alguém a obter sabedoria. Sem verdade, sem sabedoria real, não há luz, e a ausência de luz é comparável à escuridão experimentada pelo homem na analogia. Tal pessoa será incapaz de ouvir o Budadharma.

Sutra Diamante – Capítulo 14 – Extinção Tranquila Isenta de Marcas.

Original

Verdadeira Vacuidade e Existência Maravilhosa

Sutra:

“Subhuti, o dharma obtido pelo Tathagata é nem verdadeiro e nem falso.”

“Subhuti, um Bodhisattva cujo coração reside (persiste) nos dharmas quando ele pratica a doação (quando os concede) é como um homem que entra na escuridão, que não pode ver uma coisa. Um Bodhisattva cujo coração não reside nos dharmas quando ele doa é como um homem com olhos na luz do sol, que pode ver todos os tipos de forma.”

“Subhuti, no futuro, se um bom homem, ou uma boa mulher, puder receber, ostentar, ler e recitar esse sutra, então o Tathagata, através de toda a Sabedoria-Búdica, conhecerá e verá completamente aquela pessoa. Aquela pessoa alcançará ilimitado e incomensurável mérito e virtude.”

Comentário:

O dharma real que o Tathagata obteve é verdadeiro, sabedoria real, nem verdadeiro nem falso. O dharma é Verdadeira Vacuidade, destituído de substância existente real. Nem falso significa que embora o dharma não possua substância, dentro da verdadeira vacuidade está contida a Existência Maravilhosa da Marca Real. Como o dharma é existência maravilhosa, também é dito não ser vazio. A verdadeira vacuidade não obstrui a existência maravilhosa, a existência maravilhosa não obstrui a verdadeira vacuidade. Assim, o dharma é nem verdadeiro nem falso.

Isso significa que não há apego às marcas. O abandono do apego às marcas é o princípio da Verdadeira Vacuidade e Existência Maravilhosa.

Sutra Diamante – Capítulo 14 – Extinção Tranquila Isenta de Marcas.

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O Real Objetivo do Budadharma

O Buda novamente instruiu Subhuti: “Para que um Bodhisattva possa beneficiar os seres viventes, ele deve praticar a doação conforme estabeleci previamente, sem persistir em lugar algum. O objetivo do Budadharma é libertar as pessoas de apegos”. “Deixe a brisa suave e a lua brilhante virem como são”. Deixe as coisas acontecerem naturalmente, não seja apegado. Ao apegar-se às marcas quando na doação, você cultiva a retribuição dos céus. Para cultivar a fruição do Buda, você não deve apegar-se às marcas. Mas você deve realmente e de fato fazê-lo. Você não pode dizer: “Eu não sou apegado às marcas. Não há realmente nada! Eu não necessito fazer nada”. Pensar dessa maneira é cair na falsa vacuidade.

Todas as marcas são pregadas pelo Tathagata como nenhuma marca. Basicamente, todas as marcas são destituídas de marcas. E todos os seres viventes são pregados como nenhum ser vivente. Originalmente a sua natureza própria é o Buda. Mas agora, em razão de estarem confusos, são seres viventes. Uma vez iluminados, eles tornam-se Budas. Se você usa o Budadharma para ensinar e transformar seres viventes, no futuro todos eles podem retornar à sua origem e atingir o Estado de Buda.

Para que suas palavras não façam com que as pessoas se tornem temerosas, aterrorizadas ou duvidosas, o Buda Shakyamuni assegurou a Subhuti: “As palavras do Tathagata são verdadeiras e honestas. São francas e diretas”. O Buda não mente. Todas as coisas que ele diz contêm o princípio da verdadeira talidade (sânsc. TATHATA, ing. SUCHNESS, significando a verdadeira natureza dos fenômenos, tal como são). O Tathagata não diz palavras falsas, nem expõe princípios estranhos e misteriosos engendrados para suscitar o pânico e alarmar os corações de seus ouvintes.

Sutra Diamante – Capítulo 14 – Extinção Tranquila Isenta de Marcas.

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Os Três Tipos de Doação

Por essa razão o coração de um Bodhisattva não deve ser apegado às formas quando doa. Bodhisattvas cultivam os seis paramitas e as dez mil práticas. Doação é o primeiro dos seis paramitas. Há três tipos de doação: doação de riqueza, doação do dharma, e doação do destemor.

A doação da riqueza é uma doação que não transcende a presente vida.

A doação do dharma pode acontecer quando você encontra um ser vivente que está livre da animosidade e não tem nenhum desejo de ferí-lo (ou prejudicá-lo). Então você pode falar sobre o dharma e fazê-lo despertar para o incondicionado. Se você também puder fazer com que tal ser vivente deixe para trás todo o medo e temor, você estará praticando o Paramita da defesa dos preceitos dentro do paramita da doação. Ou você pode encontrar um ser vivente que deseja ferí-lo, e ao falar do dharma você capacita-lhe a dominar a sua ira e o seu ódio. Se você puder capacitar alguém que demonstra inimizade ou ressentimento contra você, ou que deseja ferí-lo, a abandonar a agressão, você terá utilizado o paramita da paciência para realizar a sua doação.

Talvez você incansavelmente beneficie pessoas e não seja nem um pouco preguiçoso ao ensinar e transformar os seres viventes, e alegre-se na pregação do dharma a quem quer que você encontre. Decidir que “Qualquer que seja o Budadharma que eu conheça, eu falarei para os outros sem levar em consideração a aceitação ou rejeição do meu ensinamento” é não temer a fadiga e o sofrimento. Isto é empregar o paramita do vigor na prática da doação.

Talvez a sua preleção do dharma seja extremamente bem organizada. Você nunca confunde somatórios, relações ou princípios. Ao ouvir os paramitas você é capaz de falar-lhes na sua sequencia correta: doação, observação dos preceitos, paciência, vigor, samadhi dhyana, e prajna. Se ao ler você encontrar uma referência à Cinco Raízes e Cinco Poderes, como por exemplo quando eles aparecem no Sutra Amitabha, você é capaz de explicá-los corretamente como:

  1. Vigor
  2. Atenção Plena
  3. Samadhi
  4. Sabedoria

Ao invés de confundi-los e explicá-los como (sendo) as seis poeiras, tal preleção ordenadamente correta do dharma é um exemplo do uso do paramita do samadhi dhyana na doação. Se alguém indaga-lhe uma questão e você fica confuso e diz: “Oh, eu não sei…”, então você está carente de habilidade no samadhi dhyana.

Todavia, mesmo aqueles com samadhi necessitam de sabedoria. A sabedoria aumenta o desenvolvimento da eloquência de modo que “a esquerda e a direita da fonte (origem) é revelada, o Caminho é claro e direto”. Não importando como você fala, você revela a essência do princípio, porque sua sabedoria é sem obstruções. Isto é, você usa o paramita da sabedoria prajna na sua doação.

Assim, os três aspectos da doação de riqueza, doação do dharma e doação do destemor abrangem os seis paramitas.

Sutra Diamante – Capítulo 14 – Extinção Tranquila Isenta de Marcas.

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A Fusão Perfeita de Todas as Coisas

Comentário:

Se você abrigar uma visão de si próprio, você pode tornar-se irado. Sem um ‘eu’ não há ira. Em razão de o Buda não ter ira, seus quatro membros cresceram de volta. Tivesse ele se tornado irado, sua afirmação (“… Mas seu eu não tiver me tornado raivoso, então minhas mãos, pernas, orelhas e nariz se restaurarão da maneira que eram antes”) não teria sido eficaz.

Durante quinhentas vidas, eu fui o Paciente Imortal. O Buda indica que durante quinhentas vidas ele foi capaz de suportar todos os tipos de sofrimento e encarar todas as situações adversas, tudo em razão de não ter apego às quatro marcas.

Um Bodhisattva deve, ao renunciar todas as marcas, produzir o coração do Anuttara-Samyak-Sambodhi. Ele deve dar origem à Insuperável, Própria e Plena Iluminação Correta (Anuttara-Samyak-Sambodhi). Ele não deve apegar-se à persistência no domínio das seis poeiras. Ao dar origem a um coração que não está apegado a nada, experimenta-se a fusão perfeita sem obstruções de todas as coisas.

Qualquer morada do coração (isto é, se o seu coração torna-se envolvido em apegos) é nenhuma morada. Dizer que é nenhuma morada não é o mesmo que “não reside (ou persiste)” referido na frase “Ele deve produzir aquele coração que não reside (ou persiste) em lugar algum”. O que se quer dizer aqui é que qualquer coisa em que o coração possa confiar é não-verdadeira e real.

Em outras palavras, se você tem um apego, você possui uma marca do eu, dos outros, dos seres viventes e de uma vida.

Sutra Diamante – Capítulo 14 – Extinção Tranquila Isenta de Marcas.

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O Coração do Anuttara-Samyak-Sambodhi

Sutra:

“E por quê? Quando eu fui decepado membro a membro, se eu possuísse uma marca do eu, uma marca dos outros, uma marca dos seres viventes, ou a marca de uma vida, eu teria sido ultrajado.”

Subhuti, ainda me lembro que no passado, durante quinhentas vidas, eu fui o Paciente Imortal. Durante todas aquelas vidas eu não tinha a marca do eu, nem a marca dos outros, nem a marca dos seres viventes, e nem a marca de uma vida. Por aquela razão, Subhuti, um Bodhisattva deve, ao renunciar todas as marcas, produzir o coração do Anuttara-Samyak-Sambodhi. Ele deve produzir aquele coração sem persistência nas formas. Ele deve produzir aquele coração sem persistência nos sons, odores, sabores, objetos tangíveis, ou dharmas (fenômenos). Ele deve produzir aquele coração que não reside (ou persiste) em lugar algum. Qualquer morada do coração é nenhuma morada. Portanto o Buda diz: ‘O coração de um Bodhisattva não deve persistir nas formas quando ele doa’. Subhuti, o Tathagata é aquele que fala a verdade, que fala o que é real, que fala o que é assim, que não diz o que é falso, que não diz o que não é assim.”

Sutra Diamante – Capítulo 14 – Extinção Tranquila Isenta de Marcas.

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O Rei de Kalinga

Por que o paramita da paciência é dito ser destituído da paciência? “Subhuti, é assim como quando Eu, no terreno causal, tive meu corpo desmembrado pelo Rei de Kalinga”. Há muito tempo numa vida passada, o Buda Shakyamuni fora um jovem cultivador (da Via) praticando nas montanhas acerca de trinta milhas da cidade-capital onde o Rei de Kalinga governava. Certo dia, o rei decidiu ir à caça e convocou um grupo de soldados, ministros e autoridades para acompanhá-lo. Para completar o grupo, ele convocou as mais belas concubinas do palácio. Na verdade, ele não suportaria apartar-se de suas mulheres mesmo durante uma viagem de caça. Ele procurava um passatempo mais agradável.

A área de caça na montanha era muito ampla, e o Rei de Kalinga imediatamente saiu em perseguição a um grande gamo, deixando as tímidas mulheres para trás para se divertirem. Enquanto as mulheres passeavam ao redor da montanha, aconteceu de encontrarem um jovem monge que tinha apenas dezoito ou dezenove anos e muito bonito, a despeito do fato de que seu cabelo havia crescido e suas vestes estavam esfarrapadas. Quando elas o avistaram pela primeira vez, pensaram que ele era algum tipo de criatura estranha ou uma besta devoradora de pessoas, e entraram em pânico. “Olha”, disseram em sobressalto, agarrando-se umas às outras, “há um animal selvagem que parece um ser humano!”

“Eu não sou um animal selvagem, sou um cultivador da Via”, o jovem lhes assegurou.

Quando as concubinas ouviram que a criatura podia conversar, sua curiosidade foi despertada, e elas se aproximaram para falar com ele. “O que significa ‘cultivar a Via’?” elas indagaram, pois elas nunca estiveram fora dos limites do palácio, e dessa forma nunca tinham ouvido falar de tal coisa. O jovem cultivador pregou o dharma para elas. Vendo o que nunca haviam visto antes, e ouvindo o que nunca haviam ouvido antes, ficaram fascinadas e logo esqueceram de tudo – mesmo quem (eram) e onde estavam.

Neste ínterim o Rei de Kalinga retornou de sua expedição e descobriu que suas concubinas do palácio haviam se afastado. Ele saiu à busca delas. Eventualmente ele as avistou reunidas em torno daquele homem de aparência estranha. O rei, interessado em descobrir quem era o homem e o que ele estava fazendo com as concubinas, rastejou silenciosamente em direção a eles como um espião em uma missão secreta. Quando chegou perto ele parou, ouviu o jovem cultivador a pregar o dharma, e percebeu que as concubinas estavam tão extasiadas que nem notaram a chegada do seu rei. Então o Rei de Kalinga limpou a garganta e desafiou o jovem: “O que você está fazendo aqui”? “Estou cultivando a Via”, respondeu o monge.

“Você atingiu a fruição do Arhatship em sua cultivação?”, indagou o rei.

“Não”, disse o jovem cultivador, “Não me certifiquei para o Arhatship”.

“Você atingiu o terceiro estágio?”, continuou o rei.

“Não”, disse o monge, “Não me certifiquei para o terceiro fruto.”

“Eu ouvi dizer que há pessoas que vivem nas montanhas e que ao comer um certo tipo de fruto elas atingem a imortalidade, mas ainda não estão livres da cobiça e do desejo. Elas ainda têm a luxúria em seus corações. Você é tão jovem e ainda não se certificou para qualquer dos frutos da Via. Você dá origem a pensamentos de luxúria?”,  indagou o rei.

“Não os erradiquei”, respondeu o monge.

Com aquela resposta o Rei de Kalinga ficou enfurecido. “Se você não erradicou a luxúria, então quando você vê minhas … essas mulheres … como você as vê … como você pode ser tolerante com a luxúria que surge em seu coração?”, ele desafiou.

“Embora eu não tenha erradicado a luxúria, não dou origem a pensamentos lascivos. Em minha cultivação eu contemplo os nove tipos de impurezas.”

“Ah”, cuspiu para trás o rei: “você cultiva a contemplação das impurezas. Você é um enganador! Que provas eu tenho de que você não cobiça as minhas mulheres? Que provas há que você pode suportar seus pensamentos de luxúria?”

“Eu os suporto”, respondeu o monge. “Posso suportar qualquer coisa”.

“Oh você pode, será que pode? Bem, então veremos. Primeiro eu cortarei sua orelha”. O rei desembainhou a sua espada reluzente, pegou a orelha do monge, e cortou-a. Mas, naquele momento, os ministros e oficiais haviam se juntado ao redor para ver o que havia causado tanta comoção. Eles olharam para o jovem cultivador que parecia totalmente imóvel e sem dor, e pediram ao rei: “Grande Rei, não volte sua espada para ele. Ele é um grande mestre. Ele deve ser um Bodhisattva. Você não deve voltar a sua espada para ele.”

“Como vocês sabem que ele é um Bodhisattva? Como sabem?”, indagou-lhes o rei, eriçado de ciúme.

“Olhe para ele”, disseram os oficiais, “você cortou-lhe a orelha e ele nada fez. Ele nem sequer corou. Ele apenas permaneceu sentado como se nada houvesse acontecido.”

“Como sabem que ele se sente como se nada houvesse acontecido? Aposto que em seu coração ele me odeia. Vou tentá-lo novamente”. Ele posicionou a sua espada e esmeradamente cortou o nariz do monge. “Você está com raiva?”

“Não estou com raiva”, respondeu o monge.

“Não está? É muito provável que você seja um mentiroso tanto quanto é um enganador. Talvez você possa enganar essas mulheres, mas não a mim. Cortarei sua mão e verei o que você faz. Pode suportá-lo?” Sua voz tremia quando ele baixou a espada novamente.

“É tudo o mesmo para mim”, disse o monge.

“Tá certo, se é tudo o mesmo, então cortarei a sua outra mão”, o que ele fez dizendo com uma raiva mal controlada: “ainda não sente raiva? Ainda não está enfurecido?”

“Não, não estou enfurecido”, disse o monge.

“Eu não acredito em você. Ninguém poderia ter ambas as mãos cortadas e não sentir raiva. Você certamente é uma aberração”, ele disse conforme cortava uma perna do monge. “Ainda não sente raiva?”

O rei cortou fora a outra perna. “Raiva?”, ele quase gritou mais uma vez.

O monge mutilado continuou sentado como antes, embora agora ambas as orelhas, nariz, ambas as mãos e pernas estivessem totalmente separadas do seu corpo. “Não estou com raiva”, disse ele novamente.

Mas então, os Quatro Grandes Reis Celestes ficaram com raiva e, amaldiçoando o rei, fizeram cair uma chuva de grandes pedras de granizo. O granizo bateu tão violentamente que uma parte da montanha próxima à reunião caiu e deslizou rugindo pelas encostas. O rei gelou de medo ao perceber o seu engano. Ele ajoelhou-se diante do monge sem orelhas, nariz, mãos e pernas, e implorou por perdão. “Eu estava errado, eu estava errado”, gritou aterrorizado. “O Céu está me punindo. Não fique raivoso, por favor, não fique raivoso.”

“Não ficarei raivoso”, disse o monge.

“Isto não é verdade”, gritou o rei em pânico. “Se você não está com raiva, por que é que o céu está me punindo?” Ele ainda pensava que o monge havia chamado uma maldição sobre ele.

“Eu posso provar que não tenho raiva”, disse o monge. “Se eu tiver raiva, então as extremidades do meu corpo não se restaurarão. Mas seu eu não tiver me tornado raivoso, então minhas mãos, pernas, orelhas e nariz se restaurarão da maneira que eram antes”. Tão logo havia terminado de falar, suas pernas, mãos, orelhas e nariz juntaram-se perfeitamente ao tronco do seu corpo. Quando seu corpo estava inteiro novamente o monge fez uma promessa solene ao rei: “Ao atingir o Estado de Buda, o conduzirei à travessia primeiro.”

Mais tarde, quando o jovem cultivador renasceu como o jovem príncipe que realizou a Via e tornou-se o Buda Shakyamuni, ele primeiramente foi ao Parque do Gamo para levar à travessia o antigo Rei de Kalinga, o Venerável Ajnatakaundinya.

Após ouvir esse relato, algumas pessoas poderiam dizer: “Encontrarei um monge que pratique a paciência nas montanhas e cortarei suas orelhas, nariz, mãos e pernas. Então ele fará o voto de levar-me à travessia quando ele atingir o Estado de Buda”. Esse plano seria perfeito se você estivesse seguro de encontrar um cultivador com a compaixão, e um coração paciente como o do Buda Shakyamuni. Todavia, se o cultivador desse origem a um único pensamento de raiva enquanto você o cortasse, então você cairia no inferno dos incessantes sofrimentos. Assim, é melhor você pensar duas vezes antes de tentar aquele método. Além disso, você não é um rei. Se você fosse um rei, você poderia consegui-lo.

O Buda Shakyamuni referiu-se a seu encontro com o Rei de Kalinga naquele ponto, no sentido de relembrar Subhuti de que ele compreendera o paramita da paciência. “Quando o Rei de Kalinga desmembrou o meu corpo, Eu não tinha a marca do eu, nem marca dos outros, nem a marca dos seres viventes, e nem a marca de uma vida.”

Sutra Diamante – Capítulo 14 – Extinção Tranquila Isenta de Marcas.

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O Verdadeiro Bodhisattva

Você encontra alguém e diz: “O Sutra Diamante diz que devemos ser isentos da marca do eu. Não devemos ver o ‘eu’ como tão importante, nem devemos estar envolvidos na existência do ‘você’, ou a marca dos ‘outros’. Se não temos (a marca do) eu ou outros, então não há marca dos seres viventes, e assim não há marca de uma vida.”

A pessoa ouve e pensa: “Oh, você tem que apartar-se de todas as marcas.”

Alguém que possa abandonar todas as marcas é um Bodhisattva. Um Bodhisattva não diz: “Eu fiz aquela ação meritória. Eu tenho essa grande virtude. Eu construí um monastério. Eu publiquei aquele sutra.” Ele, o Bodhisattva, é destituído de tais marcas; isto é, ele verdadeiramente as esquece. Ele não apenas torna-se fanático por manter o anonimato, de modo que se alguém lhe indaga: “Quem publicou aquele sutra?”, ele responde: “Eu não sei”, quando, de fato, ele próprio o fez. Isto é um exemplo de estar muito atento em manter-se anônimo. Está claro? Se você sabe algo, então que o diga. Se você não sabe, diga que você não sabe. Se ninguém pergunta, você não tem que oferecer todos os detalhes das suas mais recentes ações meritórias. Mas, se você publica o sutra e o esquece, de modo que quando está feito, está feito, então não há marca. Todavia, embora você o esqueça, nenhum mérito e virtude existe. Quando você não tem resultados (conspícuos), o mérito e virtude não têm resultados. Se você pode compreender dharmas não condicionados, seus méritos e virtudes também tornam-se não condicionados.

Sutra Diamante – Capítulo 11 – A Supremacia das Bênçãos Incondicionadas.

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