“Oh bom homem! A mente é não-eterna. Por que é assim? Porque a sua natureza é sempre estimulada pelas coisas externas [a ela] para responder e discriminar as coisas. Oh bom homem! A natureza daquilo que o olho vê é diversa, e isto se aplica a todos os mecanismos (sentidos) através dos quais a mente pensa. Portanto, (ela é) não-eterna. Oh bom homem! O campo de cognição da matéria [‘rupa’] é diverso, e isto se aplica a onde o campo de cognição das leis (dharmas) for diferente. Portanto, não-eterno. Oh bom homem! Os elementos concomitantes da consciência visual são diversos, e isto se aplica até (passando por todos os sentidos) aos elementos concomitantes da consciência mental, os quais são diferentes. Portanto, não-eternos. Oh bom homem! Se a mente fosse eterna, a consciência visual sozinha seria capaz de evocar todos os elementos. Oh bom homem! Se a consciência visual é diversa e se isto se aplica (a todos os sentidos) até a consciência mental que (também) é diversa, vemos que (a mente) é não-eterna. Os aspectos dos elementos parecem iguais, e estes surgem e morrem momento após momento. Assim, os mortais comuns olham e concluem que eles são eternos. Como todas as relações causais operam contra e quebram a imutabilidade (das coisas), dizemos não-eterno. Obtemos a consciência visual através dos olhos, matéria, luz e pensamento. Quando surge a consciência gustativa, lugar e causa diferem. Esta não é a relação causal da consciência visual. As coisas são assim para todos os mecanismos de formação da consciência, nos quais as coisas diferem. Também, além disso, oh bom homem! Em virtude das relações causais de todas as coisas se dissolverem, dizemos que a mente é não-eterna. O modo de praticar o não-eterno difere. Se a mente fosse eterna, deveríamos ter de praticar o não-eterno sempre. E não poderíamos meditar sobre o sofrimento, o Vazio e o altruísmo (não-eu). Como poderíamos meditar sobre o Eterno, a Felicidade (Êxtase), o Eu e o Puro? Por esta razão, os ensinamentos dos tirthikas são incapazes de abarcar o Eterno, a Felicidade (Êxtase), o Eu e o Puro. Oh bom homem! Você deveria saber que a mente é definitivamente não-eterna. Também, além disso, oh bom homem! Como a natureza da mente é diversa, dizemos não-eterna. Isto é como no caso da chamada natureza da mente dos Sravakas, a qual é diversa; como no caso do Pratyekabuda, a qual é diversa; e a mente de todos os Budas, a qual é diversa. Existem três tipos de mente [atitude, postura mental] em meio aos tirthikas, nomeadamente: 1) mente de renúncia, 2) mente da vida no lar, e 3) mente que trabalha contra e abandona a vida no lar. Existem diferenças dos pensamentos concomitantes, tais como felicidade, tristeza, não-tristeza e não-felicidade, cobiça, ira, e ignorância. Também, existem diferentes aspectos mentais com os tirthikas, que são aqueles dos pensamentos concomitantes da ignorância, dúvida, visões dúbias, pensamento de conduta com relação a andar e parar. Oh bom homem! Se a mente fosse eterna, não poderíamos discriminar todas as cores como o azul, o amarelo, o vermelho, o branco e o lilás. Oh bom homem! Se a mente fosse eterna, não poderia haver esquecimento de qualquer coisa depositada na memória. Oh bom homem! Se a mente fosse eterna, não poderia haver incremento na leitura e recitação. Também, além disso, oh bom homem! Se a mente fosse eterna, não poderíamos dizer o que fizemos, o que estamos fazendo, ou o que faremos. Se existe o que foi feito, o que está sendo feito, ou o que será feito, saiba que este [modo de] pensamento é definitivamente não-eterno. Oh bom homem! Se a mente fosse eterna, não poderia haver inimizade, amizade, ou não-inimizade e não-amizade [isto é, porque o estado da mente nunca mudaria]. Se a mente fosse eterna, não poderia haver pensamento, nem o-que-diz-respeito-aos-outros, nem morte ou nascimento. Se a mente fosse eterna, as ações não poderiam acumular-se (carma). Oh bom homem! Por essas razões, saiba que a natureza da mente é diversa (diferente) em cada caso. Esta diferença nos diz que o que temos aqui é não-eterno.”
Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 20 – Sobre Ações Sagradas 2.
