CAP. 02: Meios Hábeis

Sutra de Lótus

Naquela ocasião, o Honrado pelo Mundo despertou serenamente do seu Samadhi e disse a Shariputra: “A sabedoria de todos os Budas é extremamente profunda e ilimitada. O portal para essa sabedoria é difícil de compreender e difícil de adentrar. Ele não pode ser conhecido por qualquer dos Ouvintes ou Pratyekabudas[1]”.

“Qual é a razão? Os Budas, desde o passado, têm encontrado incontáveis centenas de milhares de dezenas de milhares de milhões de Budas, praticando exaustivamente as ilimitadas Leis das Vias daqueles Budas. Eles são forjados com coragem e vigor, e seus nomes são conhecidos em toda a parte. Eles atingiram a mais profunda Lei, jamais conhecida antes, e pregam-na de acordo com o que é apropriado[2], mas seu significado é de difícil compreensão”.

“Shariputra, desde que atingi o estado de Buda, eu tenho proclamado extensivamente os ensinos verbais por meio de várias causas, condições e analogias. Através de incontáveis meios hábeis tenho conduzido os seres viventes, levando-os a libertarem-se de todos os apegos”.

“Por que é assim? Porque o Tathagata já aperfeiçoou seus meios hábeis, sua sabedoria e visão”.

“Shariputra, a sabedoria e visão do Tathagata é vasta, ampla, profunda, e de longo alcance. Ele penetrou profundamente, e sem restrições, os poderes ilimitados e sem impedimentos, a coragem, a concentração em Meditação e os Samadhis da emancipação; abarcando todas aquelas Leis nunca antes obtidas”.

“Shariputra, o Tathagata é capaz de fazer várias distinções, pregando claramente todas as Leis. Suas palavras são ternas e deleitam os corações das multidões”.

“Shariputra, essencialmente falando, o Buda tem a completa compreensão de todas aquelas ilimitadas e abrangentes Leis nunca dantes obtidas”.

“Chega, Shariputra. Não é necessário falar mais. Por que é assim? Como a insuperável Lei alcançada pelo Buda é a mais rara e difícil de compreender, somente os Budas podem dominar o conhecimento acerca do Verdadeiro Aspecto de todas as Leis[3], isto é: os aspectos da aparência, natureza, entidade (substância), poder, influência (função), causas (inerentes), relações, efeitos (latentes), retribuições (efeitos manifestos), e consistência do princípio ao fim[4]”.

Naquele momento, o Honrado pelo Mundo, desejando enfatizar o significado de suas palavras, falou em versos dizendo:

“Embora sejam incontáveis os heróis do mundo,

nem todos os seres celestiais e pessoas,

e nem todas as classes de seres viventes podem compreender os Budas.

Os poderes dos Budas, sua coragem,

emancipação e Samadhis,

bem como outras Leis e atributos dos Budas,

não podem ser penetrados por nenhum deles.

No passado, seguindo incontáveis Budas,

eu percorri completamente todos os caminhos da Lei maravilhosa, sutil e profunda,

difícil de encontrar e difícil de compreender;

através de incontáveis milhões de kalpas,

eu trilhei todos esses caminhos.

No lugar da iluminação, eu experimentei a fruta,

e tenho pleno conhecimento e visão de tudo.

O grande efeito e retribuição dessas práticas,

as várias naturezas, aspectos e significados,

são tais que somente eu e os Budas das dez direções podemos compreender essas questões.

Esta Lei não pode ser demonstrada ou traduzida em palavras.

Através das linguagens ainda existentes e as já extintas,

dentre todos os tipos de seres viventes,

nenhum há que possa compreendê-la;

exceto aqueles muitos Bodhisattvas que são firmes no poder da fé.

Os muitos discípulos que fizeram oferecimentos aos Budas,

que eliminaram todas as falhas,

e que viveram a sua última encarnação;

nem a força de pessoas como essas é bastante para compreendê-la.

Ainda que o mundo fosse todo preenchido com pessoas como Shariputra,

e que juntas consumissem seus pensamentos para mensurá-la,

ainda assim elas não conseguiriam penetrar a sabedoria do Buda.

Realmente, suponha que as dez direções fossem preenchidas com aquelas pessoas que são como Shariputra,

e que os demais discípulos preenchessem todas as terras nas dez direções,

e que juntas essas pessoas consumissem seus pensamentos para mensurá-la;

ainda assim elas não poderiam concebê-la.

Se Pratyekabudas de aguçada sabedoria,

livres de falhas, na sua última encarnação,

também preenchessem as dez direções,

e seu número fosse como os bambus da floresta,

e se eles unissem seus pensamentos desejando contemplar a real sabedoria do Buda,

através de imensuráveis milhões de kalpas,

eles não poderiam conhecer a menor parte dela.

Suponha, novamente,

que Bodhisattvas resolutos em suas práticas,

que tenham feito oferecimentos a incontáveis Budas,

que tenham domínio dos princípios e das suas finalidades,

e que estão aptos a pregar a Lei,

cujo número seja como o arroz, o cânhamo, o bambu,

e a cana que preenchem as terras das dez direções;

e suponha que eles com um pensamento único e com maravilhosa sabedoria,

todos juntos estivessem a meditar sobre ela através de numerosos kalpas como as areias do Ganges,

ainda assim eles não poderiam conhecer a sabedoria do Buda.

Suponha que Bodhisattvas que atingiram o estágio de não-regressão,

em número como as areias do rio Ganges,

com pensamento único tentassem alcançar aquela sabedoria;

eles também não poderiam compreendê-la.

E o que é mais, Shariputra,

aquela Lei inconcebível, infalível, mais profunda e sutil,

eu alcancei perfeitamente,

e somente eu conheço o seu aspecto,

juntamente com os Budas das dez direções.

Shariputra, saiba que as palavras dos Budas nunca diferem.

Com relação às Leis pregadas pelos Budas,

deve-se dar lugar ao grande poder fé.

Quando essas Leis do Honrado pelo Mundo expirarem,

a verdade e a realidade devem ser pregadas.

Digo à assembléia de Ouvintes e àqueles que buscam o Veículo da Iluminação Provisória,

que eu os levarei a libertarem-se dos sofrimentos,

e a atingirem o Nirvana.

O Buda usa o poder dos meios hábeis,

demonstrando a doutrina dos Três Veículos,

de tal maneira que os seres viventes,

aprisionados em muitas situações,

possam delas se libertar”.

Naquela ocasião, havia na assembléia Ouvintes, Arhats cujas falhas haviam se extinguido, Ajnata Kaundinya e outros, doze pessoas ao todo, bem como Monges, Monjas, Leigos e Leigas que resolutamente decidiram tornarem-se Ouvintes e Pratyekabudas. Todos eles tinham o seguinte pensamento:

“Por que, agora, reiteradamente o Honrado pelo Mundo elogia os meios hábeis dizendo: ‘A Lei obtida pelo Buda é extremamente profunda, difícil de compreender e os seus profundos significados são tão difíceis de entender que nenhum dos Ouvintes ou Pratyekabudas poderiam alcançá-los’? O Buda pregou apenas o princípio da emancipação e nós já obtivemos esta Lei e alcançamos o Nirvana. Agora, nós não entendemos a sua intenção”.

Naquela ocasião, Shariputra, sabendo das dúvidas nos pensamentos da assembléia de quatro tipos de crentes, e ele mesmo não tendo entendido completamente, dirigiu-se ao Buda dizendo: “Por que razão o Honrado pelo Mundo, reiteradamente, elogia acima de tudo os meios hábeis dos Budas e a Lei Maravilhosa extremamente profunda e que é difícil de compreender? Desde o passado, eu nunca ouvi o Buda pregar de tal maneira. Neste momento, toda a assembléia dos quatro tipos de crentes encontra-se em dúvida. Eu somente rogo que o Honrado pelo Mundo exponha o seu objetivo: Por que o Honrado pelo mundo, reiteradamente, elogia a Lei que é extremamente profunda, sutil e difícil de compreender?”

Naquele momento, Shariputra, desejando enfatizar o significado das suas palavras, falou em versos dizendo:

“Oh Sol da Sabedoria, Grande e Honrado Sábio,

que muito tem esperado para pregar esta Lei;

fale-nos da sua consecução de tais poderes, coragem, e Samadhis;

da meditação para os Samadhis e para a emancipação,

e outras Leis inconcebíveis.

A respeito da Lei atingida no lugar da Iluminação,

ninguém está apto a levantar uma questão.

Eu acho o seu significado difícil de penetrar,

e sou também incapaz de indagar acerca dela.

Assim, você prega sem ser perguntado,

elogiando o caminho que você percorreu,

e aquela sabedoria suprema e sutil atingida por todos os Budas.

Todos os Arhats, sem falhas,

e aqueles que buscam o Nirvana,

tem caído numa malha de dúvidas:

‘Por que o Buda disse isto’?

Aqueles que buscam a Iluminação Provisória,

os Monges, as Monjas,

seres celestiais, dragões, espíritos,

Gandharvas e outros,

olham-se entre si perplexos,

e então fitam fixamente o Honrado pelo Mundo,

cheios de dúvidas:

‘Qual é o significado deste assunto’?

Imploramos que o Buda nos explique.

Dentre a multidão de Ouvintes,

o Buda declarou-me o mais sábio,

e ainda assim, agora, com a minha própria sabedoria,

não consigo dirimir minhas dúvidas.

Esta Lei é suprema?

Ou ela é um caminho a ser seguido?

Os discípulos, nascidos da palavra do Buda,

esperam com as palmas das mãos unidas, esperançosamente.

Rogam para ecoares o som sutil, oportunamente,

para dizer como esta Lei realmente é.

Os seres celestiais, dragões, espíritos e outros,

em número como as areias do Ganges,

Bodhisattvas que buscam o estado de Buda,

em número de oitenta mil;

e Reis Sábios Giradores de Roda que chegam de miríades de milhões de terras,

com as palmas das mãos unidas e pensamentos reverentes,

todos desejam ouvir acerca do caminho supremo”.

Naquele momento o Buda disse a Shariputra: “Chega! Chega! Não há necessidade de falar mais. Se este assunto fosse falado, os seres celestiais e humanos em todos os mundos ficariam assustados e cairiam na dúvida”.

Shariputra novamente dirigiu-se ao Buda dizendo: “Honrado pelo Mundo, eu apenas rogo que nos pregue a Lei. Eu apenas rogo que nos pregue a Lei. Qual é a razão? Há incontáveis centenas de milhares de miríades de milhões de asamkhyas de seres viventes na assembléia que viram Budas no passado. Suas raízes são profundas e sua sabedoria brilhante. Ouvindo as palavras do Buda, eles serão capazes de respeitá-las e compreendê-las”.

Naquele momento, Shariputra, desejando enfatizar o significado de suas palavras, falou o seguinte na forma de versos:

“Rei da Lei, Supremamente Honrado,

fale-nos da Lei sem restrições;

rogamos-lhe que não tenhas preocupações porque,

dentro dessas ilimitadas multidões,

estão aqueles que podem respeitá-la e compreendê-la”.

O Buda novamente admoestou Shariputra: “Se este assunto fosse falado, os seres celestiais, humanos e Asuras em todos os mundos ficariam assustados e cairiam na dúvida; e aqueles Monges de arrogância desmedida cairiam numa ardilosa armadilha[5]”.

O Honrado pelo Mundo reforçou o significado das suas palavras dizendo em versos:

“Chega, chega! Este assunto não deve ser falado.

Minha Lei é maravilhosa para além do que pode ser concebido,

e aqueles dominados pela arrogância que ouvirem-na,

certamente não a respeitarão ou a compreenderão”.

Naquele instante, Shariputra mais uma vez dirigiu-se ao Buda, dizendo: “Honrado pelo Mundo, eu apenas rogo que nos pregue a Lei; eu apenas rogo que nos pregue a Lei. Presentemente, nesta assembléia, estão aqueles que são meus semelhantes, centenas de milhares de miríades de milhões deles. Vida após vida, eles foram convertidos pelo Buda. Pessoas tais como eles certamente serão capazes de respeitá-lo e compreendê-lo. Eles obterão segurança e grandes benefícios através da longa noite”.

Então Shariputra, desejando reforçar o significado das suas palavras, recitou os seguintes versos:

“Supremo e Duplamente Honrado.

Rogo-lhe que pregue a Lei Insuperável.

Eu, o discípulo mais velho do Buda,

desejo que o faça em detalhes e sem restrições.

As ilimitadas multidões aqui reunidas,

podem respeitar e compreender esta Lei,

posto que o Buda, em vida após vida,

ensinou e converteu pessoas como estas.

Com pensamento único, com as palmas das mãos unidas,

todos desejamos ouvir a fala do Buda.

Há doze centenas de nós, ou mais,

buscando o estado de Buda.

Rogo, em nome dessa assembléia aqui reunida,

que a pregue em detalhes;

tendo ouvido esta Lei, exultaremos enormemente”.

Com relação a isso o Honrado pelo Mundo disse a Shariputra: “Uma vez que você tenha honestamente solicitado por três vezes, como posso deixar de pregar? Ouçam atentamente agora, pensem a respeito desta Lei com benevolência, e estejam atentos e concentrados nela; eu a explanarei em detalhes em vosso benefício”.

Tendo o Buda dito essas palavras, cinco mil Monges, Monjas, Leigos e Leigas presentes na assembléia levantaram-se dos seus assentos, fizeram reverência ao Buda e retiraram-se. Qual foi a razão? As raízes de suas ofensas eram profundas, graves, sendo eles de tal arrogância que alegavam haver obtido o que não haviam obtido ainda, e certificavam-se daquilo para o que não estavam certificados ainda. Com falhas tais como estas eles não poderiam ficar. O Honrado pelo Mundo permaneceu em silêncio e não os conteve.

O Buda então disse a Shariputra: “Minha assembléia agora está limpa dos seus galhos, ramos e folhas, e somente os troncos permanecem. Shariputra, é excelente que aqueles de grande arrogância tenham se retirado. Agora, devem ouvir atentamente que eu a pregarei para vocês”.

Shariputra disse: “Assim seja, Honrado pelo Mundo. Desejo alegremente ouvi-la”.

O Buda disse a Shariputra: “Uma Lei maravilhosa como esta é pregada somente ocasionalmente pelos Budas, os Tathagatas, assim como a flor de Udumbara aparece somente uma vez num grande período de tempo”.

“Shariputra, todos deveriam compreender que aquilo que o Buda diz por suas palavras, não é de forma alguma em vão ou falso. Shariputra, todos os Budas pregam a Lei de acordo com o que é apropriado, mas sua intenção é difícil de compreender. Qual é a razão? Eu preguei extensivamente todas as Leis através de incontáveis meios hábeis, várias causas e condições, analogias, parábolas e expressões. Esta Lei não pode ser compreendida através do discernimento (ponderação) ou da distinção (análise) [6]. Somente os Budas podem compreendê-la. Por que isto? Todos os Budas, os Honrados pelo Mundo, somente aparecem no mundo em razão de causas e condições de uma grande importância”.

“Shariputra, qual é o significado de ‘Todos os Budas, os Honrados pelo Mundo, somente aparecem no mundo em razão de causas e condições de uma grande importância’? Os Budas, os Honrados pelo Mundo, aparecem no mundo porque desejam levar os seres viventes a vislumbrar a sabedoria e a visão dos Budas e purificarem-se. Eles aparecem no mundo porque desejam demonstrar a todos os seres viventes a sabedoria e a visão dos Budas. Eles aparecem no mundo porque desejam levar os seres viventes a despertar para a sabedoria e a visão dos Budas. Eles aparecem no mundo porque desejam levar os seres viventes a entrar no Caminho da sabedoria e da visão dos Budas.[7]

“Shariputra, estas são as causas e condições de grande importância pelas quais todos os Budas aparecem no mundo”.

O Buda disse a Shariputra: “Todos os Budas, Tathagatas, ensinam e convertem somente Bodhisattvas. Todas as suas ações são sempre visando um único interesse, que é unicamente demonstrar e iluminar os seres viventes para a sabedoria e visão do Buda. Eles usam somente o Veículo Único do Buda. Não há outros veículos, nem sequer dois ou três. Shariputra, a Lei de todos os Budas das dez direções é assim[8]”.

“Shariputra, os Budas do passado utilizaram-se de ilimitados, incontáveis meios hábeis, várias causas e condições, analogias e parábolas para expor suas Leis para os seres viventes. Aquelas Leis eram todas em prol do Veículo Único do Buda. Todos aqueles seres viventes, ouvindo a Lei dos Budas, finalmente atingiram a Sabedoria que Abarca Todas as Espécies”.

“Shariputra, quando os Budas do futuro fizerem seu advento no mundo, eles também se utilizarão de ilimitados, incontáveis meios hábeis, várias causas e condições, analogias e parábolas, proclamando todas as Leis para os seres viventes. Essas Leis serão todas em prol do Veículo Único do Buda. Ouvindo a Lei dos Budas, todos aqueles seres viventes finalmente atingirão a Sabedoria que Abarca Todas as Espécies”.

“Shariputra, presentemente, todos os Budas, Honrados pelo Mundo, através das dez direções das ilimitadas centenas de milhares de miríades de milhões de Terras Búdicas, beneficiam enormemente os seres viventes e trazem-lhes paz e felicidade. Esses Budas também proclamam todas as leis para os seres viventes através de ilimitados, incontáveis meios hábeis, várias causas e condições, analogias e parábolas. Essas Leis são todas em prol do Veículo Único do Buda. Todos esses seres viventes, ouvindo a Lei dos Budas, finalmente atingirão a Sabedoria que Abarca Todas as Espécies”.

“Shariputra, todos os Budas somente ensinam e convertem Bodhisattvas[9] porque eles desejam demonstrar aos seres viventes a sabedoria e a visão do Buda, porque eles desejam despertar os seres viventes para a sabedoria e a visão do Buda, e porque eles desejam levar os seres viventes a entrar na sabedoria e na visão do Buda”.

“Shariputra, Eu, agora, também ajo como eles. Sabendo que os seres viventes possuem vários desejos aos quais os seus corações estão profundamente apegados, de acordo com as suas naturezas básicas, e através de várias causas e condições, analogias, parábolas, e o poder dos meios hábeis, eu prego a Lei para eles”.

“Shariputra, tudo isso é feito de tal maneira que eles possam atingir o Veículo Único do Buda e a Sabedoria que Abarca Todas as Espécies”.

“Shariputra, nos mundos das dez direções, não há sequer dois veículos, quanto mais três. Shariputra, todos os Budas aparecem no mundo manchado pelas cinco impurezas, quais sejam a impureza do kalpa (tempo), a impureza da aflição, a impureza dos seres viventes, a impureza da visão, e a impureza da vida. É por essa razão, Shariputra, que na era da confusão devida à impureza do kalpa, os seres viventes são pesadamente carregados de impurezas; por serem miseráveis, ambiciosos, invejosos e ciumentos eles plantam as raízes da insalubridade. Por esta razão, todos os Budas, através do poder dos meios hábeis, dentro do Veículo Único do Buda, fazem distinções e pregam como se fossem três”.

“Shariputra, se um discípulo meu autodenomina-se Arhat ou Pratyekabuda, mas nunca ouviu ou soube que de fato todos os Budas, os Tathagatas, somente ensinam e convertem Bodhisattvas, então ele não é um discípulo do Buda, nem é um Arhat, e nem um Pratyekabuda[10]”.

“Além do mais, Shariputra, deve-se saber que Monges e Monjas que alegam terem atingido o estado de Arhat e alegam estar em sua última encarnação antes de atingir o Nirvana, mas que não decidem resolutamente buscar o Anuttara-Samyak-Sambodhi, são na realidade pessoas de arrogância desmedida. Por que é assim? Porque é impossível que qualquer Monge que tenha atingido o estado de Arhat não conheça ou entenda esta Lei, exceto no caso quando o Buda já passou à extinção e nenhum Buda se encontra no mundo. Por que é assim? Porque após o Buda ter entrado em extinção, aqueles que aceitam, ostentam, lêem, recitam, e entendem o significado de Sutras tais como este, serão difíceis de encontrar. Se essas pessoas encontrarem outros Budas, então obterão o completo entendimento desta Lei”.

“Shariputra, todos vocês deveriam, com pensamento único, entender, compreender, aceitar e manter as palavras do Buda, porque nas palavras de todos os Budas não há nada em vão ou falso. Não há outros veículos; há somente o Veículo Único do Buda”.

Naquele momento, o Honrado pelo Mundo, desejando enfatizar o significado das suas palavras, falou em versos, dizendo:

“Há, na multidão dos quatro tipos de crentes,

Monges e Monjas que guardam um orgulho desmedido,

Leigos arrogantes,

Leigas que não têm compreensão.

Pessoas tais como essas,

em número de cinco mil,

que não vêem o seu próprio erro,

que são débeis na observação dos preceitos e guardam imperfeições,

são aqueles de sabedoria desprezível que se retiraram;

o joio da multidão está separado,

graças à grande virtude do Buda.

Essas pessoas, carentes de bênçãos e virtudes,

são indignas de receber esta Lei.

A assembléia está agora livre de galhos, ramos e folhas;

somente os troncos permanecem intactos.

Shariputra, ouça bem:

a Lei obtida pelos Budas é pregada para seres viventes através do poder dos ilimitados meios hábeis.

Os pensamentos que habitam as mentes dos seres viventes,

os vários caminhos que eles trilharam,

a natureza de seus vários desejos,

seu Karma, bom ou ruim, advindo de vidas anteriores,

o Buda os conhece a todos completamente.

Usando causas, relações, analogias,

expressões, parábolas e o poder dos meios hábeis,

Eu os faço exultar.

Eu posso pregar os Sutras,

versos, ou histórias de eventos passados,

de vidas anteriores, fatos sem precedente,

causas e relações,

analogias ou parábolas,

ou preleções.

Para aqueles de poucas capacidades que deleitam nas Leis inferiores,

e que estão avidamente apegados ao ciclo do nascimento e da morte,

e que, sob a Lei de incontáveis Budas,

não têm seguido o profundo e maravilhoso Caminho,

e que se encontram oprimidos por inúmeros sofrimentos;

para eles Eu prego o ensino do Nirvana.

Eu tenho estabelecido esses meios hábeis para fazer-lhes entrar na sabedoria do Buda.

Nunca lhes disse: ‘Todos vocês realizarão a Via do Buda’.

Eu nunca o disse porque o tempo para pregar a grande Lei ainda não havia chegado.

Agora, o tempo é apropriado para pregar o Grande Veículo.

As nove[11] divisões da minha Lei são pregadas de acordo com os seres viventes;

com a intenção de conduzi-los ao Grande Veículo.

Portanto, Eu prego este Sutra para os discípulos do Buda que são puros no coração,

que são complacentes e de capacidades aguçadas,

e que, sob a Lei de incontáveis Budas,

perseveraram na trilha do profundo e maravilhoso Caminho;

para esses Eu prego o Sutra do Grande Veículo.

Eu profetizo que tais pessoas no futuro realizarão a Via do Buda,

porque nas profundezas de seus pensamentos eles acolhem o Buda,

praticam e observam os preceitos da pureza.

Quando eles ouvirem que se tornarão Budas,

exultarão grandemente e regozijarão.

O Buda conhece seus pensamentos e conduta,

e prega-lhes o Grande Veículo.

Se Ouvintes ou Bodhisattvas ouvirem esta Lei que Eu prego,

mesmo que seja um simples verso,

eles tornar-se-ão Budas, sem nenhuma dúvida.

Nas terras Búdicas das dez direções,

há somente a Lei do Veículo Único;

não há dois ou três veículos,

exceto aqueles pregados pelos Budas como meios hábeis,

e que são apelos fictícios usados para induzir os seres viventes,

de tal maneira que Eles possam ensinar-lhes a sabedoria do Buda.

Os Budas aparecem no mundo somente em prol desta Única Verdadeira Razão;

as outras duas não são verdadeiras;

eles nunca usariam um veículo menor com a finalidade de salvar seres viventes.

O Buda em si reside no Grande Veículo,

e de acordo com as Leis por ele obtidas,

adornado com o poder do Samadhi e da sabedoria,

ele as utiliza para salvar os seres viventes[12].

Tendo eu mesmo certificado ser este o caminho supremo,

a Lei do Grande Veículo da igualdade entre todas as coisas,

se eu fosse ensinar a minha intenção através do pequeno veículo,

mesmo que para um único ser humano,

eu estaria pecando por mesquinhez e avareza;

mas tal coisa jamais aconteceria.

Caso as pessoas perseverem na fé no Buda,

o Tathagata nunca as iludirá;

ele não possui pensamentos de inveja ou de cobiça,

e erradicou a maldade inerente a todos os fenômenos.

Portanto, através das dez direções,

somente o Buda não tem temor algum.

Com o meu corpo adornado com as marcas do Buda,

brilhantemente ilumino o mundo.

Reverenciado por incontáveis multidões,

eu prego o Selo do Verdadeiro Aspecto de Todas as Leis.

Shariputra, agora você sabe que no passado eu fiz um voto,

desejando levar as multidões a tornarem-se iguais a mim.

Aquele voto, feito há longo tempo atrás,

agora tem sido cumprido integralmente,

após haver convertido todos os seres,

conduzindo-os ao Caminho do Buda.

Se, quando eu me reúno com seres viventes,

ensino-lhes apenas o Caminho do Buda,

aqueles de pouca sabedoria ficarão perplexos;

e confusos, eles não aceitarão o ensinamento.

Eu sei que esses seres viventes nunca cultivaram boas raízes.

Eles estão fortemente apegados aos cinco desejos e,

em conseqüência da estupidez e da ansiedade,

tornam-se aflitos.

Em razão de todos os seus desejos,

eles caem nos três maus caminhos,

girando nos seis mundos inferiores,

e sofrendo toda a espécie de dor e miséria.

Eles vêm de uma minúscula forma no ventre materno;

e vida após vida, eles vêm a crescer.

Pobres na virtude e possuindo poucos méritos,

eles são oprimidos por inúmeros sofrimentos,

e adentrando a imensa floresta das visões distorcidas sobre a existência ou não dos fenômenos e coisas afins,

tornam-se prisioneiros daquelas visões,

sessenta e duas (visões) ao todo.

Profundamente presos às doutrinas ilusórias,

eles apegam-se a elas firmemente e não podem levá-las adiante.

Arrogantes, jactam-se da sua superioridade;

são bajuladores, e seus corações insinceros.

Através de dez bilhões de kalpas,

eles nunca ouvirão o nome do Buda,

nem ouvirão a Verdadeira Lei.

Certas pessoas são difíceis de salvar.

Portanto, Shariputra,

faço uso dos meios hábeis para eles,

pregando de tal forma a cessar o seu sofrimento,

e mostrando-lhes o Nirvana.

Embora eu fale do Nirvana,

esta não é ainda a verdadeira extinção.

Todos os fenômenos desde o seu surgimento,

estão sempre marcados pela extinção tranqüila.

Uma vez que os discípulos do Buda tenham percorrido este Caminho,

então numa era posterior eles tornar-se-ão Budas.

Eu detenho o poder dos meios hábeis,

e por isso demonstro a Doutrina dos Três Veículos.

Todos os Honrados pelo Mundo, entretanto,

pregam a Doutrina do Veículo Único.

Agora, todos vocês nesta assembléia,

devem eliminar por completo as suas dúvidas.

As palavras de todos os Budas são as mesmas:

há somente o Veículo Único, não dois.

Através de incontáveis kalpas no passado,

inumeráveis Budas entraram em extinção,

centenas de milhares de miríades de milhões deles,

um número além de todos os cálculos;

Honrados pelo Mundo tais como eles usaram várias causas e relações, analogias e parábolas,

e o poder de incontáveis meios hábeis,

para proclamar o Verdadeiro Aspecto de Todos os Fenômenos.

Todos eram Honrados pelo Mundo que pregavam a Doutrina do Veículo Único,

convertendo seres sem limites,

conduzindo-os ao Caminho do Buda.

Além disso, todos os Grandes Senhores da Sabedoria,

conhecendo os profundos desejos que estão nos pensamentos de todos os seres celestiais, humanos e outros seres de todos os mundos;

utilizam-se de diferentes meios hábeis que ajudam a revelar o princípio fundamental de todos os fenômenos.

Se há seres viventes que se encontraram com Budas no passado,

ouviram a Lei, praticaram a doação,

os preceitos, a paciência,

e um forte esforço de meditação para o Samadhi,

para a sabedoria,

e assim por diante cultivando méritos e virtudes,

todas as pessoas tais como essas atingiram a Via do Buda.

Quando aqueles Budas tornaram-se extintos,

se havia aqueles com corações condescendentes,

seres tais como esses atingiram a Via do Buda.

Após a extinção daqueles Budas,

aqueles que fizeram oferecimentos às suas relíquias,

construindo milhões de tipos de torres votivas,

feitas de ouro, prata, ou de cristal,

madrepérola, carnelian,

quartzo rosa, lápis-lazúli e outras gemas,

limpas, puras e magnificamente ornamentais,

trabalhadas para decorar as torres;

ou se caso houve aqueles que construíram templos de pedra,

de madeira de sândalo ou de aloés,

hovênia ou outras madeiras de lei,

tijolos, argila e similares;

ou se houve aqueles que, sobre dejetos estéreis,

amontoaram terra na construção de um relicário para o Buda;

ou mesmo se houve crianças que, a brincar,

amontoaram areia para construir uma torre votiva;

todas essas pessoas atingiram a Via do Buda.

Aqueles que erigiram imagens do Buda,

esculpindo todas as suas inúmeras marcas distintivas,

atingiram a Via do Buda.

Quer tenham usado as sete gemas preciosas,

bronze ou prata; branco ou vermelho;

cera, chumbo ou lata;

ferro, madeira ou argila;

ou, talvez, tecido laqueado na confecção de imagens do Buda;

tais pessoas atingiram a Via do Buda.

Aqueles que pintaram imagens brilhantes do Buda,

adornadas com as marcas distintivas de suas centenas de bênçãos,

se fizeram eles mesmos ou empregaram outras pessoas,

todos atingiram a Via do Buda.

Mesmo crianças que,

a brincar com palha, varetas, ou canetas,

ou mesmos com as pontas de seus dedos,

desenharam imagens do Buda;

pessoas como essas gradualmente acumularam méritos e virtudes,

encheram seus corações de grande compaixão,

e atingiram a Via do Buda.

Eles, como os Budas,

instruem somente Bodhisattvas,

resgatando e salvando incontáveis multidões.

Caso as pessoas, nas torres votivas ou nos templos,

fizerem oferecimentos com um sentimento reverente para as imagens cravejadas de jóias ou pintadas,

com flores, incenso, estandartes ou dosséis;

ou caso elas contratem outras pessoas para tocar música,

soando tambores, trompas ou conchas,

órgãos, flautas, alaúdes ou harpas,

guitarras, pratos ou gongos,

com muitos sons maravilhosos como esses,

tocados unicamente como oferendas;

ou se, com sentimentos de alegria e felicidade,

com sons e cantos elas louvarem as virtudes do Buda,

mesmo que através de um pequeno som,

essas pessoas atingiram a Via do Buda

Se pessoas com pensamentos dispersos derem mesmo que uma simples flor como oferecimento a uma imagem pintada,

elas gradualmente verão inumeráveis Budas.

Se elas curvarem-se em reverência e adoração,

ou meramente juntarem as palmas das suas mãos,

ou mesmo se levantarem uma simples mão,

ou fizerem um ligeiro assentimento com suas cabeças,

como um oferecimento às imagens,

elas gradualmente verão incontáveis Budas,

tendo elas próprias atingido a Via do Buda.

Se pessoas com pensamentos dispersos adentrarem torres votivas e templos,

e disserem não mais que ‘Namu Buda’;

elas terão entrado na Via do Buda.

Dos Budas do passado,

seja enquanto existentes ou após a sua extinção,

aqueles que ouviram esta Lei,

entraram na Via do Buda.

Os Honrados pelo Mundo do futuro,

que são ilimitados em número;

todos eles Tathagatas,

também pregarão a Lei através dos meios hábeis.

Todos os Tathagatas,

através de incontáveis meios hábeis,

ajudam todos os seres viventes a adentrar a sabedoria sem falhas do Buda.

Dentre aqueles que ouvem a Lei,

nenhum falhará em tornar-se Buda.

Todos os Budas fizeram este voto:

‘Assim como a Via de Buda que eu pratiquei,

desejo levar todos os seres viventes a igualmente conquistar este Caminho’.

E embora os Budas do futuro venham a pregar uma centena de milhar de milhões de leis,

incontáveis portais da Lei,

eles estarão, de fato, fazendo-o em prol do Grande Veículo.

Todos os Budas, Honrados Duplamente Realizados,

sabem que todos os fenômenos são eternamente desprovidos de uma natureza.

A semente do estado de Buda germina das causas e condições;

sendo assim, eles pregam o Veículo Único.

Esta Lei permanece latente e imutável,

residindo eternamente nos aspectos mundanos.

Alcançando a compreensão disto no Lugar da Iluminação,

o Mestre Guia ensina-o através dos meios hábeis.

Os Budas do presente nas dez direções,

que recebem os oferecimentos de seres celestiais e humanos,

em número como as areias do Ganges,

manifestam-se no mundo para trazer paz e conforto aos seres viventes,

e também para pregar uma Lei como esta.

Conhecendo a verdade suprema da extinção tranqüila,

eles utilizam-se do poder dos meios hábeis para fazer distinções entre os vários caminhos;

mas, na realidade, o fazem em prol do Veículo do Buda.

Sabendo da conduta dos seres viventes,

dos pensamentos que vão profundamente dentro de suas mentes,

seus atos habituais no passado,

a natureza dos seus desejos,

o poder do seu vigor e suas capacidades,

aguçadas ou não;

eles empregam várias causas e relações,

analogias, parábolas e expressões verbais,

para ensiná-los através dos meios apropriados.

Agora, eu também sou como eles.

Usando vários portais da Lei,

eu proclamo a Via do Buda para trazer paz e conforto aos seres viventes.

Eu uso o poder da minha sabedoria para conhecer a natureza dos desejos dos seres viventes;

e prego todas as Leis habilmente para levá-los todos à felicidade.

Shariputra, agora você sabe como eu os considero com os meus olhos Búdicos.

Eu vejo seres viventes nos seis caminhos,

empobrecidos, carentes de bênçãos e sabedoria,

entrando nos perigosos caminhos do nascimento e da morte,

onde sofrem incessantemente.

Eles estão profundamente apegados aos cindo desejos,

como um iaque enamorado da sua própria cauda,

eles sufocam a si mesmos com a avareza e a paixão,

cegos e no escuro, nada vêm.

Eles não procuram pelo poderoso Buda,

ou pela Lei que elimina os sofrimentos,

mas, ao invés, mergulham profundamente nas visões errôneas;

desejam livrar-se do sofrimento com mais sofrimento.

Em prol desses seres,

eu evoco um Sentimento de Grande Compaixão.

Quando pela primeira vez tomei assento no lugar da Iluminação,

em contemplação, ou caminhando ao redor da árvore,

por um período de três vezes sete dias[13],

eu pensei em assuntos tais como estes:

‘a sabedoria que obtive é sutil,

maravilhosa e insuperável,

mas os seres viventes são de pouca capacidade,

apegados ao prazer, e cegados pela delusão;

seres tais como estes,

como possivelmente poderão se salvar’?

Então os Reis Celestiais Brahma,

bem como o Deus Shakra,

os Quatro Reis Celestiais Protetores do Mundo,

o Rei Celeste Grande Liberdade,

e outras multidões de seres celestiais,

com seguidores contados em bilhões,

reverentemente uniram as palmas das suas mãos,

e solicitaram-me girar a Roda da Lei.

Eu então pensei para mim mesmo:

‘Se eu fosse pregar somente o Veículo do Buda,

seres mergulhados no sofrimento seriam incapazes de compreender esta Lei.

Eles difamar-na-iam e desacreditar-na-iam,

e cairiam nos três maus caminhos.

É melhor que eu não pregue a Lei,

entrando rapidamente no Nirvana’.

Então me lembrei que os Budas do passado praticaram o poder dos meios hábeis,

e como eu agora atingi o Caminho,

quando assim estava pensando,

todos os Budas das dez direções apareceram,

e com o som Brahma encorajaram-me, dizendo:

‘Excelente, Oh Shakyamuni,

Supremo Mestre Guia.

Tendo atingido a Lei insuperável,

você segue o exemplo de todos os Budas,

ao empregar o poder dos meios hábeis.

Igualmente, nós também obtivemos essa Lei insuperável,

a mais maravilhosa.

Para os vários tipos de seres viventes,

fizemos distinções e ensinamos os Três Veículos.

Aqueles de pouca capacidade,

que se comprazem nas leis inferiores,

não compreendem que eles podem tornar-se Budas.

Essa é a razão de usarmos os meios hábeis,

para fazer distinções e ensinar os vários objetivos.

Mas, embora Três Veículos sejam ensinados,

o são unicamente em prol da instrução de Bodhisattvas’.

Shariputra, agora você sabe que,

quando eu ouvi o som profundo,

puro e maravilhoso dos Leões da Sabedoria,

eu bradei: ‘Homenagem a todos os Budas’.

Além disso, tive esse pensamento:

‘Encontro-me num mundo de impureza e de maldade;

portanto, seguirei de acordo com o que os Budas pregam’.

Tendo meditado sobre esse assunto,

segui diretamente para Varanasi.

Uma vez que o aspecto da extinção tranqüila de todos os fenômenos não pode ser expresso em palavras,

eu usei o poder dos meios hábeis para instruir os cinco Monges.

Isto se chamou o giro da roda da Lei.

Então, vieram o som do Nirvana,

assim como o ‘Arhatship’ (estado de Arhat),

o ‘Dharma’ (Lei), e a ‘Sangha’ (corpo de seguidores).

Desde os mais remotos kalpas,

eu tenho louvado e mostrado a Lei do Nirvana como um fim cabal para os sofrimentos do nascimento e da morte;

desde então, tenho sempre pregado isto.

Shariputra, agora você sabe,

que eu vi discípulos do Buda,

resolutamente buscando a Via do Buda,

em número de ilimitados milhares de miríades de milhões deles,

todos com pensamentos reverentes,

todos aspirando ao estado de Buda.

Eles haviam ouvido, dos Budas anteriores,

ensinamentos da Lei através de meios hábeis.

Isto me fez pensar:

‘A razão pela qual o Tathagata aparece é ensinar a sabedoria do Buda, e agora o tempo é exatamente correto’.

Shariputra, agora você sabe,

que pessoas com pouca capacidade e escassa sabedoria,

apegadas às aparências, à arrogância,

não podem compreender essa Lei.

Eu agora exulto, não tenho receio,

e diante dos Bodhisattvas,

eu descartarei os meios hábeis, colocando-os aparte,

para pregar somente o Caminho Supremo.

Quando os Bodhisattvas ouvirem essa lei,

a rede de suas dúvidas será rompida;

e doze centenas de Arhats atingirão o estado de Buda.

Da mesma forma com que os Budas das três existências

pregaram esta Lei,

assim o farei agora expondo a Lei sem distinções.

Todos os Budas vêm ao mundo muito raramente,

e são difíceis de encontrar;

e quando eles aparecem no mundo,

é muito difícil que eles preguem a Lei.

Através de incontáveis eras, também,

é muito difícil ouvir esta Lei.

E aqueles que podem ouvir esta Lei,

tais pessoas também são raras como a flor de udumbara,

na qual todos se deleitam,

e na qual seres celestiais e humanos se comprazem,

por ela florescer senão uma vez em muito, muito tempo.

Alguém que ouve esta Lei,

mesmo que uma única palavra,

louva-a com alegria,

fazendo oferecimentos a todos os Budas das três existências;

tais pessoas são extremamente raras.

São mais raras que a flor de Udumbara.

Todos vocês não devem ter dúvidas,

de que eu sou o Rei do Dharma;

e declaro à assembléia:

‘Eu uso somente a via do Veículo Único para ensinar e converter Bodhisattvas.

Eu não tenho discípulos Ouvintes’.

Shariputra, todos vocês,

os Ouvintes e Bodhisattvas,

devem saber que esta Lei Maravilhosa é o segredo essencial de todos os Budas.

No mundo da maldade das cinco impurezas,

seres que estão alegremente apegados aos prazeres e desejos,

nunca buscarão a Via do Buda.

Pessoas más do futuro, em sua delusão,

ouvindo o Buda pregar o Veículo Único,

não o aceitarão ou compreenderão,

mas o caluniarão e cairão nos maus caminhos.

Mas, para aqueles com humildade e pureza,

que resolutamente buscam a Via do Buda,

às pessoas como essas,

eu exalto o caminho do Veículo Único, extensivamente.

Shariputra, agora você sabe,

que a Lei de todos os Budas é como esta.

Através de milhões de meios hábeis,

eu prego a Lei Insuperável de acordo com o que é apropriado.

Mas aqueles que não a estudam,

nunca virão a compreendê-la.

Uma vez que vocês já sabem que todos os Budas,

Mestres do Mundo,

trabalham através de meios hábeis,

vocês não devem mais ter dúvidas.

Deixem seus corações encherem-se de alegria,

porque agora sabem que atingirão o Estado de Buda”.


[1] Ouvintes e Pratyekabudas correspondem às pessoas dos 2(dois) Veículos (erudição e absorção). Por essa razão, apregoava-se nos ensinos pré-Sutra de Lótus que essas pessoas não podiam atingir a iluminação.

[2] Utilizando-se de Meios Hábeis, que é a essência deste capítulo.

[3] Desta primeira grande admoestação do Buda, denotada até pelo tom de suas palavras, depreende-se que mesmo discípulos como Shariputra, considerado o maior em sabedoria, e sendo assim uma pessoa dos 2(dois) veículos, poderão compreender o que está para ser revelado. Todavia, mais adiante, o Buda o adverte: “Com relação às Leis pregadas pelos Budas, deve-se dar lugar ao grande poder fé”.

[4] Uma interpretação para os aspectos enumerados é: 1. Aparência: É o mais importante dos dez aspectos, através do qual se revelam os demais, e corresponde ao aspecto físico do ser. Em termos do Santai (Três Verdades da Transitoriedade, Não-Substancialidade e Caminho-Médio), corresponde ao aspecto transitório, ou à impermanência de todos os fenômenos; 2. Natureza: espírito ou o aspecto não-substancial incorporado aos seres viventes; 3. Entidade: Caminho-médio, significando a não-dualidade de matéria (corpo) e vacuidade (não-substância), mas a sua unicidade no Ser; 4. Poder: Potencial de transformação que um ser possui, podendo exercê-lo sobre si mesmo e sobre o ambiente no qual vive. Pode ser traduzido como Sujeito (Ti – Buda Shakyamuni) ou sabedoria subjetiva. Esse potencial transforma-se em uma força transformadora através da ação; 5. Influência: A influência pode ser entendida como a resposta do ambiente à presença do Ser, ou a Realidade Objetiva (Kyo – Buda Muitos Tesouros) que sustenta a vida de um Ser. Esses aspectos de Poder e Influência podem ser compreendidos também a partir do princípio Budista da inseparabilidade entre o Ser e o Meio-Ambiente, chamado “Esho-Funi”. 6. Causa Inerente: É o conjunto de causas boas e más que existem inerentemente num Ser vivente. Essas causas diferem entre os seres e podem ou não se manifestar; 7. Relação: Uma causa externa ou circunstância de vida que pode criar as condições para a manifestação de uma Causa Inerente; 8. Efeito Latente: Está associado à Causa Inerente, existindo sempre como um resultado potencial para as causas inerentes da vida de um Ser; 9. Efeito Manifesto: Na presença de uma Relação ou Causa Externa, uma Causa Inerente produz um Efeito Manifesto como um resultado concreto. Esses quatro aspectos podem ser entendidos como a Lei da Causalidade, ou Lei Mística da Causa e Efeito, ou Saddharma-Pundarîka que literalmente significa Lei Maravilhosa do Lótus (causa e efeito simultâneos); 10. Consistência do Princípio ao Fim: Significa que em termos dos mundos das dez direções (dez estados de vida), há uma perfeita consistência entre os nove aspectos da vida de um Ser; isto é, um Ser no estado de Fome apresenta os nove aspectos (aparência, natureza, entidade, etc.) do estado de Fome. Uma outra tradução encontrada para este aspecto é “Não é Diferente”, significando exatamente essa perfeita consistência e integridade. O que temos então? O Ser (o mortal comum) ladeado pelos Budas Shakyamuni e pelo Buda Muitos Tesouros, em meio a todos os seres de todos os mundos das dez direções, iluminados pela Lei Mística da Causa e Efeito. Objetivamente, esta é a realidade do mundo do Buda, ou seja, a Verdadeira Entidade de Todos os Fenômenos em sua integridade. Se existe um objeto para espelhar essa realidade, este objeto deve incorporá-la de forma totalizante e integral. Todavia, essa visão totalizante, integral e simultânea das características sempre manifestas de todos os fenômenos somente os Budas compartilham e o fazem na sua iluminação. De forma conclusiva, ainda que essa realidade pudesse ser descrita em termos da racionalidade humana, e as distinções empregadas com este fim são meramente meios hábeis para descrever essa realidade, ela só pode ser penetrada pelos olhos do Buda.

[5] Porque entre esses prevalecia a idéia de distinção das capacidades das pessoas para atingir a iluminação. Julgavam-se mais próximos do estado de Buda do que os leigos, como um “status” conferido pelas suas práticas e conhecimento das doutrinas.

[6] Isto é, não é uma Lei que a racionalidade humana possa equacionar ou compreender.

[7] Esta passagem estabelece inequivocamente o Veículo Único do Buda, que significa haver uma e somente uma Via para a consecução do estado de Buda: a Via do Bodhisattva (o mortal comum que se tornará Buda). Este interprete refere-se a esta Lei sutil do Veículo Único do Buda como Via Recíproca, porque ela é biunívoca, significando que existe uma e somente uma Via para o aparecimento do Buda neste mundo: a Via do Bodhisattva (o Buda tornado mortal comum). Esta é a Verdadeira Jóia Real deste Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, que nos revela que a verdadeira e única causa para o aparecimento do Buda neste mundo é tornar os seres viventes iguais a Ele.

[8] Esta passagem descredencia os ensinos provisórios dos três veículos como um caminho para compreender a Grande Lei, reputando-os meramente como meios hábeis ou preparatórios.

[9] Os Budas do passado, do futuro e do presente ensinam e convertem os Bodhisattvas, sendo este o único veículo para atingir a iluminação. Por essa razão o Buda afirma: “Essas Leis são todas em prol do Veículo Único do Buda”.

[10] Acredito ser esta a segunda grande admoestação do Buda neste sutra. O profundo significado desta passagem é que as pessoas (incluindo monges e monjas) que ouvirem, aceitarem e acreditarem neste ensino são Bodhisattvas. Apenas de presumirem que sejam arhats ou pratyekabudas, estarão destruindo a semente de sua própria iluminação; estarão contrariando o exato âmago deste ensino; obstruirão o caminho que as leva de encontro ao Buda. A frase “então ele não é meu discípulo, nem arhat nem pratyekabuda”, coloca essa pessoa como alguém de descrença incorrigível.

[11] Correspondendo aos 9 (nove) estados de vida, do estado de Inferno ao de Bodhisattva. Neste caso, todos os estados de vida, e não apenas o três veículos, são colocados como meios expedientes para conduzir os seres viventes ao Grande Veículo, que está contido em cada um dos estados de vida.

[12] Nesta passagem torna-se claro ser o estado de Bodhisattva a “residência” do Buda neste mundo, fazendo-o para salvar seres viventes. Assim como as profundas práticas de Bodhisattva constituem o único veículo para se atingir o estado de Buda, a recíproca é verdadeira; isto é, o Buda entra neste mundo unicamente através do Bodhisattva, pois, seu único propósito é converter e ensinar o Grande Veículo, “da igualdade entre todas as coisas”. A voz de quem ensina este sutra, é a voz do Buda.

[13] Perfazendo 21(vinte e um) dias. Este período de 21 dias aparece no Capítulo 28 – O Incentivo do Bodhisattva Universalmente Meritório, como uma medida da intensidade da prática para aqueles que queiram perceber a presença do Buda.

N.T. As notas e comentários introduzidos nesta tradução do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa para a língua portuguesa falada no Brasil são da autoria e inteira responsabilidade de seu tradutor Marcos Ubirajara de Carvalho e Camargo.

10 Comentários

  1. Fernando Dantas said,

    08/08/2007 às 1:02

    Gostaria de saber a qual vertente do Budismo vc pertence….Achei muito interessante e profunda sua tradução…

  2. muccamargo said,

    08/08/2007 às 10:35

    Fernando,

    Conhecí o Budismo de Nitiren Daishonin em 1978, convertí-me em 1985, comecei a praticá-lo e estudá-lo em 1987. Em 1991, afastei-me da organização através da qual o conhecí. Hoje, considero-me um praticante leigo, devoto do Sutra de Lótus, cuja prática ensinada (copiar este Sutra, receber, manter, ler, recitar e expor o seu significado, praticar de acordo com a Lei e conservá-lo apropriadamente em seus pensamentos) é a de Nitiren. Todavia, não posso mais dizer que seja um adepto daquela vertente, até por questões das práticas que adotei. Sou imensamente grato, entretanto, à Sangha de todas as vertentes. Um abraço! Você tem algo a ver com o Luís Dantas?

  3. Fernando Dantas said,

    22/08/2007 às 1:02

    Eu pertenço a BSGI organização de leigos que praticam o budismo Nitiren, sou fukushi….Realmente não tenho nada haver mcom luís Dantas, tenho parentes com esse nome masd não sei se são os mesmos…

  4. Jonathan said,

    23/08/2007 às 20:27

    Lembro-me com muita saudade de uma pessoa inspiradora e simples que, embora tenha se mudado de campinas, ainda reside em meu coração.
    E assim sempre será….

    Mil abraços

  5. muccamargo said,

    23/08/2007 às 21:10

    Meu Caro Jonathan,
    A minha alegria é imensa de reencontrar amigos de Campinas. Ela só pode ser superada pelo meu grande sentimento de gratidâo por ter convivido com pessoas como você. Um grande abraço.

  6. Hister Brandão Rezende. said,

    28/03/2013 às 20:38

    Site maravilhoso, muita auspiciosidade recaia sobre todos nós e no Universo. Om!

    • muccamargo said,

      29/03/2013 às 9:53

      Muito obrigado, Hister!

      Seja bem-vindo e muita paz ao desfrutar do Dharma Maravilhoso.

      Om!

  7. renesom said,

    05/03/2014 às 16:37

    Ao marcos minha considerações, parabéns por este blog ajudar a tantos que assim como eu busca por estudo auxiliando com a pratica,entendo ao dizer que não pertence a nenhuma vertente do Budismo,hoje não podemos dizer que pertencemos a isso ou aquilo,pois todos nós estamos no mesmo caminho em busca de Iluminação,muitos encontram o caminho ensinado pelos Budas outros demoram mais um pouco mas aspira pelo caminho.

    • muccamargo said,

      05/03/2014 às 19:14

      Obrigado Renesom!
      Seu comentário chegou num momento muito oportuno. Sou uma pessoa comum e, às vezes, sinto falta de uma palavra de incentivo.
      Grande abraço, amigo.

      Marcos Ubirajara.

  8. Marlon said,

    02/12/2014 às 1:22

    Conheci o budismo de Nitiren Daishonin, através do Sr. Yassuo Egi e hoje estou afastado da BSGI, devido de uma causa acusa que aconteceu comigo! Essa causa foi o motivo de meu afastamento, pois obtive depressão e síndrome do pânico!
    Hoje, superei a depressão e a síndrome do pânico, mas estou com um outro problema carnal, que justamento os abuso de poderes de juízes de Araioses – Ma, fazendo – me falsas acusações, mas refletir que devo transformar a minha mente para um outro propósito, que a de trabalhar a minha mente e então, estou estudando o Budismo de Nitiren Daishonin através da internet.
    A Juíza Jerusa de Castro Mendes Fontenele Vieira, se auto – titular honesta, mas entrego a vida dela a lei mistica, ao Nam Myoho Rengue Kyo. pois o que estou passando são consequências das causas de meu passado e devo somente agradecer pelo sofrimento e conformar pelo meu futuro incerto e que o Nam Myoho Rengue Kyo, 3x proteja e ilumine os meus dois filhos: Cleylon Lee e o Samuel Fonseca.
    Att. Marlon da Silveira Fonseca.


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