O Verdadeiro Eu e a Emancipação

Além disso, denomina-se emancipação a tudo aquilo que se separa de todos os fenômenos condicionados [samskrtadharmas], dá origem ao todo imaculado [anasrava], às qualidades/fenômenos saudáveis e elimina os vários caminhos/abordagens que se referem ao Eu, não-Eu e não não-Eu. É meramente separar-se dos vínculos (da afeição pelo Eu) e não separar-se do ponto de vista do Eu / a visão do Eu / a visão do Auto [atma-drsti]. O ponto de vista do Eu é denominado ‘Buda-Dhatu’ [Natureza-de-Buda ou Verdadeiro Eu]. O Buda-Dhatu é a verdadeira emancipação, e a verdadeira emancipação é o Tathagata.

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 07: Sobre os Quatro Aspectos.

Leia também o Eu Búdico.

O Presente de Arroz

“Os sutras que vieram antes do Sutra de Lótus ensinaram que todos os fenômenos derivam da mente das pessoas. A mente é assemelhada à terra, e os fenômenos universais às plantas que crescem na terra. No Sutra de Lótus, contudo, é ensinado que a mente é una com a terra e a terra é una com suas plantas. Os sutras provisórios explanam que uma mente pura é como a lua e um coração inocente como as flores, mas o Sutra de Lótus afirma que os corações e as mentes das pessoas são eles próprios as flores e a lua.

Disto é óbvio que o arroz não é meramente arroz, mas que é a própria vida.”

Nitiren Daishonin em O Presente de Arroz.

As Escrituras de Nitiren Daishonin, VOL. I.

Sobre o Sutra de Lótus

“Manjushri, através de ilimitados kalpas, não é possível sequer ouvir o nome do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, muito menos ver, receber, manter, ler ou recitá-lo”.

“Manjushri, é como um poderoso rei sábio girador-de-roda que deseja subjugar outros países através da força, mas todos os demais reis menores não seguem seus comandos. O rei girador-de-roda então mobiliza suas várias tropas e avança para puni-los. Vendo suas tropas triunfarem na guerra, ele sente-se grandemente gratificado e retribui-lhes de acordo com os seus méritos, dando terras, casas, vilas, cidades, países; ou mesmo roupas, ornamentos pessoais; ou vários tipos de tesouros preciosos feitos de ouro, prata, lápis-lazúli, madrepérola, carnelian, coral e ágata; ou elefantes, cavalos, carruagens, servos ou empregados”.

“Somente aquela solitária pérola brilhante no alto da sua cabeça ele não dá a ninguém. Por que não? Somente um rei pode ostentar esta pérola em sua coroa. Se ele a desse, seguramente os seguidores do rei ficariam grandemente atônitos”.

“Manjushri, o Tathagata também é assim. Através do uso dos poderes do Samadhi Dhyana e da sabedoria, ele conquistou o país da Lei e tornou-se rei dos três domínios da existência. Ainda assim, os reis demônios recusam-se a se submeter. Os generais do Tathagata, dignos e sábios, travam batalha com eles. Com aqueles que triunfam, ele alegra-se. Para a assembléia dos quatro tipos de crentes, ele prega os Sutras, alegrando seus corações. Ele confere-lhes a meditação dhyana, a liberdade, a ausência de falhas, as raízes e poderes, e toda a riqueza da Lei. Além disso, ele concede-lhes a cidade do Nirvana, dizendo-lhes que eles atingiram a cessação dos sofrimentos. Ele guia seus pensamentos, trazendo felicidade a todos”.

“Mas, ele não prega o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa”.

“Manjushri, eventualmente, o rei girador-de-roda vendo em meio às suas tropas aqueles que têm sido muito bem sucedidos, fica ultra-satisfeito e finalmente concede-lhes a incrível pérola que ele há tempos ostenta no seu turbante e que ele nunca daria casualmente”.

“Assim, também, é com o Tathagata. Como grande rei da Lei nos três domínios da existência, ele usa a Lei para ensinar e converter todos os seres viventes. Vendo o exército daqueles que são dignos e sábios travando batalhas com demônios dos cinco componentes, os demônios das aflições e os demônios da morte ; e sendo bem sucedidos extinguindo os três venenos , escapando do mundo tríplice e rasgando as redes dos demônios, o Tathagata sente-se grandemente gratificado. Ele então lhes prega o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, que pode levar todos os seres viventes à Sabedoria que abarca todos os fenômenos, que erradica o ressentimento e a desavença no mundo, e que ele nunca pregou antes”.

“Manjushri, o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa é supremo dentre os ensinamentos do Tathagata. Em meio a todos os ensinamentos ele é o mais profundo, e somente é concedido em última instância, como é o caso daquela pérola brilhante que o poderoso rei há muito a detém e finalmente a concede. Manjushri, o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa é o tesouro secreto de todos os Budas, Tathagatas. Dentre todos os Sutras ele é o mais elevado. Na longa noite do tempo ele foi guardado e nunca descuidadamente exposto. Hoje, pela primeira vez, eu o estou pregando para você”.

Excerto do CAP. 14: Conduta Para a Prática Bem-Sucedida, pág. 262.

Muito Além do Bem e do Mal

Além disso, emancipação é o que está ‘vazio e quieto’. Não pode haver indeterminação. Por indeterminada entende-se a situação de dizer que o icchantika (pessoa descrente) nunca muda e que aqueles que cometeram graves ofensas nunca atingirão o estado de Buda. Nunca se podem aplicar (fazer valer) tais coisas. Por que não? Quando aquela pessoa [icchantika] ganha a fé pura e genuína no Dharma Maravilhoso do Buda, imediatamente a pessoa aniquila o icchantika [dentro de si]. Ao tornar-se um upasaka (um seguidor leigo), o icchantika [naquela pessoa] morre para sempre; a pessoa que cometeu graves ofensas também atinge o estado de Buda quando seus pecados são expiados. Sendo assim, nunca podemos dizer que não haja mudança para todos e que o estado de Buda não pode ser atingido. Com a emancipação, todavia, não pode haver tais casos de aniquilação. Além disso, ‘vacuidade e quietude’ são coisas do mundo do Dharma. A natureza do mundo do Dharma é a verdadeira emancipação. A emancipação é o Tathagata. Também, uma vez que o icchantika tenha morrido, não podemos mais falar de icchantika. O que é um icchantika? Um icchantika corta [dentro de si] todas as raízes da benevolência (boas ações) e o seu pensamento não evoca qualquer associação com o bem. Nem mesmo uma ponta de um bom pensamento surge na sua mente. Nada semelhante a isto ocorre na verdadeira emancipação. Como (na emancipação) nada há desta natureza, dizemos verdadeira emancipação. A verdadeira emancipação é o Tathagata.

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 07: Sobre os Quatro Aspectos.

A Emancipação e o Dharma Imutável

Também, emancipação é o Dharma imutável. Isto está em contraste com inimizade e amizade, as quais não existem na verdadeira emancipação. Além disso, imutabilidade pode ser relacionada a um chakravartin [um grande monarca do mundo]. Ninguém há que possa ampará-lo. Ninguém se torna seu amigo. O fato de o rei não ter amigos pode ser relacionado à verdadeira emancipação. A verdadeira emancipação é o Tathagata. O Tathagata é Dharma. Também, o ‘imutável’ pode ser contrastado com roupa branca, que pode facilmente ser tingida. Não é assim com a emancipação. Também, este ‘imutável’ pode ser relacionado à varsiki [videira sempre-viva do leste da Índia, cultivada pela sua profusão de flores brancas fragrantes]. Assim, torná-la mal cheirosa e azul na cor é impossível. O mesmo se passa com a emancipação. O que quer que façamos, não podemos torná-la mal cheirosa ou mudar a sua cor. Por esta razão, emancipação é o Tathagata.

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 07: Sobre os Quatro Aspectos.

A Verdadeira Emancipação e o Grande Nirvana

Então o Bodhisattva Kashyapa disse ao Buda: “Oh, Honrado pelo Mundo! Por favor, condescenda em explicar para mim o que concerne ao Mahaparinirvana e o significado da emancipação.”

O Buda elogiou Kashyapa, dizendo: “Falaste bem, falaste bem, oh bom homem! A verdadeira emancipação significa a libertação do nosso próprio eu de todos os laços da ilusão. Se atingirmos verdadeiramente a emancipação e apartarmos o nosso próprio eu dos laços da ilusão, não há mais eu, ou nada para associar-se como no caso dos pais, de cuja união resulta o nascimento de uma criança. A verdadeira emancipação não é como este caso (dos pais). Este é o porquê da emancipação ser não-nascida, não-criada. Oh, Kashyapa! É como o sarpirmanda [o mais delicioso e eficaz remédio – ghee], que é puro na sua natureza. O mesmo é o caso com o Tathagata. Ele não é aquele que surge através da união dos pais, da qual resulta o nascimento de uma criança. Sua natureza é pura. A apresentação dos pais [do Tathagata] é [um meio hábil] para atravessar os seres para a outra margem. A verdadeira emancipação é o Tathagata. O Tathagata e a emancipação não são duas coisas, não são diferentes. Quando plantamos as sementes na primavera e no outono, por exemplo, é quente e úmido e, como resultado disto, as sementes eclodem seus brotos. A verdadeira emancipação não é assim.

Também, a emancipação não é inexistência. Inexistência é emancipação. Emancipação é o Tathagata e o Tathagata é inexistência. Isto não é algo que surgiu do fazer [da ação]. O ‘fazer’ é como construir um castelo. A verdadeira emancipação não surge dessa forma [isto é, ela não é composta, uma coisa construída]. Por esta razão, a emancipação é simultaneamente o Tathagata.

Também, a emancipação é o não-criado. Um oleiro faz um vaso, o qual se quebra em pedaços novamente. As coisas (criadas) não são como aquelas na emancipação. A verdadeira emancipação é não-nascimento e não-extinção. Isto é o porquê emancipação é o Tathagata. Ele é não-nascimento, não-extinção, não-envelhecimento; e é eterno, inquebrável e indestrutível. Ele não é algo criado. Por essa razão dizemos que o Tathagata entra no Grande Nirvana (Mahaparinirvana).

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 07: Sobre os Quatro Aspectos.

Quando Devemos Calar

“O Buda existe dentro do nosso coração. Tome, por exemplo, o fato de que o fogo pode ser produzido por pedras ou que as jóias possuem valor em si mesmas. Nós, seres humanos, não podemos ver nossas sobrancelhas que estão próximas, e nem o céu distante. Do mesmo modo, não compreendemos que o Buda existe em nossa própria mente. Naturalmente pode desejar saber como o Buda pode nos alcançar quando, ao mesmo tempo, o nosso corpo humano, que herda o sangue dos pais, é a origem das três impurezas e o local dos desejos carnais. Ponderando-o reiteradamente, compreendemos ser razoável. A pura flor de lótus floresce do fundo lamacento de um lago; a fragrância do sândalo cresce da terra; as graciosas flores de cerejeira vêm da árvore; a bela Yang Gui Fei nasceu de uma serpente; e a lua nasce detrás das montanhas para espalhar a luz sobre elas. A desgraça vem da boca de uma pessoa e arruína-a, enquanto a boa sorte vem da mente e traz-lhe honra.”

Nitiren Daishonin em Carta de Ano Novo.
As Escrituras de Nitiren Daishonin, Vol. I.

Para Ser Lótus – Fascículo I

Sumário deste Fascículo

Para Ser Lótus

O Samadhi da Não-Distinção

O Desabrochar do Lótus

A Ressonância do Dharma

A Chave do Portal da Sabedoria

As Perambulações de Um Aprendiz

As Práticas em Prol da Via do Buda

O Que Há Para Ser Compreendido

A Colheita do Grande Nirvana

“Oh, bom homem! Por exemplo, aqui existe um homem rico que tem um único filho. Ele sempre pensa a respeito e ama este menino. Ele leva o menino para um professor para ser ensinado. Apreensivo de que as coisas possam não progredir rapidamente (a contento), ele leva o menino de volta para casa. Como ele o ama, lhe ensina o alfabeto dia e noite, muito pacientemente. Mas, ele ainda não lhe ensina o vyakarana [um trabalho popular para estudo da linguagem, um tipo de gramática]. Por que não? Porque a criança é pequena e não está apta a aprender tais lições. Oh, bom homem! Todavia, o homem rico terminou o ensinamento do alfabeto. Estaria o menino pronto para ser ensinado o vyakarana?”

“Não, oh Honrado pelo Mundo!”

“O Homem rico está ocultando algo da criança?”

“Não, oh Honrado pelo Mundo! Por que não? Porque a criança é muito jovem. Dessa forma, ele não lhe ensina [as matérias mais avançadas]. Não é que o menino não seja ensinado porque o homem regateie [tais lições]. Por que não? Porque se houvesse algum ciúme ou inveja, poderíamos dizer que ele ocultou coisas. Com o Tathagata não é assim. Como poderíamos dizer que ele escondeu e ocultou?”

O Buda disse: “Falaste bem, falaste bem, oh bom homem! É como você diz. Se houvesse qualquer raiva, ciúme ou inveja (má vontade), poderíamos dizer que ele está ocultando coisas. O Tathagata não tem raiva ou ciúme. Como poderíamos dizer que ele esconde as coisas? Oh, bom homem! O grande homem rico é o próprio Tathagata. Sua única criança são [todos] os seres. O Tathagata vê a todos os seres como vê seu filho único. (O homem rico) Ensinando seu filho único diz respeito aos discípulos sravaka [ouvintes dos ensinamentos do Buda]; o alfabeto diz respeito aos nove tipos de sutras; o vyakarana diz respeito aos sutras Mahayana Vaipulya [extensivo]. Uma vez que todos os discípulos sravaka não possuem o poder da Sabedoria, o Tathagata ensina-lhes o alfabeto; isto é, os nove tipos de sutras. Mas, ele ainda não fala do vyakarana; isto é, do vaipulya Mahayana. Oh, bom homem! Quando o filho do homem rico crescer e estiver apto a enfrentar as lições, se o vyakarana não for ensinado, então poderemos dizer que houve ‘ocultação’. Se todos os sravakas estão crescidos e podem de fato enfrentar as lições do vaipulya Mahayana, mas o Tathagata regateia isto e não lhes ensina, então poderíamos dizer que o Tathagata regateia, esconde e oculta os ensinamentos. Mas, não é assim com o Tathagata. O Tathagata não oculta [nada]. Isto é como no caso do homem rico que, tendo ensinado o alfabeto, proximamente ensina o vyakarana. Eu também faço o mesmo. A todos os meus discípulos eu tenho pregado acerca do alfabeto e dos nove tipos de sutras. Tendo feito isto, eu agora falo acerca do vyakarana. Isto nada mais é que a natureza eterna e imutável do Tathagata. Além disso, oh bom homem! Isto é como nos meses de verão, quando grandes nuvens provocam trovões, grandes chuvas e, como resultado, todos os agricultores podem plantar as suas sementes e colher coisas. Aquele que não planta, nada pode esperar colher. Não é através dos trabalhos dos reis naga (naga = é uma palavra do Sanskrito and do Pāli que designa uma deidade – ou classe de entidades ou seres que assumem a forma de enormes serpentes, mas muitas vezes com os troncos e cabeças humanas – encontrada tanto no Budismo como no Hinduísmo) que ele não pode colher. E estes reis naga também não armazenam coisas. O mesmo se passa comigo. Eu deixo cair a grande chuva do Sutra do Grande Nirvana. Aqueles seres que plantaram boas sementes colhem os brotos (rebentos) e frutos da Sabedoria. Aqueles que não plantaram, nada podem esperar. O Tathagata não é culpado se eles nada ganharam. O Tathagata não esconde nada.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 07: Sobre os Quatro Aspectos.

O Universo do Físico e o do Bodhisattva

“O Físico cutuca o Universo com uma agulha e, então, procura compreendê-lo.”

Marcos Ubirajara.

“Oh, Bom homem! Este Grande Nirvana evoca uma coisa de grande significância. Ouça-me com a sua melhor atenção. Falarei para todo o mundo. Não fique surpreso ou alimente dúvidas. Se o Bodhisattva-Mahasattva alcança o Grande Nirvana, coisas tão altas e amplas quanto o Monte Sumeru poderiam, de fato, ser colocadas dentro de uma semente de mostarda. Se [naquela ocasião] os seres se encontram no Monte Sumeru, eles não se sentirão reduzidos e nem oprimidos. Não haverá sensação de vir ou ir a qualquer lugar. Tudo será exatamente como antes, sem qualquer diferença. Somente alguém que tenha atravessado o oceano [da ilusão] estará apto a ver que este Bodhisattva colocou os três mil grandes sistemas de mil mundos dentro de uma semente de mostarda e está de volta à sua própria residência (morada) novamente. Oh, bom homem! Igualmente, o Bodhisattva-Mahasattva pode entrar no Grande Nirvana e colocar os três mil grandes sistemas de mil mundos dentro de um poro da sua pele, e ainda assim o lugar original permanecer como sempre foi [imutável, inalterado]. Oh, bom homem! Também, o Bodhisattva-Mahasattva pode entrar no Nirvana, separar as terras Búdicas dos três mil grandes sistemas de mil mundos, colocá-las na ponta de uma agulha e empurrá-las como se as tivesse transpassando através de uma folha de jujuba e, mesmo assim, os seres viventes ali não teriam qualquer sensação de estar indo ou vindo. Somente alguém emancipado poderia ver isto e também o lugar original. Tal é o caso.”

Buda Shakyamuni no Sutra do Nirvana, CAP: 07 – Sobre os Quatro Aspectos.

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