Budismo e Reflexões – Fascículo III

Conteúdo desse Fascículo:

O Mais Profundo Eu Somos Nós

Corrupção e Inconsciência

O Fim do Mundo

O Ouro Verdadeiro no Âmago de Nossas Vidas

Kashyapa disse ao Buda: “Oh Honrado pelo Mundo! Existe o Eu nas 25 existências ou não?”

O Buda disse: “Oh bom homem! ‘Eu’ significa ‘Tathagatagarbha’ [Buda-Útero, Buda-Embrião, Buda-Natureza]. Todos os seres possuem a Natureza-de-Buda. Isso é o Eu. Esse Eu tem sido, desde os primórdios, encoberto por inúmeras impurezas. Esse é o porquê os humanos não podem vê-lo. Oh bom homem! [Imagine que] exista uma mulher pobre aqui. Ela tem ouro verdadeiro escondido em sua casa. Mas nenhuma das pessoas em sua casa, sejam elas grandes ou pequenas, sabem dele. Mas existe um estranho que, através de (meio) expediente, diz à mulher pobre: ‘Eu a empregarei. Você deve agora ir e capinar a terra (remover as ervas daninhas)!’. A mulher responde: ‘Não posso fazer isso agora. Se você deixar meu filho ver onde o ouro está escondido, possivelmente trabalharei para você’. O homem diz: ‘Eu sei o caminho. Eu o indicarei para o seu filho’. A mulher ainda disse: ‘Ninguém da minha casa, seja grande ou pequeno, sabe [disto]. Como você pode (saber)’? O homem diz: ‘Eu agora o esclarecerei’. A mulher diz ainda: ‘Eu desejo ver. Rogo que me permita’. O homem desenterra o ouro que estava escondido numa cova. A mulher o vê, fica satisfeita e passa a respeitar aquela pessoa. Oh bom homem! O caso é o mesmo com a Natureza-de-Buda que os humanos possuem. Ninguém pode vê-la. Isto é análogo ao ouro que a mulher pobre possuía e ainda não podia ver. Oh. Bom homem! Eu agora permitirei às pessoas verem a Natureza-de-Buda que elas possuem, e que está encoberta pelas impurezas. Isto é análogo à mulher pobre que não podia ver o ouro, muito embora ela o possuísse. O Tathagata revela agora a todos os seres o Repositório da Iluminação, que é a assim chamada Natureza-de-Buda. Se todos os seres verem isso, eles ficarão satisfeitos e buscarão refúgio no Tathagata. O bom (meio) expediente é o Tathagata, a mulher pobre são todos os inumeráveis seres, e o Baú de Ouro Verdadeiro é a Natureza-de-Buda.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 12: Sobre a Natureza do Tathagata.

Muito interessante ver Para Ser Lótus, escrito meses antes da leitura e tradução deste trecho do Todo-Maravilhoso Sutra Mahayana do Grande Nirvana.

A Nobre Verdade da Via

“Dizemos ‘Nobre Verdade da Via’. Isso nada mais é que os tesouros do Buda, do Dharma, da Sangha e a correta emancipação. Todas as pessoas dizem com um pensamento de cabeça-para-baixo: ‘Não existe Buda, Dharma, Sangha, ou emancipação correta. Nascimento e morte são como fantasmas’. Eles mantêm essas visões. Como resultado, eles reciclarão entre nascimento e morte através dos três mundos [do desejo, da matéria e do espírito – Mundo Tríplice], sofrendo grandemente lá por um longo tempo futuro. Se uma pessoa desperta e vem a enxergar que o Tathagata é Eterno, que nenhuma mudança lhe acomete, e que o mesmo se aplica ao Dharma, à Sangha e à emancipação; através desse pensamento a pessoa obterá liberdade irrestrita através das inumeráveis eras que virão e poderá divertir-se como quiser. Por quê? Porque certa vez no passado, devido às quatro inversões, eu tomei o não-Dharma como Dharma e sofri pelas inumeráveis conseqüências cármicas. Quando eu acabei com essas visões, atingi o verdadeiro despertar para o Estado de Buda. Essa é a Nobre Verdade da Via. Qualquer pessoa que diga que os Três Tesouros são não-eternos e mantenha essa visão da vida, então isso é uma falsa via da prática e não é a nobre verdade da Via. Se uma pessoa pratica a Via assim, tendo-a como Eterna, essa pessoa é meu discípulo. Ela reside na verdadeira visão da vida e pratica o ensinamento das Quatro Nobres Verdades”.

O Bodhisattva Kashyapa disse ao Buda: “Oh Honrado pelo Mundo! Agora, pela primeira vez, venho a conhecer e praticar as grandes profundezas das Quatro Nobres Verdades”.

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 10: Sobre as Quatro Verdades.

A Nobre Verdade da Extinção do Sofrimento

“Dizemos ‘Verdade da Extinção do Sofrimento’. Se uma pessoa pratica muitos ensinamentos e o caminho da inexistência, isto não é bom. Por que é assim? Porque isso anula todas as leis e destrói o verdadeiro Repositório do Tathagata. Qualquer prática dessa categoria é a prática da inexistência. Alguém que pratique (verdadeiramente) a extinção do sofrimento age contra o que todos os tirthikas fazem. Se a prática da inexistência é a verdade da extinção, existem tirthikas que também praticam o ensinamento da inexistência; então, devemos dizer que eles também possuem a verdade da extinção. Uma pessoa diz: ‘Existe o Tathagatagarbha [ Buda-Útero – o pensamento prístino sob o disfarce da ilusão]. Não se pode ver isso. Mas se acabamos com todas as ilusões, poderemos de fato entrar’. É assim. Através do surgimento desse pensamento [isto é, cultivando essa atitude de pensamento], ganharemos liberdade em todas as coisas. Se uma pessoa pratica a Via do repositório secreto, altruísmo e vacuidade, essa pessoa reciclará entre nascimento e morte através das inumeráveis eras que virão e sofrerá de tristeza. Uma pessoa que não faz tais práticas poderá certamente, embora ela possa ter ilusões, logo acabar com elas. Por que é assim? Porque ela conhece bem o Repositório Secreto do Tathagata. Essa é a Nobre Verdade da Extinção do Sofrimento. Qualquer pessoa que pratique a extinção dessa maneira é meu discípulo. Uma pessoa que não pratica a Via assim é alguém que pratica a vacuidade. Isso não é a nobre verdade da extinção.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 10: Sobre as Quatro Verdades.

A Terra Sagrada

“Esta é uma região montanhosa distante de qualquer habitação humana. Não há uma única vila em qualquer direção. Embora eu more em uma cabana tão abandonada, no fundo desta carne mortal, eu preservo a Lei Secreta Máxima, herdada do Buda Shakyamuni no Pico da Águia. O meu coração é onde todos os Budas entram no Nirvana. Minha lingua, onde eles giram a roda da doutrina. Minha garganta, onde eles nascem neste mundo, e meus lábios, onde eles atingem a iluminação. Esta montanha é onde habita o magnífico devoto do Sutra de Lótus. Portanto, como pode ser menos sagrada que a terra pura do Pico da Águia? Por ser a Lei suprema, a Pessoa é digna de respeito. Como a Pessoa é digna de respeito, a Terra é Sagrada.”

Nitiren Daishonin em Resposta ao Lorde Nanjo, em 1281.

As Escrituras de Niriren Daishonin, Vol. III.

A Terra Sagrada

A Terra Sagrada

Cultivares de um Sábio para a Sabedoria

Cultivares de um Sábio para a Sabedoria

Cultivares de um Sábio para a Sabedoria

A Sangha Sem Fé

Encontrava-me num lugar em companhia de muitas pessoas. Algumas eram conhecidas, outras não. Era uma Sangha, todos estavam trajados com Robes. Em certo momento, me dirigi ao mestre daquele grupo, o qual ocupava uma posição central, referindo-me às coisas que fogem à razão humana, que são inconcebíveis para nós e, em certo momento, falei da necessidade de se nutrir a fé e a coragem. Quando falei a palavra ‘Fé’, foi uma gargalhada em uníssono. Todos riram e aquele líder, também rindo discretamente, me disse entre dentes: ‘Aqui essa palavra não existe’. Era uma Sangha sem fé.

Fiquei calado e, com tristeza, interrompi tanto a fala como o raciocínio. Senti um vazio. Não uma ofensa ou revolta, mas um vazio. Em pensamento, repreendi a mim mesmo: ‘Porque falei tanto’? Mas, fiquei por ali.

A certa altura, tive uma troca de olhares com um daqueles Monges. A simples troca de olhares foi se intensificando, se fixando, evocando a coragem, até que se transformou numa contenda de olhares, sem palavras. Passados alguns segundos, aquele Monge caiu e se prostrou ao chão. O sentimento que eu tinha era de tê-lo derrotado e seu aspecto no chão era de prostração e fraqueza. Isto ocorreu em meio a muitos olhares atônitos. Ajeitei o Robe que vestia sobre os ombros e sai daquele local acompanhado por duas ou três pessoas que permaneceram ao meu lado o tempo todo.

A saída, o caminho de volta, era um beco escuro, cheio de dejetos e transeuntes que vinham no sentido contrário, em direção ao local que eu havia abandonado, e que eram muito mal apessoados, inspiravam medo. Aos poucos aquele caminho foi clareando, tornando-se limpo e amplo. Dobrei uma esquina à direita e, nesta passagem, ainda vi duas crianças treinando artes marciais. Fui embora. Acordei com uma idéia fixa: ‘você tem que cultivar a fé e a paciência’.

Marcos Ubirajara.

Em 20/05/2009 às 02:00 hs.

Sutra do Nirvana – Capítulo 3 – A Aflição

A Nobre Verdade da Causa do Sofrimento

“Dizemos ‘Verdade da Causa do Sofrimento’. Uma pessoa não conhece verdadeiramente o Dharma Maravilhoso e recebe o que é impuro. Esse é o caso dos humildes. Não-Dharma é chamado Dharma-Maravilhoso. Uma pessoa anula o que está correto e não quer acatá-lo para viver. Por conta disso, aquela pessoa não conhecerá o ‘Dharmata’ [a Essência da Realidade]. Não conhecendo isto, ela recicla entre o nascimento e a morte, e sofre grandemente. Ela não obtém o nascimento no céu ou ganha a correta emancipação. Se uma pessoa tem uma profunda Sabedoria e não transgride o Dharma Maravilhoso, em conseqüência, ela nascerá no céu e atingirá a correta emancipação. Se uma pessoa não sabe de onde surge o sofrimento e diz que não pode haver nenhum Dharma Maravilhoso ou aquilo que é Eterno, e que todos retornamos para o nada (ou para a inexistência), aquela pessoa, em conseqüência, repetirá as transmigrações através dos inumeráveis kalpas que virão, sofrendo todos os tipos de tristezas. Se uma pessoa diz que o Dharma é Eterno e que não há mudança, isso é conhecimento da causa, e essa é a Nobre Verdade da Causa do Sofrimento. Se não se pratica assim, isso é a causa do sofrimento e não a Nobre Verdade da Causa.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 10: Sobre as Quatro Verdades.

Um Navio Para Atravessar o Mar do Sofrimento

“Nos últimos dias da Lei, o devoto do Sutra de Lótus surgirá infalivelmente. Quanto maiores sofrimentos lhe sobrevêm, maior a alegria que ele sente, devido à sua forte fé. O fogo não queima mais vivamente quando se adiciona lenha? Todos os rios fluem para o mar. Entretanto, a sua abundância faz com que os rios retrocedam? As correntezas do sofrimento desaguam no mar do Sutra de Lótus e precipitam-se contra o seu devoto. O rio não é rejeitado pelo oceano, nem o devoto recusa o sofrimento. Se não houvesse os rios fluentes não haveria mar. Do mesmo modo, sem adversidades não haveria devoto do Sutra de Lótus.

Uma passagem do Sutra de Lótus diz: ‘…como se a pessoa tivesse encontrado um navio para fazer a travessia’. Esse ‘navio’ poderia ser descrito da seguinte forma: O Lorde Buda, um construtor de navios de sabedoria infinitamente profunda, coletou a madeira dos quatro sabores e oito ensinos, projetou-o descartando honestamente os ensinos provisórios, cortou e mostrou os bordos, usando tanto o certo como o errado, e completou a embarcação usando os pregos do ensino único, supremo. Deste modo, ele lançou o navio ao mar do sofrimento. Largando as velas das três mil condições sobre o mastro da doutrina do Caminho Médio, impelido pelo favorável vento de ‘todos os fenômenos revelam a verdadeira entidade’, a embarcação navega à frente, transportando todos os praticantes que conseguem penetrar no Estado de Buda através da sua pura fé. O Buda Shakyamuni e o timoneiro, o Buda Muitos Tesouros, maneja as velas, e os quatro Bodhisattvas liderados por Jogyo (Práticas Superiores) movem harmoniosamente os remos rangentes. Esse é o navio de ‘um navio para fazer a travessia’, a embarcação do Myoho-Rengue-Kyo. Aqueles a bordo dele são os discípulos e seguidores de Nitiren.”

Nitiren Daishonin em Um Navio Para Atravessar o Mar do Sofrimento, em 1280.

As Escrituras de Nitiren Daishonin, Vol. III.

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