Os Túneis para o Céu

ORROZ

Aquela trilha à esquerda, a mais escarpada, tinha seus segredos, que ORROZ foi descobrindo aos poucos. Eram túneis que conduziam montanha acima, encontrados nas rochas por antepassados que por ali seguiram. Protegiam-lhe dos perigos das encostas, das avalanches e deslizamentos, do vento frio e cortante daquelas altitudes e, acima de tudo, poupavam-lhe da dependência de uma energia que na realidade não possuía. Mais ainda, davam-lhe privacidade nas muitas passagens durante a caminhada de volta que poderiam render exposições sensacionalistas na mídia, como no caso do dia em que uma rufada de vento suspendeu-lhe a toga expondo o seu traseiro mal coberto por uma cueca rasgada. Por outro lado, o tunelamento também lhe privava do calor dos holofotes a compensar a frieza daqueles ventos. Alertado sobre tais dificuldades desde o início, ORROZ seguia quase sem olhar para trás como lhe fora recomendado. Fazia-o discretamente nas curtas exposições entre túneis e, quando o fazia, ouvia-se o relinchar do energúmeno[1] que seguiu a trilha da direita a conjurar: ‘Vou persegui-lo como a sombra segue o corpo’.

Ah, como sua cueca rasgou? No início de sua caminhada de volta, ORROZ pisou num terreno barroso, infringente, que encobria uma rocha extremamente abrasiva que lhe infligiu inesperada punição. Caiu de bunda e deslizou ralando o traseiro ladeira abaixo por cerca de quinze metros, ao cabo de que, além de ferimentos leves, teve a parte posterior de sua cueca poída. Olhou para os lados, disfarçou, ajeitou a toga seguiu adiante.

 


 

[1] Energúmeno significa possesso, aquele que está possuído pelo demônio É uma palavra de origem grega “energoumenos”, que significa endemoninhado. No sentido figurado energúmeno é aquele indivíduo que está desnorteado, violento, fanático, que está exaltado, que fala e gesticula com veemência, além de outros adjetivos mais pejorativos, como imbecil e idiota. Energúmeno é também um mentecapto, um indivíduo alienado, idiota, louco, insensato.

Fonte: http://www.significados.com.br/energumeno/

 

 

 

 

O Cenário

ORROZ

A lenda de ZORRO, para quem a conheceu, nos remete para uma era pré-Eisenstein, quase pré-história da assim chamada sétima arte, o cinema. Fantasticamente, aquela era persiste naquele país distante que fica a oeste daqui, que se chama “Ingratidão”, e sobre cuja história recente se desenvolve a lenda de ORROZ. Explicaremos por quê:

Naquela era pré-Eisenstein, as câmeras eram fixas, não se moviam. Movimentavam-se cenários montados em grandes estúdios, atores e coadjuvantes devidamente credenciados, constituindo cenas ilusórias, mascaradas, sem uma substância real. A história recente daquele país, na qual ORROZ veio a figurar como importante personagem transcorre assim.

Os cenários são cuidadosamente montados, os atores e coadjuvantes caprichosamente maquiados, e dessa forma as cenas obtidas após esmerada produção midiática são massivamente difundidas através de modernos meios de comunicação como se fossem reais.

Mas, perceba-se: as ‘câmeras’ estão paradas na cena e no tempo. Não mudam sequer os ângulos de suas visadas, pois os mecanismos viciados daqueles dinossauros de outrora inspiraram os modernos equipamentos eletrônicos, legando-lhes os mesmos vícios. Para fora dos estúdios, das redações e dos recintos por onde desfilam as “celebridades”, nada é como se vê. Tudo é editado e retocado. Isto é, tudo em termos, porque aquilo que não convém, seja bom ou ruim, é tratado como algo inexistente, apenas porque não convém existir.

Por essa razão, ORROZ é uma figura mítica, produto da imersão de um ser real nessa espécie de surrealismo perverso, cada vez mais distante da realidade daquele país manifesta nas escolhas do seu povo. Lá, tudo é mítico, não substancialmente real. Por detrás desse cenário esconde-se uma realidade dantesca, capaz de chocar até os mais céticos. Desta, emergem as gárgulas trajadas de branco (white-robed)[1] do poder a protegerem instituições decadentes, inúteis, podres por dentro. E como nada é como não deveria ser, ORROZ é real.

 


 

[1] White-Robed aqui com significado de “Candidatos”, que vem da palavra latina ‘candidus’, significando puro, imaculado, branco-reluzente. Na Roma antiga, os aspirantes aos altos cargos vestiriam uma toga branca sugerindo a pureza que raramente possuem.

Fonte: http://www.proz.com/kudoz/latin_to_english/linguistics/896995-white_robed.html

 

 

 

A Hipótese da Dualidade

ORROZ

O mundo bruto, fenomenológico, é dual por natureza e, também por necessidade, tudo tem o seu oposto. Apenas para exemplificar: certo-errado, feio-bonito, alto-baixo, positivo-negativo, branco-preto, partícula-anti-partícula, elétron-pósitron, sinônimo-antônimo, e uma infinidade de outros pares que existem apenas para explicar uns aos outros, e ninguém desconfia de nada.

Seguindo a lógica existencial da dualidade de todos os fenômenos, pode-se preconizar com toda a segurança a existência de um oposto de ORROZ. Mas, não em qualquer lugar, esse oposto necessariamente dever-se-ia revelar dentro do padrão existencial do próprio ORROZ.  Lancemos, então, as hipóteses:

 

  • Chamar-se-ia ORROZA, uma ZORRA, um oposto às avessas;
  • Provavelmente viria de uma casta de ‘tecelões’[1].

 

Com base nessas hipóteses, seu nome mundano seria composto: ORROZA TECELÃ. Todos verão como esse oposto hipotético existe através da sua silhueta, e também dos seus atos. Como? Evoquemos o dual sinônimo-antônimo e, como um operador, apliquemo-lo à palavra intriga[2].  Disto, saberemos o que esperar de ORROZA. Todavia, não serei o relator do seu diário.

 


[1] Tecedor ou Urdidor: aquele enreda, trama, arma intrigas.

[2] Sinônimo de intriga: alhada, bisbilhotice, cabala, candonga, caraminhola, cilada, cizânia, conjura, conto, ditinho, embrulhada, encrenca, enleada, enredo, falatório, futrica, fuxico, insídia, maquinação, meada, mexerico, novelo, nó, onzenice, tecedura, teia, trama, tramóia, trancinha, trança, trica e urdidura. Antônimo de intriga: correção, dignidade, exatidão, franqueza e honestidade. Fonte: Dicionário Online de Português em http://www.dicio.com.br/intriga/.

 

 

Réquiem

Meus filhos, na minha tradução, essa canção chama-se “Eu e Minha Vida”. Deve ser tocada bem alto em meu réquiem, deixada ao vento, partir.

Neither One Of Us Nenhum de Nós
It’s sad to think, we’re not gonna make it
And it’s gotten to the point where we just can fake itFor some unGodly reason we just won’t let it down (let it down)
I guess neither one of us (neither one of us)
Wants to be the first to say good byeI keep on wondering (wondering)
What I’m gonna do with out ya (do without you)
And I guess you must be wondering that same thing too
So we go on go on together living our lives (living our lives)
Because neither one of us (neither one of us)
Wants to be the first to say good byeEverytime I find the nerve to say I’m leavin’ (leavin’)
Oh, memories, those old memories get in my way
Lord knows it’s only me only knows it’s only me
That I’m deciving
When it comes to say good bye
That’s a simple word that I just cannot say
There can be no way (be no way)
This can have a happy ending (happy ending)
So we just go on (we go on) hurting and pretending
And convincing ourselves to give it just one more try (one moretry)
Because neither one of us (Neither one of us)
Wants to be the forst to say
Neither one of us (neither one of us) Wants to be the first tosay
Neither one of us (Neither one of us) wants to be the first tosay
Fairwell my love, goodbye (goodbye)
É triste pensar que não vamos conseguir,
e chegou ao ponto em que simplesmente não podemos fingir mais.Por alguma incrível razão simplesmente não deixamos isso morrer,
porque acho que nenhum de nós quer ser o primeiro a dizer adeus.

Fico pensando o que vou fazer sem você (vida),
e acho que você deve estar pensando a mesma coisa também.

Assim, seguimos juntos vivendo a nossa mentira.
Porque nenhum de nós quer ser o primeiro a dizer adeus.

 

Todas as vezes que encontro coragem de dizer que estou indo embora,
as lembranças, as velhas lembranças, me atrapalham.
Deus sabe que é apenas a mim que estou enganando.
Quando se trata de dizer adeus, essa é uma simples palavra que não consigo dizer.

 

Parece não haver jeito que isso possa ter um final feliz.
Assim, seguimos nos magoando e fingindo,
e prometendo a nós mesmos tentar só mais uma vez,
apenas porque nenhum de nós quer ser o primeiro a dizer adeus.
Porque nenhum de nós quer ser o primeiro a dizer adeus.
Porque nenhum de nós quer ser o primeiro a dizer adeus.
Porque nenhum de nós quer ser o primeiro a dizer adeus.

 

As Fases da Sombra

ORROZ

Quando o sol se encontra no zênite, ou no nadir, ou quando se oculta atrás das nuvens de Samsara[1], diz-se entre os humanos que a sombra se foi.

Isto (a vida mundana) é como o frescor que reina

quando as nuvens aparecem no céu.

Todos os seres amam e choram.

Todos se debatem nas águas amargas do nascimento e da morte”[2].

“Oh Kashyapa! Não diga que existe uma árvore e que ela não tem sombra (na escuridão). Isto é meramente porque os olhos carnais não podem vê-la”[3].

Em todas essas fases da sombra, não se diga que a sombra se foi, mesmo quando o sol se encontra a pino e dispersa toda a escuridão ao redor. São fases nas quais, pode-se dizer, a sombra recai sobre si e só pode ser vista com os olhos da sabedoria, quando os cinco skandhas[4] estão à flor da pele. Aqui se explicam as caras e bocas, e como sabíamos quem fora o mestre de ORROZ que doravante, pergunta-se, seria uma pessoa nessas fases da sombra, nas quais é impossível perceber a presença de seu fiel alazão que prometeu segui-lo como a sombra segue o corpo?

Certamente. E por quê? Porque todos os seres, indistintamente, experimentam essas fases da sombra, cuja natureza só pode ser reconhecida pelos olhos da sabedoria. Com ORROZ não poderia ser diferente, e este ato encerra-se aqui.

 


 

[1] Mundo Tríplice da matéria, do espírito e do desejo.

[2] Sutra do Nirvana, Capítulo 2 – Sobre Cunda.

[3] Sutra do Nirvana, Capítulo 4 – Sobre Longa Vida.

[4] Cinco skandhas ou agregados que formam a consciência de um humano: tato (forma, matéria, rupa), sensação (sentimento), percepção (intuição), volição (compulsão), e têm-se consciência.

 

O Corpo e a Sombra

ORROZ

Mas, lá atrás, inconformado com o abandono, ‘El Diablo’ rosnava:

‘Ele não pode me abandonar assim, depois de tantos anos. Dei-lhe montaria, fui os seus passos em longas caminhadas pelos campos daquele país, fui o mentor de muitos dos seus atos mais midiáticos, dei-lhe poder. Não pode me deixar assim’. E resolveu seguir o seu antigo dono.

Milhas adiante, ORROZ estranhava aquele relinchar que lhe era familiar ainda a ecoar em sua mente.

Naquele ponto, onde o caminho se desdobrava, a dúvida em ‘El Diablo’ o enfureceu:

‘Que rumo terá tomado aquele ingrato?’

Relinchou com fúria, evocou seus poderes sobrenaturais e transformou-se em imagem e semelhança de ORROZ, seu antigo dono, e conjurou: ‘Vou persegui-lo como a sombra segue o corpo’.

A única diferença agora entre ambos era um dente de ouro imposto pelo carma passado de ‘El Diablo’, e que seu poder de transformação não fora suficiente para dissimular. Pensou, então:

Basta não sorrir e, quando alcança-lo, decidirei o que fazer. Afinal, ninguém irá notar essa pequena diferença. Ao não sorrir, serei sua imagem e semelhança sisuda, a qual ele trabalhou tanto para associá-la a si. Por tudo o que fizemos juntos, seguirei à direita’.

Assim, exceto aos olhos dos mortais comuns, ORROZ se transformou em duas imagens, embora unas na realidade objetiva, como o corpo e a sombra.

 

A Trilha à Esquerda

ORROZ

Quando ORROZ tomou a trilha à sua esquerda, aquela mais escarpada, sentiu uma estranha sensação de leveza. Mas, não era em seu pesar. Era como se milhares, milhões de pequenos seres passassem a impeli-lo e a suportá-lo em seu pisar. De fato, sentia uma espécie de formigamento em todo seu corpo, uma imagem daqueles pequenos seres que num esforço coletivo carregam pesadas cargas.

Mas ainda relutava em aceitar algumas coisas que lhe foram imputadas naquele Tribunal da Equanimidade. Pensava: ‘Eu não dei rolezinho[1] nenhum. Não posso concordar com isso’.

Quando assim pensou pela terceira vez, vozes ecoaram estrondosamente ao seu redor: ‘Deu sim, deu sim, deu sim…’. E de um eco inicialmente ensurdecedor, as vozes foram se fundindo até o uníssono, quando ouviu:

“ORROZ, somos muitos, mas não algo que se possa contar; somos muitos, mas não algo que se possa distinguir uns dos outros; porque somos um”.

Então, ORROZ se lembrou dessa passagem registrada em seu diário no dia em que perguntou: ‘quem são vocês afinal?’ Condescendeu em ouvir a explicação que se seguiu:

“ORROZ, uma pessoa da sua importância reflete a vida de muitos milhares, milhões de outras pessoas. Semelhantes ou não, essas pessoas têm as suas vidas quase sem significância refletidas em você, como se fossem minúsculas pastilhas de espelho coladas em você, a conferir-lhe a textura de um ser humano de grau superior.

Eles são essas formiguinhas que estão a levitá-lo em sua árdua caminhada, mas que nada podiam fazer quando na montaria de ‘El Diablo’ você as pisoteava. Compreende agora o que significa derivar à esquerda, ORROZ? Compreende agora que aqueles muitos dos ‘rolezinhos’ que assombraram aquele país eram você? E que você é a esperança de suas vidas sem significância perante a instituição à qual você pertence?

ORROZ, para sair definitivamente daquele atoleiro, daquela areia movediça que representa o apego, dê o primeiro passo. Quer saber qual o primeiro passo a ser dado? Abandone-se, esqueça as próprias ofensas, aceite-as com a humildade daqueles pequenos, e coloque as ofensas que lhes afligem há séculos como algo de interesse maior em sua vida. Esqueça o ‘eu’ e tudo que pertença ao ‘eu’, tornando-se mais leve; e assim, aquelas formiguinhas o carregarão para um lugar seguro”.

Ao que ORROZ respondeu:

“Certo!”

 


 

[1] O Rolê de ORROZ.

 

A Imagem do Alazão

ORROZ

Então, diante do Tribunal da Equanimidade, depois de muito meditar, ORROZ decidiu se pronunciar, dizendo:

“Quero voltar. Deixei uma família humilde para trás e quero cuidar deles. Lá, todos sabem que eu não sou uma má pessoa, e conhecem as minhas verdadeiras intenções. Quero voltar!”, exclamou.

Ao que uma voz terna lhe respondeu:

“Oh, ORROZ, não se aflija! Aqui também o sabemos. Não apenas que você não é uma má pessoa, mas também as suas verdadeiras intenções. Conhecemos também suas melhores qualidades, suas ações meritórias, a pureza de muitos dos seus pensamentos, e tudo com muita profundidade. Não se aflija!

ORROZ, pessoas menores, destituídas de méritos, sequer adentram o recinto deste Tribunal da Equanimidade. É por essa razão que você se sente tão só”.

ORROZ prosseguiu:

“No entanto, tenho preocupações. Conheço o caminho, mas receio que ‘El Diablo’ não resista, está esgotado, não tem forças para me levar de volta”.

Então, ouviu vozes em uníssono:

“Abandone-o, ORROZ!”

“Como poderia? Esse cavalo tem sido meu companheiro nessa jornada. Tenho cuidado dele como um filho, como poderia sacrificá-lo agora? Parece não entenderem o que ‘El Diablo’ representa na minha vida”.

Ouviu, então:

“Oh ORROZ! Como poderíamos não saber? Ele, ‘El Diablo’, seu fiel alazão, representa a soberba. E você não poderia sacrificá-lo, ORROZ. Por quê? Esse cavalo é um ser não-nascido, um imortal na linguagem mundana, e é montaria de muitos outros. Procure lembrar como você o adquiriu”.

ORROZ confessou:

“Não o criei, nem o adquiri. Ele apareceu diante de mim, certo dia em minha vida, quando tudo parecia estar dando certo para mim. Mais precisamente, foi no dia em que recebi aquela nomeação. Evidente, vocês sabem qual”.

“Certo, ORROZ! Para além das outras muitas qualidades, você possui boa memória, também. Aquele cavalo não nasceu ou foi criado para você. Ele é uma imagem que surge na mente dos tolos, e que passa a controlar os seus movimentos, como uma montaria. Por essa razão, dissemos para abandoná-lo, não para sacrificá-lo. ‘El Diablo’ é uma imagem, é como uma bolha na água, uma miragem no deserto. Como poderia sacrificá-lo?”

“Então devo seguir sozinho?”, indagou ORROZ.

“Sim, sozinho! Devemos alertá-lo de que os oito ventos soprarão forte, mas não olhe para trás. O que você estará abandonando é apenas uma imagem, lembre-se, sem uma substância real. Para além do Cabo das Tormentas, e de frente para aquele país distante que fica a oeste daqui, e que se chama ‘Ingratidão’, a força dos ventos se intensificará, e será muito difícil suportá-la. Mas, siga! Você receberá toda a ajuda necessária, desde que não desista”.

Então, ORROZ se voltou para oeste e iniciou a sua jornada de volta. Sentia-se caminhar sobre areia movediça, pois a intensidade do relinchar de ‘El Diablo’ não se atenuava em sua mente. Era tão belo, tão fogoso, pensava. Mas, não olhou para trás, como lhe fora recomendado.

Ouviu uma voz acolhedora e envolvente, que ecoava em todas as direções:

“ORROZ, essa areia movediça é o apego, abandone-o por completo. Siga pela trilha à esquerda, aquela mais escarpada. Embora lhe pareça mais inóspita, por ali você se sentirá mais leve”.

“Certo!”, disse ORROZ.

 

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