Sutra do Nirvana – Cap. 8 – Os Quatro Fidedignos

A Árvore Medicinal

Então o Honrado pelo Mundo disse a Cunda: “As coisas que você vê não são raras?”

“Sim, realmente, Honrado pelo Mundo! Os inumeráveis Budas que eu vi, todos possuem as 32 marcas (sinais) da perfeição e as 80 características menores de excelência. Eles eram assim adornados. Todos os Bodhisattvas são grandes no tamanho, todos maravilhosos e seus semblantes são incomparáveis. Assim eu vi. Somente o corpo do Buda é como o de uma Árvore Medicinal, circundada por todos os Bodhisattvas.”

O Buda disse a Cunda: “Todos os Budas que você viu antes eram Budas da minha própria transformação [isto é, projeções]. Era para beneficiar todos os seres e torná-los felizes. Todos esses Bodhisattvas Mahasattvas aqui têm inumeráveis coisas a praticar (fazer). Todos eles fazem o que os inumeráveis Budas fazem. Oh Cunda! Agora você realizou (abarcou) o que os Bodhisattvas fazem e está completo (perfeito) naquilo que o Bodhisattva dos dez ‘bhumis’ (estágios) faz.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 17: Sobre Questões Suscitadas pela Multidão.

O Mais Elevado Voto do Tathagata

“Se qualquer Monge, Monja, Leigo ou Leiga aspirar ao mais elevado voto do Tathagata, saiba que tal pessoa não terá ignorância e será digna de receber oferecimentos. Por força do poder do voto, as virtudes e frutos das ações daquela pessoa no mundo serão como aquelas de um Arhat; alguém que não possa meditar sobre a eternidade dos Três Tesouros é um candala. Se uma pessoa puder de fato conceber a eternidade dos Três Tesouros, essa pessoa deixará para trás o sofrimento que surge da causalidade da existência, atingirá a paz, e não haverá tentação, dificuldades ou problemas de preocupações, os quais ficarão para trás.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 17: Sobre Questões Suscitadas pela Multidão.

Estou Sempre Aqui

Então todos aqueles congregados lá, de acordo com o desejo do Buda, pensaram dessa maneira: “O Tathagata agora aceita os nossos oferecimentos. Tão logo, ele entrará no Nirvana.”

Pensando assim, eles ficaram tanto alegres como tristes. Através do poder divino do Buda, num espaço do tamanho da ponta de uma agulha, estavam congregados inumeráveis Budas e seus séquitos, todos os quais sentaram e comeram. O que eles comeram era tudo igual [a mesma comida], sem diferença.

Então os devas, asuras e todos os outros choraram e ficaram tristes. Eles disseram: “O Tahagata recebeu os nossos oferecimentos finais. Tendo recebido-os, ele entrará no Nirvana. A quem faremos oferecimentos agora? Agora, com o insuperável Mestre (Treinador) tendo partido de nós, somos todos como homens cegos.”

Então o Honrado pelo Mundo, com o propósito de consolar todos aqueles lá congregados, falou em versos (gatha):

“Não chorem! O Dharma de todos os Budas é assim.
Já há inumeráveis kalpas desde que eu entrei no Nirvana.
Eu já alcancei o melhor dos Êxtases (Bênçãos)
e me repousei para sempre na paz.

Agora, ouçam com todo seu coração!
Falarei agora sobre o Nirvana.
Eu agora estou apartado do sentido da [degustação da] comida;
eu agora não sinto sede.
Eu agora, para o vosso benefício,
falarei sobre os votos passo a passo
e farei com que todos sejam abençoados com a paz.

Ouçam bem e pratiquem o Dharma eterno de todos os Budas.
Se corvos e corujas viverem numa árvore
e tornarem-se amigos um do outro como irmãos,
eu atingirei o Nirvana para a eternidade.
O Tathagata vê a todos os seres como ele vê Rahula.
Eu sempre serei o mais honrado de todos os seres.
Como eu poderia entrar no Nirvana para toda a eternidade?

Se cobras, ratos e lobos viverem num buraco
e tornarem-se amigos um do outro como irmãos,
eu entrarei no Nirvana para a eternidade.
O Tathagata vê a todos os seres como ele vê Rahula.
Ele torna-se sempre o mais honrado pelos seres.
Como ele pode permanecer por longo tempo no Nirvana?

Se a saptaparna [uma planta amarga] se transmutasse em varsika [jasmim],
se karu [genciana] se transmutasse em tinduka [diospyros embryoteris],
então, eu poderia perfeitamente entrar no Nirvana.
O Tathagata vê a todos como ele vê Rahula.
Como ele poderia abandonar a compaixão
e entrar no Nirvana por um longo tempo?

Se um icchantika pudesse, em seu corpo presente,
atingir a Iluminação e o Êxtase em primeiro-grau,
então certamente eu entraria no Nirvana.
O Tathagata vê a todos como ele vê Rahula.
Como ele poderia abandonar a compaixão
e entrar no Nirvana por um longo tempo?

Se todas as pessoas atingissem a Iluminação ao mesmo tempo
e abandonassem todas as maldades,
eu certamente atingiria o Nirvana.
O Tathagata vê a todos como vê Rahula.
Como ele poderia abandonar a compaixão
e entrar no Nirvana por um longo tempo?

Se a água (impura) dos mosquitos e moscas
pudesse de fato molhar toda a terra
e encher os rios, vales e mares,
eu entraria no Nirvana.
Meu coração compassivo vê a todos como eu vejo Rahula.
Eu sempre sou o honrado de todos os seres,
como eu poderia permanecer longo tempo no Nirvana?

Por esta razão, procurem profundamente pelo Dharma Maravilhoso.
Não sejam ansiosos (preocupados) em demasia, não lamentem, não chorem.
Se você deseja agir corretamente,
pratique a eternidade do Tathagata;
guarde o pensamento de que esse Dharma vive longamente
e que não há mudança.

Também, esteja consciente do fato de que os Três Tesouros são todos eternos.
Isto originará uma grande proteção.
É como no caso de uma árvore morta que,
como resultado de encantos mágicos, vem a frutificar.
Esses são os Três Tesouros.

Todos vocês, as quatro classes de pessoas! Ouçam bem!
Ao ouvir bem, a alegria nascerá e o Bodhichitta surgirá.
Se os Três Tesouros surgem como (sendo) eternos
e são como ‘Paramartha-satya’ [Realidade Última],
este é o mais supremo dos votos de todos os Budas.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 17: Sobre Questões Suscitadas pela Multidão.

O Grande Nirvana na Era da Maldade

“Também, além disso, oh bom homem! Por exemplo, uma ordenhadeira, com a intenção de obter um lucro exorbitante, adiciona 20% de água ao leite e o vende para outra mulher que, novamente, adiciona 20% de água e o vende para uma mulher que vive próximo à cidade-castelo. Essa mulher adiciona mais 20% de água e o vende para uma mulher que vive no castelo. Essa mulher compra o leite e leva-o para o mercado e o vende. Naquela ocasião, havia uma pessoa que receberia uma mulher para o bem do seu filho. Ele queria usar um bom leite para servi-lo à sua hóspede. Ele foi ao mercado e queria comprar algum (leite). A vendedora do leite pediu o preço normal. O homem disse: ‘Esse leite contém um bocado de água. Então, ele não vale o preço normal. Hoje eu tenho que receber uma visita. Então vou comprá-lo’. Chegando com esse leite em casa, ele cozinhou um mingau de cereais, mas o mesmo não tinha o sabor do leite. Embora ele não tivesse qualquer sabor do leite, ele era de longe melhor que qualquer coisa amarga; era mil vezes melhor. Por quê? Porque dentre todos os sabores, o do leite é o melhor.

Oh bom homem! Quando eu morrer, durante os 80 anos quando o Dharma Maravilhoso ainda não tiver expirado, este sutra será amplamente propagado no Jambudvipa. Naquela ocasião, haverá muitos Monges mal intencionados que dividirão esse sutra em partes e o simplificarão de tal maneira que a cor, o sabor, a beleza e o paladar do Dharma Maravilhoso serão perdidos. Todas essas más pessoas lerão este sutra, espoliarão o profundo e essencial significado do Tathagata, introduzirão palavras meramente pretensiosas, decorativas e sem sentido que dizem respeito ao mundo. Eles arrancarão a parte da frente e a adicionarão à parte de trás do sutra, ou pegarão a parte de trás e a adicionarão à da frente, ou colocarão as partes da frente e de trás no meio e o meio na frente e atrás. Saiba que tais Monges são amigos de Mara. Eles receberão e guardarão todas as coisas impuras e dirão que o Tathagata deu-lhes permissão para agirem assim. Isto é como a ordenhadeira que adicionou água ao leite. Ocorrerá o mesmo com esses Monges maldosos. Eles adicionarão palavras da vida mundana, espoliarão as palavras estabelecidas e corretas dos sutras, e obstruirão o acesso dos seres aos sermões corretos, às cópias corretas, à compreensão correta, honrando, reverenciando, fazendo oferecimentos e respeitando [os sutras].

Em razão da busca pelo ganho, esses Monges mal intencionados não disseminarão esse sutra. O mundo em que os seus benefícios serão obtidos será tão limitado que não merece ser mencionado. Isto é como no caso da pobre ordenhadeira que adiciona água ao leite e o vende de tal maneira que o mingau que será feito mais tarde não terá o sabor do leite. O mesmo é o caso com esse Sutra Mahayana do Grande Nirvana. O seu paladar será gradualmente diminuído e [eventualmente] nenhum sabor restará. O espírito partirá; e ainda assim ele será 1.000 vezes melhor que os outros sutras. É como com o leite diluído, que ainda é 1.000 vezes melhor do que qualquer coisa amarga. Por que é assim? Porque esse Sutra Mahayana do Grande Nirvana é o melhor dentre todos os sutras da classe dos Sravakas. É como com o leite, que é o melhor de todos os sabores. Por essa razão, dizemos Grande Nirvana.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 16: Sobre o Bodhisattva.

Budismo, Ciência, Razão e Sonhos – Fascículo V

Conteúdo deste Fascículo:

O Quê a Ciência Não Viu e as Três Grandes Barreiras

A Razão, do Abrangente ao Restrito

Um Sonho Sobre o Passado

Carta a Um Amigo

A Caixa Preta

A Visão de 29 de Agosto

O Ministro Sábio

“Oh bom homem! Aquilo que o Tathagata diz em termos secretos é profundo, não é fácil compreender. É como no caso de um grande rei que ordena aos seus ministros trazerem-lhe ‘saindhava’. A palavra ‘saindhava’ possui quatro significados. Primeiro, ela significa ‘sal’; segundo, ‘utensílio’; terceiro, ‘água’; e quarto, ‘cavalo’. Dessa maneira, quatro coisas possuem o mesmo nome. Um ministro sábio conhece o conteúdo dessa palavra. Quando o rei está banhando-se e pede ‘saindhava’, ele lhe dá água. Quando o rei está comendo e pede ‘saindhava’, ele lhe dá sal. Quando ele acabou de comer e deseja tomar um suco e pede ‘saindhava’, ele lhe dá um utensílio. Quando ele deseja sair em recreação, ele lhe dá um cavalo. Assim, o ministro sábio compreende bem o significado das palavras do grande rei.

A situação é a mesma com este Sutra Mahayana do Grande Nirvana. Existem quatro não-eternos. O ministro sábio do Mahayana deve conhecê-los bem. Se o Buda aparece no mundo e diz que ele está a entrar no Nirvana, o ministro sábio deve saber que o Tathagata está falando do não-eterno para aqueles que aderem ao ‘ser’ e deseja ensinar os Monges a praticar o não-eterno. Ou ele pode dizer: ‘O Dharma Maravilhoso está para expirar’. O ministro sábio deve saber que o Tathagata está falando do sofrimento para aqueles cujo pensamento adere à (o conceito de) ‘felicidade’, e faz com que os Monges residam num pensamento de sofrimento. Ou ele pode dizer: ‘Estou doente agora e com dor; todos os Monges expiram’. O ministro sábio deve saber que o Tathagata está se dirigindo àqueles apegados ao eu sobre a questão do altruísmo e deseja fazer com que os Monges pratiquem a idéia de altruísmo. Ou ele pode dizer também: ‘O assim chamado Vazio é a verdadeira emancipação’. O ministro sábio deve saber que o Tathagata pretende ensinar que não existe verdadeira emancipação e as 25 existências (ao mesmo tempo). Isto é para os Monges praticarem a Vacuidade. Dessa forma, a correta emancipação é a Vacuidade e, portanto, é imóvel. ‘Imóvel’ significa que na emancipação não existe sofrimento. Portanto, imóvel. Essa verdadeira emancipação é chamada ‘sem-forma’. Sem-forma significa que não há cor, voz, odor, sabor ou tato. Assim, não há características. Portanto, a verdadeira emancipação é eterna e imutável. Com essa emancipação, não há não-eterno, nada quente, nem preocupações e nem mudanças. Por isso, essa emancipação é chamada eterna, imutável, pura e fria. Ou ele pode dizer: ‘Todos os seres possuem a Natureza-de-Buda’. O ministro sábio deve saber que o Tathagata está falando do Dharma Eterno e deseja que os Monges pratiquem o aspecto correto do Dharma Eterno. Saiba que qualquer Monge que pratique assim a Via é verdadeiramente meu discípulo. Ele de fato penetra o repositório secreto do Tathagata, exatamente como o ministro compreende bem o pensamento do rei. Oh bom homem! Assim, o grande rei também tem a sua lei secreta. Oh bom homem! Como poderia ser que o Tathagata não a possuísse? Por essa razão, é difícil conhecer o ensinamento secreto (oculto) do Tathagata. Somente um homem sábio pode alcançar as grandes profundezas daquilo que eu ensino. Isto é o que os mortais comuns podem bem acreditar.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 16: Sobre o Bodhisattva.

A Pele da Serpente

“Também, além disso, oh bom homem! Você acha que a morte vem ou não para a serpente conforme ela troca a sua pele?”

“Não, oh Honrado pelo Mundo!”

“Oh bom homem! O mesmo é o caso com o Tathagata. Ele utiliza-se de um expediente e manifesta-se descartando o não-eterno, o corpo envenenado. Você acha que o Tathagata é não-eterno e morre?”

“Não é a palavra, oh Honrado pelo Mundo! O Tathagata abandona seu corpo neste Jambudvipa como um expediente. O caso é como o de uma serpente que troca (e abandona) a sua pele velha. Este é o porquê dizermos que o Tathagata é Eterno.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 16: Sobre o Bodhisattva.

A Flor do Lótus

Myoho-Rengue-Kyo é comparada ao lótus. A flor de mahamandarava no céu e a flor de cerejeira no mundo humano são celebradas, mas o Buda não escolheu nenhuma delas para ser equiparada ao Sutra de Lótus. De todas as flores, ele selecionou a Flor de Lótus para simbolizar o Sutra de Lótus. Há uma razão para isto. Algumas plantas primeiro florescem e depois produzem frutos, ao passo que em outras os frutos aparecem antes das flores. Algumas geram somente uma flor, mas muitos frutos; outras lançam frutos sem florirem. Deste modo, há várias espécies de plantas, mas o lótus é o único que produz flores e frutos simultaneamente. Os benefícios de todos os outros sutras são incertos, pois ensinam que a pessoa deve primeiro fazer boas causas e, só então, poderá tornar-se um Buda em algum tempo a seguir. O Sutra de Lótus é completamente diferente. Uma mão que o segura imediatamente atinge a iluminação, e uma boca que o recita instantaneamente entra no Estado de Buda, assim como a lua é refletida na água no momento em que se eleva por detrás das montanhas do leste, ou como o som e seu eco surgem concomitantemente.”

Nitiren Daishonin em Wu-Lung e I-Lung, em 1281.

As Escrituras de Nitiren Daishonin, Vol. IV.

Sutra do Nirvana – Cap. 7 – Os Quatro Aspectos

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