Em Tempos de Carnaval

ORROZ

“Naquela ocasião, ORROZ, ocorreu o primeiro fato relevante para a remoção do entulho autoritário que você deixou às suas costas. Por que dizemos entulho? Porque é produto da desconstrução, da demolição de uma teia de intrigas já qualificada aqui como uma farsa. Aquela montanha atrás de si, ORROZ, e que lhe protegeu após dobrar o cabo das tormentas, começa a ruir, e os oito ventos[1] voltarão a soprar. Aquele do declínio soprará de leste para oeste, em oposição à sua caminhada; o da desventura soprará de norte para sul, podendo traduzir-se em depressão; o da calúnia soprará de fora para dentro, em todas as direções; e o do sofrimento, de dentro para fora, também em todas as direções. Em pouco tempo, a máscara daquele cavaleiro audaz também cairá. Seus pares promoverão a mitigação dos efeitos danosos da sua passagem por ali, em tempos de carnaval”.

 


 

[1] Oito ventos: prosperidade, declínio, honra, desgraça, elogio, calúnia, felicidade e sofrimento.

 

 

 

 

 

De Volta ao Caminho Médio

ORROZ

Estarrecido, ORROZ ensaiou reação:

“Então, de acordo com este Tribunal da Equanimidade, o que praticamos lá atrás é iniquidade? Não há um caminho?”

Ao que vozes em uníssono responderam:

“Sim, ORROZ! O que praticam é iniquidade. Quanto ao caminho, recomenda-se a compaixão. O que isto significa no seu caso? Oh, filho da cobiça, não sabe o que significa compaixão? Espelhe-se no seu mentor, o Dharma da Equanimidade, aquele que o criou, e procure sem demora o Caminho Médio.”

 

 

 

 

 

A Farsa Desnudada

ORROZ

ORROZ, o Caminho Médio, ou estado imperturbável que deveria ser contemplado pela justiça, só se altera quando aparece aquele termo anarmônico[1] que caracteriza os fenômenos, e que lhes confere propriedades físicas no mundo da matéria e forças. Podemos dar muitos nomes para essa anarmonia, a saber:

quebra de simetria,

impureza,

imperfeição,

iniquidade,

discordância,

finitude,

tempo,

falha,

nascimento,

vida,

morte,

existência.

No extremo, tudo o que se poderá saber no mundo fenomenológico é que sua verdade estará contaminada por todas essas coisas enumeradas acima. Como poderia ser diferente com os processos que você julga, ORROZ? E que nome poderíamos dar a isto senão uma farsa?

É aqui que se pode dizer haver algo pior do que uma mentira: é uma convicção. E no seu caso, ORROZ, a convicção tirou-lhe a razão, sem antes lhe transformar no grande tolo que se voltou para leste apenas agora, quando pouco tempo falta para aquela montanha ruir e a farsa ser desnudada.

Logo mais, você relembrará as alternativas que teve, mas que lhe foram roubadas pela sua própria convicção”.

 


 

[1] Conceitualmente, os cinco elementos (terra, água, fogo, ar e kuu) constituem impurezas num estágio superior, pois seus microconstituintes, moléculas – átomos – partículas elementares, já as são num grau mais fundamental, a partir das quais se descrevem todos os fenômenos do universo conhecido. Um tratamento teórico sobre a Contribuição Anarmônica encontra-se em O Cristalino.

 

 

 

 

 

O Dharma da Equanimidade

ORROZ

Agora, mais calmo, ORROZ perguntou:

“Vocês agem como pais extremamente rigorosos para comigo. Por que eu? Há tantos outros sobre os quais nem cabe falar, pois aqui estou só. Por que eu?”

Ao que uma voz profunda ecoou no Tribunal da Equanimidade:

“Porque foi esse Dharma da Equanimidade[1] que o criou, ORROZ, e que o alçou ao poder. Uma vez lá, você só fez caluniar esse Dharma, deixando-se tomar pela soberba.

Até então, você desconhecia o verdadeiro nome daquele país, marcado por tanta injustiça e desigualdade. Mas agora o sabe: ‘Ingratidão’.

Você se juntou aos ímpios, aos grandes caluniadores do Dharma da Equanimidade, deu-lhes uma voz soberana em meio aos poderes estabelecidos – uma voz que de há muito lhes faltava – e fez coro para suas falácias insinceras, iludindo um sem número de pessoas de boa fé que clamavam pela correção dos descaminhos daquela nação. E assim, levou um país inteiro a espiar o mundo pelo buraco da fechadura, significando levá-lo a julgar o todo a partir de uma visão parcial dos fatos apontados nos autos. Por que ‘buraco da fechadura’? Olhe para si mesmo, ORROZ, você é o buraco da fechadura da porta da sala onde se guardavam os autos protegidos por segredo de justiça, e que você mesmo assim determinou. Agora, está só. Não precisam mais de você”.

 


 

[1] Por ser eterno, não-nascido, o Dharma da Equanimidade “surge” no Sutra de Lótus e resplandece no Sutra Diamante e no Sutra do Nirvana, em toda a sua extensão. A quem interessar, ler ‘O Daimoku do Sutra de Lótus’.

 

 

 

 

 

O Outro Lado

ORROZ

Quando ORROZ dobrou o cabo das tormentas, e se voltou para leste, aqueles que estavam atentos naquele país a oeste puderam ver o que estava por trás. E pela primeira vez, desde a sua inesperada aparição, via-se claramente que ORROZ era uma pessoa comum, quando visto por detrás. Percebia-se no detalhe um ser cabisbaixo seguido por milhares e milhares de moscas de variadas matizes rondando a sua mente, a confundir seus próprios pensamentos. Moscas, como as mentiras, vivem pouco, mas surgem em sucessão como se fossem eternas. Roubam seu alimento, o contaminam, e seguem para a extinção deixando milhares de sucessoras. O alimento sobre o qual falamos aqui é o Maná do Dharma da Equanimidade. Assim, cabisbaixo, ORROZ ainda não via a perspectiva adiante em que seu caminho também se fechava, como ocorre para todos os mortais. Estes, quando se vão, deixam apenas um rastro atrás de si, ninguém se atreve a falar sobre o que lhes espera, exceto suas ações que bem o dizem. Mas, naquele país do ‘tanto faz’, o desinteresse pela justiça é confesso no seu caso, não é ORROZ? “Der o que der, para mim tanto faz!”, dizem os desinteressados pela justiça nas mais cruciais situações, quando se voltam para leste, dão as costas para a realidade que criaram e não conseguem enfrentar. Mas, livre dos oito ventos[1], ORROZ se pôs a cavalgar naquela direção.

 


 

[1] Oito ventos: prosperidade, declínio, honra, desgraça, elogio, calúnia, felicidade e sofrimento.

 

 

 

A Cidadela

ORROZ

ORROZ, está para prescrever o crime que foi cometido antes, e que inspirou o já transitado em julgado. Se isto acontecer, ORROZ, o que será de ti?

Oh ORROZ, não se escapa daquela cidadela. É um lugar sem sê-lo, é onde se promiscuem os rebaixados do mundo com suas visões distorcidas, é onde se comprimem os corpos emaciados dos injustos, iníquos, descrentes, fariseus e indolentes; tudo num mesmo lugar que não é lugar algum. Lá, todos os maus odores se misturam, não há luz, resvala-se o tempo todo no que é asqueroso. Ouve-se um borbulhar de águas ferventes subterrâneas, um sentimento de aversão ao passado nos assombra, e nada se vê além de um abismo. Não há escadas para galgar o profundo abismo, ou para descer da vacuidade das alturas alçadas pelas ilusões do Mundo Tríplice. Já estive lá! Sonha-se com a fuga daquele lugar, mas já não há um ‘eu’ que possa escapar.

Este ato encerra-se aqui. Vamos ao outro lado”.

 

 

 

O Cabo das Tormentas

ORROZ

ORROZ voltou a atormentar-se com a ideia da equanimidade, a qual aniquila poderes, dissolve circunstâncias, exproba as vicissitudes dessa vida mundana. Pensou em não ir mais ao tribunal, chegando a declarar ‘chegada a hora de sair’. Mas, se o fizesse com o sentido da missão cumprida, pecaria pela omissão e iniquidade. Se o fizesse pela dificuldade de seguir adiante, pecaria pela indolência. Se nada fizesse, seria devorado pelos leões[1] da dura realidade, que rugem famintos por carne fresca.

“Não posso acabar assim!”, dizia-se ao despertar daquele pesadelo, pois o cavalo fez uma curva de 180 graus, a tempestade com seus oito ventos amainou, mas ainda incomodava-lhe o odor de cadáveres pelo chão.

“Oito ventos”? Indagou ORROZ ao léu.

Uma voz lhe surpreendeu com exatidão absoluta.

“Sim, ORROZ, são oito: prosperidade, declínio, honra, desgraça, elogio, calúnia, felicidade e sofrimento. Para cada um, seu oposto a impor o Caminho Médio”.

“E quando voltarão a soprar”? Voltou-se ansioso para leste.

“Quando varrerem, e para sempre, o que resta da montanha dos pequenos poderes atrás de ti, neste cabo das tormentas, e que descortinarão a dura realidade daquele imenso país a oeste daqui, e que se chama ‘Ingratidão’”, respondeu a voz.

 

 


 

[1] Diz-se que leões, antes de desferirem seus ataques, dão um passo para trás e, ao desferi-los, nunca perdem as suas presas.

Sobre a Boa Lei

ORROZORROZ! Percebemos seu incômodo quando utilizamos a palavra tergiversação. Oh, ORROZ! Aqui, neste Tribunal da Equanimidade, falamos da Boa Lei. O que é tergiversar a Boa Lei?

É arrancar o seu fim (que é a justiça) e colocá-lo como meio (um instrumento de poder); é pegar o seu princípio (de moralidade e correção) e colocá-lo como fim (sentença e punição); e pegar o meio (a arguição) e colocá-lo como princípio ou fundamentação da sua aplicação.

Isto é tergiversar a Boa Lei, pois, sem que se altere as suas letras, condena-se com base em argumentos, e nada mais; ou absolve-se com base em procedimentos, e tudo mais.

Nesse caso, a justiça, cujo papel deveria ser o de amparar a sociedade, apresenta-se como um poder opressor, com relação ao qual se deve nutrir um sentimento de medo. Por que o medo? Porque pequenas leis injustas todos transgridem, e o fazem enquanto a justiça não lhes acolhe.

 

 

OTNOT

ORROZORROZ tinha um companheiro chamado OTNOT. Este era um índio da região central daquele país distante chamado “Ingratidão”, e que fica a oeste daqui.

Dizem que OTNOT vestia uma roupa de pele de animal por debaixo da toga e, como todo bom índio, já estava por lá quando ORROZ chegou àquelas paragens.

Certo dia, OTNOT, já acostumado com o clima seco daquelas altitudes, ensejou uma pequena contenda com ORROZ sob as luzes da ribalta. O clima quente e seco tornava-se ainda mais árido com o resplendor dos holofotes e, em acalorada discussão, ORROZ se viu na necessidade de impor sua autoridade num brado retumbante que ecoou país afora:

– ‘Não sou seu capanga’! O capanga aqui será você, pensou.

Esse dia, que marcou para sempre o papel de OTNOT naquela relação, ficou conhecido como “O Grito da Desigualdade entre Pares”. A natureza intrinsecamente paradoxal daquele brado passou despercebida por muitos, assombrou a nação, e selou o papel coadjuvante de OTNOT na lenda de ORROZ, um ZORRO às avessas. E como não poderia deixar de ser, OTNOT tornou-se um amigo às avessas, um “amigo da onça”, infiel.

 

 

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