Ao Tomar Refúgio nos Três Tesouros

“Oh Kashyapa!

Para o seu benefício,
abrirei agora a porta fechada do repositório e erradicarei sua dúvida.
Ouça o que eu digo com todo o seu coração!
Você, e todos vocês Bodhiattvas,
e o sétimo Buda [isto é, o Buda Kashyapa]
possuem o mesmo nome.
Alguém que se refugia no Buda
é um verdadeiro Monge.
Ele já não se refugia em todos os outros deuses.
Alguém que se refugia no Dharma
evita a si próprio de prejudicar os outros.
Alguém que se refugia na Sangha sagrada
não se refugia nos tirthikas.
Ao se refugiar nos Três Tesouros,
atinge-se o destemor.”

Sutra do Nirvana – TOMO I, Capítulo 12: Sobre a Natureza do Tathagata.

A Matriz Secreta

“Oh Kashyapa!

Agora você vai analisar os Três Refúgios:
assim como é o intrínseco ser [svabhava] dos Três Refúgios,
tão certamente assim é o meu intrínseco ser [svabhava].
Se uma pessoa está verdadeiramente apta a discernir
que seu intrínseco ser possui a Buda-Dhatu [Natureza-de-Buda],
então você deveria saber que essa pessoa
entrará na Matriz Secreta [=Tathagatagarbha].

Aquela pessoa que conhece o Eu [atman]
e que faz parte do Eu [atmiya]
já transcendeu o mundo mundano.
A natureza das Três Jóias, o Buda, o Dharma [e a Sangha]
é suprema e mais digna de respeito;
como no verso que eu proferi,
o significado da sua natureza é assim.”

Sutra do Nirvana – TOMO I, Capítulo 12: Sobre a Natureza do Tathagata.

A Embriaguez das Ilusões

“Uma pessoa intoxicada não sabe quem está próximo ou não, se sua mãe ou irmã, se perde na rudeza e na luxúria, perde a faculdade da fala e dorme em lugares degradados. Pode acontecer de ela encontrar um bom médico, que lhe dê um remédio. Após tomá-lo, ela vomita e recupera a sua saúde; recobra a consciência e o arrependimento se abate sobre ela. Ela se autocensura muito mais e passa a reputar a bebida como a raiz de todos os atos vis. Se ela pudesse livrar-se da bebida, seus maus atos cessariam. O mesmo se passa aqui. Oh Honrado pelo Mundo! Há longo tempo estamos reciclando entre o nascimento e a morte. Estamos perdidos nos prazeres sensuais e vorazmente atados aos cinco desejos. Aquela que não é mãe tomamos como mãe, aquela que não é irmã tomamos como irmã, a que não é fêmea tomamos como fêmea, e os não-seres como sendo seres. Em razão disto, a transmigração continua e sofremos a partir do nascimento e da morte. É como no caso do intoxicado deitado na sarjeta. Oh Tathagata! Por favor, dê-nos o remédio do Dharma, e faça-nos vomitar a bebida vil das ilusões.”

Sutra do Nirvana – TOMO I, Capítulo 3: Sobre a Aflição.

O Corpo Transformado

Então, o Buda disse a Cunda: “Não chore e não abale a sua mente. Pense que este corpo é como uma planta, uma miragem no deserto, uma espuma aquosa, um fantasma, um corpo transformado, o castelo de um gandharva, um tijolo cru, um lampejo, uma pintura desenhada sobre a água, um prisioneiro diante da morte, uma fruta madura, um pedaço de carne, uma malha num tear que está prestes a terminar, e a ascensão e queda de um morteiro. Você deveria pensar que todas as coisas criadas são como comida venenosa e que qualquer coisa composta é inerentemente dotada de todas as aflições.”

Sutra do Nirvana – TOMO I, Capítulo 2: Sobre Cunda.

A Outra Margem do Ser

“Ninguém que tenha sabedoria
encontra prazer num lugar como este.
Este corpo carnal é onde o sofrimento se instala.
Tudo é impuro, como tumores,
carbúnculos, furúnculos e semelhantes.
Nenhuma razão está por baixo.
E o mesmo se aplica àqueles (seres) celestiais sentados acima.
Todos os desejos não terminam.

Assim, eu não me apego.
Descartados os desejos, medite bem,
atinge-se o Dharma Maravilhoso,
e aquele que, definitivamente, eliminou o ‘ser’ (existência samsarica),
pode hoje ganhar o Nirvana.
Eu transpassei para a outra margem do ‘ser’,
e permaneço acima de todas as tristezas.
Assim, eu colho este soberbo Êxtase”.

Sutra do Nirvana – TOMO I, Capítulo 2: Sobre Cunda.

Os Olhos dos Mortais Comuns

“O Manjushri! O garuda voa incontáveis yojanas no céu. Ele olha para baixo no grande oceano e vê coisas da água tais como peixes, tartarugas marinhas, tartarugas migrantes, crocodilos, tartarugas comuns, nagas[1], e também sua própria sombra refletida na água. Ele vê a todas essas coisas da mesma forma como se vê todas as formas visíveis num espelho. A mesquinha sabedoria dos mortais comuns não pode sequer ponderar bem o que chega aos seus olhos. O mesmo é o caso comigo e você também. Não podemos ponderar a Sabedoria do Tathagata.”


[1] naga é uma palavra do Sânskrito e do Pāli que designa uma deidade ou classe de entidades ou seres que assumem a forma de uma enorme serpente, mas muitas vezes com os troncos e cabeças humanas, encontrada tanto no Budismo como no Hinduísmo.

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 02: Sobre Cunda.

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