Sutra do Nirvana – Cap. XX – Ações Sagradas 2

Kashyapa disse ao Buda: “Oh Honrado pelo Mundo! Certa vez o Buda foi às margens do Ganges, na floresta de Simsapavana. Naquela ocasião, o Tathagata arrancou um pequeno ramo de árvore com algumas folhas e disse aos Monges: ‘São muitas as folhas que eu seguro em minhas mãos, ou são muitas todas as folhas das gramas e árvores de todos os solos e florestas’? Todos os Monges disseram: ‘Oh Honrado pelo Mundo! As folhas das gramas e árvores de todos os solos são muitas e não podem ser contadas. Aquelas que o Tathagata segura em suas mãos são poucas em número e não merecem menção’. (Então o Tathagata disse): ‘Oh todos vocês Monges! As coisas que eu vim a conhecer são como as folhas das gramas e árvores da grande terra; aquilo que eu compartilho com todos os seres é como as folhas em minhas mãos’.”

O Honrado pelo Mundo então disse: “As inumeráveis coisas que são conhecidas pelo Tathagata estão contidas em mim somente se elas couberem dentro das Quatro Nobres Verdades. Se não, deveria haver cinco Verdades.”

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Destaques deste Capítulo:

O Desejo como um Débito a Pagar

O Desejo como uma Mulher Rakshasa

O Desejo como uma Bela Flor

O Desejo Como Gula Odiosa

O Desejo como uma Mulher Sensual

O Desejo como uma Semente de Maruka (Glicínia)

O Desejo como uma Carne Esponjosa

O Desejo como uma Tempestade

O Desejo como um Cometa

Os Cinco Dharmas Seculares

A Verdade Real

A Transitoriedade da Mente

A Transitoriedade da Existência Física

O Impresumível Giro da Roda da Lei

Ações Sagradas

As Virtudes do Grande Nirvana

O Voto de Kashyapa

A Admoestação do Shakra Devanam Indra

A Doutrina do Todo-Vazio

O Conselho do Doutor Jivaka

“Se há arrependimento pela maldade que foi cometida, e se nos sentimos envergonhados, o pecado se extingue. Oh grande Rei! Mesmo pequenas gotas de água enchem um grande vaso. É o mesmo com o bom pensamento. Cada bom pensamento [boa volição] esmaga completamente uma grande maldade. Se escondemos a maldade, ela aumenta e cresce. Se a desnudamos e nos arrependemos, o pecado se extinguirá. Por isso que todos os Budas dizem que o sábio não esconde seus pecados. Bem feito, bem feito, oh grande Rei! Você crê na lei da causalidade, no carma, e na retribuição que acontece. Por favor, oh grande Rei, não tenha preocupação ou medo! Existem seres que, perpetrando todas as más ações, não se arrependem, não sentem vergonha e não vêem a lei da causalidade e a retribuição que se seguirá. Eles não indagam outros para se orientarem, e não se aproximam de um Bom Mestre da Via. Essa pessoa não pode ser curada por um bom médico ou pela enfermagem. É como a lepra, para a qual a medicina secular não concebe uma cura. Uma pessoa que esconde seu pecado é como aquilo. Por que dizemos que o icchantika é pecaminoso? O icchantika não acredita na causalidade, não se arrepende, não acredita no carma, não vê o presente e o futuro, não se aproxima de um Bom Mestre da Via, e não age em concordância com as injunções de todos os Budas. Essa pessoa é um icchantika. Essa pessoa é alguém que o Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo não pode curar. Por que não? Mesmo médicos não podem curar um corpo que está morto. O mesmo se passa com o icchantika. Essa pessoa é alguém que o Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo não pode curar. Oh grande Rei! Você não é um icchantika. Como poderia não ser curado?

Você, Rei, diz: ‘Não há meios de cura’. Saiba, oh grande Rei! Em Kapilavastu, havia um príncipe, o filho de Suddhodana. O nome da sua família é Gautama, e o seu nome é Siddhartha. Sem que ninguém o ensinasse, ele despertou para a Verdade e espontaneamente atingiu o insuperável Bodhi, adornando seu corpo desse modo com as trinta e duas marcas da perfeição e as 80 características menores de excelência, obtendo os 10 poderes e os quatro destemores. Ele conhece e vê tudo. Altamente compassivo, ele é piedoso com todos os seres assim como é com o seu próprio filho, Rahula. Ele realmente segue o modo de vida dos seres, assim como um bezerro segue sua mãe. Ele sabe quando falar e quando não. Suas palavras são verdadeiras, puras, maravilhosas e legítimas, e uma simples palavra dele corta os laços das impurezas de todos os seres. Ele conhece completamente a natureza dos sentidos orgânicos e da mente de todos os seres. Ele age de maneira a ajustar-se à ocasião e promulga expedientes, e nada há que não seja conhecido por ele. Sua sabedoria é imensa, como o Sumeru. É profunda e vasta como o grande oceano. Esse Buda-Honrado-pelo-Mundo possui a Sabedoria Adamantina, que acaba completamente com todas as maldades dos seres. Nada há que não seja possível para ele. Agora, a 12 yojanas daqui, na cidade-castelo de Kusinagara, entre as árvores sala gêmeas, ele está prelecionando para inumeráveis asamkhyas de Bodhisattvas tudo sobre coisas como: ‘é’ ou ‘não-é’, o criado ou o não-criado, a falha [‘asvara’], a retribuição-cármica da impureza ou a retribuição-carmica da Boa Lei, matéria ou não-matéria, ou não-matéria.not.não-matéria. Eu ou não-Eu, ou não-Eu.not.não-Eu, o eterno, ou o não-eterno, ou o não-eterno.not.não-eterno, Êxtase, ou não-Êxtase, ou não-Êxtase.not.não-Êxtase, características ou não-características, ou não-características.not.não-características, segregação ou não-segregação, ou não-segregação.not.não-segregação, o secular ou o não secular, ou o não-secular.not.não-secular, veículo ou não-veículo, ou não-veículo.not.não-veículo, auto-doação e auto-recepção, ou recepção dos outros, e não-doação e não-recepção.

Oh grande Rei! Você deveria ouvir no local onde se encontra o Buda, tudo sobre cometer (fazer) e não-receber. Todos os pecados graves serão expiados. Oh Rei! Ouça-me por um momento! Quando Sakrodevendra (Shakra Devanan Indra) estava prestes a ver o fim da sua vida, cinco coisas foram vistas, a saber: 1) roupas exalando um mau-cheiro de óleo, 2) desvanecimento da flor na sua cabeça, 3) seu corpo exalava um mau-cheiro, 4) suor (perspiração) nas axilas, 5) não encontrava prazer onde ele estava sentado. Então, o Shakra, como ele sentou-se num lugar calmo, viu um Shramana ou Brâmane e pensou que fosse o Buda. Então o Shramana ou Brâmane, vendo o Shakra chegar, ficou feliz e disse: ‘Oh Shakra! Eu agora tomo refúgio em você’. Ouvindo isto, o Shakra viu que essa pessoa não era o Buda. Ele também pensou para si: ‘Se essa pessoa não é o Buda, não posso mudar os cinco sinais da extinção’.

Naquele momento, o cocheiro Pancashiki disse ao Shakra: ‘Oh Kausika! Existe um gandharva cujo nome é ‘Mirage’. Ele tem uma filha chamada Subhadra. Se você me der essa mulher, lhe direi como acabar com os sinais de declínio’.

O Shakra respondeu: ‘Vemacitra, o rei dos asuras, tem uma filha chamada ‘Saci’, a quem eu respeito. Se você puder dizer-me quem pode acabar com esses sinais do meu declínio, a darei para você, quanto mais então Subhadra!’

(O cocheiro disse): ‘Oh Kausika! Existe um Buda-Honrado-pelo-Mundo chamado Shakyamuni. Ele se encontra agora em Rajagriha. Se você for lá e indagá-lo sobre os sinais de declínio, certamente eles desaparecerão’.

(O Shakra disse): ‘Oh bom homem! Se o Buda Honrado-pelo-Mundo pode de fato acabar com eles (os sinais), conduza-me até lá’.

Naquela ocasião, o cocheiro, com essas palavras, conduziu o Shakra à Rajagriha, até Gridhrakuta. Chegando ao lugar onde o Buda se encontrava, o Shakra prostrou-se e, tocando os pés do Buda, assim prestou homenagem ao Buda. Afastando-se, ele tomou assento a um lado

Sakra-Devanam-Indra disse ao Buda: ‘Dentre todos os devas, quem é que nos aprisiona?’

A resposta veio: ‘Oh Kausika! A mente avarenta, cobiçosa e invejosa!’

Ele (o Shakra) ainda indagou: ‘De onde vem a mente avarenta, cobiçosa e invejosa?’

A resposta veio: ‘Vem da ignorância’.

Novamente ele indagou: ‘De onde vem a ignorância?’

A resposta foi: ‘Da indolência’.

Questionou novamente: ‘De onde vem a indolência?’

A resposta foi: ‘De uma inversão [da verdade]’

E uma nova questão: ‘De onde vem a inversão?’

A resposta indicou: ‘De uma mente dúbia’.

(O Shakra disse): ‘Oh Honrado pelo Mundo! Você diz que a inversão surge de uma mente dúbia. É como o ensinamento Budista. Por quê? Eu tinha uma mente dúbia dentro de mim. Com tal dúvida, eu tinha uma inversão. Eu confundi com você alguém que não era o Honrado-pelo-Mundo. Agora eu vejo o Honrado-pelo-Mundo e todas as minhas dúvidas se dissiparam. Como minhas dúvidas deixaram-me, a inversão também se foi. Através do fim da mente invertida, a mente avarenta, cobiçosa e invejosa também se foi’.

O Buda disse: ‘Agora você diz que não tem uma mente avarenta e invejosa. Você é um Anagamin? Um Anagamin não tem uma mente cobiçosa. Se você não tem uma mente cobiçosa, por que é que veio até mim, à busca de vida? Um verdadeiro Anagamin não busca a vida’.

(O Shakra disse): ‘Oh Honrado pelo Mundo! Se existe uma inversão, existe uma busca pela vida. Se não há inversão, não há busca pela vida. O que eu busco é o Corpo-do-Buda e a Sabedoria-do-Buda’.

(O Buda disse): ‘Oh Kausika! Se você busca o Corpo-do-Buda e a Sabedoria-do-Buda, certamente você obterá isso na vida que virá’.

Então, como Sakrodevendra ouviu o sermão do Buda, os cinco sinais de declínio desapareceram de repente. E ele levantou-se, prestou homenagem, circundou a pessoa do Buda por três vezes, juntou respeitosamente as palmas das suas mãos e disse: ‘Oh Honrado-pelo-Mundo! Agora estou morto e sou nascido; perdi minha vida e a ganhei. Agora digo que, como tomei a Via do Buda, alcançarei o insuperável Bodhi. Isto é um renascimento. Isto é ganhar a vida novamente. Oh Honrado pelo Mundo! Por que os humanos e seres celestiais aumentam em número? E por que eles declinam em número?’

‘Oh Kausika! Em razão das contendas e disputas, o número de humanos e seres celestiais decresce; ao viverem harmoniosamente, seu número cresce’.

‘Oh Honrado pelo Mundo! Uma vez que através das contendas decrescemos em número, de agora em diante não lutarei mais com asuras’.

O Buda disse: ‘Bem falado, bem falado, oh Kausika! O Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo diz que indulgência é a causa da Iluminação Insuperável’.

Então Sakrodevendra caminhou à frente, prestou homenagem ao Buda, recuou e seguiu seu caminho.”

“Oh grande Rei! Como o Tathagata acaba completamente com as más características, dizemos que o Buda é inconcebível. Os graves pecados que você acumulou nos dias passados, infalivelmente, se extinguirão.

Oh grande Rei! Se você acredita em minhas palavras, por favor, corra ao Tathagata. Se você acredita em minhas palavras, pondere bem o que digo. Oh grande Rei! O Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo abarca todos com grande compaixão. Ele não ama apenas uma pessoa. O Dharma Maravilhoso reina amplamente. Não há ninguém que não seja acolhido [por ele]. Sua mente é Toda-Equalitária tanto para os hostis como para os amigáveis. Sua mente não odeia e não ama. Não é o caso que somente algumas pessoas obtêm a Via e outras não. O Tathagata não é apenas meramente o mestre das quatro classes da Sangha; ele é o mestre de todos os (seres) celestiais, humanos, nagas, demônios, habitantes-do-inferno, animais e espíritos famintos. E todos os seres deveriam olhar para o Buda como olham para seu pai e mãe.

Oh grande Rei! Saiba que não é o caso que o Tathagata somente fala do Dharma para o nobre Rei Bhadrika; ele igualmente orienta o humilde Upali. Ele não aceita oferecimentos somente de Sudatta-Anathapindada, mas também aceita comida de Sudatta, um homem pobre. Ele não fala do Dharma somente para o sagaz Shariputra, mas também para o obtuso Suddhipanthaka. Ele não permite apenas pessoas sem ambição como Mahakashyapa entrarem para a Ordem, mas também pessoas tão ambiciosas quanto Nanda. Ele não permite apenas pessoas sem ilusões como Uruvilva-Kashyapa buscarem a Via, mas também aqueles cheios de ilusões que cometeram graves pecados mortais, como Sudaya, o irmão mais jovem do Rei Prasenajit. Não é o caso que ele erradica as raízes da ira porque alguém lhe oferece o galingale (ou galangal – planta de raiz aromática da família da gengibre), mas abandona uma pessoa que pretende fazer o mal. Ele não fala do Dharma somente para machos intelectuais, mas também para os mais rebaixados na vida, para casais e mulheres. Ele não capacita apenas Shramanas a atingir as quatro fruições da Via, mas também capacita pessoas leigas a ganhar as três fruições da Via. Ele não apresenta o Dharma somente para uma pessoa que abandonou as funções casuais da vida, como Puttala e outros que procuram meditar em lugares quietos, mas também para aqueles como o Rei Bimbisara, que tem que reinar sobre um estado. Não é o caso que o Dharma é falado somente para abstêmios, mas é pregado também para aqueles perdidos em bebidas fortes, como o rico homem Ugravati, e os intoxicados. Não é o caso que o Dharma é falado somente para aqueles que sentam em dhyana [meditação] como Revata, mas também para mulheres Brâmanes como Vasistha, que agora está louca após a perda da sua criança. Não é o caso que os seus sermões são pregados somente para os seus próprios discípulos, mas também para tirthikas, Nirgranthas e outros. Não é o caso que o Dharma é pregado somente para aqueles de plena virilidade aos 25 anos, mas também para idosos de 80 anos, que já são impotentes fisicamente. Ele não prega somente para aqueles que estão estreitamente relacionados com o Buda-Dharma, mas também para aqueles que não estão muito bem na pratica da Via. Ele não prega somente para Malika, mas também para uma prostituta como Utpala. Ele não recebe oferecimentos somente das melhores coisas doces e deliciosas do Rei Prasenajit; ele também recebe aquelas do homem rico Srigupta, as quais contêm veneno. Oh grande Rei! Srigupta, em tempos passados, plantou as sementes dos pecados mortais. Mas após ter encontrado o Buda e ouvido os seus sermões, aspirou à Iluminação Insuperável.

Oh grande Rei! Mesmo que alguém fizesse oferecimentos durante um mês para todos os seres, o seu mérito não poderia ser comparado a uma décima-sexta parte daquele auferido pela meditação em pensamento único sobre o Buda. Oh grande Rei! Embora alguém fizesse um homem de ouro, e o dotasse de veículos, cavalos e tesouros em número de 100; isto não se compararia a uma pessoa que aspira à Iluminação e dá um passo em direção ao Buda. Oh grande Rei! Mesmo que alguém pudesse colocar em 100 carruagens puxadas por elefantes, vários tesouros raros das terras Romanas e mulheres com artigos de joalheria, isto não se compararia à aspiração ao Bodhi e a dar um passo em direção ao Buda. Ou mesmo que alguém desse isso e as quatro coisas [isto é, comida, roupas, decocção e aposentos] para todos os seres dos três mil grandes sistemas de mil mundos, isto não se compararia à aspiração à Iluminação e a dar um passo em direção ao Buda. Além disso, mesmo que fizéssemos doações a seres tão inumeráveis quanto às areias do Ganges, isso nunca seria melhor que a ida do grande Rei para onde se encontram as árvores sala gêmeas, para onde o Tathagata está, e ouvir com sinceridade de coração o que ele diz.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 24 – Sobre Ações Puras 4.

Os Dois Tipos de Riqueza

“Oh Rei! Se você se arrepende e sente remorso, o pecado irá embora e você será puro como antes. Oh grande Rei! Existem dois tipos de riqueza. Um é possuir vários animais como elefantes, cavalos, etc., e o outro é possuir vários tesouros como ouro, prata, etc. Alguém pode possuir muitos elefantes e cavalos, mas isso não pode se igualar a uma gema. Oh grande Rei! O mesmo acontece com os seres. Um possui a riqueza vil, e o outro a boa riqueza. Muitas más ações perpetradas não podem ser comparadas com uma boa ação. Eu ouvi o Buda dizer: ‘Se alguém ganha um simples bom pensamento [estado mental, volição], isso destrói 100 más ações’. Oh grande Rei! Isso é comparável a um pequeno pedaço de um diamante, que pode esmagar o Monte Sumeru, ou como um pequeno fogo que pode reduzir tudo a cinzas, ou como uma pequena quantidade de veneno que pode causar danos aos seres. É o mesmo também com uma pequena quantidade de bondade. Ela pode esmagar grandes maldades. Dizemos uma pequena quantidade de bondade. Mas, de fato, é grande. Por quê? Porque ela esmaga grandes maldades. Oh grande Rei! Como o Buda disse, esconder [um pecado] é que incorre em falha [isto é, é uma ‘asvara’ – impureza]; não esconder é nada mais incorrer. Põe-se à mostra a maldade e se arrepende dela. Assim, não se incorre em falha. Uma pessoa faz muitas coisas más, mas se ela não as esconde e as guarda (para si), o pecado será pequeno, em razão dessa não-dissimulação.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 24 – Sobre Ações Puras 4.

Zan-Gi

Naquela ocasião, havia no grande castelo de Rajagriha um grande rei chamado Ajatasatru [filho de Bimbisara e sua consorte real, Vaidehi], que era muito mal-intencionado, que tinha prazer em tirar vidas e que era plenamente realizado nas quatro más ações da boca [isto é, mentir, lisonjear, falar maliciosamente, e falar dubiamente]. A cobiça, a má-vontade e a ignorância norteavam a sua mente. Ele somente via o presente e não os dias a vir. Todas as pessoas más eram da sua companhia. Ele abandonou-se a mercê dos cinco desejos [fortuna, luxúria, comida e bebida, fama, e sono] e dos prazeres da vida. Como resultado, ele prejudicou o seu próprio pai inocente. Após ter prejudicado o seu pai, o arrependimento provocou-lhe um pensamento febril. Nenhum adorno, colares ou música podiam ajudá-lo. Com sua mente febril de arrependimento, surgiram erupções em todo o seu corpo. Essas exalavam podridão, mau-cheiro, e ninguém podia se aproximar dele. Então ele disse para si próprio: “Agora estou recebendo essa retribuição cármica nesta presente vida. Não passará muito tempo antes que as punições do inferno se abatam sobre mim”. Então a sua mãe, a Rainha Vaidehi, aplicou-lhe vários remédios. Mas as feridas somente aumentavam em número e não havia sinais de cura. O rei disse a sua mãe: “Essas feridas vieram da mente, e não dos quatro elementos. As pessoas podem arrogar-se de [serem capazes de] me curar, mas isso não pode ser”.

Naquela ocasião, havia um grande médico chamado Jivaka, que foi ao rei e disse: “Oh grande Rei! Você dorme bem ou não?”

“Oh Jivaka! Encontro-me seriamente doente. Cometi um pecado mortal contra o meu rei legítimo. Nenhum bom médico, nem o mais maravilhoso dos remédios, nem encantos ou o melhor dos cuidados pode curar-me. Por que não? Meu pai, o rei legítimo, governava o estado legalmente. Nada havia nele que alguém pudesse se queixar; e eu o matei sem razão. Sou como um peixe na terra. Que prazer posso ter? Sou como um gamo capturado numa armadilha e nada me satisfaz. Sou como um homem que sabe que sua vida está chegando a um fim em não mais que um dia; sou como um rei que se refugiou numa terra estrangeira; sou como um homem desenganado que está sofrendo de uma doença incurável; sou como um homem que quebrou as regras da moralidade e está agora condenado à sua punição. Certa vez, no passado, ouvi um homem sábio dizer: ‘Saiba que uma pessoa cuja ação não é pura no corpo, na boca e na mente; certamente cairá no inferno’. Estou assim agora. Como posso dormir pacificamente? Não há ninguém que possa me dar agora o remédio insuperável do Dharma e libertar-me da minha doença.”

Jivaka respondeu: “Bem falado, bem falado! Você pecou, mas você se arrepende e sente-se envergonhado. Oh grande Rei! O Buda-Honrado-pelo-Mundo diz: ‘Existem dois dharmas brancos que salvam os seres. Um é ‘Zan’ [sentir-se envergonhado], e o outro é ‘Gi’ [sentir-se envergonhado]. ‘Zan’ é não cometer pecado, e ‘Gi’ é não cometer pecado perante outros. ‘Zan’ é sentir-se envergonhado de si próprio, e ‘Gi’ é confessar para outros. ‘Zan’ é sentir-se envergonhado [culpado] perante os humanos, e ‘Gi’ é sentir-se envergonhado perante os céus. Isto é ‘Zan-Gi’ [arrependimento, remorso]. Alguém sem arrependimento não é humano. É um animal. Quando se tem arrependimento, respeita-se pai e mãe, mestres e anciãos. Quando se tem arrependimento, existem pai, mãe, irmão mais velho, irmão mais novo, filho mais velho e irmã mais nova’. Bem falado, oh grande Rei! Ouça por um momento! Eu ouvi o Buda dizer: ‘Dentre os sábios, existem dois tipos. Um é a pessoa que não faz maldades, e o outro é a pessoa que se arrepende após ter cometido a maldade. Dentre os ignorantes, existem novamente dois tipos. Um é aquele que faz maldades, e o outro é aquele que as esconde. Primeiro, alguém faz a maldade, mas depois a confessa e se arrepende completamente, e não volta a repeti-la. Isto é como no caso da água turva a qual, se a jóia [mani] do ‘Brilho-da-Lua’ for colocada lá, tornar-se-á límpida, devido ao poder maravilhoso da gema (preciosa). Ou é como quando as nuvens se dispersam e a lua se revela em todo seu esplendor. O mesmo se passa com o arrependimento de más ações que alguém tenha cometido’.

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 24 – Sobre Ações Puras 4.

Passagens Selecionadas do Sutra de Lótus – 2a. Edição

“A multidão de quinhentos Bodhisattvas nesta assembleia
e os homens e mulheres de pura fé
na Assembleia dos Quatro Tipos de Crentes,
que estão agora diante de mim ouvindo o Dharma,
em existências prévias,
eu exortei essas pessoas a ouvir e receber este Sutra,
que é a mais suprema Lei.
Eu os instruí e levei-os a residir no Nirvana
e, vida após vida,
a receber e ostentar um Sutra como este.
Somente em milhões e milhões de miríades de kalpas,
inconcebíveis em número,
pode-se vir a ouvir
o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa.”

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Essa nova edição de Passagens Selecionadas está de acordo com a revisão e nova diagramação do Sutra de Lótus – 2a. Edição.

Quando o Grande Nirvana é Pregado

“Todos os Monges maldosos dos dias que virão guardarão coisas impuras e dirão para as quatro classes da Sangha que o Tathagata, depois de tudo, entra no Nirvana. Eles lerão aquilo que circula (literatura) no mundo secular e não respeitarão os sutras Budistas. Quando essas maldades aparecem no mundo, o Tathagata deseja acabar com todas as maldades, vida errada, a procura por lucro, e então transmite esse sutra. Saiba que quando o Repositório Hermeticamente Guardado deste sutra desaparecer, o ensinamento Budista, também, desaparecerá. Oh bom homem! O Sutra do Grande Nirvana é eterno e não muda. Como você poderia falar mal dele e indagar: ‘Esse sutra existiu na época do Buda Kashyapa?’ Oh bom homem! Na época do Buda Kashyapa, todas as pessoas eram menos ambiciosas e possuíam mais sabedoria. Era muito fácil ensinar os Bodhisattvas, pois eles eram brandos e maleáveis. Eles possuíam grande virtude; todos eram seguros e firmes. Eles eram como grandes elefantes-rei. O mundo era limpo; os seres sabiam que o Tathagata não entraria definitivamente no Nirvana e que ele era Eterno e Imutável. Embora esse sutra existisse, não era necessário pregá-lo.

Oh bom homem! Os seres desta era têm uma grande quantidade de impurezas. Eles são ignorantes, esquecidos, e não possuem Sabedoria. Eles duvidam demais, não podem ganhar fé, e o mundo é impuro. Todas as pessoas dizem que o Tathagata é impermanente, que ele muda, e que ao final ele entra no Nirvana. Por essa razão, o Tathagata transmite esse sutra. Oh bom homem! O ensinamento do Buda Kashyapa também não acaba de fato. Por que não? Porque ele é Eterno e Imutável. Quando existem seres que vêem o Eu como não-Eu, o não-Eu como Eu, o Eterno como não-Eterno, o não-Eterno como Eterno, Êxtase como não-Êxtase, não-Êxtase como Êxtase, o Puro como não-Puro, o não-Puro como Puro, o que não-acaba como o que acaba, o que acaba como o que não-acaba, pecado como não-pecado, pecado venial como pecado grave, pecado grave como pecado venial, veículo como não-veículo, o não-veículo como um veículo, a Via como não-Via, não-Via como Via, o que é realmente Iluminação como não-Iluminação, o que é realmente não-Iluminação como Iluminação, Sofrimento como não-Sofrimento, a Causa do Sofrimento como não sendo a Causa do Sofrimento, Extinção como não-Extinção, a Verdade como não-Verdade, o que de fato é secular como ‘Paramartha-satya’, ‘Paramartha-satya’ como secular, o refúgio como não-refúgio, a genuína Palavra-do-Buda como palavras de Mara, o que são realmente palavras de Mara como Palavra-do-Buda; nessa ocasião todos os Budas transmitem esse sermão do Sutra do Grande Nirvana.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 23 – Sobre Ações Puras 3.

A Duração dos Ensinamentos Budistas

O Bodhisattva Kashyapa disse ao Buda: “Oh Honrado pelo Mundo! Agora, pela primeira vez, venho a entender a inconcebibilidade do Bodhisattva-Mahasattva, a inconcebibilidade do Buda, do Dharma e da Sangha, do Sutra do Grande Nirvana, da pessoa que o ostenta, da Iluminação e do Nirvana. Oh Honrado pelo Mundo! O tempo de vida do insuperável ensinamento Budista deve ser longo e curto. Quando ele termina?”

(O Buda disse: ) “Oh bom homem! Ora, o Sutra do Grande Nirvana tem cinco ações, que são: 1) ações sagradas, 2) ações puras, 3) ações divinas, 4) ações das doenças, e 5) ações das crianças. Se meus discípulos protegerem (defenderem, ostentarem), recitarem, copiarem e falarem a respeito dele; os seres o respeitarão, o considerarão, o elogiarão, e farão vários oferecimentos. Saiba que os ensinamentos Budistas [nestas circunstâncias] não se extinguirão. Oh bom homem! Se quando o Sutra do Grande Nirvana estiver circulando entre as pessoas, muitos dos meus discípulos violarem shila (os preceitos), fazerem todo o tipo de maldades e não acreditarem neste sutra, em razão da sua incredulidade eles não defenderão, recitarão, copiarão ou explanarão o significado, e [assim,] eles não serão capazes de ser admirados pelas pessoas, e os oferecimentos não lhes serão feitos. Eles olharão aqueles que defendem os preceitos e os olharão de cima abaixo, dizendo: ‘Vocês são do grupo dos seis mestres [seis mestres contemporâneos dos dias do Buda] e não são discípulos do Buda’. Saiba que [nessas circunstâncias] não estará longe de os ensinamentos do Buda se extinguirem.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 23 – Sobre Ações Puras 3.

O Inconcebível Bodhisattva

O Bodhisattva Kashyapa disse ao Buda: “Oh Honrado pelo Mundo! Eu também sei que esse Sutra do Grande Nirvana é o mais raro, mais especial e inconcebível; que o Buda, o Dharma e a Sangha são inconcebíveis; e que o Bodhisattva, a Iluminação e o Grande Nirvana são também inconcebíveis. Oh Honrado pelo Mundo! Por que é que dizemos que o Bodhisattva também é inconcebível?”

(O Buda disse: ) “Oh bom homem! Embora ninguém ensine, o Bodhisattva-Mahasattva aspira à Iluminação. Tendo aspirado, ele pratica e envida esforços. Mesmo que um grande fogo queimasse seu corpo e sua cabeça, ele não abandonaria a sua intenção de buscar a emancipação e pensamento do Dharma. Por que não? Porque o Bodhisattva-Mahasattva sempre pensa para si: ‘Durante inumeráveis asamkhyas de kalpas, eu vivi nos domínios do inferno, dos espíritos famintos e dos animais, em meio aos humanos e seres celestiais, fui queimado pelos fogos das impurezas e, até agora, não fui capaz de obter um Dharma Imutável. Dharma Imutável nada mais é que a Iluminação Insuperável. Eu não me importo com o meu corpo e mente, se for pela Iluminação Insuperável. Eu posso perfeitamente triturar o meu corpo e minha mente, transformando-os em partículas, se for pela Iluminação Insuperável, mas não cessaria a prática da Via e o empreendimento de esforços. Por que não? Porque o espírito de praticar a Via e de empreender esforços nada mais é que a causa da Iluminação Insuperável’. Oh bom homem! O Bodhisattva ainda não viu a Iluminação Insuperável e não se importa em sacrificar seu corpo e vida por ela assim; como poderia ser de outra forma se ele a tivesse visto? Este é o porquê o Bodhisattva é inconcebível.

Também, dizemos inconcebível. Falamos assim porque o Bodhisattva-Mahasattva vê o incontável número de doenças associadas com o nascimento e a morte, e isso não é algo que Sravakas e Pratyekabudas possam fazer. Embora ciente das incontáveis doenças do nascimento e da morte, ele não acalenta o mínimo desejo de fugir das dores que ele sofre – e o faz para o benefício dos seres. Sendo assim, dizemos inconcebível. Apenas para o benefício dos seres, o Bodhisattva-Mahasattva pode sofrer todas as dores do inferno e, mesmo assim, para ele isso nada mais é que sentir a felicidade do terceiro dhyana [‘tritiyadhyana’ – uma absorção meditativa caracterizada pela equanimidade, estado de alerta, consciência, e um sentimento de bem-estar]. Por essa razão, também, dizemos inconcebível. Oh bom homem! Como uma ilustração, um fogo se inicia na casa de um homem rico. Ele vê isso e sai da casa. Suas crianças são deixadas para trás e não estão livres do fogo. O homem rico pensa sobre o perigo do fogo. Ele volta e tenta salvar as suas crianças, esquecendo-se completamente do perigo para si próprio. O mesmo se passa com o Bodhisattva-Mahasattva. Ele sabe tudo sobre as doenças do nascimento e da morte. Mas ele as enfrenta e não pensa sobre os perigos para si, apenas para o benefício dos [outros] seres. Portanto, dizemos inconcebível.

Oh bom homem! Inumeráveis mentes aspiram ao Bodhichita [decisão pela Iluminação]. Mas ao ver todas as maldades do nascimento e da morte, a mente recua. Alguns tornam-se Sravakas e outros Pratyekabudas. Mas o Bodhisattva, quando ele ouve esse sutra, nunca perde o seu Bodhichitta e nunca se torna um Sravaka ou Pratyekabuda. Assim, embora o Bodhisattva ainda não tenha ascendido ao estágio de imobilidade do primeiro ‘bhumi’ [estágio de desenvolvimento do Bodhisattva], sua mente está firmemente estabelecida e não concebe a retroação. Portanto, dizemos inconcebível.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 23 – Sobre Ações Puras 3.

O Que Pensamos Sobre o Céu

“Qual é o pensamento sobre o Céu? Existem lugares tais como o céu dos quatro guardiões e o céu da indiferença-não-indiferença. Se alguém possui a fé, ganha o céu dos quatro guardiões da terra. Eu, também, posso nascer lá. Se (alguém possui os) preceitos, erudição, doação e Sabedoria, alcança o céu dos quatro guardiões e o céu da indiferença-não-indiferença. Eu, também, posso nascer lá. Mas, eu não desejo nascer. Por que não? A impermanência reina lá no céu dos quatro guardiões e [também] no céu da indiferença-não-indiferença. Devido à impermanência, lá existe nascimento, envelhecimento, doença e morte. Por essa razão, eu não desejo nascer lá. Isto é como possivelmente um fantasma enganará o ignorante, mas não o sábio. O céu dos quatro guardiões e o céu da indiferença-não-indiferença são análogos a um fantasma. O ignorante é o mortal comum, mas eu não sou um mortal comum. Certa vez ouvi sobre o céu ‘Paramartha’. Isto se refere ao fato de que os Budas e Bodhisattvas são eternos e não mudam. Por ser Eterno, não há nascimento, envelhecimento, doença ou morte. Envidarei esforços e buscarei – para o benefício dos seres – o Céu ‘Paramartha’. Por quê? Porque o Céu ‘Paramartha’ pode decididamente permitir aos seres erradicar as ‘asvaras’ (impurezas), como no caso da árvore do pensamento, a qual certamente podemos dobrar conforme nossa vontade. Se possuo desde a fé até a Sabedoria, eu posso certamente alcançar esse Céu ‘Paramartha’, e para o benefício dos seres, deve-se pensar e falar bem desse Céu ‘Paramartha’. Esse é o pensamento do Bodhisattva-Mahasattva sobre o Céu. Oh bom homem! Isto é como dizemos que o Bodhisattva não é do mundo. O mundo não conhece, vê e compreende. Mas o Bodhisattva conhece, vê e compreende.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 23 – Sobre Ações Puras 3.

Como Pensamos Sobre Dana

“Como pensamos sobre o dana [doações caridosas]? O Bodhisattva-Mahasattva medita profundamente sobre esse dana que é causa da Iluminação Insuperável. [Ele pensa]: ‘Todos os Budas e Bodhisattvas realizam o dana. Eu, também, ajudarei e o praticarei’. Se não for realizado, não se pode adornar as quatro classes de pessoas da Sangha. Embora as doações não erradiquem completamente as impurezas, certamente elas extirpam aquelas (impurezas) do presente. Em razão da doação, todos os seres das dez direções, tão numerosos quanto às areias de inumeráveis, ilimitados Rios Ganges, sempre tecem elogios. Quando o Bodhisattva-Mahasattva doa comida aos seres, ele doa vida. Como uma recompensa por esse dana, ele sempre é (abençoado) e não muda quando atinge o Estado de Buda. Como ele dá felicidade, a paz o visita quando ele atinge o Estado de Buda. Quando o Bodhisattva faz doações, ele busca as coisas da maneira correta; ele nunca espolia outros através das suas doações. Em razão disto, quando ele atinge o Estado de Buda, ele é abençoado com a pureza do Nirvana. Quando o Bodhisattva faz doações, ele imagina coisas que os seres (necessitam e) não pedem e que, mesmo assim, lhes são dadas. Como resultado disto, no alvorecer do Estado de Buda, ele atinge a Auto-Soberania [‘aisvarya-atman’ – isto é, o Eu autonomo, livre e sem impedimentos]. Através da doação, ele dá força aos outros. Em razão disto, quando chega o Estado de Buda, ele ganha os dez poderes. Através da doação, ele permite aos outros obterem as palavras [as palavras das escrituras]. Por meio disto, quando o Estado de Buda vem, ele obtém as Quatro Sabedorias sem Obstruções. Todos os Budas e Bodhisattvas praticam essas doações e ganham a causa do Nirvana. (Ele pensa: ) ‘Eu, também, praticarei doações e engendrarei a causa do Nirvana’. Isto é como foi dito no ‘Zäke’ Vaipulya [isto é, possivelmente o ‘Sutra Gandavyuha’].”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 23 – Sobre Ações Puras 3.

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