A Energia Nuclear e a Paz Mundial – 1a. Parte

1ª. Parte

A Energia Nuclear é, de longe, a mais cara tecnologia engendrada pela civilização. Seu custo é tão elevado que, praticamente, inviabiliza o desenvolvimento e exploração desse tipo de energia pela iniciativa privada, tornando-a de interesse e uso quase exclusivo dos “governos”.

Como sabemos, da relação custo/benefício nasce a economia de um “estado”, ou assim deveria ser qualquer que fosse a sua natureza. Para nos determos apenas nos aspectos não técnicos do problema, discutiremos, por ora, os seus desdobramentos baseados apenas nesta relação custo/benefício.

De forma bem geral, podemos dividir o custo de um empreendimento em duas grandes partes, a saber: o custo ponderável e o custo imponderável.

O custo ponderável é aquele resultante de gastos programáveis, previsíveis e mensuráveis como instalações básicas, mão de obra, equipamentos, insumos, etc. Sabe-se, a priori, o quanto se gastará para realizar o empreendimento, até com muita precisão.

O custo imponderável, entretanto, é resultante de um sistema complexo de muitas variáveis, onde se destacam:

a-) risco variável – é uma variável complexa de grandeza inversamente proporcional aos investimentos em itens de qualificação da mão de obra, controle de qualidade de materiais estruturais e equipamentos, segurança, proteção dos equipamentos e do meio-ambiente. O risco variável diminui na medida em que se extrapolam os investimentos nos itens acima mencionados. Desta relação pode-se depreender que, salvo para propósitos estritamente pacíficos, uma “pesada parcela” dos investimentos poderá ser “cortada”, viabilizando projetos baratos e irresponsáveis. Permito-me chama-los irresponsáveis porque os danos produzidos pelas radiações de alta energia podem exigir gerações (séculos) para serem “apagados”. A quem a humanidade delegaria tal responsabilidade? Ressalvando o “propósito pacífico”, cabe esclarecer que nas aplicações com este fim na medicina (diagnóstica e terapêutica), na engenharia (controle de qualidade), na tecnologia de alimentos (esterilização) dentre as mais conhecidas; são utilizadas “massas ínfimas” de materiais radioativos, de fácil confinamento e manuseio.

b-) risco inerente – é uma grandeza complexa, imponderável, que independe dos investimentos porque está associada ao erro, à falha humana e de materiais estruturais. Os materiais utilizados em estruturas nucleares são materiais “dopados”; isto é, são ligas metálicas com micro adições de materiais muito especiais cuja função é estimular a absorção dos defeitos provocados pelas radiações, conferindo ao material maior resistência ao dano. Como essas ligas são artificiais, a sua produção em escala tem o controle de qualidade feito por “amostragem”, e aqui está o risco. O mesmo pode-se afirmar com relação ao “material humano”. Quando grupos de pessoas são treinados para executar tarefas em situações de risco, podem-se esperar diferentes reações em condições extremas; é justo e compreensível. Adicionalmente, o controle de qualidade sobre seres humanos é mais difícil do que sobre os materiais; pois, a constituição dos seres humanos não pode ser “dosada” cientificamente como os materiais. Poderá no futuro?

Essas componentes ( o risco variável e o risco inerente) caracterizam-se por não permitirem uma avaliação precisa de suas implicações no investimento como um todo. Em muitos casos, são indicativas até da viabilidade ou não de um empreendimento.

No caso específico da Energia Nuclear, tanto o custo ponderável como o imponderável são elevadíssimos. Portanto, só mesmo um benefício proporcionalmente grande justificaria qualquer tentativa de retirar a Energia Nuclear do universo das investigações científicas. No recente acidente de Goiânia, um dos mais estarrecedores já ocorridos com materiais radioativos, o risco variável era inadmissivelmente alto, porquanto itens como segurança e proteção do meio-ambiente foram simplesmente negligenciados. Segurança de quem? Das instituições, dos materiais (caríssimos) ou da vida daquelas pessoas? Se isso não foi discutido a priori, o quê importa agora? Em outro caso ainda recente, o acidente de Chernobyl mostrou todo o vigor e imprevisibilidade da componente aqui chamada de risco inerente. Falhas humanas, falhas de materiais estruturais, ou ambas, levaram o núcleo do reator a uma fusão parcial, ficando este completamente fora do controle por vários dias. Até hoje, comenta-se nos meios científicos a boa sorte que tivemos, a despeito do desastre ecológico a que assistimos. Mesmo que aquele reator voltasse a operar, o que é praticamente impossível, jamais os benefícios advindos da sua utilização pacífica poderiam cobrir as enormes perdas registradas naquele acidente.

Então, por que a Energia Nuclear? Há que se temer, portanto, a sinistra associação de dois tipos de espíritos: o usurpador, representando o desafio do poder econômico; e o dominador, representando o desafio do poder da força. Essa associação se dá, invariavelmente, ao sabor dos três venenos bem conhecidos do Budismo: a avareza, a ira e a estupidez.

Percebemos assim, claramente, que o uso pacífico da Energia Nuclear parece não habitar as mesmas esferas onde giram os atuais interesses internacionais. Se, por um lado, os riscos de acidentes ou mesmo de uma guerra nuclear parecem agigantarem-se em função desses interesses; do ponto de vista humano, a expectativa de salvar mesmo que uma única vida justifica qualquer esforço no sentido de garantir os avanços da Medicina Nuclear ou mesmo da tecnologia de geração de energia elétrica por este método. Parece que caminhamos rapidamente para um impasse. Não só parece como, realmente, estamos diante de um impasse. Onde erramos? Devemos resignadamente admitir a perplexidade das últimas décadas, ou caminhar com decisão e determinação para o futuro?

A Energia Nuclear e a Paz Mundial – 2a. Parte

O Átomo

I – O Átomo

Sabemos, da física atômica elementar, ser a matéria constituída de espécies atômicas cuja estrutura nuclear e órbitas eletrônicas as individualizam. No modelo clássico, à semelhança dos sistemas planetários, os elétrons distribuem-se em camadas ou níveis de energia ao redor do núcleo, formando o que se convencionou chamar nuvem eletrônica. Lembrando de que falamos de matéria ordinária, ou cenomatéria, os elétrons do mundo atômico se individualizam por seus números quânticos correspondentes.

Por sua vez, as partículas constituintes do núcleo atômico, prótons e nêutrons (admitamos um modelo simplificado), se ajustam a distâncias muito pequenas umas das outras, pois a força de caráter nuclear, que mantém juntas partículas de mesma carga com partículas de carga neutra, tem alta intensidade e curto alcance, além do qual, predominam as interações eletrostáticas coulombianas.

A ordem de grandeza da primeira órbita de Bohr3 para o raio nuclear poderá dar uma idéia da distância relativa da periferia do núcleo atômico para a primeira órbita: a primeira órbita atômica é cerca de 50.000 mil vezes o tamanho do núcleo atômico.

Como uma ilustração dessas relações do mundo atômico, tomemos como análogo o sistema solar, visto na figura, e as enormes proporções das órbitas planetárias para o raio do Sol. Na figura temos na quinta órbita o planeta Júpiter, faltando as representações das órbitas de Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Essas órbitas não representadas na figura são de tal ordem de grandeza que impossível seria representá-las nesta escala. Pode-se ainda observar “estranhos” corpos chamados Ulysses, New Horizons, Rosetta, Messenger e Sirtf: são naves terrestres a perscrutar o sistema solar. Os pontos ao fundo são estrelas ou galáxias distantes que, na nossa analogia, seriam outros átomos deslocados de seus lugares próprios, ou aglomerados destes, presentes numa solução sólida. Porém, discutiremos isso mais adiante.

átomo

Courtesy NASA/JPL-Caltech

Voltando ao mundo atômico, às distâncias interorbitais, da primeira órbita até a mais externa, soma-se a incerteza de se encontrar um elétron numa certa posição num dado instante, dada pelo Princípio da Incerteza devido a Heisenberg 19. Desse princípio tem-se que quão mais precisamente a posição de uma partícula é determinada, menor a precisão com que se determina o seu movimento ou onde ela se encontrará num próximo instante. Isto tudo torna o átomo um imenso “vazio”, guardadas as proporções, à semelhança de um sistema planetário visto sob uma ótica de longo alcance conforme ilustrado. Nestas condições, tudo o que possa interagir com o átomo em sua estrutura, seja de natureza ondulatória ou partícula (a rigor, características indissociáveis), tem apenas uma probabilidade de encontrar os seus constituintes nas órbitas eletrônicas ou no núcleo.

O Homem e o Meio Ambiente – 2a. Parte

Um paralelo da Física para a visão Budista das inter-relações entre o homem e o meio-ambiente

2ª. Parte

Porém, a própria investigação científica começaria a desestruturar muitas das nossas convicções no início do século XX. Aquela ciência que estava ao nosso serviço começou a ensaiar seus próprios passos. Notável foi a revolução do pensamento científico com os desenvolvimentos das teorias quântica e relativística. Em particular, na teoria quântica fomos levados a reconhecer a “probabilidade” como uma característica fundamental da realidade que governa os processos atômicos e mesmo a própria existência da matéria[15]. A “certeza da vida” sofreu aqui um golpe contundente. Essa “probabilidade” ou “incerteza” inerente à existência da matéria, e à ocorrência de todos os fenômenos, é tão bem conhecida dos Budistas através do SANTAI (Três Verdades – da transitoriedade ou existência temporária, da não-substância ou vacuidade, e do caminho-médio ou dualidade).

Diferente da “certeza da vida” e do “universo constituído de objetos observáveis e manipuláveis”, que são noções fundamentais da ciência analítica, o mundo atômico revelou-se ser constituído de partículas que não existem com “certeza” em pontos (lugares) definidos; mas, apresentam “tendências a existir”. De forma semelhante, os eventos atômicos não ocorrem com “certeza” em momentos definidos e de modo definido; mas, apresentam “tendências de ocorrer”[15].

As inter-relações de uma partícula no mundo atômico, nunca isoladamente, irão determinar o padrão de probabilidades que representa as suas tendências a se encontrar nas diversas regiões do mundo atômico. Se uma partícula elementar do átomo possui um Carma, este Carma é o seu padrão de probabilidades. O ponto importante é que o padrão todo (ou seja, o somatório de todas as probabilidades, que é igual a 1) é que representa a partícula e lhe dá uma identidade. A partícula, portanto, não pode existir fora daquele padrão de probabilidades.

Isto implica na inseparabilidade da identidade da partícula e do conjunto de relações que determinam o seu padrão de existência. A teoria quântica revela assim, um estado de interconexão essencial entre a partícula e seu mundo (o átomo). A teoria quântica mostra que não podemos decompor o mundo atômico em suas menores partes, capazes de existir independentemente, sem perda das suas propriedades e relações essenciais naquele mundo. Mais do que isso, a teoria quântica força-nos a encarar o Universo Atômico não sob a forma de um conjunto de objetos, mas, sob a forma de uma complexa rede de inter-relações das partes num todo harmonioso e unificado[15]. Isto é facilmente aceitável para nós porque, em relação ao mundo atômico, a nossa visão segue uma ordem de longo-alcance, ou seja, podemos perceber o todo.

Por outro lado, investigar, observar e realizar medidas no mundo dos átomos significa interferir nessa rede de inter-relações. O cientista, portanto, não pode ser visto como um mero “observador” distanciado do processo. Ele se envolve, participa e influencia nas propriedades e no comportamento dos objetos observados. Isto é tão importante que, recentemente, foi proposta na Física a substituição da palavra “observação” por “participação”. Essa idéia, entretanto, é antiga e familiar aos Budistas.

A noção de “participação” é assim fundamental na reformulação de conceitos e na determinação de uma nova atitude básica do homem com relação ao mundo exterior. O Budismo levou essa noção ao extremo em que o observador e o observável; ou seja, Sujeito(TI) e Objeto(KYO) são inseparáveis no princípio do ESHO-FUNI.

Em “Resposta a Shijo Kingo”, o Buda Mestre da Lei Nitiren Daishonin revela:

“… A verdadeira entidade manifestada em todos os fenômenos indica os dois Budas, Sakyamuni e Taho. Taho representa todos os fenômenos, e Sakyamuni a Verdadeira Entidade. Os dois Budas também indicam os dois princípios do Objeto(KYO) e o Sujeito(TI) ou a Realidade Objetiva e a Sabedoria Subjetiva. Buda Taho significa Objeto, e Sakyamuni, Sujeito. Embora sejam dois, estão unidos na Iluminação do Buda. Essa entidade nada mais é senão o Nam-Myoho-Rengue-Kyo”(1).

A teoria quântica aboliu a noção de objetos fundamentalmente separados, introduziu o conceito de participação ao invés de observação, e pode vir a considerar necessário incluir a consciência, ou a “vontade”, ou a “determinação” humana em sua descrição do mundo[15]. Conforme alguns investigadores científicos, existem partículas elementares (subatômicas) que, sujeitas ao “campo mental” de diferentes observadores, exibem diferentes comportamentos.

Aqui, para provarmos a Teoria Quântica na Prática Budista, basta estendermos o que já é amplamente aceito pela primeira no restrito campo da Física das Partículas para o macrocosmo ou o Universo de todos os fenômenos. Eho significa meio-ambiente; Shoho significa todos os fenômenos ou entidade da vida independente; Funi significa inseparáveis, daí a expressão Esho-Funi. Com toda certeza, essa noção de participação ao permear as relações do homem com a natureza e as relações deste na sociedade; forçará esse mesmo homem a rever as relações da sua mente para consigo mesmo, sua individualidade concreta, seu corpo. Essa verdadeira revolução humana, efeito e causa simultâneos de uma nova atitude básica do homem, como uma bola de neve, constituirá fonte inesgotável de soluções para os problemas que afligem a humanidade neste final do século XX.

John Lennon, numa de suas canções mais inspiradas dizia: “imaginem um mundo sem fronteiras…”. Não é difícil. Basta iniciar pela remoção da fronteira entre o indivíduo e seu próprio mundo (interior e exterior). O indivíduo só existe como uma fusão destes dois mundos. Como a entidade da vida poderá sobrexistir à destruição de qualquer um deles?

[15] Capra, Fritjof – O TAO DA FÍSICA – Ed. Cultrix – São Paulo, 1983.

O Homem e o Meio Ambiente – 1a. Parte

O Homem e o Meio Ambiente – 3a. Parte.

O Homem e o Meio Ambiente – 1a. Parte

Um paralelo da Física para a visão Budista das inter-relações entre o homem e o meio-ambiente

 

1ª. Parte

O homem contemporâneo tem debatido o processo de degradação do meio-ambiente, e da qualidade de vida das populações dos grandes centros urbanos, reduzindo o problema ao tecido superficial do mundo, ou seja, a sociedade civilizada. Na esteira de um conceito de “civilização” que se baseia na extração, beneficiamento, transformação e exploração dos recursos naturais; a sociedade industrial (ou pós-industrial como preferem alguns) se assemelha muito àquele lenhador que serra o próprio galho onde está sentado. Quando finalmente o equilíbrio natural do ecossistema da bacia de drenagem de um grande rio, juntamente com sua mata ciliar, é devastado, começa-se a falar da “despoluição” e da “limpeza” do rio. Que rio? O rio está morto! Morreu quando o ambiente que o sustentava foi destruído.

Nesta linha de raciocínio, natureza e homem excluem-se mutuamente e todas as propostas baseiam-se essencialmente num conjunto de ações do próprio homem, que segue apropriando-se de tudo que encontra na natureza e, com esta, nada compartilha. As inter-relações ou a interdependência entre o homem e o meio-ambiente são freqüentemente esquecidas.

A atitude básica de discriminar o Sujeito (TI) do Objeto (KYO) tem aberto um abismo nas relações do homem com o seu meio-ambiente, na medida em que, através do avanço tecnológico, o mundo se tem transformado ora num imenso laboratório de manipulação dos recursos naturais, ora numa grande usina de beneficiamento e transformação dos mesmos, sob pretexto de melhorar o padrão de vida da humanidade. Pretexto porque ao discriminar o sujeito do objeto, o homem não se enxerga como parte integrante e essencial do seu meio-ambiente, “esquecendo-se” às vezes de incluir-se na própria espécie humana, agindo cegamente em seu próprio interesse.

Uma vez consciente da catástrofe ecológica que se avizinha, por que o homem insiste em perpetrá-la?

A resposta é surpreendentemente simples. O homem tem total “certeza da vida” e dos prazeres que esta pode lhe proporcionar. Entretanto, tem total incerteza sobre a morte e o sentido cósmico de sua existência. Não compreende que a morte não é apenas um fato inevitável a interromper a vida e as suas sensações. A morte é uma (con)seqüência da vida, é uma fase onde o grande balanço dos atos de uma pessoa reflete-se como num espelho. Mas, isto é incerto, como incerta é a vida. Ao separar a vida da morte, o homem tornou-se o maior usurpador de si próprio. Sendo assim, pouco se pode esperar de estratégias que se baseiam nas “ações humanas”; pois, a “certeza da vida”, como um fator limitante da visão humana, compromete a ação básica do homem. Nenhuma estratégia pode mudar a sorte de um jogador cujas chances esgotam-se na sua própria ação: jogar.

Torna-se necessária uma nova visão do mundo. Uma nova consciência. Acredito que a semente de uma revolução em grande escala na ética humana esteja no princípio Budista de inseparabilidade do ser e seu meio-ambiente (ESHO-FUNI). Ao contrário da atitude básica de discriminar o Sujeito do Objeto, a característica mais importante da visão budista do mundo está na consciência da unicidade e inter-relacionamento de todas as coisas e eventos.

Na vida cotidiana, não temos percepção dessa unicidade porque nossa relação de troca com o ambiente segue uma ordem de curto-alcance. Por essa razão, dividimos o mundo em objetos e eventos isolados. Todavia, essa divisão não é uma característica fundamental da realidade sob uma ótica de longo-alcance, mas sim, uma abstração necessária para resolver as limitações do intelecto humano, que se baseia na discriminação e na categorização dos fenômenos[15].

A razão humana, assim mecanizada, experimentou grandes triunfos ao longo dos séculos, em particular no mundo das investigações científicas. A “certeza da vida” e de um “universo constituído de objetos observáveis e manipuláveis” deu origem ao campo primeiramente chamado de “ciência aplicada” e, mais tarde, “tecnologia”. O mundo e a humanidade transformaram-se num imenso campo experimental.

 

[15] Capra, Fritjof – O TAO DA FÍSICA – Ed. Cultrix – São Paulo, 1983.

O Homem e o Meio Ambiente – 2a. Parte

O Homem e o Meio Ambiente – 3a. Parte.

Santai ( As Três Verdades )

Transitoriedade:

Sendo a mais perceptível das três verdades, é também a mais remotamente conhecida. Desde os primórdios da humanidade o ciclo do nascimento, crescimento, declínio e morte tem despertado a capacidade de indagação dos seres inteligentes. O homem primitivo assistia à morte de seu semelhante sem compreender o trânsito do Sol, da Lua e das estrelas; não compreendia o fluxo e o refluxo das marés; não compreendia a sucessão das estações climáticas, tampouco o desabrochar e o despetalar de uma simples flor. Tudo ao seu redor encontrava-se em movimento, ou seja, trânsito. Ele nada percebia, mas já intervinha e interferia no ciclo vital das plantas e dos animais para se nutrir. Matava. Com o passar dos tempos, o crescente apego aos objetos e relações de seu cotidiano despertou os sentimentos da perda, da angustia, da percepção do passado e da incerteza do futuro. Tudo em razão do apego. Esse mesmo homem veio, mais tarde, a aceitar a impermanência de todas as coisas, mas ainda sem compreendê-la. Pensou na eternidade, um mundo sem mutações e repleto dos bens que o apraziam e, claro, sem problemas. Criou assim a ilusão do céu e, em sua oposição, o inferno das dores do parto, do frio, da fome, da ansiedade, da ira, das lamentações e outros infernos. Portanto, tudo se reduziria à questão de para onde ir após a morte: céu ou inferno? Sem perceber o absurdo dessas idéias, as quais concorriam para interromper o ciclo da própria vida, aquele homem postulou o bem e o mal; personificou-os como deuses e colocou-os respectivamente no céu e no inferno. Fez mais: iconizou-os, fê-los a sua semelhança, mas eternos; transformou suas próprias lamentações e desejos em preces; e as lamentações e desejos dos seus deuses em pragas. Estavam lançadas as bases das religiões primitivas. Aquelas das práticas de austeridades e mortificações inspiradas na idéia de que podiam ser extintas as causas do sofrimento em vida e depois da morte. Muitas das crenças contemporâneas estão impregnadas desses conceitos.

Não-Substância:

Mais difícil de aceitar e de compreender do que o aspecto da transitoriedade, a percepção do aspecto não-substancial incorporado a todos os fenômenos vem numa fase posterior do conhecimento humano. Necessário para explicar o sentimento, a alma e outras coisas de existência indiscutível, o aspecto da não-substância foi logo imaginado como algo distinto e discreto da matéria. Algo que, “habitando” a matéria, animava-a e, desabitando-a, despojava-a. Isto então seria a própria vida e seus dons. Nascia o conceito do espírito capaz de dotar a matéria de vida, inspiração, talentos, destino e missão. Quem seria o grande espírito? É lógico: Deus. Somente muito recentemente, nos primórdios do século vinte, é que a ciência descobriu a equivalência de matéria e energia (ou seja, que são unas na existência da entidade física) e o comportamento dual, isto é, entidades que ora se apresentam como matéria ou corpos com dimensões finitas, e ora como onda (algo não-substancial e sem dimensões finitas). Muitas outras descobertas se sucederiam como a radiação emitida por alguns elementos químicos e a avassaladora energia liberada pela simples “quebra” da ligação das minúsculas partículas de um núcleo atômico. Todas essas descobertas viriam revelar e evidenciar a natureza não-substancial dos corpos materiais e de suas combinações na formação de entidades físicas complexas. A natureza ondulatória dessas “forças”, todavia, viria a abalar muitas convicções filosóficas e religiosas. Por exemplo, a convicção de que os espíritos entram e saem dos corpos; a convicção de que o universo seria constituído por corpos materiais visíveis e finitos; a convicção de que Deus “morava” no céu, apenas para exemplificar. Mas, retroagindo, estávamos ainda no tempo dos ensinos Mahayana Provisórios. A ciência humana é que tardou a chegar.

Caminho Médio:

As inquietações deixadas pelos encantos da percepção do aspecto não-substancial dos fenômenos, dentre eles o fenômeno da vida, estimulou e impulsionou sobremaneira o pensamento filosófico, agora ocupado em explicar os “mecanismos”, por assim dizer, de interação entre os corpos e os “espíritos”. Como estávamos há cerca de 600 (seiscentos) anos antes de Cristo, a ciência humana ainda nada sabia sobre a natureza ondulatória de todos os fenômenos transitórios e não-substanciais. Como o pensamento era essencialmente “mecânico”, separou-se o espírito dos corpos que não podiam estar em mais de um lugar ao mesmo tempo, e se lhes atribuiu a onipresença, ou seja, a incrível capacidade de encontrar-se em vários lugares ao mesmo tempo. Essas idéias permearam o pensamento filosófico e religioso por muitos séculos. Isto iria acontecer, todavia, a revelia das últimas pregações do Buda Shakyamuni da Índia, as quais, naquela época, faziam referência explícita ao Caminho Médio, ou seja, nem só matéria, nem só espírito; mas sim, ambos. Isto significando que, na verdadeira entidade da vida, o aspecto transitório (matéria) e o não-substancial (espírito) são unos e indissociáveis. Por que as grandes correntes filosóficas seguiram em frente, ignorando e escamoteando as bases de um ensino tão superior? Possivelmente porque lhes era incompreensível. Não dominavam os muito recentes conhecimentos da ciência sobre a dualidade da matéria, da transmutação nuclear, do imenso vazio que são os átomos constituintes dos corpos e sobre o grande vácuo ou o nada que parece sustentar o universo conhecido. Todas essas coisas são hoje conhecimentos corriqueiros a derrubar dogmas e crenças absurdas. Dentre esses conhecimentos, o mais surpreendente é o de que a matéria é uma onda que se propaga através dos seus micros constituintes, fazendo-os vibrar em torno de suas posições de equilíbrio. Mas isto ainda é insatisfatório, porque algo que oscila harmonicamente em torno do equilibro, na média, encontra-se no ponto zero e não apresentaria propriedades físicas. Descobriu-se então a anarmonicidade do movimento dos micros constituintes da matéria. Uma distorção, um desvio do movimento que, em média, os colocava afastados do ponto zero. A esse afastamento os cientistas chamaram Caminho Médio. Não é surpreendente que algo enunciado há milênios torne-se, comprovadamente, existente?

Um Olhar Sem Distinções

 

Pensar o mundo Saha como sendo um caldo,
um caldo borbulhante num cadinho,
um cadinho com a forma de um cálice,
um cálice de cristal,
um cristal perfeito e,
indistintamente, tudo dentro.

E o mundo do Buda?
É este Cálice Vazio do Cristal Perfeito[1].

 

Cristal Perfeito

Foto de Marcos Ubirajara em 27/02/2006. Local: Sítio da Dôra.

 


[1] Iniciado em 30/06/2006 às 05:00 hs, foi concluído em 16/01/2007 às 02:00. Cristal = Dharma = Lei; Perfeito = Sad = Correto; Sadharma = Dharma Correto; Cálice = Flor do Lótus; Vazio = Branco = Ausente; Cálice Vazio = Lótus Branco = Pundarika. Cálice Vazio do Cristal Perfeito = Flor de Lótus da Lei Maravilhosa = Sadharma Pundarika = Mundo do Buda.

A Teoria Geral da Fatalidade


1ª Lei da Fatalidade

“Tudo acontece quando nada atrapalha”.

Esta Lei tem como conseqüência imediata o que segue:

“Tudo se atrapalha quando nada acontece”.

Corolário Cósmico da Completeza:

a-) um sistema só será completo se a resultante das ações concorrentes para o seu funcionamento perfeito for o imponderável.
b-) se a completeza está no imponderável, então a perfeição nada mais é que um equilíbrio (aniquilação mútua) insondável e acidental (temporário) de falhas.

Corolário da Fatalidade Intrínseca da Novidade:

a-) todo fato novo, previsível ou não, surpreende quando acontece; e tudo se atrapalha.

2ª Lei da Fatalidade

“A transformação é produto da observação, fatal e unicamente”.

Corolário da Condenação Eterna:

a-) todo observador estará condenado a mudar, primeiramente, a idéia alheia e, depois, a sua própria idéia seguidamente, até que a entropia do sistema observado estabeleça a confusão geral.

Corolário do Esquecimento Newtoniano:

a-) a toda observação opor-se-á uma transformação em tal intensidade que jamais o observável poderá ser completamente compreendido.

b-) compreensão é sinônimo de cegueira nos domínios da criação.

O quê você acha de estar rindo de coisas tão sérias e verdadeiras? Será que você pensa nada ter a ver com as constatações acima? Se for esse o seu caso, releia-as atentamente antes de prosseguir na leitura deste livro (O MAIS PROFUNDO EU SOMOS NÓS). No final, você terá a percepção de quão profundas poderão ser as coisas mais óbvias, sendo este o aspecto mais surpreendente da realidade última da vida, a qual, muitos de nós, recusamo-nos a ver.

Abertura

Benvindo à Trilha do Grande Veículo.

Flor de Lotus

Foto: André Felipe L. de C. e Camargo – Local: Sítio da Dôra

Prezados(as),

Esta é a Flor de Lótus. Vem do sânscrito “Pundarika” que, a rigor, quer dizer “Lótus Branco“. Floresce no lodo, que tem seu análogo nas circunstâncias que cercam a vida neste mundo Saha, mas dele não se aparta, revelando assim a pureza inerente à vida de todos os seres.

Nota: Saha quer dizer “Mundo da Tolerância“. Um mundo desigual, onde as impurezas e seus derivados são disputados como bens de vida.

 

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