O Verdadeiro Aspecto de Todas as Leis

“Chega, Shariputra. Não é necessário falar mais. Por que é assim? Como a insuperável Lei alcançada pelo Buda é a mais rara e difícil de compreender, somente os Budas podem dominar o conhecimento acerca do Verdadeiro Aspecto de todas as Leis[1], isto é: os aspectos da aparência, natureza, entidade (substância), poder, influência (função), causas (inerentes), relações, efeitos (latentes), retribuições (efeitos manifestos), e consistência do princípio ao fim[2]”.


[1] Desta primeira grande admoestação do Buda, denotada até pelo tom de suas palavras, depreende-se que mesmo discípulos como Shariputra, considerado o maior em sabedoria, e sendo assim uma pessoa dos 2(dois) veículos, poderão compreender o que está para ser revelado. Todavia, mais adiante, o Buda o adverte: “Com relação às Leis pregadas pelos Budas, deve-se dar lugar ao grande poder fé”.

[2] Uma interpretação para os aspectos enumerados é: 1. Aparência: É o mais importante dos dez aspectos, através do qual se revelam os demais, e corresponde ao aspecto físico do ser. Em termos do Santai (Três Verdades da Transitoriedade, Não-Substancialidade e Caminho-Médio), corresponde ao aspecto transitório, ou à impermanência de todos os fenômenos; 2. Natureza: espírito ou o aspecto não-substancial incorporado aos seres viventes; 3. Entidade: Caminho-médio, significando a não-dualidade de matéria (corpo) e vacuidade (não-substância), mas a sua unicidade no Ser; 4. Poder: Potencial de transformação que um ser possui, podendo exercê-lo sobre si mesmo e sobre o ambiente no qual vive. Pode ser traduzido como Sujeito (Ti – Buda Shakyamuni) ou sabedoria subjetiva. Esse potencial transforma-se em uma força transformadora através da ação; 5. Influência: A influência pode ser entendida como a resposta do ambiente à presença do Ser, ou a Realidade Objetiva (Kyo – Buda Muitos Tesouros) que sustenta a vida de um Ser. Esses aspectos de Poder e Influência podem ser compreendidos também a partir do princípio Budista da inseparabilidade entre o Ser e o Meio-Ambiente, chamado “Esho-Funi”. 6. Causa Inerente: É o conjunto de causas boas e más que existem inerentemente num Ser vivente. Essas causas diferem entre os seres e podem ou não se manifestar; 7. Relação: Uma causa externa ou circunstância de vida que pode criar as condições para a manifestação de uma Causa Inerente; 8. Efeito Latente: Está associado à Causa Inerente, existindo sempre como um resultado potencial para as causas inerentes da vida de um Ser; 9. Efeito Manifesto: Na presença de uma Relação ou Causa Externa, uma Causa Inerente produz um Efeito Manifesto como um resultado concreto. Esses quatro aspectos podem ser entendidos como a Lei da Causalidade, ou Lei Mística da Causa e Efeito, ou Saddharma-Pundarîka que literalmente significa Lei Maravilhosa do Lótus (causa e efeito simultâneos); 10. Consistência do Princípio ao Fim: Significa que em termos dos mundos das dez direções (dez estados de vida), há uma perfeita consistência entre os nove aspectos da vida de um Ser; isto é, um Ser no estado de Fome apresenta os nove aspectos (aparência, natureza, entidade, etc.) do estado de Fome. Uma outra tradução encontrada para este aspecto é “Não é Diferente”, significando exatamente essa perfeita consistência e integridade. O que temos então? O Ser (o mortal comum) ladeado pelos Budas Shakyamuni e pelo Buda Muitos Tesouros, em meio a todos os seres de todos os mundos das dez direções, iluminados pela Lei Mística da Causa e Efeito. Objetivamente, esta é a realidade do mundo do Buda, ou seja, a Verdadeira Entidade de Todos os Fenômenos em sua integridade. Se existe um objeto para espelhar essa realidade, este objeto deve incorporá-la de forma totalizante e integral. Todavia, essa visão totalizante, integral e simultânea das características sempre manifestas de todos os fenômenos somente os Budas compartilham e o fazem na sua iluminação. De forma conclusiva, ainda que essa realidade pudesse ser descrita em termos da racionalidade humana, e as distinções empregadas com este fim são meramente meios hábeis para descrever essa realidade, ela só pode ser penetrada pelos olhos do Buda.

Extraído de CAP. 02: MEIOS HÁBEIS

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