Ao Apartar-se de um Grande Amigo

Kanthaka

Kanthaka, o cavalo do Príncipe Siddhartha, click na imagem para site de origem.

Bravamente, Kanthaka o carregou a uma grande distância. Quando o sol finalmente olhou por entre as pálpebras da noite, o mais nobre entre os humanos viu que ele estava próximo a uma floresta onde habitavam muitos eremitas devotos. Cervos estavam dormindo sob as árvores, e pássaros esvoaçavam destemidamente. Siddhartha sentiu-se descansado, e pensou que não necessitava prosseguir. Ele desmontou e gentilmente acariciou seu cavalo. Havia felicidade em seu olhar e em sua voz quando ele disse a Chandaka:

“Realmente, um cavalo tem a força e a rapidez de um Deus. E você, querido amigo, por fazer-me companhia, provou-me quão grande é sua afeição e a sua coragem. Foi um gesto nobre e muito me agrada. Aqueles que, como você mesmo, possam combinar energia e devoção são realmente raros. Você tem demonstrado que é meu amigo, e não espera qualquer recompensa de mim! No entanto, é geralmente um interesse egoísta que conduz homens juntos. Asseguro-lhe, você me fez muito feliz. Pegue seu cavalo agora e retorne para a cidade. Encontrei a floresta que estava procurando.”

O herói tirou as suas jóias e entregou-as a Chandaka.

“Pegue este colar”, disse ele, “e vá até meu pai. Diga-lhe que acredite em mim e não dê lugar à sua tristeza. Se eu adentrar um eremitério, não é porque estou carente de afeição por meus amigos ou porque meus inimigos provocam a minha ira; nem é porque busco um lugar entre os Deuses. A minha é uma razão digna: destruirei a velhice e a morte. Portanto, não entristeça, Chanda, e não permita que meu pai sinta-se infeliz. Deixei minha casa para livrar-me da infelicidade. A infelicidade nasce do desejo; digno de piedade é o homem que é um escravo das suas paixões. Quando um homem morre, há sempre herdeiros para a sua fortuna, mas herdeiros para as suas virtudes são raramente encontrados, nunca são encontrados.  Se o meu pai disser-lhe: “Ele partiu para a floresta antes do tempo determinado”, você responderá que a vida é tão incerta que a prática da virtude nunca é inoportuna. Diga isto ao rei, oh meu amigo, e dê o melhor de si para fazer-lhe esquecer de mim. Diga-lhe que não possuo virtude nem mérito; pois um homem sem virtude nunca é amado, e aquele que nunca é amado nunca é lamentado.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Os Portões de Kapilavastu

Kanthaka

Siddhartha ao deixar o palácio em seu cavalo Kanthaka. Click na imagem para site de origem.

Ele chamou o seu escudeiro, o rápido Chandaka.

“Traga-me o meu cavalo Kanthaka, imediatamente”, disse ele. “Permanecerei fora, para encontrar a eterna bem-aventurança. Sinto a profunda alegria, a força indomável que agora sustenta a minha vontade, a segurança de que tenho um protetor muito embora esteja sozinho, todas essas coisas me dizem que estou prestes a atingir o meu objetivo. Chegou a hora; estou no caminho para a libertação.”

Chandaka tinha conhecimento das ordens do rei, mas sentiu algum poder superior compelindo-o a desobedecer. Ele foi buscar o cavalo.

Kanthaka era um animal esplêndido; era forte e dócil. Siddhartha acariciou-lhe calmamente, e então disse-lhe numa voz terna:

“Muitas vezes, oh nobre animal, meu pai montou-lhe na batalha e derrotou os seus poderosos inimigos. Hoje, irei à busca da suprema bem-aventurança; empresta-me a sua ajuda, oh Kanthaka! Companheiros nas armas ou nos prazeres não são difíceis de encontrar, e quando nos propomos a adquirir riquezas, nunca carecemos de amigos (logo muitos se apresentam). Mas os companheiros e amigos nos abandonam quando é o caminho da santidade que iremos tomar. No entanto, disto estou certo: aquele que ajuda outro a cometer o bem ou o mal, compartilha daquele bem ou mal. Então saiba, oh Kanthaka, que é um impulso virtuoso que me compele. Empreste-me sua força e sua rapidez; a salvação do mundo, e a sua própria, está em jogo.”

O príncipe falou a Kanthaka como falaria a um amigo. Montou com decisão a sela, e parecia como o sol montado numa nuvem de outono.

O cavalo teve o cuidado de não fazer barulho, pois a noite era clara. Ninguém no palácio ou em Kapilavastu estava acordado. Pesadas trancas de ferro protegiam os portões da cidade, um elefante poderia levantá-las somente com grande dificuldade, mas, para permitir a passagem do príncipe, os portões abriram-se silenciosamente, de sua própria vontade.

Deixando seu pai, seu filho e sua gente, Siddhartha saiu da cidade. Não sentiu arrependimento, e numa voz firme, ele bradou:

“Até que eu veja o fim da vida e da morte, não retornarei à cidade de Kapila.”

Os Potões de Kapilavastu

O Portão Leste, através do qual o Príncipe Siddhartha deixou a vida mundana. Click na imagem para o site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Soberana Decisão

O príncipe respondeu:

“Prometa-me quatro coisas, oh pai, e não deixarei vossa casa para recolher-me às florestas.”

“Quais são elas, filho?”, indagou o rei.

“Prometa-me que minha vida não terminará com a morte, que a doença não prejudicará a minha saúde, que a velhice não se seguirá à minha juventude, que o infortúnio não destruirá a minha prosperidade.”

“Você está pedindo demais”, respondeu o rei. “Desista dessa ideia. Não é bom agir sob um impulso tolo.”

Solene como a montanha Meru, o príncipe disse ao seu pai:

“Se você não pode me prometer essas quatro coisas, não me retenha, oh pai. Quando alguém está tentando escapar de uma casa em chamas, não devemos  impedi-lo. Inevitavelmente, virá o dia quando deveremos deixar este mundo, mas que mérito há numa separação involuntária (forçada)? Uma separação voluntária é longinquamente melhor. A morte  me levaria do mundo antes que eu alcançasse o meu objetivo, antes que eu satisfizesse meu ardor. O mundo é uma prisão: eu poderia libertar aqueles seres que são prisioneiros do desejo! O mundo é um profundo abismo onde vagueiam o ignorante e o cego:  eu acenderia a lâmpada da sabedoria, removeria a película que esconde a luz da sabedoria! O mundo tem levantado a bandeira errada, tem levantado a bandeira do orgulho: eu poderia puxá-la abaixo, poderia rasgar em pedaços a bandeira do orgulho! O mundo é conturbado, o mundo é um turbilhão, o mundo é uma roda de fogo: eu poderia, com a verdadeira lei, trazer a paz a todos os homens!”

Com lágrimas nos olhos, ele retornou ao palácio. No grande salão as acompanhantes de Gopa estavam rindo e cantando. Ele não lhes deu atenção. A noite veio, e elas ficaram em silêncio.

Elas caíram no sono. O príncipe as olhou.

Foi-se a sua graça premeditada (ensaiada), foi-se o brilho dos seus olhos. Seus cabelos estavam desgrenhados, suas bocas abertas, seus braços e pernas estavam rigidamente esticados ou desajeitadamente retorcidos sob seus corpos. E o príncipe gritou:

“Mortas! Elas estão mortas! Encontro-me num cemitério!”

E as deixou, fazendo seu caminho em direção aos estábulos reais.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Os Apelos de Suddhodana

Rei Suddhodana e a Rainha Maya

Rei Suddhodana e a Rainha Maya. Click na imagem para detalhes.

Retornou à cidade. Nas proximidades dos portões ele passou por uma jovem mulher que curvou-se e disse-lhe: “Aquela que é sua noiva deve conhecer a suprema bem-aventurança, oh nobre príncipe”. Ele ouviu sua voz, e sua alama encheu-se de paz: veio-lhe o pensamento da suprema bem-aventurança, beatitude, do nirvana.

Ele foi ao rei, curvou-se e disse-lhe:

“Rei, defira o pedido que tenho a fazer. Não se oponha a ele, porque estou determinado. Gostaria de deixar o palácio, gostaria de trilhar o caminho da libertação. Devemos nos separar, pai.”

O rei ficou profundamente comovido. Com lágrimas nos olhos, a voz embargada, disse ao seu filho:

“Filho, desista dessa ideia. Você ainda é jovem demais para considerar uma vocação religiosa. Nossos pensamentos nos primódios da vida são inconstantes e mutáveis. Além disso, é um grave erro levar ao cabo práticas de austeridades em nossa juventude. Nossos sentidos são ávidos por novos prazeres; nossas mais firmes decisões são esquecidas quando aprendemos quanto custam em esforços. O corpo vagueia na floresta do desejo, somente nossos pensamentos escapam. Jovens carecem de experiência. Está mais para mim abraçar a religião. É chegado para mim o tempo para deixar o palácio. Eu abdico, oh meu filho. Reine em meu lugar. Seja forte e corajoso; sua família necessita de você. Primeiro conheça as alegrias da juventude, e então aquelas dos anos tardios, antes de recolher-se às florestas e tornar-se um eremita.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Herói

Siddhartha não encontraria mais a paz. Ele caminhava pelos corredores do seu palácio como um leão atingido por algum dardo envenenado. Estava infeliz.

Certo dia, veio-lhe um grande desejo pelos campos abertos e pela visão dos verdes prados. Ele deixou o palácio, e como perambulava sem rumo pelos campos, ponderou:

“É de fato lamentável que o humano, fraco como realmente é, sujeito às doenças, com a certeza da velhice, e tendo a morte como destino inexorável, deva, na sua ignorância e orgulho, menosprezar os doentes, os idosos e os mortos. Se eu olhasse com desgosto (apenas) para alguns companheiros que estivessem doentes, velhos ou mortos; eu seria injusto, eu não seria digno de compreender a lei suprema.”

E como ele ponderava sobre a miséria da espécie humana, ele perdeu a vã ilusão da força, da juventude e da vida. Não conheceria mais alegria ou tristeza, dúvida ou cansaço, desejo ou amor, ódio ou desprezo.

De repente, ele viu um homem aproximar-se, o qual parecia um mendigo e que era visível somente para ele.

“Diga-me, quem é você?”, indagou-lhe o príncipe.

“Herói”, disse o monge, “devido ao medo do nascimento e da morte, tornei-me um monge itinerante. Procuro a libertação. O mundo está a mercê da destruição. Não penso como outros homens; evito prazeres; nada sei sobre a paixão; busco a solidão. Às vezes vivo ao pé de uma árvore; às vezes nas montanhas solitárias, ou às vezes na floresta. Nada possuo; nada espero. Eu vagueio, vivendo da caridade, e buscando apenas o bem mais elevado.”

Ele falou. Então, ascendeu aos céus e desapareceu. Um Deus havia tomado a forma de um monge a fim de incitar o príncipe.

Siddhartha ficou feliz. Ele viu o seu dever; e decidiu deixar o palácio e tornar-se um monge.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Italy, Vicenza, Veneto

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Pérolas do Universo – Fascículo XIV

O Buda disse: “Oh bom homem! [Suponha que] exista uma estrada plana. Os seres caminham [ao longo dela], e não há nada que obstaculize o seu avanço. No meio da estrada existe uma árvore, cuja sombra é fresca. Os viajantes fazem uma parada nesse lugar com o seu palanquim e descansam. Mas, existe sempre a sombra da árvore nesse lugar, e não há diferença. A sombra não se acaba, e ninguém a leva embora. A estrada é a Via Sagrada, e a sombra a Natureza de Buda.”

Leia mais em Pérolas do Universo, Fascículo 14.

Perolas do Universo 14

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Conteúdo deste Fascículo:

A História do Castelo de Kushinagar  3

A História do Castelo de Kapilavastu   6

A História do Monastério de Jetavana  8

O Menino Insuperável  11

As Onze Virtudes da Lua-Cheia  12

Tempo Correto Para a Prática da Meditação   13

Tempo Correto Para a Prática da Sabedoria  13

Tempo Correto Para a Prática da Equanimidade  14

As Dez Virtudes do Bodhisattva  15

Fé. 15

Preceitos. 15

Amizade com Bons Amigos da Via. 16

Quietude. 16

Esforço. 17

Memória. 17

Gentileza. 17

Proteção do Dharma. 18

Doação. 18

Sabedoria. 19

Carma Determinado e Indeterminado   20

A Retribuição Cármica do Bodhisattva  21

Palavra Verdadeira  22

Dois Tipos de Pessoas  23

O Corpo e o Fogo. 24

A Prática do Corpo   25

A Prática dos Preceitos  26

A Prática da Mente  27

A Prática da Sabedoria  28

Fuga do Inferno. 29

A Árvore Bodhi 30

O Sonho de Gopa

Gopa estava à espera do príncipe. Ele evitou-a. Deixou-a ansiosa, e quando finalmente ela caiu no sono, teve um sonho:

A terra toda tremeu; as mais altas montanhas balançaram; um vento furioso soprou, quebrando e arrancando as árvores. O sol, a lua e as estrelas caíram do céu à terra. Ela, Gopa, foi despojada de suas roupas e ornamentos; tinha perdido a sua coroa; estava nua. Seu cabelo foi cortado. O leito nupcial foi quebrado; os robes do príncipe e as pedras preciosas com as quais eles eram bordados foram espalhadas. Meteoros riscavam o céu sobre uma cidade escura, e o (Monte) Meru, rei das montanhas, tremeu.

Dominada pelo terror, Gopa despertou. Ela correu para seu marido.

“Meu senhor, meu senhor”, gritava, “O que acontecerá? Eu tive um sonho terrível! Meus olhos estão cheios de lágrimas, e meu coração cheio de medo.”

“Conte-me seu sonho”, respondeu o príncipe.

Gopa relatou tudo o que havia visto no seu sonho. O príncipe sorriu.

“Alegre-se, Gopa”, disse ele, “alegre-se. Você viu a terra agitar-se? Então, um dia os próprios Deuses se curvarão diante de você. Você viu a lua e o sol caírem do céu? Então, em breve você derrotará a maldade, e receberá louvor infinito. Você viu as árvores (sendo) arrancadas? Então você encontrará uma forma de sair da floresta do desejo. Seu cabelo foi cortado? Então você se libertará da rede de paixões que a mantém em cativeiro. Meus robes e minhas jóias foram espalhados? Então eu estou no caminho para a libertação. Meteoros riscaram o céu sobre uma cidade escura? Então, para o mundo ignorante, para o mundo que é cego, levarei a luz da sabedoria, e aqueles que tiverem fé em minhas palavras conhecerão a alegria e a felicidade. Sinta-se feliz, oh Gopa, acabe com a sua melancolia; em breve você será honrada singularmente. Durma, Gopa, durma; você teve um lindo sonho.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Os Préstimos de Udayin

O cocheiro entrou no bosque. As árvores jovens estavam em floração, pássaros esvoaçavam alegremente como que embriagados pela luz e pela atmosfera, e sobre a superfície dos tanques, o lótus curvava as suas pétalas para beber o frescor do ar.

Karnataka Apsara

Estátua em arenito do século X de uma Apsara de Madhya Pradesh, India. Fonte: Wikipedia

Siddhartha foi contra a sua vontade, como um jovem eremita, que ainda muito novo para os seus votos, teme a tentação e é levado para algum palácio celestial onde lindas Apsaras estão acostumadas a dançar. Cheias de curiosidade, as donzelas levantaram-se e vieram para a frente como se para cumprimentar um noivo. Seus olhos brilhavam com admiração, e suas mãos estendidas eram como flores. Todas elas pensaram: “Este é Kama em pessoa de volta à terra.” Mas não falaram, nem mesmo sorriram, tão tímidas ficaram em sua presença.

Udayin chamou as mais ousadas e belas, e disse-lhes:

Por que vocês me desapontaram hoje, vocês que escolhi em meio a muitas para cativarem o príncipe, meu amigo? O que lhes fez comportarem-se como uma criança tímida e quieta? Seu encanto, sua beleza, sua ousadia conquistariam mesmo o coração de uma mulher, e vocês tremem diante de um homem! Vocês me mortificam. Venham, levantem-se! Usem seus encantos! Façam-lhe render-se ao amor!” Uma das donzelas falou:

“Ele nos intimida, oh mestre; seu majestoso esplendor intimida-nos.”

“Grande como é”, respondeu Udayin, “ele não a assustaria. Pois estranho é o poder das mulheres. Permita-me lembrar-lhes de  todos aqueles que, no passado, ficaram a mercê de um olhar terno. Certa vez o grande eremita Vyasa, a quem mesmo os Deuses temiam ofender, foi chutado por uma cortesã chamada Bela de Benares, e ele não ficou descontente. O monge Manthalagotama, que era famoso por suas longas penitências, tornou-se um assistente de funerária, no sentido de ganhar os favores da devassa Jangha, uma mulher da mais baixa casta. Santa artisticamente conseguiu seduzir Rishyasringa, um homem erudito que nunca tinha conhecido uma mulher; e o mais piedoso de todos os homens, o glorioso Visvamitra que, certo dia, na floresta, rendeu-se às importunações da Apsaras Ghritaki. E eu poderia nomear muitos outros que sucumbiram à mulheres como vocês, oh lindas donzelas! Venham, não tenham medo do filho do rei. Sorriam para ele, e ele se apaixonará por vocês.”

As palavras de Udayin encorajaram as donzelas. Sorrindo, e com extraordinária graça, elas gradualmente formaram um círculo em torno do príncipe.

Elas usaram as artimanhas mais atraentes no intuito de abordar Siddhartha, de modo a esbarrá-lo ou segurá-lo, e roubar uma carícia. Uma delas fingiu tropeçar e agarrou-se à sua cintura. Uma outra aproximou-se e discretamente susurrou em seu ouvido, “digne-se a ouvir o meu segredo, oh príncipe”. Uma outra fingiu embriaguez; ela lentamente desenrolou o véu azul que atava os seus seios, e então veio e encostou em seu ombro. Uma outra pulou do galho de uma mangueira e, sorridente, tentou impedi-lo de passar. Ainda uma outra ofereceu-lhe uma flor de lótus. E uma delas cantou: “Veja, querido, essa árvore está coberta de flores, flores cujo perfume satura o ar; em seus galhos, pássaros raros gorjeiam felizes canções, como se em uma gaiola dourada.  Ouça as abelhas, pairando sobre as flores; estão excitadas e arrebatadas por um calor ardente. Olhe aquelas trepadeiras, abraçando calorosamente e árvore; a brisa agita-lhes com uma mão ciumenta. Ali, naquela clareira encantadora, você vê o lago prateado adormecido? Está sorrindo, sonolento, como uma donzela acariciada por forte raio de luar.”

Lótus Azul

Foto de Marcos Ubirajara em 17/09/2011. Local: Sítio da Dôra.

Mas o príncipe não estava sorrindo; estava infeliz, por estar a pensar sobre a morte.

Ele pensou: “Essas donzelas não sabem que a juventude é fugaz, e que a velhice virá e as privará de sua beleza! Elas são cegas para a ameaça que é a doença, embora sejam mestras nas artes mundanas. Nada sabem da morte, da morte imperiosa, da morte que destrói todas as coisas! E esse é o porquê elas podem sorrir, esse é o porquê elas podem brincar!”

Udayin tentou interromper os pensamentos de Siddhartha.

Ele disse: “Por que você é tão descortês com essas donzelas? Talvez por não lhe interessarem? O que importa! Seja gentil com elas, mesmo a custa de alguma mentira. Poupe-lhes da vergonha de serem rejeitadas. Como sua beleza poderá conquistá-lo se você é displicente? Você será como uma floresta sem flores.”

“O que há de bom nas mentiras, o que há de bom nas lisonjas”? respondeu o príncipe. “Eu não enganaria essas mulheres. A velhice e a morte estão a espreita por mim. Não tente me seduzir, Udayin; não me peça para juntar-me à nenhuma diversão vulgar. Eu vi a velhice, eu vi a doença, e estou certo da morte; nada agora pode dar-me paz no pensamento. E você queria que me rendesse ao amor? De que metal é feito o homem que sabe da morte e ainda busca o amor? Um cruel e implacável guardião (da morte) está à sua porta, e ele nem sequer chora!”

O sol estava se pondo. As donzelas tinham cessado seus sorrisos; o príncipe não tinha olhos para suas guirlandas e suas jóias. Elas sentiram que seus encantos de nada valeram, e lentamente elas pegaram a estrada de volta à cidade.

O príncipe retornou ao palácio. O Rei Suddhodana ouviu de Udayin que seu filho estava desprezando todo o prazer, que naquela noite ele não havia encontrado o sono.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Ettore Majorana

Ettore

Ettore Majorana. Click na imagem para site de origem.

Ettore Majorana nasceu na Catania, Sicília. Extremamente talentoso em matemática, era muito jovem quando juntou-se ao grupo de Enrico Fermi em Roma como um dos Via Panisperna boys“, cujo nome vem da rua onde se encontrava o seu laboratório.

Seu tio Quirino Majorana também era um físico.

Iniciou seus estudos na universidade na área de engenharia em 1923, mas mudou para física em 1928 a pedido de Emilio Segrè.Suas primeiras publicações (trabalhos científicos) lidavam com problemas de espectroscopia atômica.

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Os Primeiros Trabalhos Acadêmicos Publicados

Seu primeiro trabalho, publicado em 1928, foi escrito quando ele era um estudante de graduação e teve a co-autoria de Giovanni Gentile Jr., então um professor Junior no Instituto de Física em Roma. Esse trabalho era uma precoce aplicação quantitativa para a espectroscopia atômica do modelo estatístico da estrutura atômica de Fermi (hoje conhecido como modelo de Thomas-Fermi, devido à sua descrição contemporânea feita por Llewellyn Thomas).

Neste trabalho, Majorana e Gentile fizeram os cálculos iniciais no contexto desse modelo, que resultaram numa boa aproximação para as energias nucleares experimentalmente observadas dos elétrons do gadolínio e do urânio, e das linhas divisórias da estrutura fina do césio observadas no espectro óptico. Em 1931, Majorana publicou o primeiro trabalho descrevendo o fenômeno da autoionização no espectro atômico, designado por ele como “ionização espontânea”. Um trabalho independente no mesmo ano, publicado por Allen Shenstone da Universidade de Princeton, designou o fenômeno como “auto-ionização”, um nome usado anteriormente por Pierre Auger. Este nome se tornou convencional, sem o hífen.

Majorana obteve seu diploma de graduação em engenharia e concluiu seu doutorado em física, ambos na Universidade de La Sapienza de Roma.

Em 1932, ele publicou um trabalho no campo da espectroscopia atômica concernente ao comportamento dos átomos alinhados nos campos magnéticos variantes-no-tempo. Esse problema, que era estudado também por I.I. Rabi e outros, levou a um importante sub-ramo da física atômica: a espectroscopia da radio-frequência. No mesmo ano, Majorana publicou seu trabalho sobre a teoria relativística das partículas com momento intrínseco arbitrário, no qual ele desenvolveu e aplicou representações dimensionais infinitas do grupo de Lorentz, e deu uma base teórica para o espectro de massa das partículas elementares. Assim como a maioria dos trabalhos de Majorana em italiano, ele definhou em relativa obscuridade por várias décadas. (Isso é discutido em detalhes por D. M. Fradkin, Amer. J. Phys., vol. 34, pp. 314–318 (1966)).

Ele foi o primeiro a propor a hipótese de que a partícula desconhecida envolvida na experiência de Irene Curie e Frederic Joliot não devia apenas ser neutra, mas tinha uma massa semelhante à do próton: ele estava inventando o nêutron. Quando ele explicou isto a Fermi, Fermi disse-lhe para escrever um artigo sobre isto, mas Majorana não se importou, e o crédito por esta interpretação foi dado a James Chadwick (o qual foi laureado com o Prêmio Nobel por essa descoberta).

Genius and Mystery

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Majorana ficou conhecido por não buscar crédito por suas descobertas, considerando seu trabalho como se fosse banal.

O Trabalho com Heisenberg, Doença e Isolamento

“Por insistência de Fermi, Majorana deixou a Itália no início de 1933 através de uma concessão do Conselho Nacional de Pesquisa. Em Leipzig, Alemanha, ele encontrou-se com Werner Heisenberg, outro ganhador do Prêmio Nobel. Nas cartas que ele subsequentemente escreveu a Heisenberg, Majorana revelou que tinha descoberto nele não somente um colega no mundo científico, mas um caloroso amigo pessoal.” Majorana também viajou a Copenhagen, onde trabalhou com Neils Bohr, outro ganhador do Prêmio Nobel, também amigo e mentor de Heisenberg.

Os Nazistas haviam chegado ao poder na Alemanha quando Majorana lá chegou. Ele estudou com Werner Heisenberg em Leipzig, e trabalhou numa teoria do núcleo (publicada na Alemanha em 1933), a qual, em seu tratamento do intercâmbio de forças, representou um desenvolvimento a mais para a teoria do núcleo de Heisenberg. O último trabalho publicado de Majorana, em 1937, desta vez um italiano, foi a elaboração de uma teoria simétrica dos elétrons e pósitrons.

“No outono de 1933, Majorana retornou à Roma com a saúde debilitada, tendo desenvolvido gastrite aguda na Alemanha e, aparentemente, sofrendo de esgotamento nervoso. Colocado sob rigorosa dieta, ele permaneceu recluso e tornou-se áspero em suas relações com a família. À sua mãe, com quem ele tinha previamente compartilhado um caloroso relacionamento, ele escreveu da Alemanha que não a acompanharia em suas férias habituais de verão na praia. Comparecendo ao instituto menos frequentemente, era raramente visto deixando sua casa; o jovem e promissor físico havia tornado-se um eremita. Durante aproximadamente quatro anos ele isolou-se dos amigos e parou de publicar.”

Ao longo desses anos, nos quais ele publicou poucos artigos, Majorana escreveu muitos pequenos trabalhos sobre temas diversos: de Geofísica à Engenharia Elétrica, de Matemática à Teoria da Relatividade. Esses trabalhos não publicados, preservados na Domus Galileiana em Pisa, foram recentemente editados por Erasmo Recami e Salvatore Esposito.

Tornou-se professor pleno (livre docente) de física teórica na Universidade de Nápoles em 1937, sem qualquer necessidade de ser examinado em concurso porque, conforme se certificava através de documentos oficiais, o comitê examinador sugeriu que tais documentos apontavam Majorana como professor pleno de Física Teórica na Universidade do Reinado Italiano em razão da sua “elevada fama de perito (expertise) singular alcançada no campo da física teórica”, independentemente das normas (regras) de concurso.

A sugestão do comitê examinador foi aceita e Majorana obteve a cadeira de Física Teórica em Nápoles. Após poucos meses de ensino, todavia, sua posse do cargo terminou com o seu bem conhecido desaparecimento.

Trabalho sobre a massa do neutrino

Majorana fez um presciente trabalho teórico sobre a massa do neutrino, atualmente um ativo objeto de pesquisa. Ele também trabalhou sobre uma idéia de que a massa (do neutrino) poderia exercer um pequeno efeito de blindagem sobre ondas gravitacionais, a qual não sofreria muita atração (devido a essas ondas).

Desaparecimento no mar e as teorias

Majorana desapareceu em circunstâncias desconhecidas durante o retorno de uma viagem de barco de Palermo à Nápoles. A despeito das várias investigações, a verdade sobre o seu destino é ainda incerta. Seu corpo nunca foi encontrado. Aparentemente, ele havia sacado o dinheiro do seu salário de sua conta bancária, antes de seguir viagem para Palermo. Ele pode ter viajado à Palermo esperando visitar seu amigo Emilio Segrè, um professor da Universidade de lá. Mas Segrè encontrava-se na Califórnia naquela ocasião, Setembro de 1938 e, como Judeu, teve seu retorno à Itália barrado por uma lei de 1938 decretada pelo governo de Mussolini. Em 25 de Março de 1938, Majorana escreveu uma nota para Antonio Carreli, Diretor do Instituto de Física de Nápoles, pedindo para ser lembrado por seus colegas que ele havia tomado uma decisão inevitável, desculpando-se pelo transtorno que o seu desaparecimento causaria. Esta (nota) foi seguida rapidamente por uma outra rescindindo seus planos anteriores. Aparentemente, ele comprou um bilhete de Palermo para Nápoles e nunca mais foi visto novamente. Teve morte presumida a 27 de março de 1938

Várias possíveis explicações para o seu desaparecimento foram p.ropostas, a saber:

  • Hipótese de suicídio, por seus colegas Amaldi, Segrè e outros;
  • Hipótese de fuga para a Argentina, por Erasmo Recami e Carlo Artemi (que desenvolveu uma reconstrução hipotética detalhada da possível fuga e vida de Majorana na Argentina);
  • Hipótese de fuga para um monastério, por Sciascia;
  • Hipótese de sequestro ou assassinato, para evitar a sua participação na construção de uma bomba atômica, por Bella, Bartocci e outros;
  • Hipótese de fuga para tornar-se um mendigo ou indigente (hipótese do “omu cani”), por Bascone.

Reabertura do Caso

Em Março de 2011, a imprensa italiana, digamos o escritório da Procuradoria de Roma, anunciou um inquérito sobre a declaração feita por uma testemunha a respeito do encontro com Majorana em Buenos Aires nos anos após a Segunda Guerra Mundial.

Il Mistero

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Em 7 de junho de 2011, a imprensa italiana noticiou que o RIS do Carabinieri analisou a fotografia de um homem feita na Argentina em 1955, encontrando dez pontos de similaridade com a face de Majorana.

Fonte: Wikipedia – a Enciclopédia Livre, http://en.wikipedia.org/wiki/Ettore_Majorana

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