O Verso Adamantino

E por quê? Por que se necessita da prajna literária, da contemplativa, e da marca real? O Buda Shakyamuni falou um verso de quatro linhas que aqueles que estudam o Sutra Diamante devem recitar regularmente:

Todos os Dharmas Condicionados,

São Como Sonhos, Ilusões, Bolhas, Sombras,

Como Gotas de Orvalho e um Lampejo:

Contemple-os assim.

Tudo é dharma condicionado. Comer, vestir, caminhar, parar, sentar, reclinar, tocar um negócio – todas as atividades são dharmas condicionados. Aqueles são exemplos de dharmas condicionados externos. Há também os Cinco Skandhas: forma, sentimento, pensamento, atividades, e consciência; os quais são dharmas condicionados. Os quatro elementos principais: terra, água, fogo e ar são dharmas condicionados. As seis raízes, as seis poeiras, os doze lugares, e os dezoito reinos são todos dharmas condicionados. Todos esses dharmas, quer sejam externos ou internos, são como sonhos, ilusões, bolhas, sombras.

O que é um sonho? Ninguém sabe. Se soubéssemos, então não sonharíamos. As pessoas encontram-se num sonho perpétuo. Quando você cai no sono e sonha, você não tem conhecimento das coisas que existem (ou acontecem) em seu estado desperto comum, e quando você desperta do sonho, normalmente você não consegue lembrar de todos os eventos do sonho. Da mesma maneira, somos incapazes de relembrar os eventos de nossas vidas anteriores, porque eles desapareceram no sonho da vida presente.

Alguém pode ter um sonho no qual ele se torna rico, é nomeado para um alto cargo, e está à beira de tornar-se presidente, quando subitamente alguém lhe diz: “Senhor, você está realmente tendo um sonho”. Mas em meio ao seu sonho de riqueza e posição, a pessoa não pode acreditar no que lhe é dito.

“Todas as coisas que estão acontecendo para mim são reias”, ele diz, “estou rico, tenho um alto cargo, e sou candidato a presidente. Como você pode dizer que estou sonhando?” Todavia, quando ele desperta do seu sonho, saberá sem que lhe seja dito que todos aqueles eventos aconteceram num sonho.

Assim também nós, pessoas, somos como se estivéssemos num sonho. Agora eu lhe direi: “isto é um sonho”. Embora lhe tenha dito, certamente você responderá: “O que quer dizer, um sonho? Isto é tudo real. Essas coisas estão de fato acontecendo. Como pode dizer que isto é um sonho? Você engana as pessoas”.

Quando a sua cultivação estiver realizada, você despertará desse sonho e saberá sem que lhe seja dito que todas as coisas que você fez no passado era um sonho. A razão de você não acreditar quando lhe disse que você estava sonhando é que você ainda não havia despertado do seu sonho. Quando você despertar, você concordará: “Sim, era tudo um sonho”.

Ilusões são irreais, são como os truques de um mágico. O mágico recita um mantra e uma flor de lótus aparece subitamente na água, ou em meio ao fogo. Ou ele pode fazer com que uma pedra de jade subitamente apareça como se viesse do nada. Um mágico parece possuir poderes espirituais e talento maravilhoso, mas o que ele faz é irreal. Embora pareça real, se você investigar, verá que é ilusório, não-existente. Tais atos como o lótus no fogo podem levar crianças ou tolos a acreditar que o lótus é real. Mas um adulto pode dar uma olhada e saber que é um truque.

Quando você compreende o Budadharma, você sabe que todas as coisas são vazias e ilusórias. O mundo é vazio e ilusório, feito de uma conjunção de fatores (condições) que apenas parece ser real. Quando você não compreende o Budadharma, você é como a criança ou o tolo que considera todas as coisas como sendo reais. Isto não é menosprezar as pessoas! É um simples fato. Pessoas que não compreendem o Budadharma pensam que estar rico é real e pensam que uma posição em alto cargo realmente existe. Na realidade, todas as coisas são uma. Uma pessoa é a mesma quer seja rica ou pobre. Se você compreende que todas as coisas são vazias e ilusórias, então você não pode ser confundido por nada. Não se tornará apegado a situações irreais.

Bolhas são também basicamente irreais, e rapidamente desaparecem para mostrar a sua vacuidade.

Sombras seguem as pessoas. Quando existe a forma, então existe a sombra. A forma é uma substância real, a sombra é vazia. Se explicado em maior profundidade, mesmo a forma em si é vazia e totalmente irreal. Se você não acredita nisto, então continue a apegar-se ao seu corpo, proteja-o e mantenha-o, e veja se ele morre ou não.

Como gotas de orvalho e um lampejo. Se você olhar para fora ao amanhecer, você encontrará o orvalho mas, após o sol nascer, o orvalho desaparecerá. Um lampejo também é impermanente.

Contemple-os assim. Você deve contemplar todas as coisas condicionadas dessa maneira. Se você o fizer, então o céu será vazio e a terra será uma cavidade. O tamanho do seu coração será tão vasto quanto os céus e tão amplo quanto o espaço vazio, livre de impedimentos. Sem impedimentos não há medo.

Eu não tenho medo. Nunca tive medo de nada desde o momento em que nasci. Homens mortos, homens vivos, essências ou criaturas estranhas, tigres, leões – não tenho medo deles. Traga-me um tigre e o transformarei num gatinho. Experimente. Posso ser desta maneira porque não tenho obstruções. Comigo, está tudo OK. Se todas as coisas são como gotas de orvalho e um lampejo, como sonhos, ilusões, bolhas ou sombras, então o que pode (me) obstruir? Não há obstruções, e assim não há medo. O Sutra Coração diz: “Quando não há impedimentos não há medo”. Sem medo, “Pensamentos como sonhos de cabeça-para-baixo são deixados para trás”. Portanto eu digo: “Não tenho medo de tigres”. Se você não acredita em mim, traga um tigre e eu sentarei em meditação ao lado dele.

Sutra Diamante – Capítulo 32 – Os Corpos de Retribuição e de Transformação são Ilusórios.

Original

A Suprema Doação

Sutra:

“Subhuti, alguém poderia preencher imensuráveis asamkhyas de sistemas de mundos com as sete gemas preciosas e oferecê-las como uma doação. Mas se um bom homem, ou uma boa mulher, que tenha devotado seu coração ao Bodhi pegasse mesmo que tão pouco quanto um verso de quatro linhas deste sutra e recebesse, ostentasse, lesse, recitasse e extensivamente explicasse-lhe para outros, suas bênçãos superariam aquelas do outro alguém”.

Comentário:

Percebendo que algumas pessoas estariam dispostas a oferecer como doação tantas das sete gemas preciosas quanto as que preencheriam imensuráveis asamkhyas de mundos, você se perguntaria: “Posso doar toda a minha riqueza?” Se você não pode, seu mérito e virtude não são tão grandes quanto os daquela pessoa mencionada aqui. Todavia, se você não pode doar sua riqueza, isto não importa. Mantenha-a e venha estudar o Budadharma. Então, você poderá doar o dharma.

Quem sabe ao estudar o Budadharma aprenda-se a recitar o Sutra Diamante; ou tão pouco quanto um verso de quatro linhas dele. Aceite-o com o seu coração, mantenha-o com o seu corpo, leia-o de um livro, recite-o de memória, e extensivamente explique-o para outros. Se você puder fazê-lo, suas bênçãos e virtudes serão maiores do que aquelas de alguém que doe gemas que preencheriam ilimitados, inumeráveis mundos. Isso não é fácil? Esse é o porquê eu digo que você pode obter grande mérito e virtude sem necessariamente doar sua riqueza.

Sutra Diamante – Capítulo 32 – Os Corpos de Retribuição e de Transformação são Ilusórios.

Original

A Equanimidade de Todas as Visões

 5.    A equanimidade de todas as visões. O que é a visão do ‘eu’, a visão dos outros, a visão dos seres viventes, e a visão de uma vida? Não há nenhuma. Isto é a equanimidade de todas as visões. O remédio é prescrito de acordo com a doença mas, uma vez curado, você não precisa mais tomar o remédio. Se você ficar sob medicação após a doença ter sido curada, uma nova doença surgirá. Isto é equanimidade de todas as visões.

Esses cinco aspectos expressam a essência de todo o Sutra Diamante, mas para compreender a Prajna, o princípio da vacuidade, necessita-se de mais uma coisa: . Se você não acredita no princípio da vacuidade, então não importa quão a miúde ele seja explicado, ele não lhe fará bem. O Budadharma é como um grande oceano. Somente através da fé se pode adentrá-lo.

Sutra Diamante – Capítulo 31 – Nem Conhecimento e Nem Visão são Produzidos.

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A Equanimidade de Seres Viventes e Budas

  1. A equanimidade dos seres viventes e Budas. Quando eu tinha dezesseis anos, eu escrevi um dístico (estrofe de dois versos) combinado após a leitura do Sutra do Sexto Patriarca. Tendo estudado o lugar onde o texto diz: “O dharma não é súbito ou gradual, confusão e iluminação são lentas e rápidas”. Eu pensei: “Como pode ainda haver um súbito e um gradual? O que é súbito? O que é gradual? Súbito e gradual são diferentes? São duas coisas?” Assim, escrevi o seguinte:

Embora súbito e gradual sejam diferentes,

após a realização eles são um.

Por que fazer divisões de Norte e Sul?

 

Sábios e comuns são partes de um:

a natureza básica é absolutamente a mesma.

Não discuta Leste e Oeste.

“Embora súbito e gradual sejam diferentes, após a realização eles são um”. Súbito se refere à realização instantânea do Estado de Buda; gradual se refere à lenta cultivação para o Estado de Buda. Súbito e gradual são dois métodos distintos, mas quando se encerra o trabalho, não há nem súbito e nem gradual em evidência. Eles não mais existem.

“Por que fazer divisões de Norte e Sul?” O sul se refere ao Sexto Patriarca, o Grande Mestre Hwei Neng que ensinou dharmas súbitos; norte se refere ao Grande Mestre Shen Syou que advogou dharmas graduais. No sul os discípulos do Sexto Patriarca diziam: “Nós somos a verdadeira, a autêntica seita Zen (Chan)”. No norte, os discípulos do Grande Mestre Shen Syou diziam: “Nosso Mestre esteve com o Quinto Patriarca durante várias décadas. Todo o âmago do dharma do Quinto Patriarca lhe foi transmitido”. Cada seguidor dos discípulos arguia que seu mestre era autêntico. Deixe-me esclarecer neste ponto que não importa quem você conheça, você não deve defender o seu Mestre pleiteando o seu caso. Ao invés de afirmar que o seu Mestre transmite o dharma apropriado (correto), você pode dizer: “Nosso Mestre é vazio, falso, e irreal. Não há dharma que possa ser pregado. Não há nem verdadeiro, nem falso, nem certo e nem errado. Não se deve falar dos pontos positivos das pessoas ou de suas falhas”. Isto é o que você deve dizer. Não seja como os discípulos do Sexto Patriarca e do Grande Mestre Shen Syou que levaram adiante uma constante batalha na qual eles criticavam um o mestre do outro. A sua contenda cresceu até que se transformou nas divisões dos ensinamentos Súbito e Gradual, Norte e Sul. Quando eu li o Sutra do Sexto Patriarca, eu pensei que a referência ao Súbito e Gradual carecia de equanimidade, assim eu escrevi a linha: “Embora súbito e gradual sejam diferentes, após a realização eles são um”. Qual é a origem do súbito? Embora se atinja subitamente a iluminação, cultiva-se vida após vida por um longo tempo dentro do Budadharma antes daquela iluminação. Quando se colhe o fruto do longo processo de cultivação, isto é chamado súbito. Gradual se refere ao longo processo de cultivação, mas o dia em que a cultivação se completa, há a iluminação súbita. Por essa razão eu digo que não há súbito ou gradual.

“Por que fazer divisões de Norte e Sul?” Quanto mais fazer divisões como localidades. O que é sul? Você pode chamar um certo local de sul, mas se você vai ao sul dele, ele torna-se norte. No Sutra Sarangama há uma discussão do meio (intermédio), “quando visto do leste, ele é oeste, e quando visto do sul, ele é norte”. Sul e norte também são assim. Não há realmente norte ou sul, então por que fazer tais distinções em seu coração?

“Sábio e comum são partes de Um”. Sábio refere-se ao Buda; comum refere-se aos seres viventes. O mundo é dividido nesses dois tipos, mas “a natureza básica é absolutamente a mesma”. Estado de Buda é a realização da Natureza de Buda. Os seres viventes também podem revelar a sua Natureza de Buda.

“Não discuta leste e oeste”. Não diga que no oeste Amitabha é um Buda, e no leste todas as criaturas são apenas seres viventes. Não faça tais discriminações em seu coração. A Canção da Certificação para o Caminho do Grande Mestre Yung Jya diz: “Não existem pessoas e nem Budas. Os reinos como os grãos de areia em mil mundos são como uma bolha no oceano”. Se você compreende o Budadharma, não há nada a que você possa se apegar. Se você ainda tem um apego, você ainda não compreendeu o Budadharma.

“Não discuta leste e oeste”. Por que inventar tantas questões? Afinal, de onde vêm tantas questões? Essas questões nos lembram de Yajnadatta, que olhou no espelho em certa manhã e viu que a pessoa refletida tinha uma cabeça, momento em que ele compreendeu que nunca havia visto a sua própria cabeça, e concluiu que ela estava perdida. O pensamento levou-o à loucura, e ele correu desesperadamente à procura de sua cabeça. Realmente a sua cabeça não estava perdida. Ele mesmo havia chegado a essa conclusão. As pessoas que se tornam apegadas ao Budadharma são também assim. Elas se envolvem na busca pelo Budadharma. Como você realmente encontra o Budadharma? Volte-se para si; isto é o Budadharma. Voltar-se para si significa despertar. Desperte! Isto é o Budadharma. Se você não despertou, você ainda está dentro do Budadharma, mas você não compreende o que você é.

Para continuar a discussão sobre a equanimidade de seres viventes e o Buda, seres viventes são Budas pretéritos que tornaram-se seres viventes. Para seres viventes tornarem-se Budas novamente, eles necessitam apenas retornar à origem e estabelecer o Estado de Buda. Portanto ele diz: “Sábio e comum são partes de Um. A natureza básica é absolutamente a mesma”.

Sutra Diamante – Capítulo 31 – Nem Conhecimento e Nem Visão são Produzidos.

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Reconhecer, Compreender e Cultivar

Sutra:

Subhuti, se alguém dissesse que o Tathagata vem ou vai, senta ou levanta, aquela pessoa não compreenderia o significado dos meus ensinamentos. E por quê? O Tathagata não vem de algum lugar, nem vai a algum lugar. Porquanto ele é chamado o Tathagata”.

Comentário:

Após ter pregado a seção anterior do texto, o Buda Shakyamuni percebeu que as pessoas poderiam ter dúvidas e tornarem-se apegadas à marca das idas e vindas do Tathagata. Portanto, ele disse a Subhuti: “se alguém dissesse que o Tathagata vem ou vai, senta ou levanta, aquela pessoa não compreenderia o significado dos meus ensinamentos”. Como se Ele, o Tathagata, viesse e fosse, mas sua ida e vinda é apenas ilusória. Qualquer um que pense que realmente vem e vai falha em compreender o princípio que o Buda ensina. O Tathagata não tem um lugar do qual ele venha e nem um lugar para o qual ele vá; porquanto ele é chamado oTathagata. Isto significa que o corpo do dharma do Buda nem permanece e nem não permanece. Ele interpenetra todos os lugares. Se ele permeia todos os lugares, de onde ele poderia vir? Uma vez que ele permeia todos os lugares, para qual lugar ele poderia ir? Portanto, diz-se não permanecer e não não permanecer.

Se você compreende o Budadharma, as montanhas, rios e a grande terra são todos o corpo do dharma do Tathagata. Se você não compreende, você vê o Tathagata, mas não o reconhece. Se você compreende o Budadharma, você pode reconhecer o Buda sem sequer tê-lo visto, e uma vez que você reconheça o Tathagata, é muito fácil contar com o dharma para cultivar. Se você não reconhece o Tathagata e nem mesmo sabe que o Buda é tudo, como você pode estudar o Buda? Falhar em reconhecer e ainda continuar a estudar é chamado ‘um cego guiando outro cego’. Se você é cego, você pode cometer um engano e escolher seguir alguém que também é cego. Embora seu líder perceba que ele próprio é cego, ele pode desejar ser seguido e, dessa maneira, finge que pode ver. Vocês dois tateiam juntos, correndo aqui e ali, até que eventualmente ambos caiam no mar e se afoguem. Desde o início, é essencial reconhecer o Budadharma e compreender como cultivar. Então você pode estudar.

Quando você compreende o Budadharma, você pode fiar-se no dharma para cultivar e realizar o Estado de Buda. Se você seguir um portal do dharma de um caminho externo, você somente será levado para mais e mais longe. Quanto mais longe você for, mais difícil retornar; e em razão de você não poder retornar à origem, um perigo muito grave surge.

Sutra Diamante – Capítulo 29 – A Quietude de Forma Surpreendente.

Original

Nada Pregado e Nada Ouvido é a Verdadeira Prajna

Sutra:

“Subhuti, não diga que o Tathagata tem o pensamento: ‘Eu preguei o Dharma’.  Não pense dessa maneira. E por quê? Se alguém diz que o Tathagata pregou o dharma ele calunia o Buda devido à sua inabilidade de compreender o que eu disse. Subhuti, no dharma pregado não há dharma que possa ser pregado, porquanto é chamado dharma pregado”.

Então o sagaz Subhuti disse ao Buda: “Honrado pelo Mundo, no futuro haverá seres viventes que acreditarão neste sutra quando eles ouvirem-no em pregação?”

O Buda disse: “Subhuti, eles nem são seres viventes e nem não seres viventes. E por quê? Subhuti, seres viventes são pregados pelo Tathagata como não seres viventes, porquanto são chamados seres viventes.”

Comentário:

O Buda então dirigiu-se a Subhuti: “Não diga que o Tathagata pensa: ‘Eu preguei o Dharma’. Não diga que o Buda pregou o dharma. Eu não penso assim, e você não deve pensar dessa maneira também. Alguém que diga que o Tathagata pregou o dharma calunia o Buda ao fazê-lo. Essa pessoa não compreende o Budadharma”.

“O Buda pregou o dharma ao longo de quarenta e nove anos”, você dirá.

“Muitos sutras permanecem. Como se pode dizer que ele não pregou o dharma?”

Certa vez o Bodhisattva Manjushri perguntou: “Por favor, gostaria que o Buda girasse a roda da lei novamente?”

Ao que o Buda respondeu: “Manjushri, em quarenta e nove anos Eu não preguei uma única palavra. Como você pode solicitar-me girar a roda da lei novamente? Isto não implicaria que no passado eu já tenha girado a roda da lei?”

Isto é o que significa falar e no entanto não falar.

Certa vez Subhuti estava sentado numa gruta em cultivação e um deus veio a espalhar flores.

“Quem veio espalhar flores?”, perguntou Subhuti.

“O deus Shakra”, veio a resposta. “Shakra veio espalhar flores”.

“Por que você veio aqui espalhar flores?”, perguntou Subhuti.

Shakra disse: “Em razão de o Venerável pregar bem a prajna, eu vim fazer oferecimentos”.

Subhuti disse: “Eu não disse uma palavra. Como você pode dizer que eu preguei a prajna?”

Shakra respondeu: “O Venerável não pregou e eu não ouvi nada. Nada pregado e nada ouvido: essa é a verdadeira prajna.”

Pense sobre isso. Nada pregado e nada ouvido é a verdadeira prajna. Você ouviu a prajna? Se não ouviu, essa é a verdadeira prajna.

Sutra Diamante – Capítulo 21 – Pregado Embora Não Pregado.

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A Abertura dos Olhos Búdicos

Examinemos mais profundamente os cinco olhos. Eles são produzidos a partir de dentro ou eles vêm de fora? Os cinco olhos não são produzidos a partir de dentro; nem eles vêm de fora; e nem existem no intermédio. Cultive, faça esforços, e quando a sua habilidade for suficiente você os terá naturalmente. Antes que a habilidade suficiente seja atingida, nenhuma quantidade de procura fará com que eles funcionem. Procura é um pensamento falso. A procura sem uma ideia de procura traz uma resposta.

De que forma alguém se aplica na realização de esforços para abrir seus olhos?

Você precisa ser sábio no discernimento das questões, e sábio na cultivação. É sábio reconhecer o que é bom e, então, corajosa e vigorosamente trabalhar em prol daquilo. A característica da sabedoria é reconhecer e fazer votos de cortar e erradicar o que é mal. Realizar algo que seja bom e ainda não agir de acordo com o que é característico da estupidez. É estúpido reconhecer que algo seja um mal negócio e ainda promovê-lo e tornar-se envolvido com ele. Se você for estúpido, não será fácil obter os cinco olhos. No sentido de obtê-los, tudo o que você faz deve ser feito de forma extremamente límpida. Você deve ser muito preciso e não pode ser confundido. O que os cinco olhos fazem?

O Olho da Sabedoria contempla a natureza do reino do dharma.

Quando você deseja consultar os sutras Budistas, você deve usar um livro. Com o Olho do Dharma, todavia, você não necessita ler os sutras, porque você pode ver o Budadharma através de todo o espaço vazio, por todo o reino do dharma. Há sutras em toda a parte. Assim, diz-se que o Olho do Dharma ilumina completamente as marcas de todos os dharmas.

O Olho do Buda permite-lhe compreender o verdadeiro significado de todo o Budadharma. Aqueles entre vocês que desejam atingir o Olho do Buda devem lembrar que ele está localizado entre suas sobrancelhas. Caso contrário, no dia em que um olho aparecer naquele lugar você entrará em pânico e se perguntará: “Como adquiri um outro olho?” Minha advertência a você é para poupá-lo de qualquer sentimento de medo.

O Olho do Dharma pode interpenetrar completamente todas as coisas. As causas passadas e consequentes retribuições das pessoas, a penetração de vidas passadas, a penetração do Olho Celestial, tudo é completamente compreendido. O Olho do Buda é extremamente maravilhoso e inconcebível. Ele pode ver coisas com forma e coisas sem forma, com um poder muitos milhares de vezes maior que aquele do Olho Carnal.

Se você obtiver os cinco olhos, deverá protegê-los cuidadosamente. Como você deve protegê-los? Continuando a nutrir as suas boas raízes. Cultive bênçãos e sabedoria. Aqueles entre vocês que não obtiveram os cinco olhos precisam trabalhar duro no desenvolvimento de bênçãos e sabedoria. Quando suas bênçãos e sabedoria forem suficientes, seus cinco olhos abrirão.

Sutra Diamante – Capítulo 18 – Uma Substância Considerada como Idêntica.

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Os Olhos Búdicos

Sutra:

Subhuti, o que você pensa? O Tathagata possui o olho carnal?”

“Assim é, Honrado pelo Mundo. O Tathagata possui o olho carnal.”

“Subhuti, o que você pensa? O Tathagata possui o olho celestial?”

“Assim é, Honrado pelo Mundo. O Tathagata possui o olho celestial.”

“Subhuti, o que você pensa? O Tathagata possui o olho da sabedoria?”

“Assim é, Honrado pelo Mundo. O Tathagata possui o olho da sabedoria.”

“Subhuti, o que você pensa? O Tathagata possui o olho do dharma?”

“Assim é, Honrado pelo Mundo. O Tathagata possui o olho do dharma.”

“Subhuti, o que você pensa? O Tathagata possui o olho do Buda?”

“Assim é, Honrado pelo Mundo. O Tathagata possui o olho do Buda.”

“Subhuti, o que você pensa? O Tathagata falou dos grãos de areia no Rio Ganges?”

“Assim é, Honrado pelo Mundo. O Tathagata falou daquela areia.”

Comentário:

O Buda Shakyamuni novamente chamou Subhuti e indagou: “O Tathagata possui o olho carnal?” O olho carnal referido não é o olho ordinário das pessoas comuns, mas sim um dos cinco olhos. Por que lhe é dado o nome de olho carnal?

É chamado olho carnal porque ele pode ver objetos tangíveis e também objetos que são destituídos de forma ou marcas. Os olhos comuns podem ver pessoas, mas eles não podem ver fantasmas e espíritos. Todavia, com o poder do olho carnal, pode-se fechar os olhos comuns e continuar a ver pessoas. Ainda mais, o olho carnal pode examinar pessoas nos mínimos detalhes, tomando nota de quaisquer marcas distintivas como manchas ou marcas de nascência. O alcance do olho carnal é muito maior que aquele dos olhos comuns. Ele pode ver qualquer objeto dentro de um raio de cinco milhas sem qualquer obstrução.

O olho celestial, por outro lado, pode ver claramente através dos céus. Deuses podem ser vistos a jantar ou sentados em meditação, e pode-se observar outros eventos que ocorrem nos céus. O olho celestial não percebe objetos materiais (tangíveis) tais como pessoas, mesas, flores e similares.

O olho carnal, o olho celestial, o olho do Buda, o olho da sabedoria, e o olho do dharma estão localizados em sua cabeça. O olho carnal e o olho celestial encontram-se em lados opostos de sua testa. Quando os seus cinco olhos estiverem abertos e você puder utilizá-los, você mesmo conhecerá as suas posições.

“Já podemos ver todo o trajeto da lua através do uso de telescópios”, dirão alguns.

Com o uso do olho celestial você não necessita de um telescópio. Todas as coisas nos céus, todas as coisas na lua, e todas as coisas nas estrelas podem ser vistas diretamente de onde você estiver. Os cientistas agora realizam experiências no sentido de expandir os seus poderes de observação. Nós não fazemos experiências. Apenas aprendemos a entrar em Samadhi e então todas as coisas podem ser vistas muito claramente. O poder do olho celestial é muito útil no estudo da astronomia. Mas você não pode capitalizar (obter ganhos sobre) aquela habilidade se você adquirir o seu uso. Embora o olho celestial seja uma gema preciosa, ele não pode ser vendido. Se você vê algo com o olho celestial e tentar divulgar as suas descobertas, seu olho celestial automaticamente desaparecerá. É simplesmente maravilhoso. O olho celestial não pode ser usado para obter lucros, nem pode ser usado para adquirir poder sobre as pessoas. Se você disser coisas como: “Você tem que prestar mais atenção em mim. Eu conheço coisas que você não conhece”, você tem um defeito, e seu olho celestial rapidamente desaparecerá.

“Por quê”, você pergunta, “o olho celestial funciona dessa maneira?”

Arrogância é apego ao ‘eu’. A razão de um Bodhisattva ser capaz de conduzir seres viventes à travessia sem que haja uma marca dos seres viventes, ou marca de conduzi-los à travessia, é porque ele não tem apego ao ‘eu’. Se você obtém o poder de qualquer dos cinco olhos e então se gaba sobre aquela conquista dizendo: “eu tenho o olho celestial, você não tem”; então você não tem a estatura devida. Se originalmente você podia ver claramente com o olho celestial, você (agora) verá um pouco menos claramente como resultado do seu apego ao ‘eu’. Se você não vê claramente mas ainda é arrogante sobre a pouca realização que obteve, então você perderá totalmente qualquer poder que tenha alcançado. Há exatamente essa razão direta entre o poder dos cinco olhos e o apego ao ‘eu’. Portanto, é essencial compreender o Budadharma, pois se você não o faz, é possível cometer graves enganos.

Subhuti, o que você pensa? O Tathagata possui o olho da sabedoria?” O olho da sabedoria permite que se saiba em um piscar de olhos se algo está correto ou errado, se é verdadeiro ou falso. Uma pessoa estúpida confunde o que é falso com o que é verdadeiro, e o que é verdadeiro com o que é falso. Uma pessoa sábia sabe o que é verdadeiro e o que é falso, e não se engana. Todos precisam estudar o Budadharma a fim de desenvolver o olho da sabedoria.

Sutra Diamante – Capítulo 18 – Uma Substância Considerada como Idêntica.

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Todos os Ensinamentos Retornam ao Budismo

Portanto, o Tathagata diz que embora não haja um dharma que possa ser atingido, todos os dharmas são Budadharmas. Não há nada fora do Budadharma. Portanto, todos os ensinamentos são Budistas. Eles não vão além dos ensinamentos do Buda, porque o ensinamento do Buda contém todas as coisas. Budadharma é a totalidade de todos os dharmas (fenômenos). O Budismo é a totalidade de todos os outros ensinamentos. Todas as escolas e ensinamentos emergem de dentro do ensino do Buda. Uma vez que são nascidos do Budismo, no futuro eles retornarão ao Budismo. Portanto, é desnecessário perguntar a qual religião uma pessoa pertence. Não importa a escola, seita, ou ensinamento, ou religião à qual se pertença – nenhuma vai além do Budismo. O ponto essencial é ter fé em algo. Então, embora você possa acreditar em vários ensinamentos, mudando e trocando um pelo outro, no final você certamente retornará ao Budismo. O Budadharma é assim tão grande. Embora ele diga que não há um dharma que possa ser atingido, no entanto, não há um dharma que não seja o Budadharma. E uma vez que o Budadharma afinal é inatingível, como poderia um simples dharma ser atingido?

Subhuti, todos os dharmas são pregados como não dharmas. Quando pregados do ponto de vista da verdade comum, os dharmas existem. Se pregados do ponto de vista da verdade real, nenhum dharma existe. Porquanto eles são chamados dharmas. Quando pregados do ponto de vista do Caminho Médio, dharmas são falsos nomes e nada mais, e dessa maneira eles são o significado ultimado do Caminho Médio.

Sutra Diamante – Capítulo 17 – Em Última Análise, Não Há Um Eu.

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O Paramita da Paciência (Quando o Veneno se Torna Remédio)

Então, quando você recita sutras, se as pessoas o ridicularizam e chamam-no de supersticioso, tal ridicularização contribui para o desenvolvimento da sua conduta virtuosa. Por que as pessoas o depreciariam assim? Por que elas ridicularizam-no, olham-no de cima abaixo, e chamam-no de estúpido? Por considerar você daquela maneira, elas tornam possível que suas ofensas das vidas passadas desapareçam. Se elas não lhe ridicularizassem, suas ofensas cármicas não poderiam ser dissolvidas. Por quê? “O dharma não surge sozinho (por si). Em resposta a uma situação ele emerge”. Se você não tivesse alguém lhe ridicularizando, não haveria teste (ou prova) de seu Paramita da Paciência. Se você (ainda) pode dizer: “Você está ridicularizando-me? Isto é verdadeiramente Mahaprajnaparamita!”, e sente o sabor das palavras amargas de alguém tornar-se tão doce quanto o abacaxi (‘bwo lwo mi’, Paramita), então você pode chegar à outra margem. Então você deve agradecer-lhe: “Você é realmente meu bom e sábio conselheiro. Sua ridicularização dissolve minhas ofensas cármicas. Quando eu atingir o Estado de Buda terá sido você que me levou à travessia”. Se você pensa dessa maneira, como pode sentir  raiva? Sendo naturalmente paciente diante do insulto é realizar o Paramita da Paciência.

Sutra Diamante – Capítulo 16 – Obstruções Cármicas Podem Ser Purificadas.

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