CAP. 04: Fé e Compreensão

Sutra de Lótus

Naquela ocasião, os sábios e longevos Subhuti, Mahakatyayana, Mahakashyapa, Mahamaudgalyayana[1], tendo ouvido do Buda uma Lei tal como eles nunca ouviram antes, a concessão da profecia do alcance do Anuttara-Samyak-Sambodhi de Shariputra, sentiram-na como sendo uma Lei muito rara. Eles levantaram-se dos seus assentos, saltaram de alegria, ajeitaram seus robes, descobriram seus ombros direitos, colocaram seus joelhos direitos no chão, em pensamento único juntaram as palmas das suas mãos, inclinaram-se respeitosamente, olharam fixamente a face do Honrado pelo Mundo e falaram ao Buda, dizendo:

“Nós, que pertencemos à cúpula da Sangha e somos avançados na idade[2], dissemos a nós mesmos havermos já atingido o Nirvana, que não tínhamos mais nenhuma responsabilidade, e que não seguiríamos adiante para alcançar o Anuttara-Samyak-Sambodhi”.

“O Honrado pelo Mundo, desde o passado, tem pregado a Lei exaustivamente. Sentados aqui por todo esse tempo, com nossos corpos cansados, estivemos meramente meditando sobre o vazio, sem forma e sem desejos;não nos deleitando nas Leis dos Bodhisattvas, nos seus Samadhis plenos de encanto, na sua ação de purificação das terras Búdicas, ou na sua ação de aprimoramento dos seres viventes”.

“Qual é a razão disto? O Honrado pelo Mundo levou-nos a escapar do Mundo Tríplice, obtendo a certificação para o Nirvana. Além disso, agora já estamos avançados nos anos e quando o Buda instruiu os Bodhisattvas sobre o Anuttara-Samyak-Sambodhi, nós não elevamos um simples pensamento no anseio de alcançá-lo”.

“Agora, na presença do Buda, tendo ouvido-lhe profetizar sobre o Anuttara-Samyak-Sambodhi dos discípulos Ouvintes, nossos corações regozijaram entusiasticamente e obtivemos o quê nunca houvéramos obtido antes. Nunca pensamos que agora pudéssemos subitamente estar aptos a ouvir esta Lei rara. Alegramo-nos profundamente, tendo ganhado incomensuráveis benefícios”.

“É como se, sem que as tivéssemos procurado, incontáveis gemas preciosas tivessem tornado-se nossas”.

“Honrado pelo Mundo, nós agora gostaríamos de contar uma parábola para esclarecer este princípio”.

“É como se houvesse uma pessoa que, na sua juventude, deixasse seu pai e fosse para longe, residindo num país distante, talvez dez, vinte ou quase cinqüenta anos”.

“Conforme ele foi envelhecendo, foi tornando-se pobre e necessitado, correndo nas quatro direções à procura de roupa e comida. Ele vagueou errantemente até que, acidentalmente, aproximou-se de sua terra natal”.

“Seu pai, desde o início, vinha procurando por seu filho, mas em vão. Em meio à busca, ele fixou-se numa cidade. Ali, sua morada era suntuosa, com ilimitados bens, jóias, ouro, prata, lápis-lazúli, corais, âmbar, cristais, pérolas e outras preciosas jóias. Seus celeiros e tesouros estavam abarrotados, havia muitos empregados, ministros e auxiliares, bem como incontáveis elefantes, cavalos, carruagens, gado e rebanho de ovelhas. O sucesso dos seus negócios estendia-se aos outros países, havendo muitos comerciantes e mercadores seus”.

“Então, o pobre filho, tendo vagueado por vários vilarejos e passado através de países e cidades, finalmente chegou à cidade onde seu pai havia se estabelecido”.

“O pai sempre estivera pensativo em seu filho. Embora eles estivessem separados por cerca de cinqüenta anos, ele nunca falou sobre este assunto para ninguém, mas simplesmente ponderava sobre ele e, com o coração cheio de desgosto, pensava: ‘Estou velho e decrépito. Possuo muitos bens e riquezas, ouro, prata, gemas preciosas, celeiros e armazéns abarrotados. É verdadeiramente uma lástima que eu não tenha um filho! Um dia estarei prestes a morrer, e quando isto acontecer, minha fortuna será dilapidada e perdida, por não ter ninguém para legá-la’. Isto era porque ele sempre pensava seriamente sobre seu filho: ‘Se eu pudesse ter meu filho de volta, faria sua a minha fortuna. Tornar-me-ia satisfeito, feliz e não teria mais aflições’”.

“Honrado pelo Mundo, o pobre filho então, empregando-se como serviçal aqui e ali, inesperadamente chegou à casa de seu pai. Do portão, ele viu seu pai sentado num trono de Leão. Seus pés estavam descansando numa banqueta cravejada de jóias, e estava circundado reverentemente por Brahmans, Kshatriyas e magistrados. Colares de pérolas reais, avaliados em milhões, adornavam seu corpo. Atendentes e criados, segurando abanos brancos, postavam-se à sua direita e à suaesquerda. Acima dele estava um dossel cravejado de jóias sustentando flores e flâmulas pingentes. Águas fragrantes eram aspergidas no chão, e flores raras espalhadas sobre ele. Objetos preciosos eram enfileirados, entrando e saindo constantemente. Tais eram os adornos, a majestade e a autoridade das suas virtudes meritórias. Quando o pobre filho viu seu pai, detentor de tal poder, ele imediatamente sentiu medo e pesar por ter vindo ali. Secretamente ele pensou: ‘Este homem talvez seja um rei, ou alguém igual a um rei. Este não é um lugar para me empregar. Acho melhor ir para um vilarejo pobre onde haja um quarto para me hospedar, trabalhar e onde eu possa facilmente obter roupas e comida. Se eu ficar aqui mais um pouco, posso ser forçado a trabalhar’. Com esse pensamento, ele retirou-se apressadamente”.

“Então, o velho homem rico, sentado no trono de Leão, vendo seu filho, reconheceu-o e seu coração alegrou-se enormemente, tendo pensado: ‘Agora tenho alguém a quem possa legar meus bens, fortuna e tesouros. Tenho constantemente pensado em meu filho, mas não pensava vê-lo. Então, tão subitamente, ele retorna e o meu desejo é satisfeito. Embora estivesse velho e decrépito, preocupava-me com ele em silêncio, e com pesar’”.

“Ele então enviou empregados para segui-lo e trazê-lo de volta. Lá, os empregados rapidamente apreenderam-no. O pobre filho assustado gritou em protesto: ‘Não cometi nenhuma ofensa. Por que estou sendo preso’? Os empregados apressadamente agarraram-no e arrastaram-no de volta. O pobre filho pensou para si: ‘Sou inocente e, no entanto, estou sendo preso. Certamente, isto significa que morrerei’. Apavorado, ele desfaleceu e caiu no chão”.

“O pai viu seu filho à distância e disse aos empregados: ‘Não preciso desta pessoa. Não o force a vir. Borrifem água fria em seu rosto para recobrá-lo, mas não falem nada mais com ele’. Por que é assim? O pai sabia que a decisão do seu filho era pelo que era inferior e rebaixado, e que a sua própria nobreza era uma fonte de dificuldades para o seu filho. Portanto, embora ele tivesse certeza que aquele era seu filho, ele habilmente refreou-se evitando dizer: ‘Este é meu filho’. O empregado disse para o filho: ‘Libertarei você agora. Você pode ir para onde desejar’. O pobre filho ficou encantado, tendo ganhado o quê nunca houvera possuído antes. Levantou-se do chão e foi para um vilarejo pobre à busca de roupas e comida”.

“Então o velho homem, desejando induzir seu filho, utilizou-se de um meio hábil e secretamente enviou duas pessoas, macilentas e indignas na aparência, dizendo-lhes: ‘Vocês devem ir lá e gentilmente falar com aquele pobre homem. Digam-lhe que há um lugar para ele trabalhar aqui, onde ele ganhará o dobro. Se ele concordar, tragam-no e ponham-no para trabalhar. Se ele indagar sobre o quê ele terá de fazer, digam-lhe: você está sendo contratado para varrer e juntar estrume. Nós dois trabalharemos juntos com você’”.

“Então os dois empregados saíram à procura daquele filho pobre e, quando o encontraram, disseram-lhe o que foi recomendado pelo pai”.

“Naquela ocasião o filho pobre aceitou o salário e então se juntou a eles na varrição e coleta do estrume. Quando o pai viu o seu filho, sentiu piedade e espanto”.

“Mais tarde, num outro dia, através de uma janela, ele viu seu filho à distância, magro, fatigado, sujo de estrume, todo o tipo de sujeira e imundície. Ele então tirou seu colar de contas, seu fino manto, seus adornos e vestiu um robe grosseiro, surrado e imundo, enlameou-se e segurando uma pá de estrume parecia assustador. Ele dirigiu-se aos seus empregados, dizendo: ‘Trabalhem duro, todos! Não sejam preguiçosos’. Através desse ardil, ele aproximou-se do seu filho, a quem disse depois: ‘Hey, meu menino! Você pode ficar aqui e trabalhar. Não vá embora. Eu aumentarei seu ordenado. Qualquer coisa de que necessite, sejam panelas, utensílios, arroz, farinha, sal, vinagre, ou qualquer outra coisa, não se preocupe. Eu também tenho um velho e experiente empregado que você poderá dispor dele se necessário. Mantenha sua mente tranqüila. Eu sou como seu pai, assim, não tenha mais preocupações. Por quê ? Estou muito velho e você é jovem e forte. Sempre que você estiver trabalhando, nunca seja enganador, negligente, irritado, odioso ou ranzinza. Nunca vi você cometendo tais maus atos como tenho visto da parte dos outros empregados. De agora em diante, você será como meu próprio filho’”.

“Aí então, o velho deu-lhe um nome, chamando-o seu filho. O filho pobre, embora feliz com os acontecimentos, ainda considerava-se um trabalhador forasteiro e subalterno. Por esta razão, por vinte anos ele permaneceu constantemente ocupado com o trabalho de varrição e coleta de estrume”.

“Depois desse tempo, confiaram-lhe um outro trabalho, e ele assumiu sem dificuldades. Todavia, ele ainda permaneceu no mesmo lugar de antes”.

“Honrado pelo Mundo, naquela ocasião, o velho adoeceu e soube que logo morreria. Ele disse ao filho pobre: ‘Possuo muito ouro, prata, jóias e meus celeiros e armazéns estão abarrotados. Você deve saber em detalhes as quantidades e valores a serem recebidos ou pagos. Tais são meus pensamentos, e você deve compreender o quê eles significam. Qual é a razão? Agora, não há diferença entre eu e você. Você deve ser muito mais cuidadoso para que nada se perca’”.

“Naquela ocasião, o filho pobre, tendo recebido essas instruções, encarregou-se de todos os bens, o ouro, a prata e as gemas preciosas, bem como os celeiros e armazéns, todavia não exigindo mais que uma simples refeição para tanto. Continuou no mesmo lugar, ainda incapaz de abandonar suas idéias subalternas[3]”.

“Decorrido um curto tempo, o pai soube que seu filho tinha tornado-se mais calmo, que havia tomado uma grande decisão e abandonado suas idéias anteriores. Sabendo que seu próprio fim estava próximo, ele ordenou a seu filho convocar ministros, Kshatriyas e magistrados. Quando estavam todos reunidos, ele falou-lhes dizendo: ‘Todos os senhores devem saber que este é meu filho, gerado por mim. Numa certa cidade, ele deixou-me e afastou-se para sofrer de desolação, pobreza e miséria por cerca de cinqüenta anos. Seu nome original era tal e tal, e meu nome era tal. Há muito tempo atrás, na minha cidade natal, eu procurava-o ansiosamente. Este é realmente meu filho. Eu sou realmente seu pai. Todos os meus bens e fortuna agora pertencem a este meu filho, e tudo aquilo que é pago ou recebido é do seu conhecimento’[4]”.

“Honrado pelo Mundo, quando o pobre filho ouviu o quê o seu pai estava dizendo, regozijou-se enormemente, tendo obtido o que nunca houvera tido, e pensou: ‘Originalmente, eu não tinha idéia de buscar nada, e agora este tesouro veio para mim por si mesmo’”.

“Honrado pelo Mundo, o grande e rico velho é o Tathagata. Nós somos todos como os filhos do Buda. O Tathagata sempre diz que somos seus filhos”.

“Honrado pelo Mundo, em razão dos três tipos de sofrimentos, temos passado muitos tormentos entre os nascimentos e mortes. Enganados e ignorantes, apegamo-nos às Leis menores”.

“Hoje, o Honrado pelo Mundo forçou-nos a pensar sobre abandonarmos o estrume das discussões frívolas sobre a Lei. Aumentamos a nossa capacidade para merecer o pagamento do dia do Nirvana. Tendo alcançado isto, nossas mentes exultaram enormemente, ficamos contentes, dizendo para nós mesmos que, através da diligência e do vigor, aquilo que tínhamos ganhado na Lei do Buda era abundante”.

“Todavia, o Honrado pelo Mundo, tendo conhecimento pleno de que nossos pensamentos estavam apegados aos desejos inferiores e se deleitavam nas Leis menores, deixou-nos seguir nossos próprios caminhos e não especificou para nós dizendo: ‘Todos vocês terão uma parte no tesouro da sabedoria e da visão do Tathagata’”.

“O Honrado pelo Mundo, usando o poder dos meios hábeis, falou da sabedoria do Tathagata. Tendo ganhado do Buda o pagamento do dia do Nirvana, tomamo-lo como se fosse uma grande conquista, não tendo mais ambição de buscar o Grande Veículo. Ademais, a sabedoria do Tathagata era empregada em prol dos Bodhisattvas, e assim não tínhamos expectativas com relação a ela. Qual é a razão? O Buda sabia que nossos pensamentos se deleitavam nas Leis menores. Então, ele utilizou-se dos meios hábeis para ensinar-nos da maneira apropriada, e nós não compreendemos que éramos verdadeiramente os filhos do Buda”.

“Agora sabemos que o Honrado pelo Mundo não é de forma alguma egoísta com a sabedoria do Buda. Por quê ? Desde os primórdios, éramos verdadeiramente os filhos do Buda, mas mesmo assim deleitávamos somente nas Leis menores. Se tivéssemos pensado em deleitar na Grande Lei, o Buda então teria pregado para nós a Lei do Grande Veículo. Este Sutra prega somente o Veículo Único. No passado, na presença dos Bodhisattvas, o Buda havia depreciado os Ouvintes que deleitavam nas Leis inferiores, mas ele efetivamente estava empregando o Grande Veículo no ensinamento e conversão deles”.

“Portanto, dissemos que originalmente não esperávamos ou buscávamos nada, e ainda agora essas grandes jóias do Rei da Lei nos vieram por si mesmas. Aquilo que os filhos do Buda devem atingir, nós já atingimos”.

Naquela ocasião, Mahakashyapa, desejando enfatizar o significado das suas palavras, falou em versos, dizendo:

“Nós, neste dia,

ouvindo o som dos ensinamentos do Buda,

saltamos de alegria,

ganhando o que nunca antes possuíramos.

O Buda disse que discípulos Ouvintes,

tornar-se-ão Budas no futuro.

Ganhamos então um tesouro de supremas gemas preciosas,

sem que as tivéssemos procurado.

É como um adolescente que,

ainda jovem e ignorante,

se afastasse de seu pai e,

indo para uma terra distante,

vagueasse errantemente, de país em país,

por cinqüenta anos ou mais.

Seu pai, preocupado com ele,

procurou-o nas quatro direções até que,

cansado de procurá-lo,

estabeleceu-se numa certa cidade,

onde construiu uma casa para si,

e satisfez-se com os Cinco Desejos.

Sua casa era ampla e suntuosa,

com muito ouro e prata,

madrepérolas e lápis-lazúli,

elefantes, cavalos, gado e ovelhas,

carruagens puxadas à mão, palanquins e charretes,

esposas e criados,

e uma multidão de empregados.

Os ganhos dos seus negócios estendiam-se para outros países.

Negociantes e mercadores estavam presentes por toda a parte.

Multidões contadas em centenas de milhões,

circundavam-no reverentemente.

E ele sempre era carinhosamente relembrado por reis e soberanos.

Os ministros e os clãs da nobreza honravam-no.

Por estas razões,

aqueles que chegavam e partiam eram muitos.

Tal era a sua nobreza, fortuna e grande autoridade.

Mas então, como ele tornou-se velho e decrépito,

encheu-se de preocupações com o seu filho.

Dia e noite, tinha somente um pensamento:

‘Minha hora da morte está próxima.

Meu tolo filho deixou-me já há cerca de cinqüenta anos.

De tudo o que há nos meus celeiros e armazéns,

o quê não lhe daria?’

Então o pobre filho,

procurando por roupas e comida,

foi de cidade em cidade,

de país em país,

às vezes encontrando algo,

às vezes nada encontrando.

Exausto, emaciado,

coberto de feridas,

seguiu este caminho até que, eventualmente,

chegou à cidade onde seu pai vivia.

Empregando-se ao longo do caminho,

ele finalmente encontrou a casa do seu pai.

Naquela ocasião, o velho,

do lado de dentro da casa,

estava coberto por um grande dossel,

sentado num Trono de Leão,

cercado pela sua corte e vários criados.

Alguns deles estavam contabilizando seu ouro,

prata e outros valores.

Suas rendas e despesas eram lançadas em livros.

Quando o pobre filho viu seu pai,

de tal nobreza e fortuna,

ele disse: ‘Este deve ser um rei,

ou alguém como um rei’.

De medo, ele reprovou-se:

‘O quê estou fazendo aqui’?

Além disso, disse para si mesmo:

‘Se eu permanecer aqui por mais tempo,

posso ser preso e forçado a trabalhar’.

Tendo este pensamento,

afastou-se apressadamente para um vilarejo pobre,

pedindo por emprego e trabalho.

Apenas então, o velho,

sentado no Trono de Leão,

viu seu filho à distância,

e silenciosamente reconheceu-o.

Ele, então,

ordenou aos seus criados seguirem-no e trazerem-no de volta.

O pobre filho chorou em desespero,

e desmaiou, caindo no chão.

‘Essas pessoas agarraram-me!

Certamente serei morto!

Por que, à procura de comida e roupa,

vim a este lugar’?

O velho sabia que seu filho era tolo e mesquinho:

‘Ele não me compreenderia se lhe dissesse.

Ele não compreenderia que sou seu pai’.

Então ele usou um meio hábil,

e enviou alguns outros homens,

inferiores em aparência e feios,

carentes de quaisquer virtudes.

‘Falem com ele’, ele disse.

‘Digam-lhe: você trabalhará conosco limpando estrume e imundícies,

ganhando o dobro do seu salário normal’.

Quando o pobre filho ouviu isto,

acompanhou-os feliz de volta,

e limpando estrume e imundícies,

ia limpando toda a casa.

Da sua janela, o velho freqüentemente vigiava seu filho,

relembrando que ele era tolo,

mesquinho e comprazia-se em trabalho servil.

Então o velho vestiu um robe sujo e surrado,

e segurando uma pá de estrume,

foi para onde seu filho estava.

Habilmente aproximando-se dele,

disse-lhe: ‘trabalhe com diligência[5],

porque aumentarei o seu salário,

dar-lhe-ei óleo para os pés,

abastecer-lhe-ei de comida e bebida,

e dar-lhe-ei uma quente e confortável cama’.

Então ele falou rispidamente, dizendo:

‘Você deve trabalhar duro’!

E num tom mais gentil, acrescentou:

‘Você é como meu próprio filho’.

O velho, da sua janela,

eventualmente seguia-o indo e vindo.

Por um período de vinte anos,

ele foi pondo-o a par dos negócios da casa.

Mostrou-lhe seu ouro, prata,

pérolas reais e cristais.

A receita e a despesa de todas essas coisas,

ele foi dando-lhe conhecimento.

Ainda assim o filho vivia para fora dos portões,

residindo numa choupana e meditando sobre sua pobreza:

‘Nenhuma dessas coisas me pertence’.

O pai sabia que o pensamento do seu filho,

gradualmente, vinha se expandindo,

e desejando dar-lhe bens e fortuna,

reuniu seus auxiliares,

soberanos e grandes ministros,

Kshatriyas e magistrados,

e em meio a esta grande assembléia,

ele disse: ‘Este é meu filho.

Ele deixou-me e partiu para longe há cinqüenta anos atrás.

Já se completaram vinte anos desde que o vi retornar.

Há muito tempo, em certa cidade, perdi meu filho.

Procurando por ele em toda a parte,

cheguei a este lugar.

Tudo que possuo,

minhas casas e empregados,

todos os meus bens e fortuna,

legarei a ele para que possa usá-los como lhe aprouver’.

O filho, relembrando da sua pobreza anterior,

e de suas mesquinhas intenções,

e que agora, na presença do seu pai,

havia obtido essas preciosas jóias,

esses palácios para morar,

e todo o tipo de riquezas,

regozijou-se grandemente,

tendo ganhado o que nunca antes possuíra[6].

O Buda, da mesma maneira,

conhece nossas inclinações para o que é inferior.

Assim, ele nunca nos diz:

‘Vocês tornar-se-ão Budas’.

Ao invés disso ele nos diz que podemos atingir a eliminação de todas as falhas,

realizar o veículo menor,

e nos tornar Discípulos Ouvintes.

O Budainstruiu-nos para pregar a Via Insuperável,

e falou daqueles que a praticaram como sendo capazes de atingir o estado de Buda.

Recebendo os ensinamentos do Buda, nós,

em prol dos Grandes Bodhisattvas,

usamos causas e condições,

várias metáforas e parábolas,

e numerosas expressões para pregar a Via Insuperável.

Todos os discípulos do Buda,

tendo ouvido de nós a Lei,

pensam a respeito dela dia e noite,

e diligentemente praticam-na.

Nessa altura, todos os Budas,

fazem-lhes profecias, dizendo:

‘Vocês, numa era futura, tornar-se-ão Budas’.

Este é o repositório da Lei de todos os Budas.

Unicamente em prol dos Bodhisattvas, e não para nós,

tais verdades essenciais eram reveladas.

É como no caso do filho pobre que se aproximou do seu pai e,

embora soubesse de todas as suas posses,

no seu coração ele não tinha expectativa de obtê-las.

Da mesma forma,

embora preguemos sobre os preciosos tesouros da lei do Buda,

pessoalmente nunca os aspiramos para nós.

Tendo atingido a extinção individual,

pensávamos ser isto suficiente,

e tendo alcançado isto,

nada mais havia a ser feito.

E mesmo se ouvíssemos falar da purificação das terras Búdicas,

e do ensinamento e conversão dos seres viventes,

não nos deleitávamos nisto.

Por qual razão?

Porque todos os Fenômenos são absolutamente vazios e tranqüilos,

não são nem criados ou destruídos,

nem grandes ou pequenos,

desprovidos de fluxos e não-condicionados.

Refletindo desta forma,

não tínhamos razões para nos alegrarmos.

Durante a longa noite,

não tínhamos ambição ou apego pela sabedoria do Buda,

nem a aspirávamos.

Todavia, em relação à Lei,

clamávamos tê-la atingido.

Todos nós, através da longa noite,

praticamos e cultivamos a Lei da vacuidade.

Tendo ganhado a libertação do Mundo Tríplice com seus sofrimentos, aflições e calamidades;

vivemos a nossa encarnação final objetivando o Nirvana residual.

De acordo com os ensinamentos do Buda,

atingimos a Via que não é falsa,

e assumimos que tínhamos, com isso,

retribuído a benevolência do Buda.

Embora nós, em prol dos discípulos do Buda,

preguemos a Lei do Bodhisattva,

através da qual eles buscarão o Estado de Buda,

ainda assim, nós nunca nos deleitamos nesta Lei[7].

Nosso mestre viu isto e deixou as coisas como estavam,

porque percebeu o que ia em nossos corações e,

assim, inicialmente,

não nos encorajou falando sobre os reais benefícios da Lei.

É como no caso do homem rico que usou o poder dos meios hábeis para manter o pensamento do filho sob controle,

para somente mais tarde dar-lhe todos os seus bens.

O Buda, da mesma maneira,

manifesta-se raramente,

mas, para aqueles que deleitam nas leis menores,

ele usa o poder dos meios hábeis para manter seus pensamentos sob controle,

e somente então lhes ensina a grande sabedoria.

Neste dia,

nós ganhamos o quê nunca antes possuímos!

Aquilo para o quê nós não tínhamos expectativa,

nós agora atingimos.

É como no caso do filho pobre que ganhou um tesouro incomensurável.

Oh! Honrado pelo Mundo,

nós agora obtivemos a Via e os seus frutos.

Sob a Lei sem falhas,

ganhamos a visão pura e limpa.

Durante a longa noite,

mantivemos os puros preceitos do Buda.

Mas somente neste dia,

ganhamos esta retribuição.

Na Lei do Rei do Dharma,

por muito tempo cultivamos a conduta Brahman.

Agora obtivemos a grande fruição sem falhas e insuperável.

Agora somos todos verdadeiramente Ouvintes,

e dando voz à Via do Buda,

faremos com que todos a ouçam.

Agora somos todos verdadeiramente Arhats,

e em todos os mundos,

com seus seres celestiais, pessoas, Maras e Brahmas,

onde quer que estejamos em meio a eles,

seremos dignos de receber oferecimentos.

O Honrado pelo Mundo na sua grande benevolência,

usa esta forma rara para compassivamente ensinar-nos e beneficiar-nos através de incontáveis milhões de kalpas.

Quem poderia retribuí-lo?

Ainda que lhe oferecêssemos nossas mãos e pés,

curvando-nos reverentemente em obediência,

o que quer que façamos como oferecimento,

nunca o retribuiríamos.

Se o amparássemos sobre nossas cabeças,

ou o carregássemos sobre os nossos ombros,

por kalpas tão numerosos quanto as areias do Ganges,

exaurindo nossos pensamentos em reverência,

ou ainda mais, se oferecêssemos vestimentas de inestimável delicadeza e valor,

e todos os tipos de mantos,

poções medicinais, esculturas de madeira de sândalo,

várias gemas preciosas, ou torres votivas e templos,

forrando seus pisos com finas indumentárias;

mesmo que com tais coisas fizéssemos oferecimentos,

através de kalpas numerosos como as areias do Ganges,

ainda assim nunca o retribuiríamos.

Os Budas são raros de encontrar.

Ilimitados, imensuráveis e inconcebíveis são os poderes das suas grandes penetrações espirituais.

Sem falhas e não-condicionados,

eles são os Reis de Todos os Fenômenos.

Em prol dos mais fracos,

eles esforçam-se neste trabalho.

Para as pessoas comuns apegadas às aparências,

eles ensinam o que é apropriado.

Os Budas , em relação às Leis,

atingiram total liberdade.

Eles compreendem todos os seres viventes,

seus vários desejos e prazeres,

bem como a força da sua vontade,

e de acordo com as suas capacidades,

usando ilimitadas metáforas,

eles ensinam-lhes a Lei,

de acordo com as raízes de virtudes plantadas nas existências anteriores dos seres viventes.

E conhecendo aqueles que amadureceram,

e aqueles que não amadureceram ainda,

através de cálculos,

discriminam e compreendem,

e no ensinamento do Veículo Único,

eles apropriadamente pregam como se fossem três”.


[1] Subhuti, Mahakatyayana, Mahakashyapa e Mahamaugdalyayana; também chamados discípulos maiores.

[2] No Capítulo 3 – A Parábola, o Buda tece uma analogia em torno de uma casa velha e arruinada, comparando-a ao Mundo Tríplice. A mesma analogia poderá ser feita com o nosso corpo físico, cujo destino é a velhice e a decrepitude. Por essa razão, esses discípulos maiores manifestam-se após a pregação daquele capítulo, confessando nunca terem pensado na carruagem do grande búfalo branco.

[3] É como abraçar este Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, o tesouro secreto dos Budas, e continuar preso aos desejos mundanos e às noções dos ensinamentos provisórios; todas essas coisas relacionadas às necessidades subalternas. Com relação a isso, o Pai afirma: “Agora, não há diferença entre Eu e você”.

[4] Que são as retribuições e benefícios da Lei.

[5] O Buda utilizava-se dos meios hábeis, que são as práticas dos ensinos inferiores, para aproximar-se e encorajar seus filhos. Mas, sua verdadeira intenção é contemplá-los com o Grande Veículo, sua incomensurável fortuna, tornando-os iguais a ele nos benefícios da Lei Insuperável.

[6] O que esta parábola está a nos revelar é que ao encontrarmos o Verdadeiro Ensino, ainda não estamos prontos para “herdar” os benefícios da Grande Lei. Embriagados pelos desejos deste mundo Saha, ainda profundamente iludidos pelas sensações que ele oferece, pelas visões errôneas e pelo apego; buscamos unicamente saciar as nossas necessidades errando nos caminhos das doutrinas inferiores. Mesmo entre os chamados discípulos maiores, a observação dos preceitos e a busca do nirvana consistiam ainda numa prática orientada para si mesmos. Então o Buda, através de meios hábeis, incentiva-nos a cultivar as virtudes de um Bodhisattva. Manifestando-se a nós de diversas formas, às vezes afagando-nos, às vezes tratando-nos com extremo rigor, está sempre presente em nossas vidas, a ensinar a Grande Lei em prol dos Bodhisattvas. Não havendo nenhuma outra razão para o seu advento, sua verdadeira intenção é tornar-nos iguais a ele em seus benefícios e poderes para salvar os seres viventes e purificar as terras do Buda.

[7] Este equívoco advinha das divisões canônicas estabelecidas pelos Três Veículos.

N.T. As notas e comentários introduzidos nesta tradução do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa para a língua portuguesa falada no Brasil são da autoria e inteira responsabilidade de seu tradutor Marcos Ubirajara de Carvalho e Camargo.

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