A Pluralidade Contida no Singular

Em ‘A Pluralidade Contida no Singular’

Sempre ternamente, IZ se dirigiu a PI com as seguintes palavras: “PI, há um Sutra Chamado Diamante – Vajra Prajna Paramita, e as considerações abaixo são do Venerável Mestre Hsüan Hua em suas explanações”.

“Vajra (Diamante) é uma analogia. Prajna Paramita (Consecução Plena da Grande Sabedoria) é um dharma. Assim, o título do Sutra é estabelecido com referência ao dharma e à analogia.

Há Três Tipos de Prajna (Sabedoria): a prajna literária; a prajna contemplativa, e a prajna da marca real. A prajna literária se refere ao Sutra. Com a prajna literária você pode dar origem à prajna contemplativa, que por seu turno habilita alguém a penetrar a prajna da marca real. Marca Real é nenhuma marca, mas não é sem marcas. Não é marca e nem sem marcas.

Embora não mais que um tipo de prajna exista, ela pode ser dividida em três aspectos: literária, contemplativa e marca real. Prajna é uma designação para uma substância básica que é vazia em si, que é falsa em si (não substancial), e que é o Caminho Médio em si. Sem apego a ela, ela é vazia. Sem apego à vacuidade, ela é falsa. Residência na vacuidade e falsidade sem apego é o Caminho Médio”

Sutra Diamante – Capítulo 13 – Receber e Manter o Dharma Assim – Explanações do Venerável Mestre Hsüan Hua.

PI, se os sutras pregados pelo Buda se colocam nessa ordem, que dirá a literatura secular, mormente aquela que busca a fama e a fortuna”.

Selo Comemorativo

O Nirvana Provisório

Em ‘O Nirvana Provisório’

Falando ternamente, IZ admoestou PI, dizendo-lhe: “PI, não use mais tão descuidadamente a palavra Nirvana. Ouça atentamente as passagens seguintes, encontradas no Sutra de Lótus, sobre as quais você deve basear-se doravante”.

Naquele momento, Shariputra, desejando enfatizar o significado de suas palavras, falou em versos dizendo:

“Ouvindo este som da Lei,
obtive o que nunca antes obtivera;
meu coração está transbordando de alegria,
e a malha de dúvidas em meu pensamento dissipou-se.

Desde há muito tempo,
beneficiado pelos ensinamentos do Buda,
nunca perdi o Veículo Maior.
O som do Buda é extremamente raro de ouvir,
e pode livrar todos os seres das suas aflições.
Já havia eliminado todas as falhas, mas ouvindo-o,
as minhas aflições também se dissiparam.

Quando residi nos vales das montanhas,
às vezes aos pés das árvores,
sentado ou caminhando,
constantemente pensava a respeito deste assunto:

‘Ah, chorei amargamente em autorreprovação,
por que me enganei tanto?’.
Nós também somos discípulos do Buda
e igualmente entramos na Lei sem falhas;
contudo, no futuro não estaremos aptos
a proclamar a via insuperável.

A cor dourada do ouro, os trinta e dois sinais,
os Dez Poderes e todas as emancipações,
estão juntas numa única Lei,
mas não obtive essas coisas.
As oitenta características maravilhosas,
as dezoito Leis (propriedades) exclusivas,
virtudes de tais qualidades,
perdi-as todas.

Quando caminhava solitário,
eu via o Buda na Grande Assembleia,
sua fama preenchendo as dez direções,
beneficiando amplamente todos os seres.
Sentia ter perdido esse benefício,
tendo iludido a mim próprio.

Constantemente, dia e noite,
pensava sobre esse assunto
e desejava indagar o Honrado pelo Mundo,
se o havia perdido ou não.
Frequentemente, via o Honrado pelo Mundo
elogiando todos os Bodhisattvas,
e assim foi, por dias e noites,
em que ponderava sobre assuntos como este.

Agora eu ouvi o som do Buda,
oportunamente pregando a Lei que não tem falhas,
difícil de conceber,
e que conduz os seres viventes ao lugar da iluminação.

Outrora, eu era apegado às visões distorcidas,
e era um professor de Brahmanes.
Todavia, o Honrado pelo Mundo,
conhecendo a minha intenção,
erradicou minhas visões errôneas
ensinando-me o Nirvana.

Libertei-me das visões errôneas,
certifiquei-me da Lei da vacuidade,
e então disse para mim mesmo
que havia alcançado a extinção.

Agora, finalmente compreendo
que esta não é a verdadeira extinção,
pois quando me tornar um Buda,
completo com as Trinta e Duas Marcas Distintivas,
reverenciado por seres celestiais, humanos,
multidões de Yakshas, dragões, espíritos e outros,
então poderei dizer:
‘Esta é a extinção eterna, sem resíduos’.

O Buda, em meio à Grande Assembleia,
disse que eu me tornaria um Buda.
Ouvindo o som de uma Lei como essa,
todas as minhas dúvidas se dissiparam”.

Sutra de Lótus – Capítulo 3 – A Parábola.

“Eu também sou assim,
eu sou o guia de todos.
Vendo aqueles que buscam a via,
cansados no meio da viagem,
incapazes de superar
os perigosos caminhos do nascimento,
da morte e da aflição;
eu uso, então, o poder dos meios hábeis
para pregar o Nirvana
e prover-lhes um descanso, dizendo:
‘Seus sofrimentos terminaram.
Vocês fizeram o que tinha de ser feito’.

Então, sabendo que eles encontraram o Nirvana
e todos se tornaram Arhats,
eu os reúno para ensinar-lhes a genuína Lei.

Os Budas usam o poder dos meios hábeis
para discriminar e pregar os Três Veículos,
mas há somente o Veículo Único do Buda.
Os outros dois foram pregados
como um lugar de descanso.

O que estou lhes dizendo agora é a verdade;
o que vocês obtiveram não é a extinção.
Em prol da sabedoria de todos os Budas,
vocês devem empenhar-se com grande vigor.

Quando vocês estiverem certificados
de todas as sabedorias,
possuírem os Dez Poderes e outras Leis do Buda,
tendo obtido as Trinta e Duas Marcas distintivas,
então aquela é a genuína extinção.

Os Budas, os mestres-guia, pregam o Nirvana
para prover um descanso aos seres viventes,
mas somente os Budas sabem que,
quando eles estiverem descansados,
eles os conduzirão à sabedoria dos Budas

Sutra de Lótus – Capítulo 7 – A Parábola da Cidade Fantasma.

Selo Comemorativo

O Regresso de PI

Em ‘Um Diálogo Frívolo Acerca da Grande Lei’

Então, PI partiu em busca de IZ. Não era uma tarefa fácil encontrá-lo, uma vez que somente em uma direção de aproximação o seu agora “Bom Amigo da Via” poderia ser reconhecido. Pois, como ele próprio, IZ era um ideograma, o qual não se reconhece pelo flanco, conforme dito antes. Diz-se que essa busca durou séculos, até que certo dia um mercador de ‘letras vulgares de pouco significado’ lhe apontou a direção de um Ideograma Sábio, reconhecido no mundo das letras, e que prelecionava sobre um ensino superior chamado Grande Nirvana. Seu nome era IZ. Com incontida alegria, PI seguiu a direção apontada pelo mercador e o encontrou. Prestou homenagem ao seu Mestre, acomodou-se entre os demais, e ouviu a seguinte preleção.

14/01/2014.

O Vazio Como ‘Não-É’

O Bodhisattva Kashyapa disse ao Buda: “Oh Honrado pelo Mundo! No mundo, não temos os negativos apropriados [opostos, antônimos] dos quatro grandes elementos. No entanto, dizemos que existem os quatro grandes elementos. Por que não podemos chamar algo que existe de impertinência do Vazio?”.

O Vazio Como ‘Não-É’ – Nirvana

O Buda disse: “Oh bom homem! Você pode dizer que Nirvana não cai na categoria dos Três Tempos e desse modo é Vazio. Mas isto não é assim. Por que não? ‘Nirvana é uma existência, algo visível, aquilo que é verdadeiro, matéria, a pegada (impressão do pé), a sentença e a palavra, aquilo que é, características, o por causa, o refúgio que se toma, quietude, luz, paz, e a outra margem’. Esse é o porquê podemos dizer que ele não cai dentro da categoria dos Três Tempos. Com a natureza do Vazio, não há nada assim. Esse é o porquê dizemos ‘não-é’. Caso houvesse qualquer outra coisa senão isto (um ‘não-é’), poderíamos perfeitamente dizer que ele cai na categoria dos Três Tempos. Se a Vacuidade fosse uma coisa do ‘é’, ela não poderia ser outra coisa senão algo da categoria dos Três Tempos. Oh bom homem! As pessoas do mundo falam da vacuidade como não-matéria, como algo que não tem oposto, e é invisível. O caso é assim. Se ela não é matéria, algo sem oposto, e invisível, ela deve ser caitasika [ou cetasika = fatores mentais: São os fatores mentais que estão associados e que surgem em concomitância com a consciência (citta=viññana) e que são condicionados pela  presença desta. Enquanto que nos sutras todos os fenômenos da existência são agrupados em 5 agregados: forma (rupa), sensação (vedana), percepção (sañña), formações mentais(sankhara), consciência (viññana), o Abhidhamma, como regra, trata os fenômenos sob um aspecto mais filosófico em três aspectos: consciência (citta), fatores mentais (cetasika) e forma (rupa). Dessa forma, os fatores mentais compreendem a sensação, percepção e 50 outros fatores, o que no todo resulta em 52 (cinquenta e dois) fatores mentais. Se a Vacuidade é da categoria dos caitasika, ela não pode ser diversa da categoria dos caitasika. Se for da categoria dos Três Tempos, não pode ser diversa dos quatro agregados [skandhas]. Portanto, com exceção dos quatro agregados, não pode haver Vacuidade.

O Vazio Como ‘Não-É’ – Luz

Também, além disso, oh bom homem! Todos os tirthikas dizem que o Vazio é luz. Se for luz, é matéria. Se o Vazio é matéria, ele é não-eterno. Se não-eterno, ele cai na categoria dos Três Tempos. Como os tirthikas podem dizer que ele não é dos Três Tempos? Se for dos Três Tempos, não é o Vazio. E como alguém pode dizer que o Vazio é não-Eterno?

O Vazio Como ‘Não-É’ – Lugar

Oh bom homem! E alguém diz que o Vazio é um lugar onde se vive. Se for um lugar onde se vive, é matéria. E todos os lugares são não-sencientes e caem na categoria dos Três Tempos. Como poderia o Vazio não ser Eterno e não cair na categoria dos Três Tempos? Se há algum lugar sobre o qual falar, dever-se-ia saber que não pode existir o Vazio [lá].

O Vazio Como ‘Não-É’ – Gradual

Também, algumas pessoas dizem que o Vazio é gradual. Se for gradual, pode ser um caitasika (fator mental). Se for contável (mensurável), ele cai na categoria dos Três Tempos. Se ele pertence aos Três Tempos, como ele pode ser Eterno?

O Vazio Como ‘Não-É’ – Três Coisas

Oh bom homem! Também, algumas pessoas dizem: ‘Ora, o Vazio nada mais é que essas três coisas: 1) Vazio, 2) Real, e 3) Vazio-Real’. Se dissermos que isto é o Vazio, dever-se-ia saber que o Vazio é não-eterno. Por quê? Porque ele não tem um lugar efetivo para existir. Se for dito que ele realmente é isto, devemos saber que o Vazio é não-eterno. Por quê? Porque não é nulo (vago). Se dissermos ‘Vazio-Real’, podemos saber que o Vazio é não-eterno. Por quê? Porque nada pode existir em dois lugares. Por isso, o Vazio é nulo.

O Vazio Como ‘Não-É’ – Desimpedimento

Oh bom homem! As pessoas do mundo podem dizer: ‘Qualquer lugar do mundo onde não haja impedimento [obstáculo] é o Vazio’. Um lugar onde não há nada para obstruir é um completo ‘é’. Como pode qualquer existência ser parcial? Se for um completo ‘é’, pode-se saber que não há Vazio em outros lugares. Se for parcial, isso é uma coisa contável. Se contável, é não-eterna.

O Vazio Como ‘Não-É’ – Co-Existência

Oh bom homem! Uma pessoa pode dizer: ‘O Vazio co-existe com o ‘é’ desobstruído’. Ou alguém pode dizer: ‘O Vazio existe dentro de uma coisa. É como o fruto dentro de um recipiente’. Nenhum deles é o caso. Há três tipos de co-existência, a saber: 1) coisas feitas diferentemente tornam-se unas, como no caso dos pássaros voando que se juntam numa árvore; 2) duas coisas comuns entre si tornam-se unas, como no caso de duas ovelhas que entram em contato; 3) co-existência de pares daqueles que se reúnem para existir no mesmo lugar. Dizemos ‘diferentes coisas se juntam’. Há dois tipos de diferenças. Um é uma ‘coisa’ (objeto), e o outro é o Vazio (como no caso do par lacuna-intersticial). Se a Vacuidade se junta com a coisa, essa Vacuidade deve ser não-eterna. Se uma coisa se junta com o Vazio, a coisa deixa de ser unilateral (individual, desigual, assimétrica). Se já não há nada que seja unilateral, novamente é não-eterno.

O Vazio Como ‘Não-É’ – Eterno

Uma pessoa pode dizer: ‘O Vazio é eterno; e a sua natureza é imóvel. Esta (natureza) se junta com o que se move’. Mas, isto não é assim. Por que não? Se o Vazio é eterno, a matéria, também, deveria ser eterna. Se a matéria é não-eterna, o Vazio, também, deve ser não-eterno.

O Vazio Como ‘Não-É’ – Dual

Uma pessoa pode dizer: ‘O Vazio é, também, tanto o eterno como o não-eterno’. Isto está em desacordo com a razão. Uma pessoa pode dizer que coisas com partes comuns se juntam. O caso não é assim. Por que não? O Vazio é onipenetrante. Se ele junta-se com o que é criado, o que é criado também deveria tornar-se onipenetrante. Se ele penetra, tudo deve ser penetrante. Se tudo for onipenetrante, tudo pode ser juntado em um. Não podemos dizer que ambos possam existir, junção e não-junção. Uma pessoa pode dizer: ‘Aquilo que esteve junto, junta-se novamente, como no caso de dois dedos que se unem’. Mas, isto não é assim. Por que não? A união não pode preceder (anteceder). A união surge depois. Se o que não existia antes vem a existir, isto é nada mais que o não-eterno. Por isso, não podemos dizer: ‘O Vazio é aquilo que já esteve junto e [que agora] se junta’. O que se obtém no mundo é aquilo que não existia antes, mas que depois surge. Isto é como com uma coisa que não tem eternidade. Se o Vazio se situa numa coisa como o fruto dentro de um recipiente, se for assim, ele também deve ser não-eterno. Uma pessoa pode dizer que se o Vazio se situa numa coisa, ele é como o fruto num recipiente. Mas, isto não é assim. Por que não? Onde o Vazio em questão poderia existir, não tendo o recipiente às mãos? Se há qualquer lugar [para ele] existir, o Vazio teria que ser muitos. Se muitos, como diríamos eterno, uno, e onipenetrante? Se o Vazio existe em lugares fora do Vazio, então uma coisa poderia perfeitamente subsistir sem o Vazio. Assim, saiba-se que não pode haver tal coisa (dual) como (sendo) o Vazio.

O Vazio Como ‘Não-É’ – Direção

Oh bom homem! Se uma pessoa diz: ‘O lugar que se pode apontar é Vazio’, saiba que o Vazio é algo não-eterno. Por quê? Temos quatro direções para apontar. Se há os quatro quadrantes, saiba que o Vazio, também, deveria possuir as quatro direções. Tudo o que é eterno não tem direção para apontar. Ter direções significa que o Vazio, por conseguinte, é não-eterno. Se não-eterno, não está distante dos cinco skandhas. Se alguém dissesse que certamente há separação dos cinco skandhas, não haveria lugar para (ele) existir. Oh bom homem! Se existe alguma coisa através de relações causais, podemos saber que tal coisa é não-eterna. Oh bom homem! Por exemplo, todos os seres e árvores se apóiam no chão. Como o chão é não-eterno, o que se apoia no chão é, por conseguinte, não-eterno.

O Vazio Como ‘Não-É’ – Elemento

Oh bom homem! A terra está sobre a água. Como a água é não-eterna, a terra, também, é não-eterna. A água paira sobre o vento, e como o vento é não-eterno, a água, também, é não-eterna. O vento repousa sobre o espaço, e como o espaço é não-eterno, o vento, também, é não eterno. Se é não-eterno, como podemos dizer: ‘O Vazio é eterno e preenche o espaço’? Como o Vazio é nulo, ele não tem passado, futuro ou presente. Como os chifres de uma lebre não são uma coisa, eles não têm passado, futuro ou presente. As coisas são assim. Portanto, Eu digo: ‘Como a Natureza de Buda é eterna, ela não cai dentro da categoria dos Três Tempos. Como o Vazio é Vazio, ele não cai dentro da categoria dos Três Tempos’.

Oh bom homem! Eu nunca brigo com o mundo. Por que não? Se o conhecimento mundano diz ‘é’, Eu digo ‘é’; se o conhecimento mundano diz ‘não-é’, Eu, também, digo ‘não-é’.”

Sutra do Nirvana – Capítulo 42 – Sobre o Bodhisattva Kashyapa 3.

PI ficou encantado. Se outrora houvesse aguardado pelo ensino, não teria divagado por tantos séculos neste mundo. Não continha a sua alegria e, no dia seguinte, antes mesmo do alvorecer, entrou no Grande Salão das preleções. Embora já decidido a empreender esforços em prol da Via, PI continuava o mesmo: Boca!

Selo Comemorativo

A História do Interlocutor Zen e o Principiante Incauto

Essa é uma edição comemorativa dos 7 anos de Cristal Perfeito no WordPress.com, os quais se completaram a 17 de janeiro de 2014. Por que comemorativa? Porque foi difícil, e naquela ocasião o Principiante Incauto era eu.

Em meados do ano de 2006, quando concluí a tradução do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, enviei um e-mail para muitas pessoas relacionadas com o Budismo no Brasil anunciando a conclusão do trabalho e a criação de um blog chamado Cristal Perfeito sobre Budismo e Reflexões acerca dos paralelos deste com a Física do Estado Sólido. Desnecessário dizer, o retorno foi pífio, poucos responderam. Mas vejam que interessante essa breve troca de mensagens:

<gustavomokusen@…br> 28 de julho de 2006 17:00
Para: muccamargo@…br
marcos,
o que há de comum entre a física e o budismo?
g.

muccamargo@…br escreveu:
Gustavo,
O vazio imponderável inerente a todos os fenômenos.
Marcos Ubirajara.

<gustavomokusen@…br> 28 de julho de 2006 17:38
Para: muccamargo@…br
se o vazio é imponderável, como você pôde ter me dado essa resposta?
g.

muccamargo@…br escreveu:
Parece que a palavra “imponderável” sobrou na minha resposta. Mas, também não faz falta.
O vazio inerente a todos os fenômenos.
Se preferir, exclua uma a uma daquelas palavras e você chegará à resposta final.
Marcos.

<gustavomokusen@…br> 28 de julho de 2006 21:04
Para: muccamargo@…br
então por que você me respondeu?
g.

E esse diálogo deu origem ao primeiro episódio do Interlocutor Zen e o Principiante Incauto, cuja edição na forma de livro me traz a lembrança daqueles momentos iniciais.

Os demais episódios seguiram essa linha e foram agrupados numa antiga categoria do blog Cristal Perfeito chamada “A Física do Estado Insólito”. Agora dá para entender, não é?

Espero que gostem!

Marcos Ubirajara de Carvalho e Camargo.

Selo Comemorativo

A Retroação de PI

Em ‘Um Diálogo Frívolo Acerca da Grande Lei’

Naquela ocasião, PI era uma jovem entusiasta, mas diante da perplexidade da situação criada por IZ, com o orgulho ferido, retroagiu, ficou de lado e desapareceu do cenário, acredita-se que durante muitos séculos, selando um longo e profundo silêncio. Esse é um problema de todos os ideogramas quando se colocam de lado ou se deitam. Acontece também quando se lhes olha de forma unilateral.

Durante aquele tempo, PI vagou entre muitas culturas, outras terras, outros mundos, tendo seu significado não compreendido e corrompido, ao ponto de ser considerado uma importante grandeza da matemática, uma constante universal, mas vejam: uma dízima não-periódica, constante mas inexata, um ícone da imperfeição.

Não era isso que PI almejara e buscara em seus “insights”. Aliás, observem a sua semelhança com IZ. Pode-se dizer que possuem a mesma natureza. A diferença mais notável é que, ao contrário de IZ, a mente de PI é obliterada por uma espécie de laje sobre si, a qual se diz ser muito pesada. Por essa razão, de há muito PI vinha buscando caminhos para remover essa obstrução e, colocados os “pingos nos is”, tornar-se plural e desobstruído como IZ.

Em suas andanças, certo dia, PI encontrou uma antiga escritura intitulada “O Sutra de Lótus”, da qual já havia ouvido falar, mas que lhe parecia muito distante. Dado à sua angustia, mergulhou em seu estudo, onde viria a ler:

“Honrado pelo Mundo, em razão dos três tipos de sofrimentos, temos passado muitos tormentos entre os nascimentos e as mortes. Enganados e ignorantes, apegamo-nos às Leis menores.”

“Hoje, o Honrado pelo Mundo forçou-nos a pensar sobre abandonarmos o estrume das discussões frívolas sobre a Lei. Aumentamos a nossa capacidade para merecer o pagamento do dia do Nirvana. Tendo alcançado isto, nossas mentes exultaram enormemente, ficamos contentes, dizendo para nós mesmos que, através da diligência e do vigor, aquilo que tínhamos ganhado na Lei do Buda era abundante.”

“Todavia, o Honrado pelo Mundo, tendo conhecimento pleno de que nossos pensamentos estavam apegados aos desejos inferiores e se deleitavam nas Leis menores, deixou-nos seguir nossos próprios caminhos e não especificou para nós dizendo: ‘Todos vocês terão uma parte no tesouro da sabedoria e da visão do Tathagata’.”

“O Honrado pelo Mundo, usando o poder dos meios hábeis, falou da sabedoria do Tathagata. Ao ganhar do Buda o pagamento do dia do Nirvana, tomamo-lo como se fosse uma grande conquista, não tendo mais ambição de buscar o Grande Veículo. Ademais, a sabedoria do Tathagata era empregada em prol dos Bodhisattvas, e assim não tínhamos expectativas com relação a ela. Qual é a razão? O Buda sabia que nossos pensamentos se deleitavam nas Leis menores. Então, ele se utilizou dos meios hábeis para nos ensinar da maneira apropriada, e nós não compreendemos que éramos verdadeiramente os filhos do Buda.”

“Agora, sabemos que o Honrado pelo Mundo não é de forma alguma egoísta com a sabedoria do Buda. Por quê? Desde os primórdios, éramos verdadeiramente os filhos do Buda, mas, mesmo assim, deleitávamos somente nas Leis menores. Se tivéssemos pensado em deleitar na Grande Lei, o Buda então teria pregado para nós a Lei do Grande Veículo. Este Sutra prega somente o Veículo Único. No passado, na presença dos Bodhisattvas, o Buda havia depreciado os Ouvintes que deleitavam nas Leis inferiores, mas ele efetivamente estava empregando o Grande Veículo no ensinamento e conversão deles.”

 Sutra de Lótus – Capítulo 4 – Fé e Compreensão.

PI lia e relia esse trecho do sutra. Perguntava-se: ‘Por onde andei?’ E passou a meditar: ‘Fui um tolo ao sentir meu orgulho ferido, e me deixar levar daquela maneira por um sentido de autoimportância desmedida. Por que agi daquela forma com IZ? Dei-lhe o flanco, saí de cena, sem sequer lhe dar a oportunidade de me ensinar. Devo procurá-lo agora mesmo’.

Selo Comemorativo

Sutra do Nirvana – TOMO IV – O Rugido do Leão

“Oh Manjushri! Todos vocês! Disseminem o Grande Dharma em meio às quatro classes de pessoas. Eu agora confio este sutra a vocês. Igualmente, quando Mahakashyapa e Ananda chegarem, confiem-lhes o Dharma Maravilhoso também.” – Buda Shakyamuni ao deixar seu Corpo Transformado.

SUTRA DO NIRVANA - TOMO IV

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Quarto de 4 (quatro) Volumes.

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