Um Olhar Sem Distinções – II

Pensar o mundo Saha como sendo um caldo,
um caldo borbulhante num cadinho,
um cadinho com a forma de um cálice,
um cálice de cristal,
um cristal perfeito e,
indistintamente, tudo dentro.

E o mundo do Buda?
É este Cálice Vazio do Cristal Perfeito[1].

Cristal Perfeito

Foto de Marcos Ubirajara em 27/02/2006. Local: Sítio da Dôra.


[1] Iniciado em 30/06/2006 às 05:00 hs, foi concluído em 16/01/2007 às 02:00. Cristal = Dharma = Lei; Perfeito = Sad = Correto; Sadharma = Dharma Correto; Cálice = Flor do Lótus; Vazio = Branco = Ausente; Cálice Vazio = Lótus Branco = Pundarika. Cálice Vazio do Cristal Perfeito = Flor de Lótus da Lei Maravilhosa = Sadharma Pundarika = Mundo do Buda.

O Fato Motivador da Tradução do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa

Introdução

Essa história tem como objetivo resgatar fatos e eventos ocorridos durante o trabalho de tradução do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa para o português brasileiro, e nos anos posteriores. Como se poderá ver nos episódios que seguem, essa memória, que somente agora vem à luz, revela fatos intimamente ligados aos profundos significados dos ensinamentos do Buda, cristalizados neste que é considerado o Rei dos Sutras. Imensa é a minha gratidão pela oportunidade que tive de realizar esse trabalho, e maior ainda é o débito de gratidão por poder compartilhar aqui neste espaço, os conteúdos e significados dos ensinamentos do Honrado pelo Mundo; e também essa história a discorrer sobre o período mais importante da minha vida, e talvez o motivo de estar de passagem por este Mundo Saha.

Namu Budas! – Minha Homenagem aos Budas do Universo!

O Fato Motivador da Tradução do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa

Estabeleci-me em Belo Horizonte no ano de 2000, levado pelo trabalho de consultoria que vinha exercendo há anos em várias cidades brasileiras. Devido às relações de trabalho, logo se formou um círculo de boas amizades, as quais eu preservo até os dias de hoje. Era final do ano de 2003, início de 2004. Um câncer muito agressivo foi diagnosticado em uma grande amiga, a Silvia Anísio, médica que então conhecera através de minha companheira Maria Auxiliadora. Minha prática naquela ocasião andava estagnada, isto é, sem objetivos claros. Havia me afastado de São Paulo por motivos de trabalho, e fazia as orações diárias de forma burocrática, como se fosse uma obrigação.

Diante daquela notícia, imediatamente reforcei minhas orações, e conversei com a Silvia. Propus-me ir à sua casa todas as manhãs, antes de ir para o trabalho, e lá realizar as orações, basicamente a recitação do NAMU-MYOHO-RENGUE-KYO. Ela aceitou, lembrando que naquela ocasião, por estar já bastante abatida pela doença, ela encontrava-se hospedada e amparada na casa da Cecília e da Cléria, amigas inseparáveis, e assim foi. Ela me dizia que a oração lhe dava conforto, sentia-se melhor.

Em 1987, quando recitei o Daimoku pela primeira vez, no terceiro dia, a Márcia que esperava nosso terceiro filho, teve uma eclampse e ficou entre a vida e a morte na UTI do Hospital Maternidade de Campinas-SP. Isto aconteceu a 13 de fevereiro de 1987, exatos 25 anos atrás. Márcia já era Budista desde 1968, e eu acabara de tomar a decisão de praticar. Naquela ocasião, a Sra. Luzia Koike, que era líder do grupo que passamos a freqüentar, me amparou, não permitindo que eu deixasse de orar o NAMU-MYOHO-RENGUE-KYO ao Gohonzon, indo todas as manhãs antes do trabalho à minha casa, e fazia as orações comigo. Isto foi até Márcia se recuperar, não obstante perdêssemos o bebê. Então, o que fiz por Silvia foi um ato de retribuição dos débitos de gratidão acumulados desde os primórdios da minha prática lá em Campinas.

Desde então, embora em muitas outras ocasiões em que assim procedi tivera alcançado resultados surpreendentes, nesse caso, o estado de saúde da Silvia só piorava. Senti impotência e recorri aos estudos; pois aprendera que Budismo é Fé, Prática e Estudo, e esse pilar do estudo estava fraco, estava cedendo. Voltei às escrituras que possuía em meu acervo pessoal, mas sentia ser insuficiente diante da situação. Pesquisei na internet e encontrei uma tradução do Sutra de Lótus para o português de Portugal, feita por João Rodrigues a partir do original em inglês de Burton Watson, que eu já conhecia. Baixei o arquivo, formatei, imprimi e encadernei. Isto aconteceu em 03/03/2004.

Mas, por que o Sutra? Porque decidi abandonar as idéias próprias, minhas e de outras pessoas do mundo secular. Por quê? Juntos, ou dentre todos os sábios do mundo secular, quem poderia salvar a vida daquela pessoa? E mais: o que é salvar uma vida? Seria devolver um náufrago e seu barco despedaçado às águas tormentosas de Samsara, o Mundo Tríplice? Estava cansado, e já sabia como tudo aquilo iria terminar. Mas senti conforto ao mergulhar na leitura dos ditos dourados do Buda.

Entre 03/03/2004 e 29/09/2004, fiz quatro leituras do Sutra de Lótus em sucessão, e muito concentradamente, grifando trechos importantes, os quais eu repassava para a Silvia entre as orações, com o intuito de ensinar-lhe o desapego às coisas do mundo, dando-lhe força e esperança em sua luta. Finalmente, em seus últimos dias, passei a recitar-lhe o Dharani do Rei da Medicina, que ela ouvia concentradamente, até tornar-se inconsciente.

Eis o Dharani:

“Naquela ocasião, o Bodhisattva Rei da Medicina disse ao Buda: ‘Honrado pelo Mundo, eu agora darei aos pregadores do Dharma um mantra dharani para a sua proteção’.

Ele então falou o mantra, dizendo:

An er. Man er. Mo mi. Mo mo mi. Zhi li. Zhe li di. She li. She li duo wei. Shan di. Mu di. Mu duo li. Suo li. E wei suo li. Sang Ii suo Ii. Cha yi. E cha yi. E chi ni. Shan di. She li. Tuo la ni. E lu qie pe suo. Bo zhe pi cha ni. Mi pi ti. E bian duo luo mi li ti. E tan duo bo li shu di. E jiu li. Mu jiu li. E luo li. Bo luo li. Suo jia cha. E san mo san li. Fo tuo pi ji li zhi di. Da mo bo li cha di. Seng qie nye jyu sha mi. Po she po she shu di. Man duo luo. Man duo luo cha ye duo. You lou duo. You lou duo qiao she liao. E cha luo. E cha ye duo ye. E po lu. E mo rao nuo duo ye.

‘Honrado pelo Mundo, este dharani, este mantra espiritual, este encantamento, foi recitado por Budas iguais em número às areias de sessenta e dois kotis de rios Ganges. Se alguém fizer mal a este Mestre da Lei, ele terá, por conseguinte, feito mal a estes Budas’.”

[Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, Capítulo 26 – Dharani].

Busquei assim proteção para o duro embate contra os demônios da morte.

Continua no próximo episódio semanal de:

A História da Tradução do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa

por Marcos Ubirajara de Carvalho e Camargo.

Monólogo no Exílio

Chamado Saha, este é o mundo da tolerância. Então, o que devemos cultivar aqui? Ora, a tolerância e a paciência.

Assim, desarme seu espírito, despojando-o da armadura da intolerância, e vista-se com os robes do Tathagata, agindo com gentileza e paciência para com todos os seres.

Se conseguir agir assim por um período de apenas 24 horas, estará apto a repeti-lo indefinidamente, e também será capaz de cultivar as virtudes da benevolência e da compaixão.

Em 19/09/2008.

Marcos Ubirajara.

Compreendendo o Vazio

O Buda então disse à multidão de Bodhisattvas Mahasattvas: “Basta! Bons homens, vocês não necessitam proteger e manter este Sutra. Por que não? Dentro deste meu mundo Saha há Bodhisattvas Mahasattvas iguais em número às areias de sessenta mil Rios Ganges, tendo cada um deles um séqüito igual em número às areias de sessenta mil Rios Ganges. Após a minha extinção, todos eles protegerão, ostentarão, lerão, recitarão e proclamarão vastamente este Sutra[1]”.

Tão logo o Buda disse isto, nos três mil grandes sistemas de mundos do Mundo Saha a terra tremeu e abriu-se, e do seu interior ilimitadas dezenas de bilhões de Bodhisattvas Mahasattvas emergiram simultaneamente. Todos aqueles Bodhisattvas possuíam os corpos da cor dourada, as trinta e duas marcas distintivas, e inconcebível luz. Eles residiam sob o Mundo Saha, no espaço vazio pertencente a este mundo[2]. Ouvindo o som da voz do Buda Shakyamuni, todos aqueles Bodhisattvas vieram de baixo.


[1] Merece destaque a expressão “Dentro deste meu mundo Saha”. Neste momento, mesmo diante dos insistentes apelos dos Bodhisattvas Mahasattvas vindos das terras das outras direções; e mesmo diante do seu voto de “com um sempre crescente vigor, proteger, manter, ler, recitar, copiar e fazer oferecimentos a este Sutra, e o proclamar longínqua e amplamente através desta terra”, o Buda não lhes dá a incumbência de levar ao cabo esta tarefa, fazendo menção aos numerosos Bodhisattvas Mahasattvas deste seu mundo Saha. Com relação a esses Bodhisattvas da Terra o Buda afirma: “Após a minha extinção, todos eles protegerão, ostentarão, lerão, recitarão e proclamarão vastamente este Sutra”.

[2]espaço vazio pertencente a este mundo”, neste sentido, denota o vácuo imponderável donde emerge a fenomenologia do mundo tríplice. A ciência de hoje, sem poder descrevê-lo ou mensurá-lo, trata essa dimensão simplesmente como “vácuo” ou “campo primordial”.

Excerto do CAP. 15: Emergindo da Terra, pág. 271.

Buda Shakyamuni, O Buda da Direção Nordeste

“Quanto às minhas próprias e vossas causas e condições anteriores,
eu agora direi: todos vocês, ouçam bem!”.

(CAP. 06: Concessão de Profecias)

“Monges, digo-lhes que esses discípulos do Buda, os dezesseis Shramaneras, todos agora atingiram o Anuttara-Samyak-Sambodhi, e nas terras das dez direções, estão presentemente pregando a Lei. Eles têm como seus séqüitos ilimitadas centenas de milhares de milhões de Bodhisattvas e Ouvintes”.

“Dois tornaram-se Budas no Leste: um é chamado Akshobhya, na Terra da Felicidade; e o outro é chamado Pico Sumeru. Dois tornaram-se Budas no Sudeste: um é chamado Som do Leão; o outro é chamado Marca do Leão. Dois tornaram-se Budas no Sul: um é chamado Morador do Espaço; o outro é chamado Extinção Eterna. Dois tornaram-se Budas no Sudoeste: um é chamado Marca Real; o outro é chamado Marca do Brahma. Dois tornaram-se Budas no Oeste: um é chamado Amitayus; o outro é chamado Salvador de todos os Mundos do Sofrimento e da Angústia. Dois tornaram-se Budas no Noroeste: um é chamado Fragrância da Tamalapatrachandana e das Penetrações Espirituais; o outro é chamado Marca do Sumeru. Dois tornaram-se Budas no Norte: um é chamado Nuvem da Emancipação; e o outro é chamado Rei da Nuvem da Emancipação. No Nordeste há um Buda chamado Destruidor de Todos os Temores Mundanos; e o outro Buda, o décimo sexto, sou eu mesmo, Buda Shakyamuni, aqui no mundo Saha, onde alcancei o Anuttara-Samyak-Sambodhi”.

Excerto do CAP. 07: A Parábola da Cidade Fantasma, pág. 167.

Buda Shakyamuni
Fonte das Imagens: Wikipédia, a enciclopédia livre.

A Metáfora do Mundo Saha

Assim estava aquela casa:

aterrorizante ao extremo,

com inumeráveis perigos e conflagrações,

uma infinidade de problemas, não apenas um.

 

Naquela ocasião,

o proprietário da casa estava do lado de fora da porta quando ouviu alguém dizer:

‘Todas as suas crianças, há instantes atrás,

entraram naquela casa para brincar.

Sendo jovens e incautos,

eles se deleitam na brincadeira e apegam-se à diversão’.

 

Tendo ouvido isto,

o velho homem entrou apavorado na casa em chamas.

Com a intenção de salvá-las,

evitando que fossem queimadas,

ele advertiu suas crianças daquela infinidade de perigos e calamidades:

‘Os espíritos malévolos, os insetos venenosos,

a iminente conflagração,

uma infinidade de sofrimentos, em sucessão,

contínuos e sem interrupção[1].


[1] Eis uma boa descrição do “Inferno dos Incessantes Sofrimentos”. Seu lugar é o Mundo Tríplice; seu caminho é a ampla estrada de seis pistas, quais sejam os seis caminhos da existência, desde os estados da alegria e da tranqüilidade, onde se encontravam as crianças, até os mais baixos estados passando pela ira, animalidade, fome e inferno, todos descritos em detalhes; seus meandros são os três maus caminhos da existência, quais sejam a avareza, a ira e a estupidez; sua metáfora é uma decrépita casa em chamas; e sua saída é a estreita porta, a estrada de uma única pista, qual seja Grande Veículo que o Buda, utilizando-se de um meio hábil, prega como sendo três: Ouvinte (erudição), Pratyekabuda (absorção) e Bodhisattva.

Excerto do CAP. 03 – A Parábola (da Casa em Chamas), pág. 85.

Ver em Cristal Perfeito

Inferno? Onde?

A Metáfora do Corpo Físico

O Objeto de Adoração

Contemplador Verdadeiro, Contemplador Puro,

Contemplador com Ampla, Grande Sabedoria,

Contemplador Compassivo, Contemplador Amável,

devemos constantemente contemplá-lo com reverência!

Indestrutível luz pura,

sol da sabedoria que penetra a escuridão,

que pode impedir as calamidades do vento e do fogo,

como brilhas em todos os mundos!

Sua substância compassiva: como o trovão dos preceitos.

Sua intenção amável: como uma maravilhosa grande nuvem.

Ele faz chover o doce orvalho e a chuva do Dharma,

que extingue as chamas da aflição.

 

Em meio a uma contenda, quando visado com acusações,

ou quando alguém está aterrorizado no campo de batalha,

se ele evoca o poder do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, todos esses muitos inimigos se dispersarão e se retirarão.

 

Maravilhoso é o seu som, Contemplador dos Sons do Mundo.

Um som puro, um som como o da maré,

um som para além de todos os sons mundanos,

nós sempre o manteremos em pensamento.

 

Em pensamento após pensamento não teremos dúvida:

o Contemplador dos Sons do Mundo é puro e sábio.

Em tempos de sofrimento, agonia, perigo, e morte,

ele é nosso refúgio e protetor.

 

Repleto de todos os méritos e virtudes,

com seus olhos compassivos e amáveis contemplando os seres viventes,

ele é dotado de imensas bênçãos, ilimitadas como o oceano.

Portanto, deveríamos reverentemente adorá-lo”.

 

Naquela ocasião, o Bodhisattva Guardião da Terra levantou-se do seu assento e disse ao Buda: “Honrado pelo Mundo, se houver aqueles que ouçam este capítulo sobre o Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo, que aprendam sobre o altruísmo de suas ações e sobre o poder das suas penetrações espirituais como mostrado neste Portal Universal, saiba-se que os méritos e virtudes de tais pessoas não serão pequenos”.

Quando o Buda pregou o “Capítulo do Portal Universal do Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo”, todos os oitenta e quatro mil seres viventes na assembléia[1] decidiram-se pelo Anuttara-Samyak-Sambodhi.

 


[1] Isto significa que o Verdadeiro Objeto de Adoração, Contemplador dos Sons do Mundo, sábio e puro, Dotado de todos os benefícios; é o próprio Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, seu Nome, (Nam) Myoho-Rengue-Kyo, ou a sua Íntegra, representada pelos seus oitenta e quatro mil caracteres com suas intrínsecas naturezas de Buda, aqui identificados como “seres viventes na assembléia”; antes, no Capítulo 24, identificados como o séqüito de Bodhisattvas que acompanharam o Bodhisattva Som Maravilhoso em sua vinda ao mundo Saha.

Extraído do CAP. 25: O Portal Universal do Bodhisattva Guanshiyin

Flor de Lótus
Foto de Marcos Ubirajara. Local: Sítio da Dôra em 02/12/2007.

O Portal Universal do Grande Veículo

Naquela ocasião, o Bodhisattva Intenção Inesgotável levantou-se do seu assento, descobriu seu ombro direito, juntou as palmas das mãos, e fitando o Buda, disse: “Honrado pelo Mundo, por que razão o (Portal[1] Universal do) Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo é assim chamado”?

 


[1] Aparecendo em algumas traduções como ‘Passagem’, esse termo é traduzido do original Chinês para o Inglês como ‘Gate’ e para o Japonês como ‘Fumon’; em ambos os casos significando ‘Portão’. Entendo que a tradução mais apropriada para o Português seja ‘Portal’, que incorpora um significado mais elevado. Um ‘Portal’, ou ‘Portão’, pressupõe a passagem nos dois sentidos e isto faz a diferença. Um Bodhisattva Mahasattva do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa não é um mero “aspirante” do Anuttara-Samyak-Sambhodi (num sentido da passagem pelo portal); mas ele incorpora também a “aspiração” do Buda de conduzir todos os seres para o Anuttara-Samyak-Sambhodi (no sentido inverso da passagem). Isto é, a função do Bodhisattva Mahasattva do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa é também a de um portal de entrada do Buda neste mundo Saha. Essa é a razão do advento de um Bodhisattva deste Sutra de Lótus, sendo este o Veículo Único da salvação de todos os seres, mas também Veículo Único das Práticas Benevolentes do Honrado pelo Mundo e dos seus Poderes Transcendentais.

Extraído do CAP. 25: O Portal Universal do Bodhisattva Guanshiyin

Compaixão: A Chave do Portal Universal do Grande Veículo

O Samadhi do Daimoku do Sutra de Lótus

Naquela ocasião, o Bodhisattva Virtude da Flor disse ao Buda: “Honrado pelo Mundo, o Bodhisattva Som Maravilhoso possui raízes de benevolência profundamente plantadas. Honrado pelo Mundo, em qual samadhi reside este Bodhisattva, que o torna capaz de transformar-se e salvar os seres viventes”?

O Buda disse ao Bodhisattva Virtude da Flor: “Bom homem, este samadhi é chamado Manifestação de Todas as Formas Físicas. O Bodhisattva Som Maravilhoso, residindo neste samadhi, pode beneficiar incontáveis seres viventes”.

Quando este capítulo sobre o Bodhisattva Som Maravilhoso foi pregado, todos aqueles que tinham acompanhado o Bodhisattva Som Maravilhoso, oitenta e quatro mil ao todo, obtiveram o Samadhi da Manifestação de Todas as Formas Físicas. Incontáveis Bodhisattvas no mundo Saha também obtiveram este samadhi, bem como o dharani[1].

Naquela ocasião o Bodhisattva Mahasattva Som Maravilhoso, tendo feito oferecimentos ao Buda Shakyamuni e à torre do Buda Muitos Tesouros, retornou para a sua própria terra. As terras por onde ele passou tremeram de seis formas diferentes, preciosas flores de lótus choveram dos céus, e centenas de milhares de miríades de kotis de músicas tocaram.

Quando ele chegou à sua terra, cercado pelos oitenta e quatro mil Bodhisattvas, ele apresentou-se ao Buda Sabedoria do Rei da Constelação Pura Flor e disse: “Honrado pelo Mundo, estive no mundo Saha onde beneficiei os seres viventes. Eu vi o Buda Shakyamuni e a torre do Buda Muitos Tesouros, saudei-os, e fiz-lhes oferecimentos. Eu também vi o Bodhisattva Manjushri, o Príncipe do Dharma, bem como o Bodhisattva Rei da Medicina, o Bodhisattva que Adquiriu o Poder do Esforço Diligente, o Bodhisattva Doador Intrépido, e outros, e possibilitei a oitenta e quatro mil Bodhisattvas obterem o Samadhi da Manifestação de Todas as Formas Físicas”.

Quando este capítulo sobre o trânsito do Bodhisattva Som Maravilhoso foi pregado, quarenta e dois mil seres celestiais obtiveram a compreensão da verdade do não-nascimento e não-extinção de todos os fenômenos. O Bodhisattva Virtude da Flor obteve o Samadhi da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa[2].


[1] Este samadhi também chamado Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, e que permite manifestar todos os tipos de corpos, é o mesmo que no passado permitiu ao Bodhisattva Alegremente Visto Por Todos os Seres manifestar quaisquer formas físicas, após a exposição do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa pelo Buda Pura Virtude e Brilhante como o Sol e a Lua. Este Bodhisattva Virtude da Flor do presente Capítulo 24, foi no passado o Buda Pura Virtude e Brilhante como o Sol e a Lua do Capítulo 23, e será o Buda Pura Virtude e Brilhante como o Sol e a Lua do Capítulo 23 do futuro e que retransmitirá esse samadhi para o Bodhisattva Alegremente Visto por Todos os Seres do futuro, hoje Bodhisattva Rei da Medicina. Este Bodhisattva Som Maravilhoso, transposto do remoto passado graças aos poderes transcendentais do Buda, que já serviu e fez oferendas a um imensurável número de Budas e que há muito plantou raízes de virtude e encontrou centenas, milhares, dezenas de milhares, milhões de nayutas de Budas iguais em número às areias do rio Ganges; é o próprio Buda Shakyamuni do presente, dando consistência do princípio ao fim. Este poder manifestado pelo Buda Shakyamuni é a Verdadeira Possessão Mútua, e este samadhi e dharani chamado Flor de Lótus da Lei Maravilhosa – Myoho-Rengue-Kyo – é a Verdadeira Entidade de Todos os Fenômenos. Os oitenta e quatro mil Bodhisattvas que acompanham o Bodhisattva Som Maravilhoso são os oitenta e quatro mil caracteres do Sutra Lótus. Cada um desses caracteres, sendo um Bodhisattva, possui a natureza inerente de Buda, significando que o samadhi desse Bodhisattva Som Maravilhoso abrange todo o sutra. Mais ainda, a entonação do mantra-dharani chamado Flor de Lótus da Lei Maravilhosa (Myoho-Rengue-Kyo) corresponde a entoar o Sutra de Lótus em sua íntegra.

[2] “Flor de Lótus da Lei Maravilhosa” é o próprio título deste sutra que em sânscrito se denota por ‘Saddharma-Pundarîka’. Quando acrescido da palavra “(Sutra) da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa”, torna-se ‘Saddharma-Pundarîka Sotaram’, que em caracteres chineses se traduz por ‘Myoho-Rengue-Kyo’.

Extraído do CAP. 24: O Bodhisattva Som Maravilhoso.

O Daimoku do Sutra de Lótus

A Manifestação do Som Maravilhoso do Daimoku do Sutra de Lótus

A Revelação do Corpo Incorruptível do Daimoku do Sutra de Lótus

Mundo Saha

Tendo chegado, ele desceu do palanque de sete tesouros. Pegando um colar de contas, de incalculável valor, ele apresentou-se ao Buda Shakyamuni, curvou-se com sua cabeça aos pés do Buda, ofereceu o colar e disse ao Buda: “Honrado pelo Mundo, o Buda Sabedoria do Rei da Constelação Pura Flor deseja saber se o Honrado pelo Mundo está livre de doenças e preocupações? Encontra-se vigoroso em seus trânsitos? Sua prática é pacífica e feliz? Estão os quatro elementos em harmonia[1]? Está dando conta das tarefas do mundo? São os seres viventes fáceis de salvar, sem muita avareza, ira, estupidez, inveja, mesquinhez ou arrogância? Não faltam com amor filial no relacionamento com seus pais ou são desrespeitosos com relação aos Shramanas, de visões distorcidas, impuros em seus pensamentos ou sem controle das cinco emoções? Honrado pelo mundo, são os seres viventes capazes de conquistar e derrotar demônios? O Tathagata Muitos Tesouros veio do remoto passado, dentro da Torre de Tesouro, ouvir o Dharma? Ele também deseja saber se o Tathagata Muitos Tesouros está em paz e segurança, livre de preocupações, após longa permanência no mundo ‘Digno de Seres Perseverantes’[2]”.

 


[1] Fazendo uma clara referência a um quinto elemento (kuu) significando a harmonia entre os outros quatro elementos (terra, ar, fogo, água).

[2] Esta é uma outra tradução para o mundo ‘Saha’. Traduz-se também como ‘Mundo da Tolerância’.

Extraído do CAP. 24: O Bodhisattva Som Maravilhoso.

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