O Supramundano

Nesse dia 23/12/2011, às 05:00 hs, meu irmão Guarani, falecido em 13/12/2011, conversou longamente comigo. Com uma voz límpida e tranquila, saudou-me dizendo: “Olá, Marcos! Tudo bem”? “Guara!”, disse eu. “Eu mesmo. Você viu aquilo lá?”, disse ele. “Mas, Guara…”, interpelei. “Estou vivo, Marcos. Aquilo lá não era eu”. E prosseguiu perguntando pelas pessoas enquanto eu apressava meus passos para levar as boas novas.

A história, da qual não me lembro mais dos muitos detalhes, é que alguém, uma pessoa vil, estava no ‘lugar dele’. E isso foi tramado para fazer certas coisas acontecerem. Caminhando apressadamente, ao me aproximar de uma grande árvore, sob ela, o sinal foi interrompido e não mais se restabeleceu. Como Budista que sou, entendi tudo. E gostaria de transmitir aos familiares e amigos essa mensagem de paz e tranquilidade que ele me passou: “Estou vivo, Marcos! Aquilo lá não era eu”.

Marcos Ubirajara.

Em 23/12/2011.

Pérolas do Universo – Fascículo XVII

“A pessoa sábia pensa profundamente sobre o mundo. Ela vê: ‘Ele não é um lugar para se refugiar, para adquirir Emancipação, quietude, amor, não é a outra margem, e nada tem do Eterno, Êxtase, do Eu, e do Puro. Se eu procurar o mundo avidamente, como posso afastar-me dele? Isto é como com um homem que, abominando a escuridão, busca a luz e, no entanto, volta novamente para a escuridão. A escuridão é o mundo; a luz é o Supramundano. Se eu aderir ao mundo, mergulharei na escuridão e me afastarei da luz. Escuridão é ignorância, e luz é o Brilho da Sabedoria. A causa do Brilho da Sabedoria é a imagem onde não se sente qualquer expectativa de deleitar-se nas coisas mundanas. Toda a cobiça nada mais é que o laço da impureza. Agora buscarei avidamente a luz da Sabedoria, e não o mundo’. A pessoa sábia medita assim. Essa é a imagem onde não se busca (nada) para si.”

Neste Fascículo XVII, que foi o último de série Pérolas do Universo.

Pérolas do Universo 17

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Conteúdo deste Fascícul

A CASA DO TESOURO    3

DA RAIZ AO ULTIMADO     7

O TOQUE DO BRILHO     9

DO SENTIMENTO À CONSECUÇÃO     10

A MEDITAÇÃO GROSSEIRA    11

A MEDITAÇÃO MINUCIOSA    13

O BRILHO DA SABEDORIA      14

EXISTÊNCIA OU EXTINÇÃO MOMENTÂNEA      16

TRÊS TIPOS DE DOENÇAS DOS SERES      17

A CONVERSÃO DE VASISTHA     17

AS VIRTUDES DE VASISTHA     19

EU FANTASMA      19

ORGULHO      21

OS DOIS LADOS E O INTERMÉDIO       22

POR QUE DOMINAR A MENTE      23

 

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A Pacificação dos Descontentes

O número de crentes foi aumentando constantemente, e o Rei Bimbisara reiteradamente dava provas ao Mestre da sua fé e amizade. Ele frequentemente o convidava ao palácio e oferecia-lhe um assento em sua mesa, e em tais ocasiões ele ordenava a cidade a manter uma aparência festiva. As ruas eram atapetadas com flores, e as casas decoradas com bandeiras e estandartes. As mais doces fragrâncias preenchiam o ar, e os habitantes trajavam-se nas suas roupas mais brilhantes. O próprio rei vinha adiante para comprimentar o Bem-Aventurado e protegia-lhe do sol com seu parassol dourado.

Rei Bimbisara

O Rei Bimbisara, retratado em arte Birmanesa, oferecendo seu reino para o Buda. Imagem Via Wikipedia, a enciclopédia livre.

Muitos jovens da nobreza depositaram toda a sua fé na lei ensinada pelo Bem-Aventurado. Queriam tornar-se santos; abandonaram a família e a fortuna, e o Bosque dos Bambús logo ficou cheio com os devotos discípulos.

Mas havia muitos em Rajagriha que estavam perturbados ao ver o grande número de conversões que o Buda estava fazendo, e foram cidade afora vociferando a sua raiva.

“Por que ele se instalou em nosso meio, esse filho dos Shakyas?”, perguntavam. “Já não há monges o bastante, pregando-nos sobre virtudes? E eles não seduziram os nossos jovens a gostar desse mestre? Por que, mesmo as nossas crianças estão nos deixando? Devido a esse filho dos Shakyas, quantas mulheres estão nas janelas! Devido a esse filho dos Shakyas, quantas famílias estão sem seus filhos! O mal cairá sobre o reinado, agora que esse monge se instalou em nosso meio.”

O Mestre logo adquiriu uma grande quantidade de inimigos entre os habitantes da cidade. Sempre encontravam seus discípulos, zombavam deles ou faziam comentários sarcásticos.

“O grande monge veio à cidade de Rajagriha e conquistou o Bosque dos Bambús; agora irá conquistar todo o reinado de Magadha?”, disse alguém ao passar.

“O grande monge veio à cidade de Rajagriha e levou os discípulos de Sanjaya para longe dele; quem ele seduzirá hoje?”, disse um outro.

“Uma praga seria menos prejudicial do que esse grande monge”, disse um terceiro; “mataria menos crianças.”

“E ele deixaria menos viúvas”, suspirou uma mulher.

Os discípulos não responderam. Mas sentiam uma raiva crescente da população, e falaram ao Mestre das palavras maldosas que ouviram.

“Não se deixem perturbar, oh discípulos”, respondeu o Buda. “Eles logo cessarão. Àqueles que os seguem com vaias e insultos, digam palavras calmas e gentis. Diga-lhes: ‘é porque ele sabe a verdade, a verdade real, que o herói convence, que o perfeito converte. Quem se atreve a ofender o Buda, o Santo que converte pelo poder da verdade’? Então eles silenciarão, e em poucos dias, quando vocês perambularem através da cidade, encontrarão apenas (aqueles) com respeito e louvor.”

Aconteceu como o Buda disse. As vozes maldosas foram silenciadas, e cada um em Rajagriha prestou honra aos discípulos do Mestre.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Shariputra e Maudgalyayana

Dois jovens brâmanes, Shariputra e Maudgalyayana, viviam naquela ocasião na cidade de Rajagriha. Eram amigos íntimos e ambos pupilos do eremita Sanjaya. Um ao outro haviam feito essa promessa: “Qualquer um de nós que obtenha primeiramente a libertação da morte, imediatamente dirá ao outro.”

Certo dia, Shariputra viu Asvajit a angariar esmolas nas ruas de Rajagriha. Ele ficou admirado com o seu semblante agradável, seu comportamento nobre e modesto, sua postura digna e tranquila. Ele disse para si:

“Realmente, já existe um monge que, neste mundo, encontrou o caminho certo para a santidade. Devo ir até ele; devo indagar-lhe sobre quem é seu mestre e que lei ele segue.”

Mas então ele pensou:

“Esta não é a ocasião apropriada para questioná-lo. Ele está a angariar esmolas; não devo perturbá-lo. Irei seguí-lo, e quando ele estiver satisfeito com os oferecimentos que recebeu, me aproximarei e conversarei com ele.”

O venerável Asvajit logo parou de solicitar por esmolas. Então Shariputra foi a ele e cumprimentou-o de uma maneira amigável. Asvajit retribuiu o cumprimento de Shariputra.

“Amigo”, disse Shariputra, “sereno é o seu semblante, límpido e radiante é o seu olhar. Quem o persuadiu a renunciar o mundo? Quem é seu mestre? Que lei você segue?”

“Amigo”, respondeu Asvajit, “aquele grande monge, o filho dos Shakyas, é meu mestre.”

“O que seu mestre diz, amigo; o que ele ensina?”

“Amigo, eu abandonei o mundo, mas recentemente; conheci a lei há pouco tempo; não posso expô-la extensivamente, mas posso dar-lhe o espírito dela resumidamente.”

“Faça-o, amigo”, exclamou Shariputra. “Diga pouco ou muito, como lhe aprouver; mas dê-me o espírito da lei. A mim só importa o espírito.”

O venerável Asvajit falou essa única sentença:

“O Perfeito ensina a causa, o Perfeito ensina os fins.”

Shariputra regozijou-se nessas palavras. Foi como se a verdade tivesse sido revelada a ele. “Tudo o que é nascido tem um fim”, ele pensou. Ele agradeceu Asvajit e, cheio de alegria, foi ao encontro de Maudgalyayana.

“Amigo”, disse Maudgalyayana quando viu Shariputra, “amigo, quão sereno é o seu semblante! Quão límpido e radiante é o seu olhar! Você obteve a libertação da morte?”

“Sim, amigo. Próximo a Rajagriha, existe um mestre que ensina a libertação da morte.”

Shariputra contou sobre seu encontro, e os dois amigos decidiram ir ao Bem-Aventurado. Seu mestre, Sanjaya, tentou dissuadi-los.

“Fiquem comigo”, disse ele; “Darei a vocês uma posição de eminência em meio aos meus discípulos. Vocês se tornarão mestres e serão iguais a mim.”

“Por que desejaríamos ser iguais a você? Por que disseminaríamos a ignorância? Sabemos agora que seus ensinamentos não valem a pena. Nos transformaria em mestres da ignorância.”

Sanjaya continuou a exortá-los; subitamente, um sangue quente jorrou da sua boca. Os dois amigos recuaram horrorizados.

Eles o deixaram e foram ao Buda

“Aqui”, disse o Mestre ao vê-los aproximarem-se, “aqui estão os dois homens que serão os principais entre meus discípulos.”

E ele alegremente os recebeu na comunidade.

Shariputra e Maudgalyayana

Shariputra e Maudgalyayana, que viriam a ser os dois principais discípulos do Buda.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Mexico, Mexico – Distrito Federal

Nesses lugares há pessoas que visitam Cristal Perfeito. Faça-lhes uma visita de cortesia!

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O Bosque dos Bambús

No dia seguinte, os habitantes de Rajagriha deixaram seus lares e foram ao bosque; estavam ansiosos para ver o Bem-Aventurado; todos eles o admiraram, e louvaram o seu poder e a sua glória.

Chegou o momento para ele ir ao palácio do rei, mas a estrada estava tão lotada pelos expectadores, que era impossível avançar um passo sequer. Subitamente, um jovem brâmane apareceu diante do Mestre. Ninguém sabia de onde viera. Ele disse:

“O Mestre honrado está em meio ao povo honrado; ele concede a libertação. Aquele que reluz como o ouro chegou à Rajagriha.”

Ele tinha uma voz agradável. Acenou à multidão para dar lugar, e eles obedeceram sem um pensamento de resistência. E ele cantou:

“O Mestre dissipou a escuridão; a noite nunca renascerá; aquele que conhece a lei suprema chegou à Rajagriha.”

“De onde ele vem, esse jovem brâmane com sua voz límpida e doce?”, o povo se perguntou.

Ele continuou a cantar:

“Aqui está ele, que é onisciente, o Mestre Honrado, o Buda Sublime. Ele é supremo no mundo; estou feliz por servi-lo. Não para servir o ignorante, mas para humildemente servir o sábio e para venerar aqueles que são nobres: existe no mundo uma alegria mais sagrada? Para viver numa terra de paz, para realizar muitas obras do bem, para buscar o triunfo da retidão: existe no mundo uma alegria mais sagrada? Para ter habilidade e conhecimento, para amar as ações da generosidade, para trilhar o caminho da justiça: existe no mundo uma alegria mais sagrada?”

O jovem brâmane conseguiu abrir um caminho através da multidão, e levou o Mestre ao palácio do Rei Bimbisara. Então, feito seu trabalho, ele alçou-se da terra, e atingindo o mais elevado dos céus, se desvaneceu na luz. Então o povo de Rajagriha soube que um Deus havia considerado uma honra servir ao Buda e exaltou a sua grandeza.

Bimbisara recebeu o Bem-Aventurado com grande reverência. Ao final da refeição, ele disse-lhe:

“Alegro-me com a sua presença, meu Senhor. Devo vê-lo com freqüência, e frequentemente ouvir a palavra sagrada dos seus lábios. Você deve agora aceitar uma oferenda minha. Mais próximo da cidade do que aquela floresta onde você habita, há um bosque agradável, conhecido como Bosque dos Bambús. É vasto; você e seus discípulos podem viver lá confortavelmente. Eu dou-lhe o Bosque dos Bambús, meu Senhor, e se você quiser aceitá-lo, sentirei que você prestou-me um grande serviço.”

O Buda sorriu com satisfação. Uma bacia de ouro foi trazida, cheia de água suavemente fragrante. O rei pegou a bacia e derramou a água sobre as mãos do Mestre. E disse:

“Assim como essa água derrama das minhas mãos nas suas mãos, meu Senhor, assim possa o Bosque dos Bambús passar das minhas mãos para suas mãos, meu Senhor.”

A terra tremeu: a Lei agora tinha um solo no qual enraizar-se. E naquele mesmo dia, o Mestre e seus discípulos foram viver no Bosque dos Bambús.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Desejo de Bimbisara

Então o Bem-Aventurado falou-lhes das Quatro Nobres Verdades. Quando ele terminou, o Rei Bimbisara aproximou-se dele e, na frente de todos, corajosamente proferiu essas palavras:

“Creio no Buda, creio na Lei, creio na comunidade dos santos (Sangha – constituindo os Três Tesouros).”

O Bem-Aventurado concedeu ao rei licença para sentar ao seu lado, e o rei falou novamente:

Em toda minha vida tive cinco grandes esperanças: esperava que algum dia eu fosse rei; esperava que algum dia o Buda viesse ao meu reinado; esperava que algum dia meu olhar repousasse sobre seu semblante; esperava que algum dia ele me ensinasse a lei; esperava que algum dia eu professasse a minha fé nele. Hoje, todas essas esperanças estão realizadas. Eu creio em você, meu Senhor, eu creio na Lei, eu creio na comunidade dos santos.”

Ele levantou-se.

“Oh Mestre, digne-se a tomar sua refeição em meu palácio, amanhã.”

O Mestre aceitou. O rei saiu; sentiu grande felicidade.

Muitos daqueles que haviam acompanhado o rei seguiram seu exemplo, e passaram a professar sua fé no Buda, na Lei e na comunidade dos santos (Sangha).

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Capitulação de Kashyapa

O Bem-Aventurado lembrou que o Rei Bimbisara certa vez expressou um desejo de conhecer a lei, e resolveu ir a Rajagriha. Ele partiu com o mais velho dos Kashyapas e alguns dos seus novos discípulos.

Bimbisara logo soube da chegada dos monges. Ele decidiu prestar-lhes uma visita. Acompanhado por um séquito de súditos, ele foi ao Bosque. Ele reconheceu o Mestre, e exclamou:

“Você não esqueceu meu desejo, oh Bem-Aventurado; imensa é a minha gratidão e minha reverência.”

Ele prostrou-se, e quando o Mestre ordenou-lhe levantar-se, ele manteve-se à distância, para demonstrar respeito.

Mas na multidão havia alguns que conheciam Kashyapa, e que o consideravam um homem muito santo. Eles nunca haviam visto o Buda antes, e ficaram admirados de que o rei não lhe prestasse tal honra.

“Ele certamente se enganou”, disse um brâmane; “ele deveria ter se prostrado diante de Kashyapa”.

“Sim”, disse um outro, “Kashyapa é um grande mestre”.

“O rei cometeu um erro estranho”, um terceiro completou; “ele confundiu o pupilo com o mestre.”

Eles ficaram sussurrando, no entanto o Bem-Aventurado ouviu-lhes, pois o que poderia escapar à sua percepção? Ele disse a Kashyapa:

“Quem o persuadiu a abandonar seu eremitério, oh homem de Uruvilva? Quem o fez admitir a sua fraqueza? Responda, Kashyapa; como você veio a deixar o seu retiro familiar?”

Kashyapa compreendeu o que o Mestre tinha em mente. E respondeu:

“Agora sei para onde as minhas austeridades anteriores estavam me levando; agora sei a presunção (fatuidade) de tudo o que outrora ensinei. Meu discurso era maléfico, e comecei a odiar a vida que estava levando.”

Conforme ele disse essas palavras, ele caiu aos pés do Mestre, e acrescentou:

“Sou seu devotado pupilo. Permita-me colocar minha cabeça sobre seus pés! Você é o Mestre; é você que comanda. Sou seu pupilo, seu servo. A você seguirei e a você obedecerei.”

Por sete vezes ele prostrou-se, e a multidão exclamou em admiração:

“Poderoso é aquele que convenceu Kashyapa da sua ignorância! Kashyapa pensou que fosse o maior dos mestres, e agora o vemos curvar-se diante de outro! Oh, poderoso é aquele que é mestre de Kashyapa!”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

As Chamas da Ilusão

Em Uruvilva, o Bem-Aventurado encontrou os três irmãos Kashyapa. Esses Brâmanes virtuosos tinham uns mil discípulos. Desde algum tempo eles vinham sendo incomodados por uma serpente perigosa que insistia em perturbar os seus sacrifícios, e trouxeram os seus problemas ao Buda. O Buda sorriu; viu a serpente e ordenou-lhe que, no futuro, os deixasse em paz. A serpente obedeceu, e os sacrifícios não foram mais interrompidos.

Os Kashyapas solicitaram ao Buda permanecer com eles alguns dias. Ele consentiu. O Buda surpreendeu seus anfitriões realizando inumeráveis prodígios, e naquela ocasião todos eles decidiram aceitar a lei. Somente o mais velho dos Kashyapas se recusou a seguir o Buda. Ele pensou:

“É verdade, esse monge é muito poderoso; ele realiza grandes prodígios, mas não se iguala a mim em santidade.”

O Bem-Aventurado leu o pensamento de Kashyapa. E disse-lhe:

“Você pensa que é um homem muito santo, Kashyapa, e nem mesmo está no caminho que conduz à santidade.”

Kashyapa ficou atônito com o fato de que o Buda teria adivinhado seus pensamentos secretos. O Bem-Aventurado completou:

“Você nem mesmo sabe como encontrar o caminho que conduz à santidade. Escutai minhas palavras, Kashyapa, se deseja dissipar a escuridão na qual você vive.”

Kashyapa pensou por um momento; e então caiu aos pés do Bem-Aventurado, e disse:

“Instrua-me, oh Mestre! Não me deixe caminhar mais na escuridão!”

Então o Bem-Aventurado subiu uma montanha, e se dirigiu aos irmãos Kashyapa e seus discípulos.

“Oh monges”, disse ele, “tudo no mundo está em chamas. O olho é chama; tudo o que ele vê é chama; tudo o que vemos no mundo está em chamas. Por quê? Porque o fogo do amor e do ódio não está extinto. Vocês estão cegados pelas chamas desse fogo, e sofrem o tormento do nascimento e da velhice, da morte e da miséria. Oh monges, tudo no mundo está em chamas! Compreendam-me, e para vocês o fogo se extinguirá; seus olhos não mais serão cegados pelas chamas, e não mais apreciarão o espetáculo chamejante no qual se deleitam hoje. Compreendam-me, e saberão que existe um fim para o nascimento, saberão que nunca necessitarão voltar mais para essa terra.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Dedico este post ao meu amado irmão Teófilo Americano de Camargo Guarani, falecido nesse 13 de Dezembro de 2011.

Minhas mais sinceras homenagens a você, Guara, e onde quer que venha a renascer, que seja dentro da Lei Búdica. E que assim possamos dar sequência à nossa caminhada, juntos, rumo ao Pico da Águia.

Marcos Ubirajara.

A História de Padmaka

E os músicos ouviram com muita atenção enquanto ele contava a história do Rei Padmaka.

“Certa vez reinou em Benares um rei justo e poderoso chamado Padmaka. Naquela ocasião, uma estranha epidemia subitamente irrompeu através da cidade. Aqueles que foram acometidos ficaram completamente amarelos e, mesmo sob o sol, tremiam de frio. O Rei sentiu piedade de seus súditos, e tentou encontrar uma maneira de curá-los. Ele consultou os mais famosos médicos; distribuiu remédios, e ele mesmo ajudou a cuidar dos doentes. Mas não havia jeito; a epidemia continuou com sua fúria. Padmaka entristeceu. Certo dia, um velho médico veio a ele e disse: ‘Meu senhor, eu conheço um remédio que curará os habitantes de Benares’. ‘Qual é (o remédio)’?, indagou o Rei. ‘É um grande peixe chamado Rohita. Capture-o, e dê um pedaço, não importa quão pequeno, a todos os que estão doentes, e a epidemia desaparecerá’. O Rei agradeceu o velho médico; ordenou que o peixe Rohita fosse buscado nos mares e rios, mas não era encontrado em lugar algum. O Rei caiu em desespero. Às vezes pela manhã ou ao entardecer, ele ouvia vozes lamuriosas clamando do lado de fora das paredes do palácio: ‘Estamos sofrendo, oh Rei; salve-nos’! E ele chorava amargamente. Finalmente, ele pensou: ‘Que bom é a riqueza ou realeza, que bom é a vida, se não posso socorrer aqueles que estão dilacerados pela dor’? Ele chamou o seu filho mais velho, e disse-lhe: ‘Meu filho, lego a você a minha fortuna e o meu reinado’. Então ele ascendeu ao terraço do palácio; ofereceu perfume e flores aos Deuses, e gritou: ‘Alegremente dou em sacrifício uma vida que considero inútil. Que possa o (meu) sacrifício beneficiar aqueles que estão aflitos! Que possa eu tornar-me o peixe Rohita, e que seja encontrado no rio que flui através da cidade’! Então ele atirou-se do terraço e imediatamente reapareceu no rio como o peixe Rohita. Foi capturado; estava ainda vivo quando cortaram-lhe em pedaços para distribuir em meio aos doentes, mas ele jamais sentiu as facas, e estremeceu com amor por todas as criaturas. A epidemia logo desapareceu, e sobre a cidade de Benares, um coro celestial cantou: ‘Foi Padmaka, o Rei sagrado, que salvou vocês! Alegrem-se!’ E todos eles prestaram honras à memória de Padmaka.”

Os músicos ouviram o Mestre, e prometeram seguí-lo, para receber a sabedoria.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Minha interpretação, ainda sobre Padmaka:

Padma: é o Lótus Vermelho.

‘ka’ ( ) evoca grande compaixão para com todos os seres. O sentimento de um filho surge, como com relação a Rahula. Ele significa ‘maravilhosamente bom’. Portanto, ‘ka’. (Sutra do Nirvana – Capítulo Treze: Sobre as Letras).

Rohita: espécie de carpa rósea encontrada em rios e lagos da Ásia. É considerada uma especiaria em Bangladesh, Nepal e Indian. As comunidades de Maithil Brahmins e Kayastha de Uttar Pradesh a consideram um de seus mais sagrados alimentos, devendo ser comida em ocasiões auspiciosas – Fonte Wikipedia – a enciclopédia livre.

Padma - o Lótus Vermelho

Foto de Dôra em Florença - Itália - em 14/06/2008

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