Visvantara era o Buda

O rei Sanjaya enviou um mensageiro ao Príncipe Visvantara; ele perdoou-lhe, e ordenou-lhe a voltar para Jayatura. Quando o príncipe aproximou-se da cidade, ele viu seu pai, sua mãe e suas crianças avançando para saudá-lo. Eram acompanhados por uma grande multidão de pessoas que tinham ouvido sobre os sofrimentos de Visvantara e da sua virtude, e que agora perdoavam e admiravam-lhe. E o rei disse ao príncipe: “Querido filho, cometi uma grande injustiça com você; saiba do meu remorso. Seja gentil comigo: esqueça meu erro! Seja gentil para com os habitantes da cidade: esqueça que eles alguma vez se enganaram com você. Nunca mais seus atos de caridade nos ofenderão.”

Visvantara sorriu e abraçou seu pai, enquanto Madri acariciava Jalin e Krishnajina, e Phusati chorava de alegria. E quando o príncipe passou através dos portões da cidade, foi aclamado em voz uníssona. Ora, Visvantara era Eu, oh Shakyas! Vocês aclamaram-me como eles certa vez aclamaram-no. Trilhem o caminho que conduz à libertação.”

O Bem-Aventurado ficou em silêncio. Os Shakyas haviam ouvido atentamente; e agora curvaram-se diante dele e retiraram-se. No entanto, nenhum deles havia pensado em oferecer-lhe sua refeição no dia seguinte.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Resgate de Jalin e Krishnajina

Neste ínterim, Jalin e Krishnajina haviam chegado ao seu novo lar. A esposa do brâmane ficou muito satisfeita com esses dois jovens escravos, e não perdeu tempo em colocá-los para trabalhar. Ela se deleitava em dar ordens, e as crianças tinham que obedecer ao seu menor capricho. No início, eles fizeram o possível para satisfazer os seus desejos, mas ela era uma ama tão exigente que logo eles perderam toda a vontade de agradá-la, e muitas foram as repreensões e castigos que eles receberam. Quanto mais severamente eles eram tratados, mais desencorajados se tornavam, e a mulher, finalmente, disse ao brâmane: “Não posso fazer nada com essas crianças. Venda-os e traga-me outros escravos, escravos que saibam como trabalhar e obedecer”. O brâmane pegou as crianças e foi de cidade em cidade, tentando vendê-los, mas ninguém compraria: o preço era muito alto. Ele finalmente chegou a Jayatura. Um dos conselheiros do rei passou por eles na rua; olhou para as crianças, seus corpos emaciados e faces queimadas pelo sol, e de repente, reconheceu-os por seus olhos. Ele parou o brâmane e indagou: “Onde você obteve essas crianças”? “Eu as obtive na floresta da montanha, meu senhor”, respondeu o brâmane. “Eles foram dados a mim para escravos; eram indisciplinados, e agora estou tentando vendê-los”. O conselheiro do rei ficou ansioso, voltou-se para as crianças e indagou: “Será que essa servidão significa que seu pai está morto”? “Não”, respondeu Jalin, “ambos nossos pais estão vivos, mas meu pai deu-nos para esse brâmane”. O conselheiro correu para o palácio do rei. “Meu senhor”, ele gritou, “Visvantara deu seus netos, Jalin e Krishnajina, a um brâmane. Eles são seus escravos. Ele está insatisfeito com seus serviços, e está levando-os de cidade em cidade, com a intenção de vendê-los”! O Rei Sanjaya ordenou ao brâmane que as crianças fossem logo trazidas para diante dele. Elas logo foram encontradas, e quando o rei viu a miséria que havia advindo a essas crianças da sua raça, ele chorou amargamente. Jalin dirigiu-se a ele numa voz suplicante: “Compre-nos, meu senhor, pois somos infelizes na casa do brâmane, e desejamos viver com você, que nos ama. Mas não tome-nos a força; nosso pai deu-nos ao brâmane, e desse sacrifício ele espera receber uma grande bênção, para si e para todas as criaturas”. “Qual o preço que você quer pelas crianças”?, indagou o rei ao brâmane. “Você pode obtê-las por mil cabeças de gado”, respondeu o brâmane. “Muito bem”! O rei voltou-se para o seu conselheiro e disse: “Você que agora assumirá um posto próximo a mim em meu reinado, dê a esse brâmane as mil cabeças de gado, e pague-lhe também mil medidas de ouro”. Então o rei, acompanhado por Jalin e Krishnajina, foi à Rainha Phusati. Ao ver os seus netos, ela ria e chorava de alegria; vestiu-lhes em roupas finas, e deu-lhes anéis e colares para usar. Então, ela indagou-lhes sobre seu pai e sua mãe. “Eles vivem numa cabana rude, na floresta, ao sopé de uma montanha”, disse Jalin. Eles têm doado todas as suas posses. Vivem de frutos e água, e suas únicas companhias são os animais selvagens da floresta”. “Oh, meu senhor”, clamou Phusati, “você não resgatará seu filho do exílio”?

André Felipe e Fernanda Regina

André Felipe e Fernanda Regina, meus filhos, no sítio da Dôra em 14/01/2012. Foto de Diego Raphael.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Os Expedientes de Indra

Ele finalmente chegou à uma montanha, encoberta por uma imensa floresta, e lá ele encontrou uma cabana que um eremita ocupou certa vez. De folhas, ele fez uma cama para si e sua família, e ali, enfim, imperturbado pelo remorso, ele encontrou descanso e paz. Todos os dias, Madri ia floresta adentro para colher frutos silvestres; era a única comida que tinham, e bebiam a água de uma fonte límpida e borbulhante, que eles haviam descoberto próximo à cabana. Durante sete meses, eles não viram ninguém; então, certo dia, um brâmane passou por lá. Madri estava longe, colhendo frutos, e Visvantara estava olhando as crianças enquanto brincavam na frente da cabana. O brâmane parou e observou-os cuidadosamente. “Amigo”, disse ele ao pai, “você me daria suas crianças”? Visvantara ficou tão surpreso que foi incapaz de responder. Ele olhou ansiosamente para o brâmane que, novamente, o questionou: “Sim, você me daria suas crianças? Eu tenho uma esposa, muito mais jovem do que eu. Antes de tudo, ela é uma mulher altiva. Está cansada de fazer as tarefas do lar, e pediu-me para encontrar duas crianças que pudessem ser seus escravos. Por que não me dá as suas? Você parece ser muito pobre; deve ser difícil para você alimentá-los. Em minha casa eles terão fartura de alimentos, e eu farei com que minha esposa os trate tão gentilmente quanto possível”. Visvantara pensou: “Que sacrifício doloroso estou sendo solicitado a fazer. O que farei? Apesar do que diz o brâmane, minhas crianças serão muito infelizes em sua casa; sua esposa é cruel, ela lhes baterá e lhes dará somente restos de comida. Mas, uma vez que ele tenha solicitado-me por elas, eu tenho o direito de recusar”? Ele pensou um pouco mais, e então finalmente disse: “Leve as crianças com você, brâmane; deixe-os ser escravos da sua esposa”. E Jalin e Krishnajina, com suas faces banhadas em lágrimas, foram embora com o brâmane. Madri, neste ínterim, tinha estado colhendo romãs, mas cada vez que ela arrancava uma da árvore, ela escapava das suas mãos. Isto amedrontou-lhe, e ela correu de volta para a cabana. Ela sentiu a falta dos filhos, e voltando-se para o marido, perguntou-lhe: “Onde estão as crianças”? Visvantara estava soluçando. “Onde estão as crianças”? Ainda nenhuma resposta. Ela repetiu a questão uma terceira vez: “Onde estão as crianças”? E acrescentou: “Responda, responda logo. Seu silêncio está me matando”. Visvantara falou, com uma voz triste, ele disse: “Um brâmane veio; ele queria as crianças para escravos”! “E você os deu a ele?”, gritou Madri. “Eu poderia recusar”? Madri desmaiou; ficou inconsciente por um longo tempo. Quando ela se recobrou, suas lamentações eram tristes. Ela clamava: “Oh, minhas crianças, vocês que me despertavam do meu sono à noite, vocês que me davam o melhor dos frutos que eu havia colhido, um homem mau os levou para longe! Posso vê-lo forçando-os a trabalhar, vocês que mal aprenderam a caminhar. Naquela casa, vocês passarão fome; serão brutalmente espancados. Vocês estarão trabalhando na casa de um estranho. Vocês furtivamente espreitarão as estradas, mas nem pai e nem mãe verão novamente. Seus lábios ressecarão; seus pés serão feridos pelas pedras cortantes; o sol queimará suas faces. Oh, minhas crianças, sempre fomos capazes de poupá-los das dificuldades que tivemos que enfrentar. Carregamos-lhes através do temeroso deserto; vocês não sofriam então, mas agora, quanto será o seu sofrimento”? Ela ainda estava chorando quando um outro brâmane chegou através da floresta. Era um homem velho e caminhava com grande dificuldade. Ele olhou para a princesa com os olhos lacrimejantes, e então dirigiu-se ao Príncipe Visvantara: “Meu senhor, como você vê, estou velho e fraco. Não há ninguém em casa para ajudar-me quando me levanto pela manhã ou quando vou dormir à noite; não tenhos filhos ou filhas para cuidar de mim. Ora, essa mulher é jovem; parece muito forte. Deixe-me levá-la como empregada. Ela me ajudará a levantar; e me colocará para dormir; e tomará conta de mim enquanto durmo. Dê-me essa mulher, meu senhor; você estará fazendo uma boa ação, uma ação sagrada, a qual será enaltecida por todo mundo”. Visvantara havia escutado atentamente; estava pensativo. Olhou para Madri, e disse: “Amada, você ouviu o que o brâmane disse; o que você responderia”? Ela respondeu: “Uma vez que você deu nossas crianças: Jalin, o mais amado, e a querida Krishnajina; então você pode dar-me a esse brâmane; não reclamarei”. Visvantara pegou as mãos de Madri e colocou-as nas mãos do brâmane. Ele não sentiu remorso; nem mesmo chorou. O brâmane recebeu a mulher; agradeceu ao príncipe e disse: “Você pode conhecer a grande glória, Visvantara; você pode tornar-se um Buda algum dia”! Ele começou a se afastar mas virou, de repente, e voltou para a cabana. E disse: “procurarei uma empregada em alguma outra terra; deixarei essa mulher aqui, para ficar com os Deuses da montanha, e as Divindades da floresta e da fonte; e, doravante, você não deve dá-la a mais ninguém”. Enquanto o velho homem estava falando, sua aparência gradualmente mudou; ele tornou-se muito belo; sua face era gloriosamente radiante. Visvantara e Madri reconheceram Indra. Eles caíram aos seus pés e adoraram-lhe; e o Deus disse-lhes: “Cada um de vocês pode pedir-me um favor, e será atendido”. Visvantara disse: “Oh, que eu possa tornar-me o Buda algum dia e trazer a libertação para aqueles que nascem e que morrem nas montanhas”! Indra respondeu: “Glória a você que, um dia, será o Buda”! Madri falou a seguir: “Meu senhor, atenda meu pedido: que o brâmane, a quem minhas crianças foram dadas, decida vendê-las ao invés de mantê-las em sua casa, e que ele encontre um comprador justamente em Jayatura, e que o comprador seja o próprio Sanjaya”. Indra respondeu: “Assim será!” Conforme ele ascendeu ao céu, Madri murmurou: “Oh, que o Rei Sanjaya perdoe seu filho”! E ela ouviu o Deus dizer: “Assim será”!

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Folhas de Outono

Os olhos do mundo indagam a mim: “Como estás?”

Respondo: “Bem!”

Em termos dos valores mundanos: arruinado.

Em termos do Supramundano: não tenho olhos para ver.

Em termos dos votos passados: leve como folhas de outono.

Pronto para voar!

Marcos Ubirajara.

Em 25/01/2012.

A Cidade de Indra

Do céu, Indra vinha acompanhando Visvantara e sua família. Ele estava sensibilizado pela aflição de Madri, e decidiu descer à terra. Ele assumiu a forma de um gentil homem de idade e, montado em um cavalo veloz, ele avançou ao encontro do príncipe. Ele abordou Visvantara e se dirigiu a ele de uma maneira envolvente. “Pela sua aparência, meu senhor, fica evidente que você tem sofrido grandes dificuldades. Há uma cidade não muito longe daqui. Mostrarei a você o caminho. Você e sua família devem vir para minha casa e lá permanecer o quanto queiram”. O velho homem estava sorrindo. Ele pediu que os quatro exilados subissem em seu cavalo, e como Visvantara parecia hesitar, ele disse: “O cavalo é poderoso, e você não é pesado. Quanto a mim, seguirei a pé, não me cansará, pois não temos muito a caminhar”. Visvantara ficou atônito ao saber que uma cidade havia sido construída naquele deserto cruel; além disso, ele nunca tinha ouvido falar dessa cidade. Mas a voz do velho homem era tão gentil que ele decidiu seguí-lo, e Madri estava tão cansada que ele aceitou o convite  para montar com ela e as crianças.

Eles haviam caminhado cerca de trezentos passos quando uma magnífica cidade apareceu diante deles. Era imensa. Um majestoso rio fluía através dela, e havia muitos belos jardins e pomares cheios de frutas maduras. O velho homem conduziu seus convidados até os portões de um palácio brilhante. “Aqui é minha casa”, disse ele; “aqui, se desejarem, vocês poderão residir pelo resto de suas vidas. Por favor, entrem”. No grande salão, Visvantara e Madri sentaram-se em tronos de ouro; aos seus pés, as crianças brincavam em espessos tapetes, e o velho homem presenteou-os com robes muito belos. Comidas raras então lhes foram servidas, e eles aplacaram a sua fome. Mas, Visvantara estava perdido em pensamentos. De repente, ele levantou-se de seu assento, e disse ao velho homem: “Meu senhor, estou desobedecendo as determinações de meu pai. Ele baniu-me de Jayatura, onde ele é rei, e ordenou-me a passar o resto de minha vida no deserto. Não devo desfrutar desses confortos, porque foram (a mim) proibidos. Meu senhor, permita-me deixar sua casa”. O velho homem tentou dissuadi-lo, mas em vão; e seguido por Madri e as crianças, Visvantara deixou a cidade. De fora dos portões, ele voltou-se para lançar um último olhar, mas a cidade havia desaparecido; onde ele havia estado, agora era somente areia ardente. E Visvantara ficou feliz por não ter permanecido (lá) por mais tempo.

A Cidade de Indra

Visvantara e sua família na Cidade de Indra. Clique na imagem para site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Exílio de Visvantara

Mas os habitantes de Jayatura ficaram muito angustiados; eles temiam uma seca em seu próprio país. Eles reclamaram ao Rei Sanjaya: “Meu senhor”, disseram, “o ato do seu filho foi repreensível. Seu elefante protegia-nos da fome. O que será de nós agora, se o céu retiver a sua chuva? Mostre-lhe impiedade, oh Rei; faça-lhe pagar por essa loucura com sua própria vida”. O rei chorou. Ele tentou colocá-los para fora com  promessas, às quais, inicialmente, eles não ouviriam, mas finalmente cederam e exigiram que o príncipe fosse exilado em algum deserto remoto e rochoso. O rei foi obrigado a dar o seu consentimento. “Quando meu filho ouvir sobre o seu exílio”, pensou Sanjaya, “ele vai senti-lo em seu coração”. Mas este não foi o caso. Visvantara simplesmente disse: “Deixarei (Jayatura) amanhã, pai, e não levarei nenhum dos meus tesouros comigo”. E então ele foi ver Madri, sua princesa. “Madri”, disse ele, “devo deixar a cidade; meu pai exilou-me num deserto cruel, onde será difícil encontrar um meio de subsistência. Não venha comigo, oh amada; serão muito grandes as dificuldades que você terá de suportar. Você terá que deixar as crianças para trás, e eles morrerão de solidão. Fique aqui com eles; permaneça no seu trono de ouro; foi a mim que meu pai exilou, não a você”. “Meu senhor”, respondeu a princesa, “se você deixar-me para trás eu me matarei, e o crime vai bater à sua porta”. Visvantara permaneceu em silêncio. Ele olhou para Madri, e abraçou-a. “Venha”, disse ele. Madri agradeceu-lhe, e acrescentou: “levarei as crianças comigo; não posso deixá-las aqui, para morrer de solidão”. No dia seguinte, Visvantara teve sua carroça preparada; ele partiu com Madri, Jalin e Krishnajina, e como foram expulsos da cidade, o Rei Sanjaya e a Rainha Phusati choraram e soluçaram lamentavelmente.

O príncipe, sua esposa e as crianças já se encontravam longe da cidade quando viram um brâmane aproximando-se. “Viajante”, disse o brâmane, “esta é a estrada para Jayatura”? “Sim”, respondeu Visvantara, “mas por que você está indo para Jayatura”? “Venho de um país distante”, disse o brâmane. “Ouvi que lá em Jayatura vivia um príncipe generoso chamado Visvantara. Ele possuía um elefante maravilhoso que ele deu ao rei de Kalinga. Ele é muito caridoso, disseram. Quero ver esse homem bondoso; quero pedir-lhe por uma doação. Sei que ninguém jamais recorreu a ele em vão”. Visvantara disse ao brâmane: “eu sou o homem que você procura; eu sou Visvantara, fillho do Rei Sanjaya. Em razão de eu ter dado meu elefante ao rei de Kalinga, meu pai mandou-me para o exílio. O que posso dar-lhe, oh brâmane”? Quando ouviu essas palavras, o brâmane lamentou amargamente. Ele disse numa voz triste: “Então eles me enganaram! Deixei minha casa, cheio de esperança e, com desaponto, devo agora retornar”! Visvantara o interpelou: “Console-se, brâmane. Você não recorreu ao Príncipe Visvantara em vão”. Ele desatrelou os cavalos e lhos deu. O brâmane agradeceu seu benfeitor e partiu. Visvantara então seguiu em seu caminho. Ele mesmo estava puxando a carroça agora. Naquele momento, ele viu um outro brâmane aproximando-se. Era um homem pequeno, frágil e velho, com cabelos brancos e dentes amarelados. “Viajante”, ele disse ao príncipe, “esta é a estrada para Jayatura”? “Sim”, respondeu o príncipe, “mas por que você está indo para Jayatura”? “O rei daquela cidade tem um filho, o Príncipe Visvantara”, disse o brâmane. “Visvantara, de acordo com as histórias que tenho ouvido, é extremamente caridoso; ele salvou o reinado de Kalinga da fome, e o que quer que seja solicitado dele nunca é recusado. Irei a Visvantara, e sei que ele não negará o meu pedido”. “Se você vai a Jayatura”, disse o príncipe, “você não verá Visvantara; seu pai o exilou num deserto”. “Ai de mim”, lamentou o brâmane. “Quem agora poderá me ajudar na minha frágil velhice? Toda a esperança que eu tinha se foi, e retornarei para minha casa tão pobre quanto quando a deixei!” Ele chorou. “Não chore”, disse Visvantara; “eu sou o homem que você procura. Você não me encontrou em vão. Madri, Jalin, Krishnajina, desçam da carroça! Ela não me pertence mais: Eu lha dei a este velho homem”. O brâmane ficou muito feliz. Os quatro exilados seguiram em seu caminho. Seguiam agora a pé, e quando as crianças estavam cansadas, Visvantara carregava Jalin, e Madri carregava Krishnajina. Alguns dias depois, eles viram um terceiro brâmane se aproximando. Ele estava indo para Jayatura para ver o Príncipe Visvantara e pedir-lhe por esmolas. O príncipe despojou-se de suas roupas, no sentido de que o brâmane não lhe deixasse de mãos vazias. Então, ele seguiu. E um quarto brâmane aproximou-se. Sua pele estava escura, seu olhar feroz e imperioso. “Diga-me”, ele disse em uma voz áspera, “esta é a estrada para Jayatura”? “Sim”, respondeu o príncipe, “e o que o leva a Jayatura”? O brâmane desejava ver Visvantara, que estava certo de dar-lhe um magnífico presente. Quando ele ouviu que estava na presença de um infeliz, um príncipe exilado, ele não chorou; em uma voz irada, ele disse, foi um caminho difícil de ser percorrido, e não deve ter sido em vão. Indubitavelmente você deve ter trazido consigo alguma jóia valiosa que você pode dar-me”. Madri estava usando um colar de ouro. Visvantara pediu-lhe o colar; ela sorriu e lho entregou, e o brâmane pegou o colar e foi-se embora. Visvantara, Madri, Jalin e Krishnajina continuaram a caminhar. Atravessaram correntezas furiosas; subiram ravinas cobertas de vegetação rasteira; viajaram através de planícies rochosas fustigadas por um sol impiedoso. Os pés de Madri estavam cortados pelas pedras; os calcanhares de Visvantara estavam gastos até os ossos, e por onde quer que passassem, deixavam uma trilha de sangue. Certo dia, Visvantara, que estava caminhando adiante, ouviu alguém chorando. Ele voltou-se para trás e viu Madri sentada no chão, lamentando seu destino. Ele ficou tomado pela angústia, e disse: “Eu insisti e implorei a você, minha amada, que não me seguisse no exílio, mas você não me ouviu. Venha, levante-se; embora seja grande o nosso cansaço, as crianças não devem sofrer por ele; não devemos mentalizar as nossas feridas”. Madri viu que seus pés estavam sangrando, e ela chorou: “Oh, quão maior é o seu sofrimento que o meu! Controlarei a minha dor”. Ela tentou levantar, mas seus membros cederam, e novamente ela caiu em prantos. “Todas as minhas forças se foram”, ela soluçou; “mesmo o amor que eu nutria por meu marido e minhas crianças não é suficiente para sustentar a minha coragem. Morrerei de fome e de sede nesta terra terrível; minhas crianças morrerão, e talvez meu bem-amado”.

O Exílio de Visvantara

Madri desfalece no exílio de Visvantara - clique na imagem para site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Elefante de Visvantara

O Elefante de Visvantara

O Elefante de Visvantara - clique na imagem para site de origem.

Um magnificente assento havia sido preparado para o Mestre, Ele sentou. Então o céu se abriu, e uma chuva de rosas caiu sobre o parque. A terra e a atmosfera ficaram impregnadas com o perfume. O rei e todos os Shakyas olharam com espanto. E o Mestre falou:

Em alguma existência anterior, eu já havia visto minha família reunida ao meu redor e lhes ouvi cantar louvoures a mim em voz uníssona. Naquele tempo, o Rei Sanjava estava reinando na cidade de Jayatura. O nome da sua consorte era Phusati, e eles tinham Visvantara. Quando atingiu a idade, Visvantara casou-se com Madri, uma princesa de rara beleza. Ela lhe deu dois filhos: um filho, Jalin, e uma filha, Krishnajina. Visvantara possuía um elefante branco que tinha o poder maravilhoso de fazer a chuva cair à vontade. Naquela ocasião, o distante reinado de Kalinga estava sendo visitado por uma terrível seca. A grama secou; as árvores não frutificavam; humanos e animais morriam de fome e sede. O rei de Kalinga ouviu sobre o elefante de Visvantara e sobre o estranho poder que ele possuía. Ele enviou oito brâmanes à Jayatura para pegá-lo e retornar com ele para o seu desafortunado país. Os brâmanes chegaram durante um festival. Montado sobre o elefante, o príncipe estava a caminho do templo para distribuir donativos. Ele viu esses enviados do rei estrangeiro. “O que trouxe vocês aqui”, indagou-lhes. “Meu senhor”, responderam os brâmanes, “nosso reinado, o reinado de Kalinga, tem sido visitado pela seca e pela fome. Seu elefante pode salvar-nos, trazendo-nos a chuva; você se apartaria dele”? “É pouco o que pedem”, disse Visvantara. “Vocês poderiam ter pedido por meus olhos ou minha carne! Sim, peguem o elefante, e que assim possa uma refrescante chuva cair sobre seus campos e sobre seus jardins!” Ele deu o elefante para os brâmanes, e eles alegremente retornaram para Kalinga.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Chegada à Kapilavastu

Ele finalmente chegou à Kapilavastu. Para recebê-lo, os Shakyas se reuniram num parque resplandecente em flores. Muitos dos presentes eram extremamente orgulhosos, e pensaram: “Há alguns aqui que são mais velhos do que Siddhartha! Por que eles devem prestar-lhe homenagem? Deixe as crianças, os jovens rapazes e donzelas, curvarem-se diante dele; os mais velhos devem manter a cabeça erguida!”

O Bem-Aventurado adentrou o parque. Todos os olhos ficaram deslumbrados pela luz brilhante que ele emanava. O Rei Suddhodana ficou profundamente comovido; deu alguns passos em sua direção: “Meu filho…”, ele gritou. Sua voz embargou; lágrimas de alegria escorreram em sua face, e ele lentamente curvou a sua cabeça.

E quando os Shakyas viram o pai prestando homenagem ao filho, todos eles prostraram-se humildemente.

Kapilavastu

O Portão Oeste de Kapilavastu

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Zelo de Udayin

Era uma grande distância de Rajagriha à Kapilavastu, e o Mestre foi caminhando lentamente.  Udayin decidiu ir à frente e informar Suddhodana que seu filho estava a caminho para vê-lo, para que então o rei fosse paciente e não mais se afligisse.

Udayin voou através do ar e, num instante, chegou ao palácio de Suddhodana. Ele encontrou o rei em profundo desespero.

“Meu senhor”, disse ele, “enxugue suas lágrimas. Seu filho logo estará em Kapilavastu”.

“Oh, é você, Udayin!”, exclamou o rei. “Pensei que você, também, tivesse esquecido de transmitir a minha mensagem, e eu tinha desistido da esperança de algum dia ver o meu filho amado. Mas você chegou, finalmente, e alegres são as notícias que você traz. Não chorarei mais; agora esperarei pacientemente o abençoado momento quando estes meus olhos verão novamente o meu filho.”

Ele ordenou que a Udayin fosse servida uma esplêndida refeição.

“Não comerei aqui, meu senhor”, disse Udayin. “Antes de eu tocar qualquer alimento, devo saber se meu mestre foi devidamente servido. Retornarei a ele pelo caminho que eu vim.”

O Rei protestou.

“É meu desejo, Udayin, que você receba seu alimento de mim, todo o dia; e é também meu desejo que meu filho receba seu alimento de mim, a cada dia dessa jornada que ele tem empreendido para me agradar. Coma, e então lhe darei alimento para levar ao Bem-Aventurado.”

Quando Udayin já tinha se alimentado, foi-lhe entregue uma tigela de comidas deliciosas a serem levadas para o filho do rei. Ele jogou tigela no ar; então alçou-se do chão e voou para longe. A tigela caiu aos pés do Buda, e o Buda agradeceu ao seu amigo. Daí em diante, a cada dia, Udayin voava ao palácio do Rei Suddhodana para buscar o alimento do Mestre, e o Mestre ficou satisfeito com o zelo demonstrado por seu discípulo em servi-lo.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

As Relíquias de Bimbisara

Bimbisara agradeceu o Mestre pela valiosa lição que ele ensinou ao seu filho. Então ele disse:

“Bem-Aventurado, tenho um pedido a fazer.”

“Fale”, disse o Buda.

“Quando você se for, oh Bem-Aventurado, serei incapaz de prestrar-lhe honra, serei incapaz de fazer-lhe os costumeiros oferecimentos, e isto muito me entristecerá. Dê-me uma mecha dos seus cabelos, dê-me as aparas das suas unhas; eu as colocarei em um templo no meio do meu palácio. Assim, reterei alguma coisa que seja parte de você e, todos os dias, decorarei o templo com guirlandas (de flores) frescas, e queimarei incensos raros.”

O Bem-Aventurado deu ao rei essas coisas pelas quais solicitara, e disse:

“Pegue meus cabelos e essas aparas; coloque-as num templo, mas em sua mente, coloque o que tenho ensinado a você.”

E como Bimbisara alegremente retornou ao seu palácio, o Mestre partiu para Kapilavastu.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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