A Luz do Buda

Tudo começou quando Sudatta foi à Rajagriha a negócios e hospedou-se com um amigo chamado Shan Tan Nwo. Certa noite, durante a sua visita à casa de Shan Tan Nwo, seu amigo levantou-se no meio da noite e começou a enfeitar a sua casa. Ele trouxe arranjos de enfeites e os arrumou com perfeição, trabalhando noite a dentro até que sua casa ficasse formosa. O Velho Sudata ouviu o barullho e levantou-se para ver o que estava acontecendo. “Amigo, qual é a grande ocasião para tornar a sua casa tão esplêndida? Você convidou o Rei? Alguém em sua família está para casar? Por que todos esses preparativos?”

“Não é o Rei que espero, ou um casamento. Eu convidei o Buda para vir à minha casa para receber um oferecimento vegetariano”, respondeu seu amigo.

Sudatta nunca ouvira sobre o Buda antes, e quando o seu amigo falou o nome, todos os pelos em seu corpo ficaram de pé. “Estranho”, ele pensou, “Quem é o Buda?”, ele se perguntou.

O Velho Shan Tan Nwo disse: “O Buda é o filho do Rei Suddhodana. Ele abdicou à sua herança do trono com o objetivo de deixar a vida familiar e praticar a Via. Ele perseverou por seis anos  nos Himalayas, e depois, sob a árvore Bodhi, ele viu uma estrela certa noite, iluminou-se para a Via, e tornou-se um Buda”.

O fundamento das raízes do bem do Velho Sudatta o levou a imediatamente manifestar sua vontade de ver o Buda. Sua profunda sinceridade comoveu tanto o Buda Shakyamuni, que estava hospedado no Bosque dos Bambús (a cerca de sessenta ou setenta milhas a sudeste de Rajagriha), que ele emitiu uma luz para guiar Sudatta. Ao ver a luz, Sudatta pensou que fosse o alvorecer, e apressadamente vestiu-se e saiu. Na verdade, era meio da noite e os portões da cidade ainda não haviam sido abertos, mas quando o velho chegou às muralhas da cidade, os portões, devido à penetração espiritual do Buda, abriram-se e ele passou através deles, prosseguindo em seu caminho para ver o Buda. Sudatta seguiu as indicações que lhes foram dadas pelo seu amigo, e foi guiado pela Luz do Buda.

Sutra Diamante – Capítulo 1 – As Razões para a Assembleia do Dharma.

Original

Os Lugares Sagrados de Pregação do Prajna pelo Buda

Uma investigação do dharma deve levar em consideração os locais nos quais o Buda pregou o dharma e o número de fiéis em assembleia que receberam os ensinamentos. O ensinamento do prajna foi pregado em Quatro Lugares e em Dezesseis Assembleias:

  1. Sete assembleias foram realizadas no Pico Vulture (Monte Gridhrakuta), também chamada Montanha Vulture Eficaz, próxima à cidade do Palácio dos Reis (em Rajagriha, onde o Sutra de Lótus foi pregado).
  2. Sete assembleias foram realizadas na cidade de Sravasti no Parque de Jeta no Jardim do Benfeitor dos Órfãos e Solitários. Lá é onde o Sutra Vajra foi pregado.
  3. Uma assembleia foi realizada no Palácio do Tesouro de Jóias Preciosas (Mani Jewel) da Bem-Aventurança do Céu das Transformações dos Outros.
  4. Uma assembleia foi realizada ao lado do Lago da Garça Branca Real no Bosque dos Bambús, próximo ao Palácio dos Reis.
Parque de Jeta

Vista Geral do Parque de Jeta

O Sutra Diamante (Vajra Prajna Paramita) foi pregado na terceira assembleia realizada no segundo local, o Parque de Jeta. Assim o sutra começa: “Assim eu ouvi na ocasião em que o Buda estava hospedado em Sravasti, no Parque de Jeta, no Jardim do Benfeitor dos Órfãos e Solitários.”

Dos Três Tipos de Prajna – o literário, o contemplativo e o da marca real – o prajna literário surge do estudo dos sutras, mas uma verdadeira compreensão da literatura surge somente através do prajna contemplativo. A sabedoria contemplativa, plenamente desenvolvida, penetra o objetivo final; ou seja, o prajna da marca real. Se o prajna não se manifesta, é simplesmente uma indicação de que a sabedoria básica inerente a todas as pessoas não atingiu a fruição. A sabedoria que representa o prajna da marca real surge somente quando nutrida pelas águas do prajna literário e do contemplativo.

Original

A Natureza de Buda

Antes de morrer, o Bem-Aventurado decidiu empreender uma longa jornada. Ele queria visitar alguns dos seus discípulos e exortá-los a manter em observância os seus ensinamentos com escrupuloso cuidado. Tendo somente Ananda em sua companhia, ele deixou a cidade de Rajagriha.

Certo dia, enquanto estava descansando à beira de um campo, ele disse a Ananda:

“Virá o tempo em que os homens se perguntarão porque outrora eu entrei no útero de uma mulher. Eles questionarão a pureza perfeita do meu nascimento, e duvidarão que eu sempre tive poder supremo. Esses homens ignorantes nunca compreenderão que, para aquele que devota a sua vida às obras de santidade, o corpo está livre da impureza do nascimento. Aquele que quiser buscar a sabedoria suprema deve entrar no útero de uma mulher; ele deve, por piedade pela humanidade, nascer no mundo dos homens. Pois, se ele fosse um Deus, como poderia colocar em movimento a Roda-da-Lei? Imagine o Buda como um Deus, Ananda; os homens logo perderiam o ânimo. Eles diriam: ‘O Buda, que é um Deus, tem a felicidade, a santidade, a perfeição; mas nós, como poderíamos atingi-las’? E cairiam em profundo desespero. Oh, deixe-os assim pensarem, essas criaturas ignorantes! Que não tentem roubar a lei, porque fariam mau uso dela. É melhor que considerem a Natureza de Buda incompreensível, esses homens que nunca serão capazes de medir a minha eminência!”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Buda Ensina a Doutrina

O Mestre foi envelhecendo. Quando ele estava em Rajagriha, convocou uma assembleia dos Monges, e pregou-lhes longamente:

“Monges, não esqueçam os preceitos que lhes dei. Mantenha-os em observância cuidadosamente. Vocês reunir-se-ão duas vezes ao mês, e confessarão suas transgressões uns aos outros. Se sentirem que cometeram o mal, e guardá-lo para si, serão culpados de uma mentira. Admitam a sua transgressão: a confissão lhes trará conforto e paz. Os quatro mais graves pecados que um Monge pode cometer, como vocês sabem, são: manter relações sexuais com uma mulher; roubar o que quer que seja; matar um ser humano ou instigar um assassinato; e pretender possuir um poder sobre-humano que ele sabe não possuir. Um Monge que cometeu um desses quatro pecados deve ser expulso da comunidade. Monges, não troquem palavras com mulheres, e não corrompa-lhes. Não levantem falso testemunho contra seus irmãos. Não tentem plantar a discórdia na comunidade. Não relutem para escapar de uma repreensão. Nunca mintam, ou insultem alguém. Observem cuidadosamente, oh Monges, todos os preceitos que lhes dei.”

Ele ainda disse:

“Seriedade é o domínio da imortalidade; frivolidade, o domínio da morte. Aqueles que são sérios não morrem; os que são frívolos estão sempre mortos. Portanto, o sábio deve ser sério. O sábio atinge a suprema benção, Nirvana. Aquele que é enérgico vê a sua glória crescer e pode reconhecer quem pensa honestamente e age deliberadamente, quem é casto, quem vive dentro da lei, e quem é sério. Os tolos e aqueles de mente fraca buscam a frivolidade; o sábio entesoura a seriedade assim como um avarento o seu ouro. O Monge que seja sério, que veja o perigo da frivolidade, sacode as más leis como o vento o faz com as folhas; ele rompe as amarras que atam-lhe ao mundo; ele está próximo do Nirvana. Do terraço da sabedoria, liberto de todos os sofrimentos, o homem sério que conquistou a frivolidade contempla a multidão infeliz; assim como, do cume de uma montanha, pode-se contemplar a multidão nas planícies abaixo.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Missão de Shariputra

Devadatta logo chegou ao topo da vaidade. Ele não podia mais tolerar a grandeza do Buda e, certo dia, ele ousou dizer-lhe:

“Mestre, você agora está bastante avançado nos anos; é um grande sacrifício para você conduzir os monges; você deve aposentar-se. Medite em paz sobre a lei sublime que você descobriu, e deixe que eu me encarrego da comunidade.”

O Mestre sorriu ironicamente.

“Não se preocupe comigo, Devadatta; você é tão gentil. Saberei quando for o tempo para me aposentar. Por enquanto, a comunidade ficará a meu cargo. Além disso, quando chegar o tempo, não a entregarei nem mesmo a Shariputra ou Maudgalyayana, aquelas duas grandes mentes que são como tochas fulgurantes. E você a quer, Devadatta, você que possui uma inteligência tão medíocre, você que emite muito menos luz que uma lamparina!”

Devadatta curvou-se respeitosamente diante do Mestre, mas não pode esconder o fogo da ira em seus olhos.

O Mestre então dirigiu-se ao erudito Shariputra.

“Shariputra”, disse ele, “vá pela cidade de Rajagriha afora, e clame em alta voz: ‘Cuidado com Devadatta! Ele se desviou do caminho da retidão. O Buda não é responsável por suas palavras ou por suas ações; a lei não lhe inspira mais, a comunidade não lhe interessa mais. Doravante, Devadatta fala somente por si’.”

Foi triste para Shariputra ter uma missão tão dolorosa para cumprir; todavia, ele compreendeu as razões do Mestre, e foi cidade afora proclamando a vergonha de Devadatta. Os habitantes pararam para ouvir, e alguns pensaram: “Os monges invejam Devadatta por sua amizade com o Príncipe Ajatasatru”. Mas os outros disseram: “Devadatta deve ter cometido uma ofensa grave, para o Bem-Aventurado denunciá-lo assim publicamente.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Traição de Devadatta

O monge Devadatta ficou possído de uma natureza arrogante. Era impaciente com quaisquer restrições. Ele aspirava suplantar o Buda, mas os monges, ele sabia, não se juntariam a ele em uma revolta aberta. Para tal objetivo, ele necessitava do apoio de algum rei ou príncipe.

“O Rei Bimbisara é um homem velho”, disse para si certo dia; “o Príncipe Ajatasatru, que é jovem e valente, está ansioso para sucedê-lo ao trono. Eu poderia aconselhar o príncipe a seu favor e, em retribuição, ele poderia me ajudar a tornar-me líder da comunidade.”

Ele foi ver Ajatasatru. Dirigiu-se a ele em termos elogiosos; enalteceu sua força, sua coragem, sua beleza.

“Oh, se você fosse rei”, disse Devadatta, “que glória seria para Rajagriha! Você conquistaria os países vizinhos; todos os soberanos do mundo prestariam-lhe homenagem; você seria um mestre onipotente, e seria adorado como um Deus.”

Com tais palavras, Devadatta ganhou a confiança de Ajatasatru. Ele recebeu muitas prendas preciosas, e tornou-se ainda mais arrogante.

Maudgalyayana notou as frequentes visitas de Devadatta ao príncipe. Ele decidiu alertar o Bem-Aventurado

“Meu senhor”, ele começou a dizer, “Devadatta é muito amigável com o Príncipe Ajatasatru.”

O Bem-Aventurado interrompeu-lhe.

“Deixe Devadatta agir como lhe aprouver; logo saberemos a verdade. Estou ciente de que Ajatasatru presta-lhe homenagem; isto não o faz avançar um único passo no caminho da virtude. Deixe a glória de Devadatta em sua arrogância! Será a sua ruína. Como a bananeira e o bambu que frutificam apenas para morrer, assim as honras que Devadatta está recebendo somente apressarão a sua queda.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Rei Tolo

Na cidade de Atavi governava um rei que apreciava muito a caça. Certo dia, ele viu um enorme gamo e começou a persegui-lo. O gamo era veloz, e no calor da perseguição, o rei perdeu de vista os outros caçadores. Finalmente, a presa escapou, e exausto e desanimado, o rei sentou-se sob uma árvore. Caiu no sono.

Acontece que um Deus perverso chamado Alavaka vivia na árvore. Ele gostava de se alimentar de carne humana, e matava e devorava todos que dele se aproximassem. Ele viu o rei; alegrou-se, e o pobre caçador estava prestes a receber um duro golpe quando felizmente um ruído despertou-lhe. Ele percebeu que a sua vida estava ameaçada; fez um esforço para levantar-se, mas o Deus agarrou-lhe pela garganta e o fez deitar. Então, o rei tentou argumentar com ele.

“Poupe-me, meu senhor!”, disse o rei. “Por sua aparência assustadora, creio que seja um dos Deuses que se alimentam de carne humana. Oh, digne-se a ser gentil comigo. Você não terá razão para arrepender-se da sua misericórdia. Retribuirei a você com magníficas oferendas.”

“O que me importa oferendas!”, respondeu Alavaka. “É sua carne que eu quero; ela aplacará a minha fome.”

“Meu senhor”, respondeu o rei, “se permitir-me voltar a Atavi, enviarei a você um homem por dia para satisfazer a sua fome.”

“Quando você voltar para sua casa, esquecerá a sua promessa.”

“Não”, disse o rei, “eu nunca esqueço uma promessa. Além disso, se eu falhar em fazer-lhe esse oferecimento diário, você terá apenas que vir ao meu palácio e dizer-me a sua queixa, e imediatamente, sem resistência, eu o seguirei, e você poderá devorar-me.”

O Deus se deixou ser persuadido, e o rei retornou à cidade de Atavi. Mas ele não parava de pensar na sua promessa cruel; não havia como fugir dela, e dali por diante ele teria que ser um chefe duro e implacável.

Ele chamou o seu ministro e contou-lhe o ocorrido. O ministro ponderou por um momento, e então disse ao rei:

“Meu senhor, na prisão de Atavi há muitos criminosos que foram condenados à morte. Podemos enviá-los ao Deus. Quando ele considerar que você está mantendo a fé com ele, talvez ele o alivie de sua promessa.”

O rei aprovou a sugestão. Guardas foram enviados à prisão, e àqueles cujos dias estavam contados eles disseram: “Não longe da cidade, há uma árvore habitada por um Deus que aprecia muito arroz. A quem deixar um prato de arroz para ele aos pés da árvore, será concedido o perdão total.”

Dali por diante, a cada dia, um desses homens, carregando um prato de arroz, alegremente partia para a árvore, e nunca retornava.

Passado pouco tempo, não mais havia homens condenados à morte na prisão. O ministro ordenou aos juízes que fossem extremamente severos e não absolvessem ninguém acusado de assassinato, exceto no caso de prova irrefutável da sua inocência. Mas foi em vão. Alguma nova forma tinha que ser encontrada para aplacar a fome do Deus. Então eles começaram a sacrificar os ladrões.

A despeito de todos os seus esforços para prender os culpados, a prisão ficara novamente vazia, e o rei e seu ministro foram compelidos a procurar por vítimas entre os habitantes dignos da cidade. Os idosos foram capturados e levados à força para a árvore, e se os guardas não fossem rápidos na fuga, o Deus às vezes devorava-lhes tanto quanto às vitimas.

Uma vaga inquietação tomara conta da cidade de Atavi. Via-se que as pessoas idosas desapareciam; ninguém sabia o que era feito delas. E, cada dia, o remorso do rei tornava-se mais pungente. Mas faltava-lhe coragem para sacrificar a sua vida pelo bem-estar do seu povo. Ele pensou: “Será que ninguém virá me socorrer? Têm-me dito que em Cravasti, e às vezes em Rajagriha, vive um homem de grande poder, um Buda, cujos prodígios são altamente elogiados. Dizem que ele gosta de viajar. Por que, então, ele não vem para o meu reinado?”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Bailarina Kuvalaya

Eles entraram na cidade. Na praça pública, uma grande multidão estava assistindo à apresentação de um grupo de bailarinos. A filha do líder estava atraindo atenção particular. Tal graça e beleza raramente havia sido vista e, sempre que ela aparecia, aqueles que não eram senhores de suas paixões ardiam com o desejo de possuí-la. Seu nome era Kuvalaya.

Ela tinha acabado de se apresentar. Olhos ardentes ainda estavam fixados nela. Ela era consciente de seu poder e, cheia de orgulho e audácia, ela gritou para a multidão:

“Admirem-me, meus senhores! Em toda Rajagriha há alguém que possa superar Kuvalaya em beleza? Há alguém que possa mesmo igualar-se a ela?”

“Sim, mulher”, respondeu o brâmane Bharadvaja. “O que é sua beleza quando comparada à beleza do Mestre?”

“Gostaria de ver esse Mestre cuja beleza você enaltece”, disse Kuvalaya; “leve-me a ele.”

“Aqui está ele”, disse o Bem-Aventurado.

E deu um passo adiante.

A bailarina olhou para ele.

“Você é lindo!”, ela disse afinal. “Dançarei para você.”

Kuvalaya dançou. A dança começou lentamente. Ela tinha enrolado todos os seus véus sobre si, cobrindo até a sua face, e a beleza de outrora tão audaciosamente ostentada, agora era apenas uma promessa difusa. Era como a lua, escondida atrás de nuvens tênues de uma visão noturna. Uma nuvem se desvaneceu; um raio fraco escapou através da fresta. A dança tornou-se mais rápida; um a um os véus despencavam, e a rainha das estrelas apareceu um toda a sua glória. Mais e mais rápido ela girava; de repente, uma luz ofuscante brilhou em seus olhos, e ela parou. Estava nua. A multidão ofegante avançou.

“Mulher infeliz!”, disse o Buda.

Ele a olhou fixamente. Diante disso, as bochechas de Kuvalaya tornaram-se cavadas, sua testa enrugou e seus olhos perderam o brilho. Apenas alguns poucos dentes feios permaneceram em sua boca; apenas alguns fios finos de cabelo grisalho ainda pendiam da sua cabeça, e ela estava curvada pela idade. O Bem-Aventurado puniu-a assim como puniu as filhas de Mara quando elas tentaram seduzi-lo; ele transformou a bela bailarina numa mulher velha e decrépita.

Ela suspirou:

“Mestre, sei o grande erro que cometi. Uma beleza efêmera me tornou vaidosa. Você ensinou-me uma amarga lição, mas sinto que algum dia serei feliz por tê-la recebido. Permita-me aprender as verdades sagradas; que então eu possa me livrar para sempre  desse corpo que, mesmo quando era um deleite para os homens, nada mais era que um cadáver repugnante.”

O Mestre concedeu o pedido de Kuvalaya, e ela tornou-se uma das mais devotas fiéis seguidoras do Buda.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Bharadvaja

Certo dia, ele retornou para o país de Rajagriha.

No campo, não longe da cidade, ele se deparou com um brâmane chamado Bharadvaja. Era a estação da colheita, e o brâmane e seus servos estavam celebrando alegremente. Eles estavam rindo e cantando quando o Mestre passou. Ele estendeu a sua tigela de donativos, e aqueles que o reconheceram, reverenciaram-lhe e fizeram-lhe muitos oferecimentos amáveis. Isto desagradou Bharadvaja. Ele foi ao Mestre, e disse-lhe em voz alta:

“Monge, não permaneça em nosso meio; você dá um mau exemplo. Nós trabalhamos, nós que aqui estamos, e com olhos vigilantes, observamos as mudanças das estações. Quando é tempo de arar, meus servos aram; quando é tempo de plantar, eles plantam; e eu aro e planto com eles. Então vem o dia em que colhemos o fruto do nosso labor. Nos provemos da nossa própria comida, e quando ela é abundante, temos boas razões para descansar e divertir. Ao passo que você, perambula pelas ruas e caminha nas estradas, e o único problema que você se digna a se ocupar é estender uma tigela àqueles que você encontra. Seria muito melhor para você trabalhar; seria muito melhor arar e plantar.”

O Mestre sorriu e respondeu:

“Amigo, da mesma forma como você ara e planta, quando meu trabalho está feito, eu colho.”

“Você ara? Você planta?”, disse Bharadvaja. “Como posso acreditar nisto? Onde está o seu rebanho? Onde está seu cereal? Onde está seu arado?”

O Mestre disse:

“Pureza de compreensão, esta é a gloriosa semente que eu planto. Obras de santidade são a chuva que cai sobre a terra fértil onde a semente germina e floresce. E poderoso é o meu arado: ele tem sabedoria em sua relha, a lei para suas alças, e uma ativa fé é o poderoso novilho atrelado ao seu polo. O desejo é arrancado como ervas daninhas nos campos que eu aro, e eu colho a mais rica das colheitas, o Nirvana.”

Ele se pôs em seu caminho. Mas o brâmane Bharadvaja o seguiu; ele agora ouviria as palavras sagradas.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Oferecimento de Anathapindika

O Mestre estava em Rajagriha quando um rico mercador chamado Anathapindika (Sudatta) chegou de Cravasti. Anathapindika era um homem religioso, e quando ele ouviu que um Buda estava vivendo no Bosque dos Bambús, ele ficou ansioso para vê-lo.

Certa manhã ele partiu e, conforme entrou no Bosque, uma voz divina o guiou para onde o Mestre se encontrava sentado. Ele foi saudado com palavras de boas vindas; presenteou a comunidade com uma magnífica doação, e o Mestre prometeu visitá-lo em Cravasti.

Quando retornou para casa, Anathapindika começou a se perguntar onde ele poderia receber o Bem-Aventurado. Seus jardins não pareciam dignos de tal hóspede. O mais belo parque na cidade pertencia ao Príncipe Jeta, e Anathapindika decidiu comprá-lo.

“Venderei o parque”, disse-lhe Jeta, “se você cobrir o chão com moedas de ouro.”

Anathapindika aceitou os termos. Ele levou carroças carregadas de moedas de ouro para o parque e, naquela ocasião, somente uma pequena faixa de terra ficou descoberta. Então Jeta alegremente exclamou:

“O parque é vosso, mercador; terei prazer em vos dar a faixa que ainda está descoberta.”

Anathapindika tinha o parque preparado para o Mestre; então ele enviou o seu mais fiel servo ao Bosque dos Bambús, para informar-lhe que ele agora estava preparado para recebê-lo em Cravasti.

“Oh Venerável!”, disse o mensageiro, “meu mestre prostra-se aos seus pés. Espera que você tenha sido poupado da ansiedade e doença, e que você não relute em cumprir a promessa que lhe fez. Você é esperado em Cravasti, oh Venerável!”

O Bem-Aventurado não havia esquecido a promessa que fez ao mercador Anathapindika; ele desejava cumpri-la, e disse ao mensageiro: “Eu irei!”.
Ele aguardou por alguns dias; então pegou o seu manto e sua tigela de donativos, e seguido por um grande numero de discípulos, partiu para Cravasti. O mensageiro foi à frente, para dizer ao mercador que ele estava chegando.

Anathapindika decidiu ir ao encontro do Mestre. Sua esposa, seu filho e sua filha o acompanharam, e eles foram assistidos pelos mais ricos habitantes da cidade. E quando eles viram o Buda, ficaram deslumbrados pelo seu esplendor; ele parecia estar andando num caminho banhado de ouro.

Eles o escoltaram até o Parque de Jeta, e Anathapindika disse-lhe:

“Meu senhor, o que devo fazer com esse parque?” “Doe-o para a comunidade, agora e para sempre”, respondeu o Mestre.

Anathapindika ordenou ao servo trazer-lhe uma bacia de ouro cheia de água. Ele derramou a água sobre as mãos do Mestre, e disse-lhe:

“Dôo este parque para a comunidade, governada pelo Buda, agora e para sempre.”

“Muito bem!”, disse o Mestre. “Eu aceito a doação. Este parque será um refúgio feliz; aqui viveremos em paz, e encontraremos abrigo do calor e do frio. Nenhum animal vil entrará aqui: nem mesmo o zumbido de um mosquito perturbará o silêncio; e aqui haverá proteção da chuva, do vento cortante e do sol ardente. E este parque inspirará sonhos, pois aqui meditaremos hora após hora. É justo que tais doações sejam feitas para a comunidade. O homem inteligente, o homem que não negligencia seus próprios interesses, deve dar aos monges uma morada adequada; ele deve dar-lhes comida e bebida; ele deve dar-lhe roupas. Os monges, em retribuição, lhe ensinarão a lei, e aquele que conhece a lei é libertado do mal e atinge o Nirvana.”

Jetavana

Jetavana – o Parque de Jeta - Fonte Wikipedia. Click na imagem para site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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