O Conselho do Doutor Jivaka

“Se há arrependimento pela maldade que foi cometida, e se nos sentimos envergonhados, o pecado se extingue. Oh grande Rei! Mesmo pequenas gotas de água enchem um grande vaso. É o mesmo com o bom pensamento. Cada bom pensamento [boa volição] esmaga completamente uma grande maldade. Se escondemos a maldade, ela aumenta e cresce. Se a desnudamos e nos arrependemos, o pecado se extinguirá. Por isso que todos os Budas dizem que o sábio não esconde seus pecados. Bem feito, bem feito, oh grande Rei! Você crê na lei da causalidade, no carma, e na retribuição que acontece. Por favor, oh grande Rei, não tenha preocupação ou medo! Existem seres que, perpetrando todas as más ações, não se arrependem, não sentem vergonha e não vêem a lei da causalidade e a retribuição que se seguirá. Eles não indagam outros para se orientarem, e não se aproximam de um Bom Mestre da Via. Essa pessoa não pode ser curada por um bom médico ou pela enfermagem. É como a lepra, para a qual a medicina secular não concebe uma cura. Uma pessoa que esconde seu pecado é como aquilo. Por que dizemos que o icchantika é pecaminoso? O icchantika não acredita na causalidade, não se arrepende, não acredita no carma, não vê o presente e o futuro, não se aproxima de um Bom Mestre da Via, e não age em concordância com as injunções de todos os Budas. Essa pessoa é um icchantika. Essa pessoa é alguém que o Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo não pode curar. Por que não? Mesmo médicos não podem curar um corpo que está morto. O mesmo se passa com o icchantika. Essa pessoa é alguém que o Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo não pode curar. Oh grande Rei! Você não é um icchantika. Como poderia não ser curado?

Você, Rei, diz: ‘Não há meios de cura’. Saiba, oh grande Rei! Em Kapilavastu, havia um príncipe, o filho de Suddhodana. O nome da sua família é Gautama, e o seu nome é Siddhartha. Sem que ninguém o ensinasse, ele despertou para a Verdade e espontaneamente atingiu o insuperável Bodhi, adornando seu corpo desse modo com as trinta e duas marcas da perfeição e as 80 características menores de excelência, obtendo os 10 poderes e os quatro destemores. Ele conhece e vê tudo. Altamente compassivo, ele é piedoso com todos os seres assim como é com o seu próprio filho, Rahula. Ele realmente segue o modo de vida dos seres, assim como um bezerro segue sua mãe. Ele sabe quando falar e quando não. Suas palavras são verdadeiras, puras, maravilhosas e legítimas, e uma simples palavra dele corta os laços das impurezas de todos os seres. Ele conhece completamente a natureza dos sentidos orgânicos e da mente de todos os seres. Ele age de maneira a ajustar-se à ocasião e promulga expedientes, e nada há que não seja conhecido por ele. Sua sabedoria é imensa, como o Sumeru. É profunda e vasta como o grande oceano. Esse Buda-Honrado-pelo-Mundo possui a Sabedoria Adamantina, que acaba completamente com todas as maldades dos seres. Nada há que não seja possível para ele. Agora, a 12 yojanas daqui, na cidade-castelo de Kusinagara, entre as árvores sala gêmeas, ele está prelecionando para inumeráveis asamkhyas de Bodhisattvas tudo sobre coisas como: ‘é’ ou ‘não-é’, o criado ou o não-criado, a falha [‘asvara’], a retribuição-cármica da impureza ou a retribuição-carmica da Boa Lei, matéria ou não-matéria, ou não-matéria.not.não-matéria. Eu ou não-Eu, ou não-Eu.not.não-Eu, o eterno, ou o não-eterno, ou o não-eterno.not.não-eterno, Êxtase, ou não-Êxtase, ou não-Êxtase.not.não-Êxtase, características ou não-características, ou não-características.not.não-características, segregação ou não-segregação, ou não-segregação.not.não-segregação, o secular ou o não secular, ou o não-secular.not.não-secular, veículo ou não-veículo, ou não-veículo.not.não-veículo, auto-doação e auto-recepção, ou recepção dos outros, e não-doação e não-recepção.

Oh grande Rei! Você deveria ouvir no local onde se encontra o Buda, tudo sobre cometer (fazer) e não-receber. Todos os pecados graves serão expiados. Oh Rei! Ouça-me por um momento! Quando Sakrodevendra (Shakra Devanan Indra) estava prestes a ver o fim da sua vida, cinco coisas foram vistas, a saber: 1) roupas exalando um mau-cheiro de óleo, 2) desvanecimento da flor na sua cabeça, 3) seu corpo exalava um mau-cheiro, 4) suor (perspiração) nas axilas, 5) não encontrava prazer onde ele estava sentado. Então, o Shakra, como ele sentou-se num lugar calmo, viu um Shramana ou Brâmane e pensou que fosse o Buda. Então o Shramana ou Brâmane, vendo o Shakra chegar, ficou feliz e disse: ‘Oh Shakra! Eu agora tomo refúgio em você’. Ouvindo isto, o Shakra viu que essa pessoa não era o Buda. Ele também pensou para si: ‘Se essa pessoa não é o Buda, não posso mudar os cinco sinais da extinção’.

Naquele momento, o cocheiro Pancashiki disse ao Shakra: ‘Oh Kausika! Existe um gandharva cujo nome é ‘Mirage’. Ele tem uma filha chamada Subhadra. Se você me der essa mulher, lhe direi como acabar com os sinais de declínio’.

O Shakra respondeu: ‘Vemacitra, o rei dos asuras, tem uma filha chamada ‘Saci’, a quem eu respeito. Se você puder dizer-me quem pode acabar com esses sinais do meu declínio, a darei para você, quanto mais então Subhadra!’

(O cocheiro disse): ‘Oh Kausika! Existe um Buda-Honrado-pelo-Mundo chamado Shakyamuni. Ele se encontra agora em Rajagriha. Se você for lá e indagá-lo sobre os sinais de declínio, certamente eles desaparecerão’.

(O Shakra disse): ‘Oh bom homem! Se o Buda Honrado-pelo-Mundo pode de fato acabar com eles (os sinais), conduza-me até lá’.

Naquela ocasião, o cocheiro, com essas palavras, conduziu o Shakra à Rajagriha, até Gridhrakuta. Chegando ao lugar onde o Buda se encontrava, o Shakra prostrou-se e, tocando os pés do Buda, assim prestou homenagem ao Buda. Afastando-se, ele tomou assento a um lado

Sakra-Devanam-Indra disse ao Buda: ‘Dentre todos os devas, quem é que nos aprisiona?’

A resposta veio: ‘Oh Kausika! A mente avarenta, cobiçosa e invejosa!’

Ele (o Shakra) ainda indagou: ‘De onde vem a mente avarenta, cobiçosa e invejosa?’

A resposta veio: ‘Vem da ignorância’.

Novamente ele indagou: ‘De onde vem a ignorância?’

A resposta foi: ‘Da indolência’.

Questionou novamente: ‘De onde vem a indolência?’

A resposta foi: ‘De uma inversão [da verdade]’

E uma nova questão: ‘De onde vem a inversão?’

A resposta indicou: ‘De uma mente dúbia’.

(O Shakra disse): ‘Oh Honrado pelo Mundo! Você diz que a inversão surge de uma mente dúbia. É como o ensinamento Budista. Por quê? Eu tinha uma mente dúbia dentro de mim. Com tal dúvida, eu tinha uma inversão. Eu confundi com você alguém que não era o Honrado-pelo-Mundo. Agora eu vejo o Honrado-pelo-Mundo e todas as minhas dúvidas se dissiparam. Como minhas dúvidas deixaram-me, a inversão também se foi. Através do fim da mente invertida, a mente avarenta, cobiçosa e invejosa também se foi’.

O Buda disse: ‘Agora você diz que não tem uma mente avarenta e invejosa. Você é um Anagamin? Um Anagamin não tem uma mente cobiçosa. Se você não tem uma mente cobiçosa, por que é que veio até mim, à busca de vida? Um verdadeiro Anagamin não busca a vida’.

(O Shakra disse): ‘Oh Honrado pelo Mundo! Se existe uma inversão, existe uma busca pela vida. Se não há inversão, não há busca pela vida. O que eu busco é o Corpo-do-Buda e a Sabedoria-do-Buda’.

(O Buda disse): ‘Oh Kausika! Se você busca o Corpo-do-Buda e a Sabedoria-do-Buda, certamente você obterá isso na vida que virá’.

Então, como Sakrodevendra ouviu o sermão do Buda, os cinco sinais de declínio desapareceram de repente. E ele levantou-se, prestou homenagem, circundou a pessoa do Buda por três vezes, juntou respeitosamente as palmas das suas mãos e disse: ‘Oh Honrado-pelo-Mundo! Agora estou morto e sou nascido; perdi minha vida e a ganhei. Agora digo que, como tomei a Via do Buda, alcançarei o insuperável Bodhi. Isto é um renascimento. Isto é ganhar a vida novamente. Oh Honrado pelo Mundo! Por que os humanos e seres celestiais aumentam em número? E por que eles declinam em número?’

‘Oh Kausika! Em razão das contendas e disputas, o número de humanos e seres celestiais decresce; ao viverem harmoniosamente, seu número cresce’.

‘Oh Honrado pelo Mundo! Uma vez que através das contendas decrescemos em número, de agora em diante não lutarei mais com asuras’.

O Buda disse: ‘Bem falado, bem falado, oh Kausika! O Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo diz que indulgência é a causa da Iluminação Insuperável’.

Então Sakrodevendra caminhou à frente, prestou homenagem ao Buda, recuou e seguiu seu caminho.”

“Oh grande Rei! Como o Tathagata acaba completamente com as más características, dizemos que o Buda é inconcebível. Os graves pecados que você acumulou nos dias passados, infalivelmente, se extinguirão.

Oh grande Rei! Se você acredita em minhas palavras, por favor, corra ao Tathagata. Se você acredita em minhas palavras, pondere bem o que digo. Oh grande Rei! O Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo abarca todos com grande compaixão. Ele não ama apenas uma pessoa. O Dharma Maravilhoso reina amplamente. Não há ninguém que não seja acolhido [por ele]. Sua mente é Toda-Equalitária tanto para os hostis como para os amigáveis. Sua mente não odeia e não ama. Não é o caso que somente algumas pessoas obtêm a Via e outras não. O Tathagata não é apenas meramente o mestre das quatro classes da Sangha; ele é o mestre de todos os (seres) celestiais, humanos, nagas, demônios, habitantes-do-inferno, animais e espíritos famintos. E todos os seres deveriam olhar para o Buda como olham para seu pai e mãe.

Oh grande Rei! Saiba que não é o caso que o Tathagata somente fala do Dharma para o nobre Rei Bhadrika; ele igualmente orienta o humilde Upali. Ele não aceita oferecimentos somente de Sudatta-Anathapindada, mas também aceita comida de Sudatta, um homem pobre. Ele não fala do Dharma somente para o sagaz Shariputra, mas também para o obtuso Suddhipanthaka. Ele não permite apenas pessoas sem ambição como Mahakashyapa entrarem para a Ordem, mas também pessoas tão ambiciosas quanto Nanda. Ele não permite apenas pessoas sem ilusões como Uruvilva-Kashyapa buscarem a Via, mas também aqueles cheios de ilusões que cometeram graves pecados mortais, como Sudaya, o irmão mais jovem do Rei Prasenajit. Não é o caso que ele erradica as raízes da ira porque alguém lhe oferece o galingale (ou galangal – planta de raiz aromática da família da gengibre), mas abandona uma pessoa que pretende fazer o mal. Ele não fala do Dharma somente para machos intelectuais, mas também para os mais rebaixados na vida, para casais e mulheres. Ele não capacita apenas Shramanas a atingir as quatro fruições da Via, mas também capacita pessoas leigas a ganhar as três fruições da Via. Ele não apresenta o Dharma somente para uma pessoa que abandonou as funções casuais da vida, como Puttala e outros que procuram meditar em lugares quietos, mas também para aqueles como o Rei Bimbisara, que tem que reinar sobre um estado. Não é o caso que o Dharma é falado somente para abstêmios, mas é pregado também para aqueles perdidos em bebidas fortes, como o rico homem Ugravati, e os intoxicados. Não é o caso que o Dharma é falado somente para aqueles que sentam em dhyana [meditação] como Revata, mas também para mulheres Brâmanes como Vasistha, que agora está louca após a perda da sua criança. Não é o caso que os seus sermões são pregados somente para os seus próprios discípulos, mas também para tirthikas, Nirgranthas e outros. Não é o caso que o Dharma é pregado somente para aqueles de plena virilidade aos 25 anos, mas também para idosos de 80 anos, que já são impotentes fisicamente. Ele não prega somente para aqueles que estão estreitamente relacionados com o Buda-Dharma, mas também para aqueles que não estão muito bem na pratica da Via. Ele não prega somente para Malika, mas também para uma prostituta como Utpala. Ele não recebe oferecimentos somente das melhores coisas doces e deliciosas do Rei Prasenajit; ele também recebe aquelas do homem rico Srigupta, as quais contêm veneno. Oh grande Rei! Srigupta, em tempos passados, plantou as sementes dos pecados mortais. Mas após ter encontrado o Buda e ouvido os seus sermões, aspirou à Iluminação Insuperável.

Oh grande Rei! Mesmo que alguém fizesse oferecimentos durante um mês para todos os seres, o seu mérito não poderia ser comparado a uma décima-sexta parte daquele auferido pela meditação em pensamento único sobre o Buda. Oh grande Rei! Embora alguém fizesse um homem de ouro, e o dotasse de veículos, cavalos e tesouros em número de 100; isto não se compararia a uma pessoa que aspira à Iluminação e dá um passo em direção ao Buda. Oh grande Rei! Mesmo que alguém pudesse colocar em 100 carruagens puxadas por elefantes, vários tesouros raros das terras Romanas e mulheres com artigos de joalheria, isto não se compararia à aspiração ao Bodhi e a dar um passo em direção ao Buda. Ou mesmo que alguém desse isso e as quatro coisas [isto é, comida, roupas, decocção e aposentos] para todos os seres dos três mil grandes sistemas de mil mundos, isto não se compararia à aspiração à Iluminação e a dar um passo em direção ao Buda. Além disso, mesmo que fizéssemos doações a seres tão inumeráveis quanto às areias do Ganges, isso nunca seria melhor que a ida do grande Rei para onde se encontram as árvores sala gêmeas, para onde o Tathagata está, e ouvir com sinceridade de coração o que ele diz.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 24 – Sobre Ações Puras 4.

Por muccamargo

Físico, Mestre em Tecnologia Nuclear USP/SP-Brasil, Consultor de Geoprocessamento, Estudioso do Budismo desde 1987.

1 comentário

  1. Eis a grande diferença entre um ensino superior e os provisórios. Neles, os provisórios, há um numero incontável de engodos, terrorísmos psicológicos, mitos, inverdades e armadilhas crueis.
    Estou maravilhado com o conteúdo, propagação e feliz missão desse mestre e irmão meu.

    Sincéros Parabéns!

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