As Chamas da Ilusão

Em Uruvilva, o Bem-Aventurado encontrou os três irmãos Kashyapa. Esses Brâmanes virtuosos tinham uns mil discípulos. Desde algum tempo eles vinham sendo incomodados por uma serpente perigosa que insistia em perturbar os seus sacrifícios, e trouxeram os seus problemas ao Buda. O Buda sorriu; viu a serpente e ordenou-lhe que, no futuro, os deixasse em paz. A serpente obedeceu, e os sacrifícios não foram mais interrompidos.

Os Kashyapas solicitaram ao Buda permanecer com eles alguns dias. Ele consentiu. O Buda surpreendeu seus anfitriões realizando inumeráveis prodígios, e naquela ocasião todos eles decidiram aceitar a lei. Somente o mais velho dos Kashyapas se recusou a seguir o Buda. Ele pensou:

“É verdade, esse monge é muito poderoso; ele realiza grandes prodígios, mas não se iguala a mim em santidade.”

O Bem-Aventurado leu o pensamento de Kashyapa. E disse-lhe:

“Você pensa que é um homem muito santo, Kashyapa, e nem mesmo está no caminho que conduz à santidade.”

Kashyapa ficou atônito com o fato de que o Buda teria adivinhado seus pensamentos secretos. O Bem-Aventurado completou:

“Você nem mesmo sabe como encontrar o caminho que conduz à santidade. Escutai minhas palavras, Kashyapa, se deseja dissipar a escuridão na qual você vive.”

Kashyapa pensou por um momento; e então caiu aos pés do Bem-Aventurado, e disse:

“Instrua-me, oh Mestre! Não me deixe caminhar mais na escuridão!”

Então o Bem-Aventurado subiu uma montanha, e se dirigiu aos irmãos Kashyapa e seus discípulos.

“Oh monges”, disse ele, “tudo no mundo está em chamas. O olho é chama; tudo o que ele vê é chama; tudo o que vemos no mundo está em chamas. Por quê? Porque o fogo do amor e do ódio não está extinto. Vocês estão cegados pelas chamas desse fogo, e sofrem o tormento do nascimento e da velhice, da morte e da miséria. Oh monges, tudo no mundo está em chamas! Compreendam-me, e para vocês o fogo se extinguirá; seus olhos não mais serão cegados pelas chamas, e não mais apreciarão o espetáculo chamejante no qual se deleitam hoje. Compreendam-me, e saberão que existe um fim para o nascimento, saberão que nunca necessitarão voltar mais para essa terra.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Dedico este post ao meu amado irmão Teófilo Americano de Camargo Guarani, falecido nesse 13 de Dezembro de 2011.

Minhas mais sinceras homenagens a você, Guara, e onde quer que venha a renascer, que seja dentro da Lei Búdica. E que assim possamos dar sequência à nossa caminhada, juntos, rumo ao Pico da Águia.

Marcos Ubirajara.

A Lei em Propagação

A cada dia o número de discípulos aumentava, e logo o mestre tinha sessenta monges prontos para propagar a sabedoria. Ele disse-lhes:

“Oh discípulos! Estou liberto de todas as obrigações, humanas e divinas. E vocês, também, agora estão livres. Tomem o seu caminho, oh discípulos, sigam, por piedade do mundo, para a felicidade do mundo, sigam. É para vocês que Deuses e humanos deverão o seu bem-estar e a sua alegria. Ponham-se na estrada, sozinhos. E ensinem, oh discípulos, ensinem a gloriosa lei, a  lei gloriosa no início, gloriosa no meio e gloriosa no fim; ensinem o espírito da lei; ensinem a letra da lei; para todos que ouçam, proclamem a vida perfeita (correta), (a vida) pura, (a vida) santa. Há alguns que não estão cegados pelo pó da terra, mas não encontrarão salvação se não ouvirem a lei em proclamação. Assim, sigam, oh discípulos, vão e ensinem-lhes a lei.”

Os discípulos espalharam-se, e o Bem-Aventurado tomou a estrada para Uruvilva.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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