O Brilho e a Ignorância

O Bodhisattva Kashyapa disse ao Buda: “Oh Honrado pelo Mundo! Você, o Buda, diz que a nata existe no leite. O que isto significa? Oh Honrado pelo Mundo! Se definitivamente existe nata no leite e se é verdade que ela não pode ser vista em razão do seu diminuto tamanho (concentração), como podemos dizer que a nata vem através das relações causais do leite? Quando as coisas não possuem o elemento raiz originalmente, podemos dizer que uma coisa seja nascida. Se ela já existe, como podemos dizer que a vida surge (vem à luz)? Este é o caso que se definitivamente existe nata no leite, deve haver leite em todas as gramas. Da mesma maneira, deve haver grama no leite também. Se a situação for que definitivamente não existe nata no leite, como poderia a nata vir de fora do leite? Se não houver o elemento raiz, mas ele aparecer mais tarde, como poderia acontecer de a grama não crescer no leite?”

“Oh bom homem! Não diga que existe definitivamente nata no leite ou que não existe nata no leite. Também, não diga que ela vem de fora (do leite). Se definitivamente existe nata no leite, como ela pode ser uma coisa diferente e ter um sabor diferente? Este é o porquê você não deve dizer que definitivamente existe nata no leite. Se não existe definitivamente nata no leite, por que  é que algo diferente não surge do leite? Se for colocado veneno no leite, a nata matará uma pessoa. Este é o porquê você não deve dizer que não existe definitivamente nata no leite. Além disso, se dissermos que a nata vem de fora, por que é que a nata não surge da água? Em razão disto, não diga que a nata vem de algum outro lugar. Oh bom homem! Como a vaca pasta na grama, seu sangue transforma-se em branco. Grama e sangue morrem e o poder das virtudes dos seres transforma-os e obtemos o leite. Esse leite vem da grama e do sangue, mas não podemos dizer que existam os dois (no leite). Tudo o que podemos dizer é que as condições (relações) o fazem acontecer. Isso nós podemos dizer. Da nata ao sarpirmanda, as coisas se passam assim. O caso [aqui] é o mesmo. Em razão disto, podemos dizer corretamente que existe o sabor da vaca. Esse leite acaba e, em conseqüência, surge a nata. Qual é a condição? É azedo ou morno. Em razão disto, podemos dizer que ela (a nata) vem das condições. A situação é a mesma com os outros, até o sarpirmanda. Em razão disto, não podemos dizer que definitivamente não exista nata no leite. Se ela vem de outro lugar, ela deveria existir separadamente do leite. Isto não pode ser. Oh bom homem! O mesmo é o caso com o brilho e a ignorância. [Sobre o que é] atado pelas ilusões, dizemos ignorância. Se estiver ligado a todas as boas coisas, poderá existir brilho. Este é o porquê dizermos que não pode haver duas coisas. Assim, Eu disse: ‘Existe uma grama nos Himalayas chamada pinodhni, a qual, se comida pela vaca, produz sarpirmanda’. O mesmo é o caso com a Natureza-de-Buda.

Oh bom homem! Os seres são estéreis na sorte e não se encontram com essa grama. O mesmo se aplica à Natureza-de-Buda. Como as impurezas os envolvem, os seres não podem vê-la. Por exemplo, a água de todo o grande oceano tem o mesmo sabor salgado, mas ela contém em si a melhor das águas, como no caso do leite. Também, os Himalayas são perfeitos em várias virtudes e produzem vários remédios, mas também há ervas venenosas. O mesmo se passa com os corpos de todos os seres. Existem as quatro serpentes venenosas, mas está presente também o grande rei do remédio todo-maravilhoso. A assim chamada Natureza-de-Buda não é algo que foi criado. Simplesmente, ela está encoberta pelas impurezas. Somente uma pessoa que as elimine completamente – seja ela um Kshatriya, Brâmane, Vaishya ou Sudra – vê a Natureza-de-Buda e atinge a Iluminação Insuperável.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 12: Sobre a Natureza do Tathagata.

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