O Primeiro Passeio

Certo dia, alguém falou na presença do príncipe sobre como as gramas nos bosques tornaram-se suavemente verdes e os pássaros nas árvores cantavam a primavera; e como, nos lagos, as grandes (flores de) lótus estavam desabrochando. A natureza havia quebrado a cadeia (ordem seqüencial) que o inverno impusera e, ao redor da cidade, aqueles jardins tão estimados pelas jovens donzelas estavam agora alegremente atapetados com flores. Então, como um elefante confinado há muito tempo em seu estábulo, o príncipe tinha um desejo irresistível de deixar o palácio.

O rei soube o desejo de seu filho, e não sabia como se opor.

“Mas”, pensou ele, “Siddhartha não deve ver nada que perturbe a serenidade de sua alma; ele nunca deve suspeitar que a maldade exista no mundo. Ordenarei que a estrada seja limpa dos mendigos, daqueles que estão doentes e enfermos, e de todos os que sofrem.”

A cidade foi decorada com guirlandas (deflores), flâmulas e serpentinas; uma magnificente carruagem foi preparada, e os aleijados, idosos e mendigos foram colocados para fora das ruas onde o príncipe passaria.

Chegado o momento, o rei mandou chamar o seu filho, e havia lágrimas em seus olhos quando ele o beijou na testa. Com o olhar fixo sobre ele, então disse-lhe: “Vá!” E com essa palavra, ele deu-lhe permissão para deixar o palácio, embora seu coração falasse contrariamente.

A carruagem do príncipe era feita de ouro. Era puxada por uma junta quádrupla de cavalos ajaezados em ouro, e o cocheiro segurava rédeas de ouro em suas mãos. Somente os ricos, os jovens e belos eram permitidos nas ruas pelas quais ele passava, e estes paravam para vê-lo conforme passava. Alguns elogiavam-no pela bondade do seu olhar; outros exaltavam a sua postura digna; ainda outros exaltavam a beleza de suas feições; enquanto muitos glorificavam sua força exuberante. E todos se curvavam diante dele, como bandeiras postas diante da estátua de algum Deus.

As mulheres em suas casas ouviram os gritos na rua. Elas acordaram ou deixaram suas tarefas domésticas e correram para as janelas ou rapidamente ascenderam aos terraços. E olhando para ele com admiração, elas murmuravam, “Feliz a esposa de tal homem!”.

E ele, em vista do esplendor da cidade, em vista da riqueza dos homens e da beleza das mulheres, sentiu uma nova alegria invadir sua alma.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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