A Traição de Ajatasatru

Ajatasatru foi proclamado rei no dia seguinte.

A primeira coisa que ele fez foi prestar grandes honras ao seu pai. Mas Devadatta ainda temia a autoridade do velho rei; e decidiu usar a sua influência contra ele.

“Enquanto a liberdade for permitida ao seu pai”, ele disse a Ajatasatru, “você correrá perigo de perder seu poder. Ele ainda preserva muitos seguidores; você deve tomar medidas para intimidar-lhes.”

Devadata novamente foi capaz de impor sua vontade a Ajatasatru, e o pobre Bimbisara foi trancafiado numa prisão. Ajatasatru decidiu matá-lo de fome, e não permitia que se lhe desse comida.

Prisão de Bimbisara

Ruínas da Prisão de Bimbisara em Rajagriha. Imagem via Wikipedia.

Mas à Rainha Vaidehi, às vezes, era permitido visitar Bimbisara na prisão, e ela levaria o arroz que ele comia vorazmente. Ajatasatru, porém, logo pôs um fim a isto; ele ordenou aos guardas revistá-la toda a vez que ela fosse ver o prisioneiro. Ela, então, tentou esconder a comida em seu cabelo, e quando isto também foi descoberto, ela teve que usar grande engenhosidade para evitar que o rei morresse de fome. Mas ela era repetidamente descoberta, e Ajatasatru, finalmente, proibiu seu acesso à prisão.

Neste intermédio, ele estava perseguindo os fiéis seguidores do Buda. Eles foram proibidos de cuidar do templo onde Bimbisara, anteriormente, havia colocado uma mecha do cabelo do Mestre e as aparas das suas unhas. Nem mais flores ou fragrâncias eram lá permitidas como oferecimentos, e o templo nem mesmo era limpo ou varrido.

No palácio de Ajatasatru residia uma mulher chamada Srimati. Ela era muito devota. Entristeceu-lhe ficar incapaz de realizar obras de santidade, e ela perguntava como, nesses tempos tristes, ela provaria ao Mestre que mantivera a sua fé. Passando em frente ao templo, ela queixou-se amargamente de vê-lo tão abandonado, e quando ela notou quão sujo estava, ela chorou.

“O Mestre saberá que ainda há uma mulher nesta casa que lhe honraria”, pensou Srimati, e sob risco de sua vida, ela varreu e enfeitou o templo com uma guirlanda brilhante.

Ajatasatru viu a guirlanda. Ficou muito irritado e queria saber quem havia ousado desobedecer-lhe. Srimati não tentou esconder; de sua própria vontade, ela apareceu diante do rei.

“Por que você desacatou minhas ordens?”, perguntou Ajatasatru.

“Se eu desacatei suas ordens”, disse ela, “eu respeitei aquelas do seu pai, o Rei Bimbisara.”

Ajatasatru não esperava ouvir tal coisa. Pálido de fúria, ele correu para Srimati e golpeou-a com o seu punhal. Ela caiu, ferida mortalmente; mas seus olhos estavam reluzentes de alegria, e numa voz feliz, ela cantou:

“Meus olhos viram o protetor dos mundos; meus olhos viram a luz dos mundos, e para ele, à noite, tenho acendido as lâmpadas. Para ele que dissipa a escuridão, eu tenho dissipado a escuridão. Seu brilho é maior que o brilho do sol; seus raios são mais puros que os raios do sol, e meu olhar extasiado é ofuscado pelo seu esplendor. Para ele que dissipa a escuridão, eu tenho dissipado a escuridão.”

E, morta, ela parecia fulgurar com a luz da santidade.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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