Pataliputra

O Mestre veio para as margens do Ganges, ao lugar onde a cidade de Pataliputra (Patna)[1] estava sendo construída. Ele curvou-se diante das muralhas que estavam começando a se levantar do chão, e exclamou:

“Esta cidade, um dia, terá grandeza e fama; muitos heróis aqui nascerão, aqui reinará um rei famoso. Serás uma cidade próspera, oh Pataliputra, e através das eras os humanos louvarão o seu nome.”

Pataliputra

Ruínas das fortificações de Pataliputra

Cidade de Patna

Cidade de Patna no Rio Ganges em pintura do século 19. Fonte: Wikipedia.


[1] Os registros históricos de Pataliputra começaram com Ajatasatru, o segundo dos reis de Magadha, que estabeleceu uma pequena fortificação em Pataligram 490 A.C,  no encontro dos rios Ganges e Sone, com o propósito de melhor combater os seus inimigos, os Licchavis. De acordo com os textos Budistas, o Buda visitou Pataligram durante a construção dessa fortificação em sua última viagem para o norte. Fonte: http://www.ancientworlds.net/aw/Places/Place/419417.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Prasenajit e Ajatasatru

Embora o Buda houvesse purificado o espírito de Ajatasatru, houve ocasiões em que o rei ainda dava lugar à ira. Certo dia, por causa de uma desavença entre um homem de Rajagriha e um outro de Cravasti, ele declarou guerra contra o Rei Prasenajit.

Ele recrutou um vasto exército. Havia infantaria e cavalaria; havia alguns montados em carros de combate, outros colocados em blindagens carregadas por elefantes, e espadas e lanças brilhavam ao sol enquanto marchavam para a batalha.

O Rei Prasenajit também reuniu suas tropas. Ele também trazia carros de combate, cavalos e elefantes, e avançou para encontrar Ajatasatru.

Foi uma batalha terrível. Durou quatro dias. No primeiro dia, Prasenajit perdeu seus elefantes; no segundo dia ele perdeu seus cavalos; no terceiro, seus carros de combate foram destruídos; e no quarto dia, seus soldados de infantaria foram mortos ou feitos prisioneiros; e o próprio Prasenajit, derrotado e em pânico, fugiu na única carruagem salva do desastre, e escapou para Cravasti.

Lá, num pequeno e sombrio salão, ele atirou-se num divã. Ficou em silêncio, preso aos seus melancólicos pensamentos. Não se mexia, parecia estar morto, exceto pelas lágrimas que escorriam pelo seu rosto.

Um homem entrou; era o mercador Anathapindika.

“Meu senhor”, disse ele, “viva longamente, e a maré da vitória poderá voltar!”

“Meus soldados estão mortos”, o rei lamentou, “todos os meus soldados estão mortos! Meus soldados! Meus soldados!”

“Não se aflija, oh Rei! Levante um outro exército.”

“Eu perdi a minha fortuna quando perdi meu exército.”

“Rei”, disse Anathapindika, “darei a você o ouro de que necessitar, e você será vitorioso.”

Prasenajit levantou-se, ficou de pé.

“Você me salvou, Anathapindika!”, ele exclamou. “Estou grato!”.

Com o ouro de Anathapindika, Prasenajit levantou uma formidável legião. E marchou contra Ajatasatru.

Quanto os dois exércitos se defrontaram, o retinir das armas aterrorizou os próprios Deuses. Prasenajit usou uma estratégia de batalha que a ele foi ensinada por homens de uma terra distante. Ele atacou rapidamente; Ajatasatru não tinha defesa. Afinal, foi derrotado e capturado.

“Mate-me!”, ele implorou a Prasenajit.

“Pouparei sua vida”, disse Prasenajit. “Eu o levarei ao Mestre Bem-Aventurado, e ele decidirá o seu destino.”

O Mestre houvera chegado recentemente ao Parque de Jeta. Prasenajit disse-lhe:

“Veja só, oh Bem-Aventurado! O Rei Ajatasatru é meu prisioneiro. Ele odeia-me, embora eu não nutra qualquer má vontade contra ele. Ele atacou-me, por algum motivo banal, e derrotou-me uma primeira vez, mas agora ele está à minha mercê. Não desejo matá-lo, oh Bem-Aventurado. Por causa de seu pai, Bimbisara, que foi meu amigo, eu gostaria de libertá-lo.”

“Então liberte-o!”, disse o Mestre. “A vitória gera o ódio; a derrota gera o sofrimento. Aqueles que são sábios renunciarão tanto à vitória quanto à derrota. Insulto nasce do insulto, e a ira da ira. Aqueles que são sábios renunciarão tanto à vitória quanto à derrota. Todo o assassino é derrubado por um assassino; todo o conquistador é derrubado por um conquistador. Aqueles que são sábios renunciarão tanto à vitória quanto à derrota.”

Na presença do Mestre, Ajatasatru prometeu ser um fiel amigo de Prasenajit.

“E”, ele acrescentou, “sejamos mais que amigos. Eu tenho um filho, como você sabe, e você tem uma filha, Kshema, que ainda é solteira. Você daria a mão de sua filha ao meu filho?”

“Assim seja”, disse Prasenajit. “E que esse feliz casamento seja o penhor da nossa feliz amizade.”

O Mestre aprovou. Os dois reis para sempre viveram em paz um com o outro, e Ajatasatru (ou Prasenajit? – N.T.) tornou-se conhecido pela sua gentileza.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Vilania de Devadatta e Sua Punição

Ajatasatru emitiu uma proclamação banindo Devadatta do reinado, e ordenando aos habitantes fecharem suas portas a ele, caso ele buscasse refúgio em seus lares.

Então, Devadatta foi para as proximidades de Cravasti, onde ele esperava ser recebido pelo Rei Prasenajit, mas foi-lhe negada uma audiência desdenhosamente, e foi-lhe dito para deixar o reinado. Frustrado em suas tentativas para atrair seguidores, ele finalmente partiu para Kapilavastu.

Ele entrou na cidade ao anoitecer. As ruas estavam escuras, quase desertas; ninguém o reconhecia quando ele passava, pois como poderia esse monge magro e miserável, esgueirando-se nas sombras das paredes, ser indentificado como o orgulhoso Devadatta? Ele foi direto ao palácio onde a Princesa Gopa vivia em solidão.

Ele foi admitido em sua presença.

“Monge”, disse Gopa, “por que você deseja ver-me? Você me trouxe uma mensagem de felicidade? Você vem com ordens de um esposo que eu reverencio profundamente?”

“Seu marido? Ele pouco se importa com você! Pense no tempo em que ele impiedosamente lhe abandonou!”

“Ele deixou-me em prol da salvação do mundo.”

“Você ainda o ama?”

“Meu amor macularia a pureza da sua vida.”

“Então odei-o com todo o seu coração.”

“Respeito-lhe com todo o meu coração.”

“Mulher, ele rejeitou-lhe; vingue-se!”

“Cale-se, monge. Sua palavras são maldosas.”

“Você não me reconhece? Sou Devadatta, aquele que lhe ama.”

“Devadatta, Devadatta, eu sabia que você era falso e mau; eu sabia que você seria um monge infiel, mas nunca suspeitei da profundidade da sua vilania.”

“Gopa, Gopa, Eu amo você! Seu marido desprezou-lhe, ele foi cruel. Vingue-se. Ama-me!”

Gopa enrubesceu. De seus olhos gentis caíram lágrimas de vergonha.

“É você que me despreza! Seu amor já seria um insulto se fosse sincero, mas você mente quando diz que me ama. Você raramente notou-me nos dias da minha juventude, quando eu era bela! E agora que você me vê, uma mulher velha, desgastada pelos meus deveres austeros, me fala do seu amor, do seu amor vil! Você é o mais desprezível dos homens, Devadatta! Suma! Vá-se embora!”

Em sua ira, ele saltou sobre ela. Ela estendeu sua mão para proteger-se, e ele caiu ao chão. Conforme ele rolava, o sangue jorrava de sua boca.

Ele fugiu. Os Shakyas ouviram que ele estava em Kapilavastu; fizeram-lhe deixar a cidade sob uma escolta de guardas, e ele foi levado para o Buda que decidiria o seu destino. Ele fingiu estar arrependido, mas havia imergido suas unhas num veneno mortal, e conforme se prostrou diante de Mestre, ele tentou arranhar seu tornozê-lo. O Mestre o empurrou com o dedo do pé; então o chão abriu-se; violentas chamas irromperam, e tragaram o infame Devadatta.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Remorso de Ajatasatru

Neste intermédio, Bimbisara estava morrendo de fome. Mas ainda não estava morto. Uma força misteriosa sustentou-lhe. Seu filho, finalmente, decidiu levá-lo à morte, e deu ordens para queimar as solas dos seus pés, amputar seus membros e derramar óleo fervente e sal nas feridas abertas. O carrasco obedeceu, e até chorou ao ver o velho homem torturado.

Um filho nasceu para Ajatasatru no dia em que ele emitiu a ordem para a morte de seu pai. Quando ele viu a criança, acometeu-lhe uma grande alegria; ele se compadeceu, e rapidamente enviou guardas à prisão para evitar a execução. Mas eles chegaram tarde; o Rei Bimbisara havia morrido em meio a sofrimento terrível.

Então, Ajatasatru começou a se arrepender. Certo dia, ele ouviu a Rainha Vaidehi dizendo ao príncipe infante, quando ela o carregava em seus braços: “Seu pai pode ser um rei para você assim como seu pai foi para ele. Certa vez, quando ele era uma criança, ele teve uma ferida no dedo; machucava-lhe, e ele chorava, e nenhuma pomada curava-lhe. Então Bimbisara pôs o seu dedo nos lábios e drenou o pus, e Ajatasatru voltou a sorrir e a brincar. Oh, ame seu pai, meu pequeno; não o puna com sua crueldade por ele ter sido cruel com Bimbisara.”

Ajatasatru derramou lágrimas amargas. Ficou sobrecarregado com o remorso. À noite, em seus sonhos, via seu pai, o sangramento de suas feridas, e ouvia-o gemer. Ele ficou tomado por uma febre ardente, e o médico Jivaka foi convocado para atendê-lo.

“Nada posso fazer por você”, disse Jivaka. “Seu corpo não está doente. Vá ao Mestre Perfeito, o Bem-Aventurado, o Buda; somente ele conhece as palavras de consolo que restabelecerão a sua saúde.”

Ajatasatru aceitou o conselho de Jivaka. Ele foi ao Bem-Aventurado; confessou seus delitos e crimes, e encontrou a paz.

“Seu pai”, o Buda disse-lhe, “renasceu em meio aos mais poderosos Deuses; ele sabe do seu arrependimento, e perdoa-lhe. Preste atenção, Rei Ajatasatru; conheça a lei, e pare de sofrer.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Fúria de Devadatta

Devadatta estava ansioso para suceder o Buda como líder da comunidade. Certo dia, ele disse ao Rei Ajatasatru: “Meu senhor, o Buda o despreza. Ele odeia você. Você deve condená-lo à morte, pois sua glória está em jogo. Envie alguns homens ao Bosque dos Bambús ordenados para matá-lo; eu mostrarei o caminho.”

Ajatasatru foi facilmente persuadido. Os assassinos foram ao Bosque dos Bambús, mas quando eles viram o Mestre, caíram aos seus pés e adoraram-lhe. Isso adicionou combustível à fúria de Devadatta. Ele foi ao estábulo real onde um elefante selvagem era mantido, e subornou os guardas para soltá-lo quando o Mestre estivesse passando, de tal maneira que o animal pudesse atacá-lo com suas presas ou esmagá-lo sob suas patas. Mas ao avistar o Mestre, o elefante tornou-se dócil, e indo até ele, aspirou a poeira dos robes sagrados com sua tromba.

Buda com o Elefante Nalagiri

Buda com o Elefante Nalagiri. Imagem Via Wikipedia.

E o Mestre sorriu e disse:

“Esta é a segunda vez, graças a Devadatta, que um elefante presta homenagem a mim.”

Então o próprio Devadatta tentou atacar o Mestre. Ele o viu meditando sob a sombra de uma árvore; e teve a audácia de atirar uma pedra angulosa sobre ele. A pedra atingiu-lhe o pé; e a ferida começou a sangrar. O Mestre disse:

“Você cometeu uma grave ofensa, Devadatta; a punição será terrível. São inócuos seus atentados criminosos contra a vida do Bem-Aventurado; ele não vai encontrar-se com uma morte prematura. O Bem-Aventurado morrerá por vontade própria, e na hora que ele escolher.”

Devadatta fugiu. Ele decidiu que não mais obedeceria as regras da comunidade e, onde fosse, procuraria seguidores de si próprio.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Traição de Ajatasatru

Ajatasatru foi proclamado rei no dia seguinte.

A primeira coisa que ele fez foi prestar grandes honras ao seu pai. Mas Devadatta ainda temia a autoridade do velho rei; e decidiu usar a sua influência contra ele.

“Enquanto a liberdade for permitida ao seu pai”, ele disse a Ajatasatru, “você correrá perigo de perder seu poder. Ele ainda preserva muitos seguidores; você deve tomar medidas para intimidar-lhes.”

Devadata novamente foi capaz de impor sua vontade a Ajatasatru, e o pobre Bimbisara foi trancafiado numa prisão. Ajatasatru decidiu matá-lo de fome, e não permitia que se lhe desse comida.

Prisão de Bimbisara

Ruínas da Prisão de Bimbisara em Rajagriha. Imagem via Wikipedia.

Mas à Rainha Vaidehi, às vezes, era permitido visitar Bimbisara na prisão, e ela levaria o arroz que ele comia vorazmente. Ajatasatru, porém, logo pôs um fim a isto; ele ordenou aos guardas revistá-la toda a vez que ela fosse ver o prisioneiro. Ela, então, tentou esconder a comida em seu cabelo, e quando isto também foi descoberto, ela teve que usar grande engenhosidade para evitar que o rei morresse de fome. Mas ela era repetidamente descoberta, e Ajatasatru, finalmente, proibiu seu acesso à prisão.

Neste intermédio, ele estava perseguindo os fiéis seguidores do Buda. Eles foram proibidos de cuidar do templo onde Bimbisara, anteriormente, havia colocado uma mecha do cabelo do Mestre e as aparas das suas unhas. Nem mais flores ou fragrâncias eram lá permitidas como oferecimentos, e o templo nem mesmo era limpo ou varrido.

No palácio de Ajatasatru residia uma mulher chamada Srimati. Ela era muito devota. Entristeceu-lhe ficar incapaz de realizar obras de santidade, e ela perguntava como, nesses tempos tristes, ela provaria ao Mestre que mantivera a sua fé. Passando em frente ao templo, ela queixou-se amargamente de vê-lo tão abandonado, e quando ela notou quão sujo estava, ela chorou.

“O Mestre saberá que ainda há uma mulher nesta casa que lhe honraria”, pensou Srimati, e sob risco de sua vida, ela varreu e enfeitou o templo com uma guirlanda brilhante.

Ajatasatru viu a guirlanda. Ficou muito irritado e queria saber quem havia ousado desobedecer-lhe. Srimati não tentou esconder; de sua própria vontade, ela apareceu diante do rei.

“Por que você desacatou minhas ordens?”, perguntou Ajatasatru.

“Se eu desacatei suas ordens”, disse ela, “eu respeitei aquelas do seu pai, o Rei Bimbisara.”

Ajatasatru não esperava ouvir tal coisa. Pálido de fúria, ele correu para Srimati e golpeou-a com o seu punhal. Ela caiu, ferida mortalmente; mas seus olhos estavam reluzentes de alegria, e numa voz feliz, ela cantou:

“Meus olhos viram o protetor dos mundos; meus olhos viram a luz dos mundos, e para ele, à noite, tenho acendido as lâmpadas. Para ele que dissipa a escuridão, eu tenho dissipado a escuridão. Seu brilho é maior que o brilho do sol; seus raios são mais puros que os raios do sol, e meu olhar extasiado é ofuscado pelo seu esplendor. Para ele que dissipa a escuridão, eu tenho dissipado a escuridão.”

E, morta, ela parecia fulgurar com a luz da santidade.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Abdicação de Bimbisara

Devadatta estava meditando: “Siddhartha pensou me humilhar fazendo pouco da minha inteligência. Eu lhe mostrarei que ele está enganado. Minha glória sobrepujará a dele, a lamparina se tornará um sol. Mas o Rei Bimbisara é seu amigo fiel; ele o protegerá. Enquanto o rei estiver vivo, nada poderei fazer. O Príncipe Ajatasatru, por outro lado, me honra e me mantém na mais elevada estima; ele deposita confiança implícita em mim. Se ele fosse rei, eu obteria tudo que desejasse.”

Ele foi ao palácio de Ajatasatru.

“Oh, príncipe”, disse ele, “estamos vivendo numa era maligna! Aqueles que são melhor dotados para governar estão propensos a morrer sem jamais terem governado. A vida humana é algo tão breve! A longevidade do seu pai não lhe preocupa?”

Ele continuou a falar, a dar os mais maldosos conselhos ao príncipe. O príncipe era débil; escutava-lhe. Logo, ele decidiu matar o seu pai.”

Noite e dia, agora, Ajatasatru perambulava pelo palácio, à espreita por uma oportunidade para invadir os aposentos do seu pai e acabar com ele. Mas ele não poderia escapar da vigilância dos guardas. Sua inquietação intrigou-lhes, e eles disseram ao Rei Bimbisara:

“Oh Rei, seu filho Ajatasatru tem se comportado de forma estranha ultimamente. Poderia ele estar planejando uma má ação?”

“Calem-se”, respondeu o rei. “Meu filho é um homem de caráter nobre. Não lhe ocorreria cometer qualquer vileza.”

“Você deveria procurá-lo, oh Rei, e perguntar-lhe.”

“Calem-se, guardas. Não acusem meu filho levianamente.”

Os guardas continuaram a manter uma forte vigilância, e ao cabo de poucos dias, eles novamente falaram ao rei. Para convencê-los de que estavam enganados, o rei chamou Ajatasatru. O príncipe apareceu diante de seu pai. Estava tremendo.

“Meu senhor”, disse ele, “por que procurou por mim?”

“Filho”, disse Bimbisara, “meus guardas dizem que você tem se comportado de forma estranha ultimamente. Eles me dizem que você perambula através do palácio, agindo misteriosamente, e que você evita o olhar daqueles que você encontra. Filho, eles não estão mentindo?”

“Eles não estão mentindo, pai”, disse Ajatasatru.

Subitamente, o remorso tomou conta dele. Ele caiu aos pés do rei, e das profundezas da sua vergonha, ele gritou:

“Pai, eu queria matá-lo.”

Bimbisara estremeceu. Numa voz cheia de angústia, ele perguntou:

“Por que você desejaria matar-me?”

“No sentido de reinar”, respondeu Ajatasatru.

“Então reine!”, gritou o rei. “A realeza não vale a inimizade de um filho.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Missão de Shariputra

Devadatta logo chegou ao topo da vaidade. Ele não podia mais tolerar a grandeza do Buda e, certo dia, ele ousou dizer-lhe:

“Mestre, você agora está bastante avançado nos anos; é um grande sacrifício para você conduzir os monges; você deve aposentar-se. Medite em paz sobre a lei sublime que você descobriu, e deixe que eu me encarrego da comunidade.”

O Mestre sorriu ironicamente.

“Não se preocupe comigo, Devadatta; você é tão gentil. Saberei quando for o tempo para me aposentar. Por enquanto, a comunidade ficará a meu cargo. Além disso, quando chegar o tempo, não a entregarei nem mesmo a Shariputra ou Maudgalyayana, aquelas duas grandes mentes que são como tochas fulgurantes. E você a quer, Devadatta, você que possui uma inteligência tão medíocre, você que emite muito menos luz que uma lamparina!”

Devadatta curvou-se respeitosamente diante do Mestre, mas não pode esconder o fogo da ira em seus olhos.

O Mestre então dirigiu-se ao erudito Shariputra.

“Shariputra”, disse ele, “vá pela cidade de Rajagriha afora, e clame em alta voz: ‘Cuidado com Devadatta! Ele se desviou do caminho da retidão. O Buda não é responsável por suas palavras ou por suas ações; a lei não lhe inspira mais, a comunidade não lhe interessa mais. Doravante, Devadatta fala somente por si’.”

Foi triste para Shariputra ter uma missão tão dolorosa para cumprir; todavia, ele compreendeu as razões do Mestre, e foi cidade afora proclamando a vergonha de Devadatta. Os habitantes pararam para ouvir, e alguns pensaram: “Os monges invejam Devadatta por sua amizade com o Príncipe Ajatasatru”. Mas os outros disseram: “Devadatta deve ter cometido uma ofensa grave, para o Bem-Aventurado denunciá-lo assim publicamente.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Traição de Devadatta

O monge Devadatta ficou possído de uma natureza arrogante. Era impaciente com quaisquer restrições. Ele aspirava suplantar o Buda, mas os monges, ele sabia, não se juntariam a ele em uma revolta aberta. Para tal objetivo, ele necessitava do apoio de algum rei ou príncipe.

“O Rei Bimbisara é um homem velho”, disse para si certo dia; “o Príncipe Ajatasatru, que é jovem e valente, está ansioso para sucedê-lo ao trono. Eu poderia aconselhar o príncipe a seu favor e, em retribuição, ele poderia me ajudar a tornar-me líder da comunidade.”

Ele foi ver Ajatasatru. Dirigiu-se a ele em termos elogiosos; enalteceu sua força, sua coragem, sua beleza.

“Oh, se você fosse rei”, disse Devadatta, “que glória seria para Rajagriha! Você conquistaria os países vizinhos; todos os soberanos do mundo prestariam-lhe homenagem; você seria um mestre onipotente, e seria adorado como um Deus.”

Com tais palavras, Devadatta ganhou a confiança de Ajatasatru. Ele recebeu muitas prendas preciosas, e tornou-se ainda mais arrogante.

Maudgalyayana notou as frequentes visitas de Devadatta ao príncipe. Ele decidiu alertar o Bem-Aventurado

“Meu senhor”, ele começou a dizer, “Devadatta é muito amigável com o Príncipe Ajatasatru.”

O Bem-Aventurado interrompeu-lhe.

“Deixe Devadatta agir como lhe aprouver; logo saberemos a verdade. Estou ciente de que Ajatasatru presta-lhe homenagem; isto não o faz avançar um único passo no caminho da virtude. Deixe a glória de Devadatta em sua arrogância! Será a sua ruína. Como a bananeira e o bambu que frutificam apenas para morrer, assim as honras que Devadatta está recebendo somente apressarão a sua queda.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Garça e o Peixe

Quando Bimbisara ouviu que o Mestre estava deixando o Bosque dos Bambús, para ficar fora por algum tempo, ele foi visitá-lo com seu filho, o Príncipe Ajatasatru.

O Mestre olhou para o jovem príncipe; então voltou-se para o rei e disse:

“Ajatasatru pode ser digno do teu amor, oh Rei?”

Novamente ele olhou para o príncipe, e disse-lhe:

“Ouça bem agora, Ajatasatru, e pondere minhas palavras. A astúcia nem sempre tem sucesso; a maldade nem sempre prevalece. Uma história provará isto, a história de algo que aconteceu há muito tempo, algo que eu vi com os meus próprios olhos. Naquela ocasião, eu estava vivendo numa floresta; eu era uma árvore-Deus. Essa árvore cresceu entre dois lagos, um pequeno e pouco atraente, e o outro grande e belo. O pequeno lago estava cheio de peixes; e no grande, flores de lótus cresciam em profusão. Durante um certo verão de calor opressivo, o pequeno lago quase secou completamente; enquanto o grande lago, como era protegido do sol pelas flores de lótus, sempre tinha abundância de água e permaneceu agradavelmente fresco.

Uma garça, passando entre esses dois lagos, viu o peixe e parou. De pé sobre uma perna, ela começou a pensar: ‘Esses peixes seriam uma recompensa legal. Mas esses peixes são rápidos; eles provavelmente escaparão mesmo se eu atacá-los muito avidamente. Devo usar a astúcia! Eles estão tão desconfortáveis neste lago seco! E lá está aquele outro lago, profundo, cheio de água fresca, onde eles poderiam nadar a contento de seus corações!’

Um peixe viu a garça em profundo pensamento, e de aparência tão solene quanto um eremita, e indagou: ‘O que você está fazendo aí, venerável pássaro? Você parece imerso em pensamento’. ‘Estou a meditar, oh peixe’, disse a garça, ‘sim, de fato, estou a meditar. Estou querendo saber como você e seus amigos poderão escapar do seu triste destino’. ‘Nosso triste destino! O que você quer dizer’? ‘Você sofre naquela água rasa, oh infeliz peixe! E a cada dia, como o calor torna-se mais intenso, e a água mais escassa, então o que será de você? Logo o lago estará completamente seco, e todos vocês perecerão! Pobre, pobre peixe! Eu choro por você’.

Todos os peixes tinham ouvido o que a garça dissera. E ficaram cheios de consternação. ‘O que será de nós’, eles gritavam, ‘quando o calor tiver secado o lago’? Eles voltaram-se para a garça: ‘Pássaro, oh venerável pássaro, você pode salvar-nos’? A garça novamente fingia estar perdida em pensamento; finalmente, ela respondeu: ‘Creio que vejo uma saida para a sua miséria’. O peixe ouviu ansiosamente. A garça disse: ‘Há um lago maravilhoso muito próximo daqui. É consideravelmente maior que este no qual você vive, e as flores de lótus que cobrem a superfície protegem a água do rigor do verão. Acredite em minhas palavras, vá viver naquele lago. Posso pinçá-los no meu bico, um de cada vez, e carregá-los para lá. Dessa forma, todos vocês serão salvos’. O peixe ficou feliz. Estavam prestes a aceitar a sugestão da garça quando um caranguejo falou: ‘Nunca ouvi nada tão estranho’, ele exclamou. O peixe indagou-lhe: ‘O que te surpreende tanto nisto’? ‘Nunca’, disse o caranguejo, ‘nunca, desde os primórdios do mundo, eu soube que uma garça tivesse interesse em peixes, a menos que fosse para comê-los’. A garça assumiu um ar de ofendida, e disse: ‘O quê, seu caranguejo malvado! Você suspeita de eu estar tentando enganar esses pobres peixes que se encontram em perigo eminente de morte? Oh peixe, eu apenas desejo salvá-los; procuro o seu bem-estar. Coloque a minha boa fé à prova se você quiser. Escolha um do seu grupo, e eu o carregarei em meu bico para o lago do lótus. Ele o verá; poderá até mesmo nadar em volta algumas vezes; e então eu o pinçarei e o trarei de volta até aqui. Ele lhe dirá o que pensar de mim’. ‘Parece muito justo’, disse o peixe. Para fazer essa viagem ao lago, eles escolheram um dos seus peixes mais velhos que, embora meio cego, era considerado muito sábio. A garça o carregou até o lago, jogou-lhe dentro, e o deixou nadar tanto o quanto desejasse.

O velho peixe ficou encantado, e quando ele retornou aos seus amigos, tinha somente palavras elogiosas para a garça. Os peixes agora estavam convencidos de que eles deviam suas próprias vidas à ela. ‘Pegue-nos’, eles clamaram, ‘pegue-nos e carregue-nos até o lago do lótus’. ‘Como desejarem’, disse a garça, e com o seu bico ela novamente pinçou o velho e meio cego peixe. Mas desta vez ela não o carregou para o lago. Ao invés disso, ela o jogou ao chão e atravessou-o com o seu bico; e então devorou-lhe deixando os ossos aos pés de uma árvore, a árvore da qual eu era o Deus. Feito isto, a garça retornou ao pequeno lago, e disse: ‘Quem virá comigo agora’? Os peixes estavam ansiosos por ver a sua nova casa, e a garça tinha apenas que fazer uma escolha que satisfizesse seu apetite. Até o momento, ela havia comido todos eles, um após o outro. Somente o caranguejo permaneceu. O caranguejo já havia demonstrado que ele desconfiava do pássaro, e agora dizia para si: ‘Duvido muito que os peixes estejam no lago do lótus. Temo que a garça tenha tirado vantagem da sua fé nela. Ainda assim, seria bom deixar esse lago miserável e ir para o outro que é tão maior e mais confortável. A garça deve carregar-me, mas não devo correr risco. E se ela enganou os outros, devo vingá-los’.

O pássaro aproximou-se do caranguejo: ‘É sua vez, agora’, disse a garça. ‘Como você me carregará?’, indagou o caranguejo. ‘Em meu bico, como os outros’, respondeu a garça. “Não, não’, disse o caranguejo; ‘minha carapaça é escorregadia; posso cair do seu bico. Ao invés, deixe-me segurar em seu pescoço com minhas garras; serei cuidadoso para não machucá-la’. A garça concordou. Ela parou aos pés da árvore. ‘O que você está fazendo?’, indagou o caranguejo. ‘Estamos apenas no meio do caminho. Você está cansada? No entanto, a distância não é grande entre os dois lagos!’ A garça ficou aflita por uma resposta. Além disso, o caranguejo estava começando a apertar firmemente o seu pescoço. ‘E o que temos aqui!’, exclamou o caranguejo. ‘Essa pilha de ossos de peixes ao pé da árvore é a evidência da sua traição. Mas você não me enganará como enganou aos outros. Vou matá-la, se devo morrer na tentativa’. O caranguejo apertou suas garras. A garça ficou em grande dor; com lágrimas nos olhos, ela clamou: ‘Querido caranguejo, não me machuque. Não vou comê-lo. Carregarei você até o lago’. ‘Então vá’, disse o caranguejo. A garça caminhou até à beira do lago e estendeu seu pescoço sobre a água. O caranguejo tinha apenas que pular no lago. Mas ao invés disso, ele apertou suas garras, e tão poderosas eram que o pescoço da garça foi cortado. E a árvore-Deus não poderia deixar de exclamar: ‘Bem feito, caranguejo’!”

O Mestre acrescentou: “A astúcia nem sempre tem sucesso. A maldade nem sempre prevalece. Mais cedo ou mais tarde a garça traiçoeira encontra um caranguejo. Sempre lembre disto, Príncipe Ajatasatru!”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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