A Refeição de Cunda

O Mestre e seus discípulos pararam em Pava, no jardim de Cunda, o ferreiro. Cunda veio e prestou homenagem ao Mestre, e disse-lhe:

“Meu Senhor, conceda-me a honra de tomar sua refeição em minha casa, amanhã.”

Casa de Cunda

Uma Torre foi construída no local provável da casa de Cunda na antiga Pava. Fonte: Wikipedia.

O Mestre aceitou. No dia seguinte, Cunda tinha carne de porco e outras iguarias preparadas para seus convidados. Eles chegaram e tomaram seus assentos. Quando o Mestre viu a carne de porco, ele apontou-lhe e disse:

Ninguém além de mim pode comer aquilo, Cunda; você deve servi-la a mim. Meus discípulos compartilharão das outras iguarias.”

Quando ele já havia comido, disse:

“Enterre fundo no chão aquilo que deixei intocado; somente o Buda pode comer dessa carne.”

Então ele saiu. Os discípulos seguiram-no.

Eles haviam se afastado uma curta distância de Pava quando o Mestre começou a sentir-se abatido e doente. Ananda entristeceu e amaldiçoou Cunda, o ferreiro, por ter oferecido aquela refeição fatal ao Mestre.

“Ananda”, disse o Mestre, “não fique zangado com Cunda, o ferreiro. Grandes retribuições estão reservadas para ele pela comida que ele me serviu. De todas as refeições que já tive, duas são mais dignas de louvor: uma foi a de Sujata, e a outra foi aquela que Cunda, o ferreiro, me serviu.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Mingau de Sujata

Sujata havia acabado de ordenhar oito vacas maravilhosas que ela possuía. O leite que elas davam era rico, oleoso e de delicado sabor. Ela adicionou mel e farinha de arroz ao leite, e então levou a mistura a cozinhar numa panela nova (limpa), em um fogão novo. Enormes bolhas começaram se formar e mantinham-se flutuando à direita, sem que o líquido subisse ou derramasse uma única gota. O fogão nem mesmo esfumaçava. Sujata ficou atônita, e disse a Purna, sua servente:

“Purna, os Deuses estão nos favorecendo hoje. Vá e veja se o homem sagrado está se aproximando da casa.”

Purna, da soleira da porta, viu o herói caminhando em direção à casa de Sujata. Ele estava emitindo uma luz brilhante, uma luz dourada. Purna ficou deslumbrada. Correu de volta para a sua senhora.

“Senhora, ele está vindo! Ele está vindo! E seus olhos serão cegados pelo seu esplendor!”

“Deixe-o vir! Oh, deixe-o vir!” gritou Sujata. “É para ele que preparei esse leite maravilhoso.”

Ela derramou o leite misturado com mel e farinha de arroz numa tigela de ouro, e aguardou o herói.

Sujata

A jovem Sujata oferece a última refeição de leite, farinha de arroz e mel na manhã da sua Iluminação. Click na imagem para site de origem.

Ele entrou. A casa ficou iluminada pela sua presença. Sujata, para fazer-lhe honra, curvou-se sete vezes. Ele sentou-se. Sujata ajoelhou e banhou os seus pés em água suavemente aromatizada; e então ofereceu-lhe a tigela de ouro cheia de leite misturado com farinha de arroz e mel. Ele pensou:

“Os Budas do passado, diz-se, tinham suas últimas refeições servidas numa tigela de ouro, antes da consecução da suprema sabedoria. Uma vez que Sujata me oferece esse leite com mel numa tigela de ouro, chegou o tempo para tornar-me um Buda.

Então ele indagou à jovem menina:

“Irmã, o que devo fazer com essa tigela de ouro?”

“Ela pertence a você”, ela respondeu.

“Não tenho uso para tal tigela”, disse ele.

“Então faça o que lhe aprouver com ela”, disse Sujata. “Seria mesquinho da minha parte oferecer a comida e não oferecer a tigela.”

Ele se foi, carregando a tigela em suas mãos, e caminhou para as margens do rio. Banhou-se; e comeu. Quando a tigela estava vazia, ele a atirou na água, e disse:

“Se estou para tornar-me um Buda no dia de hoje, a tigela deve ir rio acima (contra a correnteza); se não, ela pode seguir a corrente.”

A tigela flutuou até o meio do rio, e então rapidamente começou a subir o rio. Ela desapareceu num redemoinho, e o herói ouviu o som abafado quando ela pousou no mundo subterrâneo, em meio àquelas outras tigelas que os Budas pretéritos tinham esvaziado e atirado fora.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Árvore da Sabedoria

As vestimentas do herói tornaram-se esfarrapadas nos seis anos que ele lhas havia vestido, e ele pensou: “seria bom se eu obtivesse algumas roupas novas; caso contrário, terei que seguir nu, o que seria indecente.”

Naquela ocasião, Sujata, a mais devota das dez jovens meninas que haviam trazido-lhe comida, tinha um escravo o qual acabara de morrer. Ela havia envolvido o corpo em uma mortalha feita de um material avermelhado e o tinha carregado para o cemitério. O escravo morto estava deitado no pó. O herói viu o corpo conforme passou; foi a ele e removeu a mortalha.

Estava muito empoeirada, e o herói não tinha água na qual pudesse lavá-la. Shakra (Devanan), do céu, viu sua perplexidade. Descendo à terra ele atingiu o chão, e um poço apareceu diante dos olhos do Santo.

“Deus”, disse ele, “aqui está a água, mas ainda necessito de sabão.”

Shakra fez uma pedra (de sabão) e a colocou na beira do poço.

“Homem da virtude”, disse o Deus, “dê-me a mortalha; eu a lavarei para você.”

“Não, não”, respondeu o Santo. “Conheço os deveres de um Monge; eu mesmo a lavarei.”

Quando ela estava limpa, ele se banhou. Ora, Mara, a Maldade, o tinha observado por algum tempo. Ele (Mara) elevou as margens do poço, fazendo-lhes muito íngremes (escarpadas). O Santo ficou impossibilitado de sair da água. Afortunadamente, havia uma árvore alta crescendo à beira do poço, e o Santo dirigiu uma oração à Deusa que vivia nela.

“Oh Deusa, pode um ramo dessa árvore curvar-se sobre mim?”

Um ramo imediatamente curvou-se sobre o poço. O Santo agarrou-lhe e içou-se para fora da água. Então ele foi e sentou-se sob a árvore, e começou a coser a mortalha e a fazer uma roupa nova para si.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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