A Parábola do Lutador

O Buda disse a Kashyapa: “Oh bom homem! Como uma analogia: existe na prole de um rei um grande lutador. Ele tem uma pérola adamantina na sua testa. Esse homem luta com outros lutadores. Quando [certa vez] a cabeça de uma outra pessoa tocou a sua testa, a pérola foi para dentro da carne do lutador, e não se tinha conhecimento de onde ela estava. Um furúnculo surgiu ali. Um bom médico foi chamado para curá-lo. Naquela ocasião, existia um bom médico com uma mente brilhante. Ele sabia muito bem como diagnosticar e prescrever remédios. Ora, ele vê que esse furúnculo apareceu devido ao fato de a pérola ter entrado no corpo do lutador. Ele compreende que essa pérola penetrou a carne e permanece lá. Então, o bom médico indaga o lutador: ‘Onde está aquela pérola que estava sobre suas sobrancelhas’? O lutador fica surpreso e responde: ‘Oh grande mestre e doutor! A pérola na minha testa não foi perdida? Onde a pérola poderia estar agora? Não é um milagre [que você saiba sobre ela]’? Ele (o lutador) está preocupado e chora. Então, o doutor pacifica o lutador: ‘Não fique sobrecarregado. Quando você lutou, a gema entrou no seu corpo. Ela agora está sob sua pele e pode ser vista, saliente. Conforme você lutou, o veneno da raiva queimou tanto que a gema penetrou no seu corpo e você não a sentiu’. Mas o lutador não compreende as palavras do doutor. ‘Se ela está sob minha pele, como é que ela não sai devido ao sangue impuro e o pus? Se ela está em meus nervos, não podemos de forma alguma vê-la. Por que você tenta enganar-me’? Então, o doutor pega um espelho e o segura em frente ao rosto do lutador. A gema aparece claramente no espelho. O lutador a vê, ficando surpreso e todo maravilhado. É como aquilo. Oh bom homem! O caso é o mesmo com todos os seres. Eles não se aproximam de um bom mestre da Via. Assim, eles não podem ver a Natureza-de-Buda que está dentro deles, muito embora eles a possuam. E eles são regidos pela avareza, a luxúria, a ira e a ignorância. Dessa forma, eles caem nos domínios do inferno, da animalidade, dos espíritos famintos, Ashuras, Candalas e vêm a nascer em diversas casas como as de Kshatriya, Brâhmanes, Vaishya e Sudra. O carma gerado pelo pensamento leva uma pessoa, embora nascida como humana, a viver como aleijado, coxo, surdo, cego ou mudo, e (a leva) às 25 existências, onde a avareza, a luxúria, a ira e a ignorância reinam sobre o pensamento, e a pessoa torna-se inapta para saber da presença da Natureza-de-Buda.

O lutador disse que a gema tinha desaparecido, muito embora ela estivesse no seu corpo. O mesmo também se passa com os seres. Não tendo entrado em contato com um bom mestre da Via, eles não sabem do tesouro escondido do Tathagata e não estudam o altruísmo. Por exemplo, mesmo quando uma pessoa é dita ser de má índole, ela não pode saber a verdadeira qualidade do Eu. O mesmo é verdadeiro com relação aos meus discípulos. Como eles não se aproximam de um bom mestre da Via, eles praticam o não-Eu e não sabem onde ele (o Eu) está. Eles não conhecem a verdadeira natureza do altruísmo. Como, então, poderiam saber a verdadeira natureza do Eu em si? Assim, oh bom homem, o Tathagata diz que todos os seres possuem a Natureza-de-Buda. Isto é como o bom médico fazendo o lutador ver onde a jóia adamantina repousava. Todos os seres são regidos por inumeráveis impurezas e, dessa forma, não sabem o paradeiro da sua Natureza-de-Buda. Quando a ilusão é dissipada, surge o conhecimento e o brilho. Isto é como o caso do lutador vendo a gema no espelho. Oh bom homem! É assim o caso em que aquilo que repousa escondido [latente] no Tathagata é inumerável e é difícil para os seres pensarem a respeito.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 12: Sobre a Natureza do Tathagata.

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