Meditando Sobre o Vazio

“O Bodhisattva Kashyapa disse ao Buda: “Oh Honrado pelo Mundo! O que você entende por Vazio?”

(O Buda disse: ) “Oh bom homem! Sobre Vazio, existem tipos como o interno, o externo, o interno-externo, o Vazio da existência criada, o Vazio do não-criado, o Vazio do sem-início, o Vazio da natureza, o Vazio da não-posse, o Vazio do ‘Paramartha-satya’, o Vazio-Vazio, e o Grande Vazio.

Como o Bodhisattva-Mahasattva experimenta o Vazio interno? Esse Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio dos elementos internos [‘adhyatma-shunyata’]. Isto quer dizer que os elementos internos [os seis sentidos orgânicos] são vazios. Isto significa dizer que não há pais, nem pessoas com má-vontade ou com relações amigáveis, nem que sejam indiferentes, nem seres, vida, Eterno, Êxtase, Eu, Pureza, Tathagata, Dharma, Sangha, e tudo o que é bom. Nesses elementos internos, existe a Natureza-de-Buda. Ainda, essa Natureza-de-Buda existe nem dentro e nem fora. Por que não? Porque a Natureza-de-Buda é eterna e imutável. Isto é o que se entende quando dizemos que o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre elementos internos. O mesmo se aplica no caso do Vazio externo [‘bahirdha-shunyata’: os seis campos dos sentidos]. Nenhum elemento externo existe. O mesmo se passa com o Vazio interno-externo [‘adhyatma-bahirdha-shunyata’]. Oh bom homem! Existem somente o Tathagata, o Dharma, a Sangha, e a Natureza-de-Buda. Isto não possui dois aspectos do Vazio (interno e externo). Por que não? Porque para os quatro (o Tathagata, o Dharma, a Sangha, e a Natureza-de-Buda) (os aspectos) são Eterno, Êxtase, Eu, e Pureza. Este é o porquê não dizemos que esses quatro são vazios. Chamamos isto de Todo-Vazio de ambos, interno e externo.

Oh bom homem! Dizemos ‘o Vazio da existência criada [‘samskrta-shunyata’ – a vacuidade dos fenômenos formados, condiconados e montados]. O que quer que seja criado é todo vazio. Assim, pode haver o Vazio interno, o Vazio externo, o Vazio interno-externo, o Vazio do Eterno, Êxtase, Eu e Pureza, o Vazio da vida, dos seres, do Tathagata, Dharma e Sangha, e do ‘Paramartha-satya’. Destes, a Natureza-de-Buda não é nada criado. Portanto, a Natureza-de-Buda não pertence à categoria do Vazio das existências criadas.

Oh bom homem! Como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio do não-criado [‘asamskrta-shunyata’]? As coisas pertencentes à categoria do não-criado são todas vazias. Elas são chamadas impermanência, sofrimento, a impureza, o não-Eu, os cinco skandhas, os dezoito reinos, as doze esferas, vida, seres, as características, o criado, o falho [‘asvaras’], os elementos internos, e os elementos externos. Do não criado, os quatro que se originam no Buda (o Tathagata, o Dharma, a Sangha, e a Natureza-de-Buda) não são o não-criado. Como a natureza é boa em si, ela não é o não-criado; como ela é eterna, ela não é o criado. Isto é como o Bodhisattva medita sobre o Vazio do não-criado.

Como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio do sem-início [‘anavaragra-shunyata’]? Esse Bodhisattva-Mahasattva vê que o nascimento e a morte são sem-início. Portanto, ele vê que tudo é vazio e quieto. Nós dizemos Vazio. Isto quer dizer que o Eterno, o Êxtase, o Eu, e o Puro são todos vazios e quietos, não há nada que mude. Assim são a vida, os seres, os Três Tesouros, e o não-criado, em todos os quais o Bodhisattva vê o Vazio sem-início.

Como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio da natureza [‘prakrti-shunyata’ – Vacuidade da matéria primordial]? Esse Bodhisattva-Mahasattva vê que a natureza original de todos os elementos é o Todo-Vazio. Esses são os cinco skandas, os 18 reinos, as doze esferas, o Eterno, o não-Eterno, o sofrimento, o Êxtase, a Pureza, a impureza, o Eu, e o não-Eu. Em todas essas coisas, ele vê a não natureza delas mesmas (ou seja, não possuem natureza própria). Isto é como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio da natureza.

Como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio da não-posse? Isto é como falar de uma casa vazia quando não há crianças nela. Ele (o Bodhisattva) ve aqui um vazio extremo. Não há (seres) amigáveis, nem amor. O ignorante diz que em todas as direções o que existe é paz; um homem pobre diz que tudo é vazio. Todas essas presunções são ou vazio ou não-vazio. Quando o Bodhisattva medita, é como com o homem pobre que diz que tudo é vazio. Isto é como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio da não-posse.

Como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre ‘Paramartha-shunyata’ [Vazio da Realidade Última]? Oh bom homem! Quando o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre ‘Paramartha’, ele vê que quando essa visão (olho) surge, fá-lo de lugar nenhum; quando ela se vai, vai para lugar nenhum. O que originalmente não era, agora é; o que foi, volta para lugar nenhum. Quando olhamos dentro da natureza real, vemos que o que existe é sem-visão e sem-guia. Todas as outras coisas são como no caso da visão. O que é o Vazio da ‘Paramartha’? É a visão de que existe ação e o resultado da mesma, mas não um autor (da ação). Essa doutrina da vacuidade é o Vazio da ‘Paramartha’. Isto é como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio da ‘Paramartha’.

Como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio-Vazio? Esse Vazio-Vazio é onde os Sravakas e Pratyekabudas se perdem. Oh bom homem! Isto é ‘é’ e isto é ‘não-é’. Isso é o Vazio-Vazio. Isto-é-isto; e isto não é ‘isto-é-isto’. Isso é o Vazio-Vazio. Oh bom homem! O Bodhisattva dos dez ‘bhumis’ [estágios] está apto a saber apenas um pouco disto, que pode ser bem comparado ao tamanho de uma partícula-de-pó. Quão menos deve ser com os outros! Oh bom homem! Assim, o Vazio-Vazio não é igual ao samadhi do Vazio-Vazio dos Sravakas. Esse é o Vazio-Vazio sobre o qual medita o Bodhisattva.

Oh bom homem! Como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Grande Vazio? Oh bom homem! O Grande Vazio é o prajnaparamita [Sabedoria Perfeita]. Este é o Grande Vazio. Oh bom homem! Atingindo esse portal do Vazio, o Bodhisattva-Mahasattva reside num ‘bhumi’ (estágio) igual ao espaço.

Oh bom homem! Como eu agora, aqui em meio aos congregados, falo sobre todos esses tipos de Vazio, Bodhisattvas-Mahasattvas tão numerosos quanto às areias de dez Rios Ganges estarão aptos a ganhar o ‘bhumi’ igual ao espaço. Residindo nesse ‘bhumi’, nada obstaculiza o Bodhisattva-Mahasattva em nada; nenhum apego o prende e nenhuma angústia toma conta da sua mente. Portanto, chamamo-lo ‘bhumi’ igual ao espaço. Oh bom homem! Como uma ilustração, isto é como com o espaço, que não se apega avidamente a qualquer cor agradável e não se torna irado com uma cor que seja desagradável. O mesmo acontece com o Bodhisattva-Mahasattva que reside nesse ‘bhumi’. Nenhum pensamento de desejo ou ira surge com relação às boas ou más cores. Oh bom homem! Isto é como o espaço, que é vasto e grande, nada se igualando a ele, abrangendo todas as coisas. É o mesmo com o Bodhisattva-Mahasattva residindo nesse ‘bhumi’. Ele é vasto e grande, tal que nada pode suportar uma comparação com ele, e ele pode de fato abranger todas as coisas. Por essa razão, podemos verdadeiramente chamá-lo de ‘bhumi’ igual ao espaço. Oh bom homem! Quando o Bodhisattva-Mahasattva reside neste ‘bhumi’, ele pode ver e conhecer todos os seres. Sejam ações, fatores circunstanciais, a natureza e características [das coisas], causas, por causas (razões), os pensamentos dos seres, as raízes-dos-sentidos, dhyana, veículo, bons amigos da Via, observância dos preceitos, ou o que é dado (ofertado) – tudo é visto ou conhecido.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 22 – Sobre Ações Puras 2.

Por muccamargo

Físico, Mestre em Tecnologia Nuclear USP/SP-Brasil, Consultor de Geoprocessamento, Estudioso do Budismo desde 1987.

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