Meditando Sobre o Vazio

“O Bodhisattva Kashyapa disse ao Buda: “Oh Honrado pelo Mundo! O que você entende por Vazio?”

(O Buda disse: ) “Oh bom homem! Sobre Vazio, existem tipos como o interno, o externo, o interno-externo, o Vazio da existência criada, o Vazio do não-criado, o Vazio do sem-início, o Vazio da natureza, o Vazio da não-posse, o Vazio do ‘Paramartha-satya’, o Vazio-Vazio, e o Grande Vazio.

Como o Bodhisattva-Mahasattva experimenta o Vazio interno? Esse Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio dos elementos internos [‘adhyatma-shunyata’]. Isto quer dizer que os elementos internos [os seis sentidos orgânicos] são vazios. Isto significa dizer que não há pais, nem pessoas com má-vontade ou com relações amigáveis, nem que sejam indiferentes, nem seres, vida, Eterno, Êxtase, Eu, Pureza, Tathagata, Dharma, Sangha, e tudo o que é bom. Nesses elementos internos, existe a Natureza-de-Buda. Ainda, essa Natureza-de-Buda existe nem dentro e nem fora. Por que não? Porque a Natureza-de-Buda é eterna e imutável. Isto é o que se entende quando dizemos que o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre elementos internos. O mesmo se aplica no caso do Vazio externo [‘bahirdha-shunyata’: os seis campos dos sentidos]. Nenhum elemento externo existe. O mesmo se passa com o Vazio interno-externo [‘adhyatma-bahirdha-shunyata’]. Oh bom homem! Existem somente o Tathagata, o Dharma, a Sangha, e a Natureza-de-Buda. Isto não possui dois aspectos do Vazio (interno e externo). Por que não? Porque para os quatro (o Tathagata, o Dharma, a Sangha, e a Natureza-de-Buda) (os aspectos) são Eterno, Êxtase, Eu, e Pureza. Este é o porquê não dizemos que esses quatro são vazios. Chamamos isto de Todo-Vazio de ambos, interno e externo.

Oh bom homem! Dizemos ‘o Vazio da existência criada [‘samskrta-shunyata’ – a vacuidade dos fenômenos formados, condiconados e montados]. O que quer que seja criado é todo vazio. Assim, pode haver o Vazio interno, o Vazio externo, o Vazio interno-externo, o Vazio do Eterno, Êxtase, Eu e Pureza, o Vazio da vida, dos seres, do Tathagata, Dharma e Sangha, e do ‘Paramartha-satya’. Destes, a Natureza-de-Buda não é nada criado. Portanto, a Natureza-de-Buda não pertence à categoria do Vazio das existências criadas.

Oh bom homem! Como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio do não-criado [‘asamskrta-shunyata’]? As coisas pertencentes à categoria do não-criado são todas vazias. Elas são chamadas impermanência, sofrimento, a impureza, o não-Eu, os cinco skandhas, os dezoito reinos, as doze esferas, vida, seres, as características, o criado, o falho [‘asvaras’], os elementos internos, e os elementos externos. Do não criado, os quatro que se originam no Buda (o Tathagata, o Dharma, a Sangha, e a Natureza-de-Buda) não são o não-criado. Como a natureza é boa em si, ela não é o não-criado; como ela é eterna, ela não é o criado. Isto é como o Bodhisattva medita sobre o Vazio do não-criado.

Como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio do sem-início [‘anavaragra-shunyata’]? Esse Bodhisattva-Mahasattva vê que o nascimento e a morte são sem-início. Portanto, ele vê que tudo é vazio e quieto. Nós dizemos Vazio. Isto quer dizer que o Eterno, o Êxtase, o Eu, e o Puro são todos vazios e quietos, não há nada que mude. Assim são a vida, os seres, os Três Tesouros, e o não-criado, em todos os quais o Bodhisattva vê o Vazio sem-início.

Como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio da natureza [‘prakrti-shunyata’ – Vacuidade da matéria primordial]? Esse Bodhisattva-Mahasattva vê que a natureza original de todos os elementos é o Todo-Vazio. Esses são os cinco skandas, os 18 reinos, as doze esferas, o Eterno, o não-Eterno, o sofrimento, o Êxtase, a Pureza, a impureza, o Eu, e o não-Eu. Em todas essas coisas, ele vê a não natureza delas mesmas (ou seja, não possuem natureza própria). Isto é como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio da natureza.

Como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio da não-posse? Isto é como falar de uma casa vazia quando não há crianças nela. Ele (o Bodhisattva) ve aqui um vazio extremo. Não há (seres) amigáveis, nem amor. O ignorante diz que em todas as direções o que existe é paz; um homem pobre diz que tudo é vazio. Todas essas presunções são ou vazio ou não-vazio. Quando o Bodhisattva medita, é como com o homem pobre que diz que tudo é vazio. Isto é como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio da não-posse.

Como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre ‘Paramartha-shunyata’ [Vazio da Realidade Última]? Oh bom homem! Quando o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre ‘Paramartha’, ele vê que quando essa visão (olho) surge, fá-lo de lugar nenhum; quando ela se vai, vai para lugar nenhum. O que originalmente não era, agora é; o que foi, volta para lugar nenhum. Quando olhamos dentro da natureza real, vemos que o que existe é sem-visão e sem-guia. Todas as outras coisas são como no caso da visão. O que é o Vazio da ‘Paramartha’? É a visão de que existe ação e o resultado da mesma, mas não um autor (da ação). Essa doutrina da vacuidade é o Vazio da ‘Paramartha’. Isto é como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio da ‘Paramartha’.

Como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Vazio-Vazio? Esse Vazio-Vazio é onde os Sravakas e Pratyekabudas se perdem. Oh bom homem! Isto é ‘é’ e isto é ‘não-é’. Isso é o Vazio-Vazio. Isto-é-isto; e isto não é ‘isto-é-isto’. Isso é o Vazio-Vazio. Oh bom homem! O Bodhisattva dos dez ‘bhumis’ [estágios] está apto a saber apenas um pouco disto, que pode ser bem comparado ao tamanho de uma partícula-de-pó. Quão menos deve ser com os outros! Oh bom homem! Assim, o Vazio-Vazio não é igual ao samadhi do Vazio-Vazio dos Sravakas. Esse é o Vazio-Vazio sobre o qual medita o Bodhisattva.

Oh bom homem! Como o Bodhisattva-Mahasattva medita sobre o Grande Vazio? Oh bom homem! O Grande Vazio é o prajnaparamita [Sabedoria Perfeita]. Este é o Grande Vazio. Oh bom homem! Atingindo esse portal do Vazio, o Bodhisattva-Mahasattva reside num ‘bhumi’ (estágio) igual ao espaço.

Oh bom homem! Como eu agora, aqui em meio aos congregados, falo sobre todos esses tipos de Vazio, Bodhisattvas-Mahasattvas tão numerosos quanto às areias de dez Rios Ganges estarão aptos a ganhar o ‘bhumi’ igual ao espaço. Residindo nesse ‘bhumi’, nada obstaculiza o Bodhisattva-Mahasattva em nada; nenhum apego o prende e nenhuma angústia toma conta da sua mente. Portanto, chamamo-lo ‘bhumi’ igual ao espaço. Oh bom homem! Como uma ilustração, isto é como com o espaço, que não se apega avidamente a qualquer cor agradável e não se torna irado com uma cor que seja desagradável. O mesmo acontece com o Bodhisattva-Mahasattva que reside nesse ‘bhumi’. Nenhum pensamento de desejo ou ira surge com relação às boas ou más cores. Oh bom homem! Isto é como o espaço, que é vasto e grande, nada se igualando a ele, abrangendo todas as coisas. É o mesmo com o Bodhisattva-Mahasattva residindo nesse ‘bhumi’. Ele é vasto e grande, tal que nada pode suportar uma comparação com ele, e ele pode de fato abranger todas as coisas. Por essa razão, podemos verdadeiramente chamá-lo de ‘bhumi’ igual ao espaço. Oh bom homem! Quando o Bodhisattva-Mahasattva reside neste ‘bhumi’, ele pode ver e conhecer todos os seres. Sejam ações, fatores circunstanciais, a natureza e características [das coisas], causas, por causas (razões), os pensamentos dos seres, as raízes-dos-sentidos, dhyana, veículo, bons amigos da Via, observância dos preceitos, ou o que é dado (ofertado) – tudo é visto ou conhecido.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 22 – Sobre Ações Puras 2.

Compreendendo o Vazio

O Buda então disse à multidão de Bodhisattvas Mahasattvas: “Basta! Bons homens, vocês não necessitam proteger e manter este Sutra. Por que não? Dentro deste meu mundo Saha há Bodhisattvas Mahasattvas iguais em número às areias de sessenta mil Rios Ganges, tendo cada um deles um séqüito igual em número às areias de sessenta mil Rios Ganges. Após a minha extinção, todos eles protegerão, ostentarão, lerão, recitarão e proclamarão vastamente este Sutra[1]”.

Tão logo o Buda disse isto, nos três mil grandes sistemas de mundos do Mundo Saha a terra tremeu e abriu-se, e do seu interior ilimitadas dezenas de bilhões de Bodhisattvas Mahasattvas emergiram simultaneamente. Todos aqueles Bodhisattvas possuíam os corpos da cor dourada, as trinta e duas marcas distintivas, e inconcebível luz. Eles residiam sob o Mundo Saha, no espaço vazio pertencente a este mundo[2]. Ouvindo o som da voz do Buda Shakyamuni, todos aqueles Bodhisattvas vieram de baixo.


[1] Merece destaque a expressão “Dentro deste meu mundo Saha”. Neste momento, mesmo diante dos insistentes apelos dos Bodhisattvas Mahasattvas vindos das terras das outras direções; e mesmo diante do seu voto de “com um sempre crescente vigor, proteger, manter, ler, recitar, copiar e fazer oferecimentos a este Sutra, e o proclamar longínqua e amplamente através desta terra”, o Buda não lhes dá a incumbência de levar ao cabo esta tarefa, fazendo menção aos numerosos Bodhisattvas Mahasattvas deste seu mundo Saha. Com relação a esses Bodhisattvas da Terra o Buda afirma: “Após a minha extinção, todos eles protegerão, ostentarão, lerão, recitarão e proclamarão vastamente este Sutra”.

[2]espaço vazio pertencente a este mundo”, neste sentido, denota o vácuo imponderável donde emerge a fenomenologia do mundo tríplice. A ciência de hoje, sem poder descrevê-lo ou mensurá-lo, trata essa dimensão simplesmente como “vácuo” ou “campo primordial”.

Excerto do CAP. 15: Emergindo da Terra, pág. 271.

As Três Grandes Distinções e o Mestre da Lei

“Se uma pessoa, após a minha passagem à extinção,

puder reverentemente manter este Sutra,

suas bênçãos serão ilimitadas,

como acima descrevi[1].

Porque então, ela completará todas as formas de oferecimentos,

e construirá torres votivas às relíquias adornadas com os sete tesouros,

torres altas e amplas, alcançando os Céus Brahma,

ornamentadas com milhões e milhões de sinos cravejados de jóias,

emitindo sons maravilhosos ao vento.

E também, ao longo de ilimitados kalpas,

aquela pessoa fará oferecimentos, a esta torre,

de flores, incenso, contas,

trajes celestiais e todas as variedades de música.

Ela queimará óleos fragrantes em lamparinas,

reluzindo brilhantemente todo o seu redor.

Numa era de maldade, durante o crepúsculo da Lei,

aquela pessoa poderá manter este Sutra,

e poderá então, como mencionado acima,

realizar todos aqueles oferecimentos.

Se uma pessoa puder manter este Sutra,

será como se, na presença do próprio Buda,

ela usasse sândalo cabeça-de-boi para construir aposentos para a Sangha,

como um oferecimento a eles.

Esses trinta e dois salões,

medindo oito árvores tala na altura,

repletos de finas iguarias, indumentárias e aposentos,

onde centenas de milhares possam se acomodar,

serão amplamente adornados com jardins,

bosques, lagos para banho,

trilhas e grutas para a meditação dhyana.

 

Ela poderá, com fé e compreensão,

receber, manter, ler, recitar e escrever,

ou requisitar a outros escreverem,

e fazer oferecimentos a este Sutra,

espalhando flores, incenso e pós perfumados,

e constantemente queimar óleos fragrantes em lamparinas,

feitos de sumana, champaka e atimuktaka.

Aquele que fizer tais oferecimentos obterá ilimitados méritos e virtudes.

Assim como o espaço vazio é infinito,

assim serão suas bênçãos[2].

 

Muito maior é o mérito daquele que mantém este Sutra,

mas que também pratica a doação, observa preceitos,

que é paciente e deleita-se no samadhi dhyana,

que nunca é odioso ou mal-falado,

e que é reverente nas torres e templos,

humilde para com os Monges, livre de arrogância,

e sempre meditando sobre a sabedoria.

Essa pessoa poderá refrear a ira quando indagado sobre questões difíceis,

e será complacente quando fizer explanações.

Aquele que puder desenvolver tais práticas terá ilimitados méritos e virtudes[3].

 

Se virmos um Mestre da Lei dotado de virtudes como estas,

deveríamos espalhar flores celestiais e oferecer-lhe trajes celestiais,

curvarmos com as nossas cabeças aos seus pés,

e considerá-lo como se fosse um Buda.

Deveríamos ainda pensar:

‘Tão logo ele chegue ao Bodhimanda,

atingirá a sabedoria sem falhas e incondicional,

e beneficiará amplamente seres celestiais e humanos’.

Onde quer que tal pessoa esteja,

andando, sentada ou reclinada,

ou pregando mesmo que um simples verso,

deveríamos construir uma torre,

maravilhosamente fina e adornada,

e fazer-lhe todos os tipos de oferecimentos.

O discípulo do Buda, residindo neste lugar,

o considerará como se fosse o Buda,

sempre perseverando nisto,

andando, sentando ou reclinando”.

 


[1] Primeira distinção dos benefícios. Refere-se a escolher este Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa dentre os demais ensinos.

[2] Segunda distinção dos benefícios. Refere-se a quem elege o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa dentre os outros ensinos e ainda o propaga e lhe faz oferecimentos.

[3] Terceira distinção dos benefícios. Refere-se aos que elegem o Sutra de Lótus dentre os outros ensinos, o promovem, fazem-lhe oferecimentos e se conduzem exemplarmente como descrito.

Extraído do CAP. 17: Distinção dos Méritos e Virtudes.

Mestre da Lei
Foto de Marcos Ubirajara. Local: Sítio da Dôra em 15/09/2007.

O Médico Excelente

“É como se existisse um bom médico, sábio e bem versado nas artes medicinais, inteligente e habilidoso na cura de uma infinidade de doenças. Este homem também tem muitos filhos, talvez dez, vinte ou mesmo cem. Então, solicitado pela clientela distante, ele viaja para um longínquo país estrangeiro. Neste ínterim, as crianças tomam algum veneno, que lhes faz rolar no chão em delírio”.

 “Apenas então seu pai retorna para casa. Em razão de terem tomado veneno, alguns dos filhos perderam os sentidos, enquanto outros não. Vendo seu pai à distância, ficaram todos muito felizes. Eles curvaram-se para ele, ajoelharam e depois lhe informaram: ‘Seja bem-vindo em paz e segurança. Em razão de nossa tolice, tomamos algum veneno por engano. Rogamos que nos recupere, cure-nos, e devolva-nos nossas vidas’”.

 “Vendo seus filhos em tal agonia, o pai consultou suas receitas médicas e então procurou por finas ervas, boas na cor, no aroma e no sabor. Ele então as moeu, peneirou-as, misturou-as e deu aquele composto para seus filhos tomarem. E disse-lhes: ‘Este é um excelente remédio de boa cor, aroma e sabor. Tomem-no. Sua agonia será aliviada, e não sofrerão mais tormento’. Alguns entre as crianças não haviam perdido seu sentido. Vendo aquele fino remédio com sua boa cor e aroma, imediatamente tomaram-no e sua doença foi curada completamente”.

“Embora os outros que haviam perdido os seus sentidos tenham se alegrado com a chegada do seu pai, tendo indagado sobre o seu bem-estar e procurado a cura para a sua enfermidade, recusaram-se a tomar o remédio. Qual a razão? O veneno havia penetrado-lhes tão profundamente que eles tiveram a perda dos seus sentidos, e assim diziam que o remédio de boa cor e aroma não era bom[1]”.

 “O pai então pensou: ‘quão lamentáveis são estas crianças! O veneno confundiu seus pensamentos. Embora tenham se alegrado em ver-me e me solicitado que os recuperasse e curasse, ainda assim recusam um remédio tão bom como este. Devo agora utilizar-me de um meio hábil para induzi-los a tomar este remédio’. Imediatamente ele disse: ‘Saibam que já estou velho e fraco, e minha morte está próxima. Deixarei aqui este bom remédio para seu benefício. Não tenham preocupações de que ele não os curará’. Tendo instruído-lhes dessa maneira, ele então retornou para aquele longínquo país estrangeiro e de lá enviou um mensageiro para anunciar: ‘Seu pai morreu’”.

 “Quando as crianças ouviram que seu pai havia morrido, seus corações encheram-se de dor, e eles pensaram: ‘se nosso pai estivesse aqui, ele seria compassivo, sentiria piedade de nós, e teríamos um salvador e protetor. Agora ele abandonou-nos ao morrer num outro país, deixando-nos órfãos, e sem ninguém em quem confiar’. Constantemente sofrendo, suas mentes então despertaram. Eles compreenderam que aquele remédio possuía boa cor, aroma e sabor. Tomaram-no imediatamente, e sua doença por envenenamento foi completamente curada. O pai, ouvindo que seus filhos tinham sido completamente curados, então retornou e todos eles viram-no[2]”.

 “Bons homens, o que pensam, poderíamos dizer que este bom médico cometeu a ofensa do falso testemunho”?

 “Não, Honrado pelo Mundo”.


[1] Naqueles filhos que se encontravam fora de si, surgiu o obstáculo da dúvida. Esse remédio é a fé na verdade subjacente aos ensinos deste Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa. O Buda lhe confere atributos físicos como cor, fragrância e sabor apenas como um meio hábil para explicar a excelência do remédio.

[2] Semelhante fato ocorre com as pessoas que procuram os verdadeiros ensinos do Buda, os encontram neste Sutra, mas continuam atribuladas com as questões mundanas. Enquanto isto ocorre, o Buda permanece oculto. Isto significa que o único Buda que uma pessoa pode “ver” é aquele que reside no espaço vazio sob si mesma, em seu próprio âmago. Neste sentido, “desejar ver o Buda” significa desejar “tornar-se um receptáculo da Lei” (Corpo de Dharma) ou desejar “vir a ser Buda” (o Bodhisattva). Este é o verdadeiro e único portal do Grande Veículo, da Via recíproca que, em uma direção, faz penetrar a sabedoria do Buda e, na direção recíproca, representa o advento do Buda neste mundo (03/12/2005 – 05h30min).

Extraído do CAP. 16: A Duração da Vida do Tathagata.

O Segredo do Tathagata

Naquela ocasião, o Buda falou aos Bodhisattvas e a toda grande assembléia, dizendo: “Bons Homens, vocês devem entender e compreender as sinceras e verdadeiras palavras do Tathagata”. Uma vez mais ele disse à grande assembléia: “Vocês devem entender e compreender as sinceras e verdadeiras palavras do Tathagata”. E novamente disse à grande assembléia: “Vocês devem entender e compreender as sinceras e verdadeiras palavras do Tathagata”.

Então todos na grande assembléia de Bodhisattvas, liderados por Maitreya, juntaram as palmas de suas mãos e falaram ao Buda, dizendo: “Honrado pelo Mundo, somente rogamos que fale. Entenderemos e aceitaremos as palavras do Buda”. Eles repetiram isto por três vezes.

Novamente eles disseram: “Somente rogamos que fale. Entenderemos e aceitaremos as palavras do Buda”.

Naquele momento o Honrado pelo Mundo, sabendo que os Bodhisattvas não parariam após o terceiro apelo, falou-lhes, dizendo: “Devem ouvir atentamente. O poder das penetrações espirituais do Tathagata é reconhecido por todos os seres celestiais, humanos e asuras no mundo. Eles dizem que o Buda Shakyamuni, tendo deixado o palácio do Clã dos Shakyas e tendo ido a um lugar não muito distante da cidade de Gaya para sentar no Bodhimanda, atingiu então o Anuttara-Samyak-Sambodhi. Todavia, bons homens, eu de fato atingi o Estado de Buda há ilimitados, incomensuráveis centenas de milhares de miríades de kotis de nayutas de kalpas atrás[1]”.

“Suponha que uma pessoa triturasse as terras de cinco centenas de milhares de miríades de kotis de nayutas de asamkhyas de três mil grandes sistemas de mundos, transformando-as em minúsculas partículas de pó. Então, suponha que ela viajasse para o leste atravessando cinco centenas de milhares de miríades de kotis de nayutas de asamkhyas de terras, e em cada uma delas depositasse uma partícula de pó. Suponha que ela continuasse, dessa forma, viajando para leste, até que todas as partículas de pó terminassem”.

“Bons homens, o que vocês pensam? Poderia o número de mundos pelos quais aquela pessoa passou ser calculado, imaginado ou contado”?

O Bodhisattva Maitreya e todos os outros disseram ao Buda: “Honrado pelo Mundo, aqueles sistemas de mundos seriam ilimitados, incomensuráveis, para além do cálculo e para além do poder da imaginação conhecê-los. Todos os Ouvintes e Pratyekabudas, usando sua sabedoria sem falhas, não poderiam concebê-los ou conhecer o seu limite ou número. Embora estejamos agora no estado de Avaivartika[2], não podemos compreender este assunto, Honrado pelo Mundo, e dessa forma, para nós, tal sistema de mundos seria ilimitado e incomensurável”.

Naquele momento o Buda falou às grandes multidões de Bodhisattvas, dizendo: “Bons homens, explicarei isto claramente para vocês agora. Se todos aqueles sistemas de mundos, quer uma partícula de pó tenha sido depositada neles ou não, fossem reduzidos a partículas novamente, e se cada partícula fosse um kalpa, o tempo que se passou desde que tornei-me um Buda excederia aquele por centenas de milhares de miríades de kotis de nayutas de asamkhyas de kalpas”.

“Desde aquele tempo, tenho permanecido sempre no Mundo Saha, pregando a Lei para ensinar e converter os seres. Também em outros lugares, em centenas de milhares de miríades de kotis de nayutas de asamkhyas de terras, tenho conduzido e beneficiado os seres viventes”.

“Bons homens, durante aquele período que se passou, eu preguei sobre o Buda Tocha Ardente e outros, além disso, preguei sobre como eles entraram no Nirvana; mas aquelas foram distinções feitas apenas como meios hábeis[3]”.


[1] Este é o segredo do Tathagata. Deve-se observar que o Buda refere-se a “seres celestiais, humanos e asuras no mundo”, ou seja, seres das oito direções, de onde surgiu a multidão de Bodhisattvas presentes na assembléia e liderados por Maitreya. O Buda, nesta passagem, não se dirige à multidão de Bodhisattvas que emergiram do espaço vazio sob o mundo Saha, cujo aparecimento suscitou a dúvida da grande assembléia. Aqueles, chamados Bodhisattvas da Terra, conhecem a Verdade que está para ser revelada.

[2] Avaivartika significa estado de não-regressão.

[3] Ou seja, distinções feitas acerca da Verdade Única que está sendo revelada. Todos aqueles Budas eram emanações do Buda Original e as formas como eles entraram no Nirvana foram meios hábeis utilizados pelo Buda quando ainda não era chegado o tempo para a revelação do segredo da eternidade da vida do Tathagata. “Durante aquele período que se passou” refere-se também às pregações anteriores contidas neste próprio Sutra de Lótus.

Extraído do CAP. 16: A Duração da Vida do Tathagata.

Os Bodhisattvas Originais do Grande Veículo

Naquela ocasião, o Honrado pelo Mundo, desejando enfatizar estes princípios, disse versos:

“Sejam todos diligentes e de um único pensamento,

porque desejo explanar sobre este assunto.

Não alimentem dúvidas ou pesares.

A sabedoria dos Budas é inconcebível.

Agora devem, portanto, utilizar o poder da fé,

e perseverar na paciência e benevolência,

para uma Lei que desde o remoto passado nunca foi ouvida,

e que vocês agora estão para ouvir.

Estou encorajando-lhes agora,

assim não tenham dúvidas ou receios.

Os Budas nunca pregam falsidades,

e sua sabedoria não pode ser medida.

Aquela Lei Suprema que eles obtiveram é extremamente profunda, além do discernimento.

Como tal, ela agora será explanada,

devendo todos ouvir em pensamento único”.

O Honrado pelo Mundo, tendo recitado estes versos, então disse ao Bodhisattva Maitreya: “Nesta grande assembléia, farei agora este anúncio para todos vocês: Ajita! Esses incalculáveis asamkhyas de grandes Bodhisattvas Mahasattvas, que emergiram da terra e a quem vocês nunca viram antes, são aqueles a quem ensinei, converti e conduzi neste Mundo Saha após ter atingido o Anuttara-Samyak-Sambodhi. Eu domei e dominei os pensamentos desses Bodhisattvas, fazendo-lhes tomar a decisão pela Via. Todos esses Bodhisattvas vivem no espaço vazio sob o Mundo Saha. Eles leram e recitaram todos os Sutras até penetrarem-lhes completamente. Eles ponderaram seus significados em detalhes e estão devidamente cientes deles”.

 “Ajita! Todos esses bons homens não se deleitam em permanecer com as multidões ou em muita conversa. Eles sempre apreciam viver em lugares quietos onde praticam com diligência e vigor, nunca descansando. Eles não aceitam residir com humanos ou seres celestiais[1]. Eles sempre se deleitam na profunda sabedoria e não têm obstáculos. Eles também sempre se deleitam nas Leis de todos os Budas. Com diligência e pensamento único, eles buscam a suprema sabedoria”.


[1] Então, esses Bodhisattvas Mahasattvas somente aceitam manifestar-se como Bodhisattvas nos mundos das oito direções; ou seja, aqueles Bodhisattvas dos mundos das oito direções, à semelhança dos Budas, são emanações desses Bodhisattvas Originais, são transitórios e impermanentes.

Extraído do CAP. 15: Emergindo da Terra

O Poder do Leão dos Shakyas

Naquele momento todos os Budas que eram emanações do Buda Shakyamuni, que haviam chegado de ilimitados milhares de miríades de kotis de terras das outras direções[1], sentaram na postura de lótus nos tronos de leão sob as árvores de jóias através das oito direções. Os assistentes daqueles Budas, vendo esta grande assembléia de Bodhisattvas de três mil grandes sistemas de mundos emergindo da terra nas quatro direções e estabelecendo-se no espaço, cada um disse ao seu respectivo Buda: “Honrado pelo Mundo, de onde vieram todos esses ilimitados, incomensuráveis asamkhyas de Bodhisattvas nesta grande multidão”?

Cada um daqueles Budas então disse ao seu assistente: “Todos vocês, bons homens, aguardem apenas um momento! Há um Bodhisattva Mahasattva chamado Maitreya, a quem o Buda Shakyamuni concedeu uma profecia de que ele será o próximo Buda. Ele já indagou sobre este assunto, e o Buda está para responder-lhe. Por esta razão, todos vocês devem ouvi-lo a respeito”.

O Buda Shakyamuni então disse ao Bodhisattva Maitreya: “Excelente, excelente, Ajita, que você possa indagar o Buda sobre tão importante assunto. Todos vocês devem em pensamento único vestir a armadura da diligência e tomar uma firme resolução. O Tathagata agora deseja descortinar e proclamar a sabedoria de todos os Budas, o poder da soberania e das penetrações espirituais de todos os Budas, o poder do leão no ataque de todos os Budas, e o poder da extraordinária coragem e poderosa força de todos os Budas”.


[1] Quando no CAP. 11 – Aparecimento da Torre de Tesouro o Buda purifica as terras búdicas, ele o faz nas 8(oito) direções, que vão do estado de inferno ao estado de absorção, nomeadamente: inferno, fome, animalidade, ira, tranqüilidade, alegria, erudição e absorção. Todos esses Budas que são suas emanações, que se originam destas direções, são Budas transitórios de terras impuras. As duas direções remanescentes (Bodhisattva e Buda) apontam para o “espaço vazio” sob o mundo Saha, que tudo detém em sua essência imponderável. Esses Bodhisattvas da Terra, assim chamados, emergem do “mundo” do Buda do remoto passado através dos seus poderes transcendentais. Eles residem no estado de pureza absoluta e não poderiam ser conhecidos ou vistos pelos Budas e Bodhisattvas das 8(oito) direções, onde toda a fenomenologia é transitória e impermanente, a não ser através dos poderes do Buda do tempo sem começo.

Extraído do CAP. 15: Emergindo da Terra

O Emergir dos Bodhisattvas da Terra

Tão logo o Buda disse isto, nos três mil grandes sistemas de mundos do Mundo Saha a terra tremeu e abriu-se, e do seu interior ilimitadas dezenas de bilhões de Bodhisattvas Mahasattvas emergiram simultaneamente. Todos aqueles Bodhisattvas possuíam os corpos da cor dourada, as trinta e duas marcas distintivas, e inconcebível luz. Eles residiam sob o Mundo Saha, no espaço vazio pertencente a este mundo[1]. Ouvindo o som da voz do Buda Shakyamuni, todos aqueles Bodhisattvas vieram de baixo.


[1]espaço vazio pertencente a este mundo”, neste sentido, denota o vácuo imponderável donde emerge a fenomenologia do mundo tríplice. A ciência de hoje, sem poder descrevê-lo ou mensurá-lo, trata essa dimensão simplesmente como “vácuo” ou “campo primordial”.

Extraído do CAP. 15: Emergindo da Terra

A Proteção Que Vem do Vazio

“Além disso, Manjushri, na futura era dos últimos dias, quando a Lei estiver para extinguir-se, o Bodhisattva Mahasattva que ostenta o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa nutrirá sentimentos de grande benevolência tanto por aqueles que vivem em seus lares como por aqueles que deixaram seus lares. Ele também sentirá grande compaixão por aqueles que não são Bodhisattvas”.

 “Ele pensará: ‘Para pessoas assim falta uma grande motivação. Embora o Tathagata pregue a Lei habilmente e apropriadamente, eles não ouvem, entendem, ou despertam para ela. Eles não indagam no sentido de compreendê-la ou entendê-la. Embora essas pessoas não indaguem para compreender ou entender este Sutra, ainda assim, quando eu atingir o Anuttara-Samyak-Sambodhi, onde quer que eles surjam, usarei o poder das penetrações espirituais e o poder da sabedoria para levá-los a permanecer dentro desta Lei’”.

 “Manjushri, após o Nirvana do Tathagata, o Bodhisattva Mahasattva que mantiver isto em observância, a quarta regra, será livre de erros quando pregar esta Lei. Ele sempre receberá oferecimentos e será reverenciado, honrado e elogiado por Monges, Monjas, Leigos, Leigas, reis, príncipes, altos ministros, pessoas do povo, Brahmans, magistrados, e assim por diante. Os deuses do espaço vazio sempre o acompanharão e o servirão com o objetivo de ouvir a Lei. Se nas vilas ou cidades, selvas ou florestas, alguém desejando formular questões difíceis se aproximar dele, todos os deuses, em benefício da Lei, o protegerão dia e noite e, assim, ele fará com que os ouvintes se alegrem”.

 “Por que isto? Este Sutra é protegido pelos poderes espirituais de todos os Budas do passado, do presente e do futuro[1]”.

 “Manjushri, através de ilimitados kalpas, não é possível sequer ouvir o nome do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, muito menos ver, receber, manter, ler ou recitá-lo”.

 


[1] Significando que o fato do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa estar protegido pelos poderes espirituais de todos os Budas das três existências, torna igualmente protegidos todos os Bodhisattvas Mahasattvas que levem a cabo o conjunto de regras para a prática bem-sucedida e que, assim, não incorrem em erros ao ensinar a Lei.

Extraído do CAP. 14: Conduta para a Prática Bem-Sucedida.

A Proteção que Vem do Vazio
Foto de Dôra. Local: Sítio da Dôra em Abril/2007.

Cristal Perfeito

Cristal Perfeito[1]

 

É a residência eterna do Buda,

que toma o assento no espaço vazio[2],

sob a Grande Árvore, o Bodhisattva[3],

neste mundo Saha.

 


[1] Em 05/06/2007, às 05:30 hs.

[2] No CAP. 11 – O Aparecimento da Torre de Tesouro – o Buda diz em sua preleção sobre “entrar no quarto do Tathagata, vestir o robe do Tathagata e tomar o assento do Tathagata”, que essa última condição (tomar o assento do Tathagata) significa residir no espaço vazio.

Flor de Lotus
Foto de Marcos Ubirajara. Local: Sítio da Dôra em Maio/2007.

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