O Buda Deixa Kapilavastu

Rahula foi com seu pai, e Gopa alegrou-se. O rei Suddhodana, somente, ficou triste: sua família estava lhe abandonando! Ele não poderia deixar de falar o seu sentimento para o Mestre.

“Não sofra”, respondeu o Mestre, “pois grande é o tesouro que compartilharão aqueles que ouvirem minhas palavras e seguirem-me! Suporte a sua dor em silêncio; seja como o elefante ferido em batalha pelas lanças do inimigo: ninguém ouve a sua queixa. Reis montam na batalha sobre elefantes que estão sob absoluto controle; no mundo, o grande homem é aquele que aprendeu a controlar-se, o homem que suporta a sua dor em silêncio. Aquele que é verdadeiramente humilde, que doma (refreia) suas paixões como se doma cavalos selvagens, é invejado pelos Deuses. Ele não comete o mal. Nem nas cavernas da montanha, e nem nas grutas oceânicas, pode-se escapar das conseqüências de uma má ação; elas (as más ações) o seguem; elas fustigam-lhe; elas levam-no à loucura, pois não lhe dão paz! Mas se você faz o bem, quando você deixar a terra as suas boas ações lhe saudarão, como amigos após o seu regresso de uma viagem. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos sem ódio num mundo cheio de ódio. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos sãos num mundo cheio de doenças. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos incansáveis num mundo cheio de cansaço. Vivemos em perfeita felicidade, nós que nada possuímos. Alegria é a nossa comida, e somos como Deuses radiantes. O monge que vive em solidão preserva uma alma que é cheia de paz; ele contempla a verdade com um olhar límpido e calmo, e desfruta de uma felicidade desconhecida pelos mortais comuns.”

Tendo consolado o Rei Suddhodana com essas palavras, o Bem-Aventurado deixou Kapilavastu e retornou à Rajagriha.

Monte Gridhrakuta

Monte Gridhrakuta em Rajagriha. Click na imagem para post de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Herança de Rahula

Certo dia, a amável Gopa estava olhando para seu filho Rahula.

“Quão belo você é, meu filho!”, ela exclamou. “Como seus olhos brilham! Seu pai lhe deve uma herança piedosa; você deve ir e reinvidicá-la.”

Mãe e filho ascenderam ao terraço do palácio. O Bem-Aventurado estava passando na rua abaixo. Gopa disse a Rahula:

“Rahula, você vê aquele monge?”

“Sim, mãe”, respondeu a criança. “Seu corpo está coberto de ouro”.

“Ele é tão belo quanto os Deuses do céu! É a luz da santidade que faz sua pele reluzir como ouro. Eu o amo, meu filho, o amo ternamente, pois ele é seu pai. Outrora, ele possuíu grandes tesouros; possuía ouro, prata e jóias de brilhantes; agora, ele vai de casa em casa, esmolando por sua comida. Mas ele adquiriu um tesouro maravilhoso: atingiu a suprema sabedoria. Vá até ele, meu filho; diga-lhe quem você é, e requeira a sua herança.”

Rahula obedeceu à sua mãe. Pôs-se de pé diante do Buda. Sentia-se estranhamente feliz.

“Monge”, disse ele, “é maravilhoso estar aqui, sob sua sombra.”

O Mestre olhou para ele. Era um olhar terno, e Rahula, sentindo-se acolhido, começou a caminhar ao seu lado. Relembrando as palavras de sua mãe, ele disse:

“Sou seu filho, meu senhor. Sei que o senhor possui o maior dos tesouros. Pai, dê-me minha herança.”

O Mestre sorriu. Não respondeu. Continuou a esmolar. Mas Rahula permaneceu ao seu lado; continuou seguindo-o e repetia:

“Pai, dê-me minha herança.”

Rahula

O jovem Príncipe Rahula solicitado por sua mãe a pedir sua herança. Imagem via Wikipedia.

Por fim, o Mestre falou:

“Filho, você nada sabe sobre este tesouro que você tem ouvido os humanos louvarem. Quando você reclama a sua herança, pensa que está reinvidicando coisas materiais de natureza perecível. Os únicos tesouros conhecidos por você são aqueles cobiçados pela vaidade humana, tesouros que a morte voraz arranca do falso rico. Mas por que deveria você ser mantido na ignorância? Você está certo de reclamar sua herança, Rahula. Você terá seu quinhão dos tesouros que são meus. Você verá os sete tesouros; você conhecerá as sete virtudes, e aprenderá o verdadeiro valor da fé e da pureza, da modéstia e cautela (reserva), da obediência, da abnegação e sabedoria. Venha, eu o colocarei a cargo do Sagrado Shariputra; ele lhe ensinará.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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