A Vilania de Devadatta e Sua Punição

Ajatasatru emitiu uma proclamação banindo Devadatta do reinado, e ordenando aos habitantes fecharem suas portas a ele, caso ele buscasse refúgio em seus lares.

Então, Devadatta foi para as proximidades de Cravasti, onde ele esperava ser recebido pelo Rei Prasenajit, mas foi-lhe negada uma audiência desdenhosamente, e foi-lhe dito para deixar o reinado. Frustrado em suas tentativas para atrair seguidores, ele finalmente partiu para Kapilavastu.

Ele entrou na cidade ao anoitecer. As ruas estavam escuras, quase desertas; ninguém o reconhecia quando ele passava, pois como poderia esse monge magro e miserável, esgueirando-se nas sombras das paredes, ser indentificado como o orgulhoso Devadatta? Ele foi direto ao palácio onde a Princesa Gopa vivia em solidão.

Ele foi admitido em sua presença.

“Monge”, disse Gopa, “por que você deseja ver-me? Você me trouxe uma mensagem de felicidade? Você vem com ordens de um esposo que eu reverencio profundamente?”

“Seu marido? Ele pouco se importa com você! Pense no tempo em que ele impiedosamente lhe abandonou!”

“Ele deixou-me em prol da salvação do mundo.”

“Você ainda o ama?”

“Meu amor macularia a pureza da sua vida.”

“Então odei-o com todo o seu coração.”

“Respeito-lhe com todo o meu coração.”

“Mulher, ele rejeitou-lhe; vingue-se!”

“Cale-se, monge. Sua palavras são maldosas.”

“Você não me reconhece? Sou Devadatta, aquele que lhe ama.”

“Devadatta, Devadatta, eu sabia que você era falso e mau; eu sabia que você seria um monge infiel, mas nunca suspeitei da profundidade da sua vilania.”

“Gopa, Gopa, Eu amo você! Seu marido desprezou-lhe, ele foi cruel. Vingue-se. Ama-me!”

Gopa enrubesceu. De seus olhos gentis caíram lágrimas de vergonha.

“É você que me despreza! Seu amor já seria um insulto se fosse sincero, mas você mente quando diz que me ama. Você raramente notou-me nos dias da minha juventude, quando eu era bela! E agora que você me vê, uma mulher velha, desgastada pelos meus deveres austeros, me fala do seu amor, do seu amor vil! Você é o mais desprezível dos homens, Devadatta! Suma! Vá-se embora!”

Em sua ira, ele saltou sobre ela. Ela estendeu sua mão para proteger-se, e ele caiu ao chão. Conforme ele rolava, o sangue jorrava de sua boca.

Ele fugiu. Os Shakyas ouviram que ele estava em Kapilavastu; fizeram-lhe deixar a cidade sob uma escolta de guardas, e ele foi levado para o Buda que decidiria o seu destino. Ele fingiu estar arrependido, mas havia imergido suas unhas num veneno mortal, e conforme se prostrou diante de Mestre, ele tentou arranhar seu tornozê-lo. O Mestre o empurrou com o dedo do pé; então o chão abriu-se; violentas chamas irromperam, e tragaram o infame Devadatta.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Buda Deixa Kapilavastu

Rahula foi com seu pai, e Gopa alegrou-se. O rei Suddhodana, somente, ficou triste: sua família estava lhe abandonando! Ele não poderia deixar de falar o seu sentimento para o Mestre.

“Não sofra”, respondeu o Mestre, “pois grande é o tesouro que compartilharão aqueles que ouvirem minhas palavras e seguirem-me! Suporte a sua dor em silêncio; seja como o elefante ferido em batalha pelas lanças do inimigo: ninguém ouve a sua queixa. Reis montam na batalha sobre elefantes que estão sob absoluto controle; no mundo, o grande homem é aquele que aprendeu a controlar-se, o homem que suporta a sua dor em silêncio. Aquele que é verdadeiramente humilde, que doma (refreia) suas paixões como se doma cavalos selvagens, é invejado pelos Deuses. Ele não comete o mal. Nem nas cavernas da montanha, e nem nas grutas oceânicas, pode-se escapar das conseqüências de uma má ação; elas (as más ações) o seguem; elas fustigam-lhe; elas levam-no à loucura, pois não lhe dão paz! Mas se você faz o bem, quando você deixar a terra as suas boas ações lhe saudarão, como amigos após o seu regresso de uma viagem. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos sem ódio num mundo cheio de ódio. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos sãos num mundo cheio de doenças. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos incansáveis num mundo cheio de cansaço. Vivemos em perfeita felicidade, nós que nada possuímos. Alegria é a nossa comida, e somos como Deuses radiantes. O monge que vive em solidão preserva uma alma que é cheia de paz; ele contempla a verdade com um olhar límpido e calmo, e desfruta de uma felicidade desconhecida pelos mortais comuns.”

Tendo consolado o Rei Suddhodana com essas palavras, o Bem-Aventurado deixou Kapilavastu e retornou à Rajagriha.

Monte Gridhrakuta

Monte Gridhrakuta em Rajagriha. Click na imagem para post de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Herança de Rahula

Certo dia, a amável Gopa estava olhando para seu filho Rahula.

“Quão belo você é, meu filho!”, ela exclamou. “Como seus olhos brilham! Seu pai lhe deve uma herança piedosa; você deve ir e reinvidicá-la.”

Mãe e filho ascenderam ao terraço do palácio. O Bem-Aventurado estava passando na rua abaixo. Gopa disse a Rahula:

“Rahula, você vê aquele monge?”

“Sim, mãe”, respondeu a criança. “Seu corpo está coberto de ouro”.

“Ele é tão belo quanto os Deuses do céu! É a luz da santidade que faz sua pele reluzir como ouro. Eu o amo, meu filho, o amo ternamente, pois ele é seu pai. Outrora, ele possuíu grandes tesouros; possuía ouro, prata e jóias de brilhantes; agora, ele vai de casa em casa, esmolando por sua comida. Mas ele adquiriu um tesouro maravilhoso: atingiu a suprema sabedoria. Vá até ele, meu filho; diga-lhe quem você é, e requeira a sua herança.”

Rahula obedeceu à sua mãe. Pôs-se de pé diante do Buda. Sentia-se estranhamente feliz.

“Monge”, disse ele, “é maravilhoso estar aqui, sob sua sombra.”

O Mestre olhou para ele. Era um olhar terno, e Rahula, sentindo-se acolhido, começou a caminhar ao seu lado. Relembrando as palavras de sua mãe, ele disse:

“Sou seu filho, meu senhor. Sei que o senhor possui o maior dos tesouros. Pai, dê-me minha herança.”

O Mestre sorriu. Não respondeu. Continuou a esmolar. Mas Rahula permaneceu ao seu lado; continuou seguindo-o e repetia:

“Pai, dê-me minha herança.”

Rahula

O jovem Príncipe Rahula solicitado por sua mãe a pedir sua herança. Imagem via Wikipedia.

Por fim, o Mestre falou:

“Filho, você nada sabe sobre este tesouro que você tem ouvido os humanos louvarem. Quando você reclama a sua herança, pensa que está reinvidicando coisas materiais de natureza perecível. Os únicos tesouros conhecidos por você são aqueles cobiçados pela vaidade humana, tesouros que a morte voraz arranca do falso rico. Mas por que deveria você ser mantido na ignorância? Você está certo de reclamar sua herança, Rahula. Você terá seu quinhão dos tesouros que são meus. Você verá os sete tesouros; você conhecerá as sete virtudes, e aprenderá o verdadeiro valor da fé e da pureza, da modéstia e cautela (reserva), da obediência, da abnegação e sabedoria. Venha, eu o colocarei a cargo do Sagrado Shariputra; ele lhe ensinará.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Grande Virtude de Gopa

Naquela ocasião, as mulheres do palácio vieram prestar homenagem ao Mestre. Somente Gopa estava ausente.

“Solicitei à ela que viesse conosco”, disse Mahaprajapati. “’Não irei com vocês’, ela respondeu. ‘Posso estar carente em virtude; posso não merecer ver o meu marido. Se nada fiz de errado, ele virá a mim de sua própria vontade, e eu então mostrarei o respeito que lhe é devido’.”

O Mestre deixou o seu assento e foi aos aposentos de Gopa. Ela havia se despojado de suas indumentárias caras e seus véus leves; havia deixado de lado seus braceletes e seus colares; estava trajada num robe avermelhado, feito de algum tecido grosseiro. Ao vê-la vestida assim, ele sorriu de felicidade. Ela caiu aos seus pés e o reverenciou.

“Veja”, disse ela, “quiz vestir-me como você está vestido; procurei saber sobre sua vida no sentido de viver como você vive. Você come não mais que uma vez ao dia, e eu como não mais que uma vez ao dia. Você desistiu de dormir em uma cama; olhe ao redor: nenhuma cama você verá, e aqui está o tablado sobre o qual eu durmo. E de agora em diante, acabarei com os perfumes doces, e não mais colocarei flores no meu cabelo.”

“Estava ciente da sua grande virtude, Gopa”, respondeu o Mestre. “Você não falhou, e eu te louvo por isso. Quantas mulheres há neste mundo que teriam a coragem de fazer o que você fez?”

E sentando-se, ele disse essas palavras:

“As mulheres não são confiáveis. Para cada uma que é sábia e boa, mais que mil podem ser encontradas que são tolas e perversas. A mulher é mais misteriosa que o caminho de um peixe através da água; é tão cruel quanto um ladrão, e como o ladrão, ela é enganosa; ela raramente dirá a verdade, pois para ela uma mentira é como uma verdade e a verdade é como uma mentira. Frequentemente digo aos meus discípulos para evitar as mulheres. Desagrada-me até ter de falar-lhes. No entanto você, Gopa, não é falsa; acredito em sua virtude. Virtude é uma flor não facilmente encontrada, uma mulher deve ter olhos límpidos para poder vê-la; ela deve ter as mãos puras a fim de colhê-la. Mara esconde suas flechas aguçadas sob as flores. Oh, quantas mulheres adoram flores traiçoeiras, flores que infligem feridas que nunca cicatrizam! Mulheres infelizes! O corpo é nada mais que espuma, e elas não o conhecem. Elas apegam-se a esse mundo, e então vem o dia quando o Rei da Morte as reinvindica para si. O corpo é menos substancial que uma miragem: quem o sabe quebrará as setas floridas de Mara, quem o sabe nunca encontrará o Rei da Morte.  A morte leva embora a mulher que colhe flores descuidadamente, exatamente como a correnteza, engrossada pela tempestade, leva embora a aldeia sonolenta. Colha flores, oh mulher, deleite em suas cores, beba o seu perfume; a morte está a espreita por você, e antes que esteja satisfeita, você será dela. Considere a abelha: ela vai de flor em flor e, sem ferí-las, simplesmente pega o néctar do qual o mel é feito.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Admoestação de Suddhodana

No dia seguinte, o Mestre foi cidade afora, esmolando sua comida de casa em casa. Ele logo era reconhecido, e o povo de Kapilavastu exclamava:

“Que estranha visão! O Príncipe Siddhartha, que outrora percorrera essas ruas trajado em robes magníficos, agora perambula de porta em porta, esmolando por comida, nos trajes humildes de um monge.”

E eles corriam para as janelas; ascendiam aos terraços, e grande era sua admiração pelo pedinte.

Uma das donzelas de Gopa ouviu os comentários quando estava deixando o palácio. Ela perguntou o motivo e a ela foi dito. Ela imediatamente correu de volta para a sua senhora.

“Seu marido, o Príncipe Siddhartha”, disse ela, “está perambulando pela cidade, como um monge mendicante!”

Gopa deu um salto. Ela pensou: “Ele que outrora, por todas as suas lindas jóias, foi radiante em luz, agora veste roupas grosseiras, agora tem como único adorno o brilho divino da sua pessoa”. E murmurou: “Quão belo ele deve estar!”

Ela ascendeu ao terraço do palácio. Circundado por uma multidão de pessoas, o Mestre vinha se aproximando. Um majestoso esplendor emanava da sua pessoa. Gopa estremeceu de alegria, e com uma voz cheia de fervor, ela cantou:

“Macio e brilhante é seu cabelo, resplandecente como o sol é sua fronte, radiante e sorridente é seu semblante! Ele espreita como um leão através da luz dourada!”

Ela foi ao Rei.

“Meu senhor”, disse ela, “seu filho está esmolando nas ruas de Kapilavastu. Uma multidão de admiradores segue-o, porque ele está mais belo do que nunca.”

Suddhodana ficou muito perturbado. Ele deixou o palácio, e aproximando-se do seu filho, disse-lhe:

“O que você está fazendo? Por que você esmola por sua comida? Certamente, você deve saber que lhe espero no palácio, você e seus discípulos.”

“Devo esmolar”, respondeu o Bem-Aventurado; “Devo obedecer a lei.”

“Somos uma raça de guerreiros”, disse o Rei; “nenhum Shakya jamais foi pedinte.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Aflição de Suddhodana e Mahaprajapati

O rei Suddhodana ouviu a lamentação. Perguntou a razão. A criada foi indagar e voltou com a seguinte resposta:

“Meu senhor, o príncipe não se encontra em nenhum lugar do palácio.”

“Fechem os portões da cidade”, gritou o rei, “e procurem por meu filho nas ruas, nos jardins, nas casas.”

Ele foi obedecido, mas o príncipe não se encontrava em lugar algum. O rei desmoronou.

“Meu filho, meu único filho!”, ele soluçava, e desmaiou. Logo se recobrou, e ordenou:

“Que sejam despachados cavaleiros em todas as direções, e que tragam-me de volta meu filho!”

Nesse ínterim, Chandaka e o cavalo Kanthaka estavam retornando lentamente do eremitério. Quando se aproximaram da cidade, ambos baixaram a cabeça em desalento. Alguns cavaleiros avistaram-nos.

“É Chandaka! É Kanthaka!”, eles gritaram, e galoparam seus cavalos. Eles viram que Chandaka estava carregando as jóias do príncipe. Então indagaram, ansiosamente:

“O príncipe foi assassinado?”

“Não, não”, respondeu Chandaka rapidamente. “Ele confiou-me as suas jóias para que eu pudesse devolvê-las à sua família. Ele vestiu um robe de eremita, e entrou na floresta onde residem alguns homens sagrados.”

“Você pensa”, disse o cavaleiro, “que se fôssemos a ele, o persuadiríamos a retornar conosco?”

“Suas palavras serão fúteis. Ele está obstinado. Ele disse: ‘Não retornarei a Kapilavastu até que tenha conquistado a velhice e a morte’. E o que ele disse, ele o fará.”

Chandaka acompanhou os cavaleiros até o palácio. O rei o chamou imediatamente.

“Meu filho! Meu filho! Para onde ele foi, Chandaka?”

O escudeiro disse-lhe o que o príncipe havia feito. O rei entristeceu, contudo ele não poderia deixar de admirar a grandeza do seu filho.

Gopa e Mahaprajapati entraram; elas tinham ouvido sobre o retorno de Chandaka. Elas indagaram-lhe e souberam da decisão soberana de Siddhartha.

“Oh você que foi minha alegria”, disse Gopa entre lágrimas, “você cuja voz era tão doce, você que possuia tanta força e graça, tanto conhecimento e tantas virtudes! Quando você me falava, pensava estar ouvindo alguma canção de amor, e quando me reclinava sobre você, inalava a fragrância de todas as flores. Agora estou tão longe de você, e choro. O que será de mim, agora, uma vez que ele se foi, ele que era meu guia? Conhecerei a pobreza, por ter perdido meu tesouro. Ele era meus olhos; não posso mais ver a luz; estou cega. Oh, quando ele retornará, ele que era a minha alegria?”

Mahaprajapati viu as jóias que Chandaka havia trazido de volta com ele. Ficou olhando para elas um longo tempo. Pôs-se a chorar. Então, pegando as jóias, deixou o palácio.

Ainda a chorar, ela caminhou pelos jardins até chegar a uma fonte. Novamente, ela olhou para as jóias, e em seguida jogou-as na água.

Kanthaka retornou aos estábulos. Os outros cavalos ficaram felizes com o seu retorno e relincharam de uma maneira amigável. Mas ele não os ouviu; ele não os viu. Estava muito triste. Relinchou angustiado por uma ou duas vezes e, de repente, caiu morto.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Aflição de Gopa

Gopa havia despertado nas profundezas da noite. Uma inquietação estranha a possuía. Ela chamou seu amado, Príncipe Siddhartha, mas não houve resposta. Ela se levantou. Correu pelos corredores do palácio; ele não se encontrava em lugar algum. Ela ficou assustada. Suas acompanhantes estavam dormindo. Um grito escapou dos seus lábios:

“Oh, malvado, malvado! Você me traiu! Você deixou meu amado fugir!”

As acompanhantes acordaram. Vasculharam todos os quartos. Não havia mais qualquer dúvida: o príncipe deixara o palácio. Gopa rolava no chão; arrancava os cabelos, e seu rosto mostrava as marcas de profundo desespero.

“Certa vez, ele me disse que iria embora, para longe, ele, o rei dos humanos! Mas nunca pensei que essa cruel separação viria tão cedo. Oh, onde está você, meu bem-amado? Onde está você? Não posso esquecê-lo, eu que estou desamparada, tão desamparada! Onde está você? Onde está você? Você é tão belo! Sua beleza é incomparável entre os humanos. Seus olhos brilham. Você é bom, é querido, meu bem-amado! Você não é feliz? Oh, meu querido, meu amado, para onde você foi?”

Suas acompanhantes tentaram em vão consolá-la.

“Daqui por diante, vou beber apenas para saciar a minha sede, vou comer apenas para matar a minha fome. Dormirei sobre o chão bruto, como coroa usarei uma trança de eremita, não tomarei mais banhos de essências florais, mortificarei meu corpo. Os jardins estão desnudos de flores e frutos; as guirlandas desbotadas estão pesadas com a poeira. O palácio está deserto. Não mais vibrará com as felizes canções de outrora.”

Mahaprajapati soube de uma de suas acompanhantes sobre a fuga de Siddhartha. Ela foi a Gopa. As duas mulheres choraram uma nos braços da outra.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Soberana Decisão

O príncipe respondeu:

“Prometa-me quatro coisas, oh pai, e não deixarei vossa casa para recolher-me às florestas.”

“Quais são elas, filho?”, indagou o rei.

“Prometa-me que minha vida não terminará com a morte, que a doença não prejudicará a minha saúde, que a velhice não se seguirá à minha juventude, que o infortúnio não destruirá a minha prosperidade.”

“Você está pedindo demais”, respondeu o rei. “Desista dessa ideia. Não é bom agir sob um impulso tolo.”

Solene como a montanha Meru, o príncipe disse ao seu pai:

“Se você não pode me prometer essas quatro coisas, não me retenha, oh pai. Quando alguém está tentando escapar de uma casa em chamas, não devemos  impedi-lo. Inevitavelmente, virá o dia quando deveremos deixar este mundo, mas que mérito há numa separação involuntária (forçada)? Uma separação voluntária é longinquamente melhor. A morte  me levaria do mundo antes que eu alcançasse o meu objetivo, antes que eu satisfizesse meu ardor. O mundo é uma prisão: eu poderia libertar aqueles seres que são prisioneiros do desejo! O mundo é um profundo abismo onde vagueiam o ignorante e o cego:  eu acenderia a lâmpada da sabedoria, removeria a película que esconde a luz da sabedoria! O mundo tem levantado a bandeira errada, tem levantado a bandeira do orgulho: eu poderia puxá-la abaixo, poderia rasgar em pedaços a bandeira do orgulho! O mundo é conturbado, o mundo é um turbilhão, o mundo é uma roda de fogo: eu poderia, com a verdadeira lei, trazer a paz a todos os homens!”

Com lágrimas nos olhos, ele retornou ao palácio. No grande salão as acompanhantes de Gopa estavam rindo e cantando. Ele não lhes deu atenção. A noite veio, e elas ficaram em silêncio.

Elas caíram no sono. O príncipe as olhou.

Foi-se a sua graça premeditada (ensaiada), foi-se o brilho dos seus olhos. Seus cabelos estavam desgrenhados, suas bocas abertas, seus braços e pernas estavam rigidamente esticados ou desajeitadamente retorcidos sob seus corpos. E o príncipe gritou:

“Mortas! Elas estão mortas! Encontro-me num cemitério!”

E as deixou, fazendo seu caminho em direção aos estábulos reais.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Sonho de Gopa

Gopa estava à espera do príncipe. Ele evitou-a. Deixou-a ansiosa, e quando finalmente ela caiu no sono, teve um sonho:

A terra toda tremeu; as mais altas montanhas balançaram; um vento furioso soprou, quebrando e arrancando as árvores. O sol, a lua e as estrelas caíram do céu à terra. Ela, Gopa, foi despojada de suas roupas e ornamentos; tinha perdido a sua coroa; estava nua. Seu cabelo foi cortado. O leito nupcial foi quebrado; os robes do príncipe e as pedras preciosas com as quais eles eram bordados foram espalhadas. Meteoros riscavam o céu sobre uma cidade escura, e o (Monte) Meru, rei das montanhas, tremeu.

Dominada pelo terror, Gopa despertou. Ela correu para seu marido.

“Meu senhor, meu senhor”, gritava, “O que acontecerá? Eu tive um sonho terrível! Meus olhos estão cheios de lágrimas, e meu coração cheio de medo.”

“Conte-me seu sonho”, respondeu o príncipe.

Gopa relatou tudo o que havia visto no seu sonho. O príncipe sorriu.

“Alegre-se, Gopa”, disse ele, “alegre-se. Você viu a terra agitar-se? Então, um dia os próprios Deuses se curvarão diante de você. Você viu a lua e o sol caírem do céu? Então, em breve você derrotará a maldade, e receberá louvor infinito. Você viu as árvores (sendo) arrancadas? Então você encontrará uma forma de sair da floresta do desejo. Seu cabelo foi cortado? Então você se libertará da rede de paixões que a mantém em cativeiro. Meus robes e minhas jóias foram espalhados? Então eu estou no caminho para a libertação. Meteoros riscaram o céu sobre uma cidade escura? Então, para o mundo ignorante, para o mundo que é cego, levarei a luz da sabedoria, e aqueles que tiverem fé em minhas palavras conhecerão a alegria e a felicidade. Sinta-se feliz, oh Gopa, acabe com a sua melancolia; em breve você será honrada singularmente. Durma, Gopa, durma; você teve um lindo sonho.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Nascimento de Rahula

O Buda com Rahula

O Buda com Rahula - Fonte: Wikipedia

Então, a bela Gopa deu ao príncipe um filho, ao qual foi dado o nome de Rahula. O rei Suddhodana ficou feliz de ver sua família prosperar, e ficou tão orgulhoso do nascimento de seu neto quanto havia ficado com o nascimento de seu filho.

Ele continuou (perseverou) no caminho da virtude, vivia quase como um eremita, e suas ações eram santas; ainda que continuasse instando seu amado filho para novos prazeres, imenso era seu medo de vê-lo deixar o palácio e a cidade, e buscar o refúgio austero das florestas sagradas.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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