O Malogro de Sinca

Nesse ínterim, os maus eremitas, cuja impostura o Buda havia exposto, estavam sendo tratados com desprezo pela população, e a cada dia o seu desejo por uma vingança tornava-se mais intenso. Eles tinham se estabelecido próximo ao Parque de Jeta, e noite e dia eles espionavam o Buda e seus discípulos. Mas tudo em vão; eles nada viam que desse-lhes a mais leve razão para caluniar a comunidade.

Afinal, um dos eremitas disse aos seus companheiros:

“Temos observado a conduta desses monges há longo tempo. Sua virtude não pode ser contestada. No entanto, devemos voltar os pensamentos do povo contra eles, e eu penso que encontrei uma maneira de fazê-lo. Conheço uma jovem donzela de grande encanto. Seu nome é Sinca. Ela é muito habilidosa na prática da fraude. Ela não se recusará a ajudar-nos, e logo a glória desse Shakya se desvanecerá.”

Os eremitas enviaram um recado à Sinca. Ela veio. “Por que vocês me chamaram?”, ela perguntou.

“Você conhece o monge de Kapilavastu, aquele que é adorado como o Buda?”

“Não, mas sei da sua grande fama. Tenho sido informada dos muitos prodígios que ele tem realizado.”

“Esse homem é o nosso pior inimigo, Sinca. Ele nos trata vergonhosamente e pode destruir o nosso poder. Ora, você acredita em nós; venha, fique do nosso lado. Aquela que conquistar o conquistador poderá se orgulhar muito; será famosa entre as mulheres, e o mundo a cobrirá de louvores.”

Sinca ficou convencida pelas palavras do eremita. Ela lhe garantiu que o Buda logo cairia em desgraça e seu nome seria odiado por toda a terra.

Todos os dias, agora, ela iria ao Parque de Jeta, no momento em que aqueles que acabavam de ouvir o Mestre pregar estivessem se retirando. Ela vestiria-se em vermelho flamejante, e carregaria flores em seus braços. E se, por acaso, alguém lhe perguntasse: “Onde você vai?”, ela responderia: “Qual é o negócio de vocês”?

Quando ela chegava ao parque, esperava até que ficasse muito sozinha; então, ao invés de entrar nos domínios do Buda, ela se dirigia para a morada dos maus eremitas. Lá, ela passava a noite, mas ao amanhecer ela retornava para os portões do parque, e quando estava certa de ser vista pelos primeiros a se porem a caminho para suas devoções, ela saía de volta para casa. E àqueles que perguntavam: “De onde você vem, tão cedo pela manhã?”, ela respondia: “Qual é o negócio de vocês?”

Ao final de um mês, ela passou a dar respostas diferentes. Ao anoitecer ela diria: “Estou indo ao Parque de Jeta, onde o Bem-Aventurado está esperando por mim”, e pela manhã, “Acabo de vir do Parque de Jeta, onde passei a noite com o Bem-Aventurado”. E havia algumas pessoas crédulas e tolas que acreditavam nela e que suspeitavam da falta de castidade do Mestre.

No sexto mês, ela pegou um pedaço de pano e o envolveu junto ao seu corpo. “Ela está grávida”, pensaram, e os tolos sustentavam que a virtude do Mestre era apenas pretensão.

Quando o nono mês chegou, ela amarrou uma bola de madeira a um cinto grosso sobre a sua cintura, e conforme andava, dava passos langorosos. Finalmente, certa noite, ela entrou no salão onde o Mestre estava expondo a lei. Corajosamente, ela o encarou, e sua voz estridente interrompeu sua fala.

“Terna é a sua voz e adocicadas são as suas palavras quando você instrui as pessoas na lei. Enquanto eu, que estou grávida por causa de você; eu, que estou prestes a me tornar mãe, não tenho sequer um lugar para confinar-me! Você (não) poderia me negar o óleo e a manteiga que necessito tanto. Se cuidar de mim o faria envergonhar-se, você poderia ao menos confiar-me a um dos seus discípulos, ou ao Rei Prasenajit, ou ao mercador Anathapindika. Mas, não! Não sou mais nada para você, e você pouco se importa com a criança que vai nascer! Você deve conhecer todos os prazeres do amor, mas as responsabilidades você deve ignorar.”

“Isto é uma calúnia, ou você está dizendo a verdade, Sinca?”, respondeu o Mestre, calmamente. “Somente você e eu sabemos”.

“Você sabe muito bem que não estou mentindo”, gritou Sinca.

O Mestre manteve a sua compostura. Mas Indra, que a tudo acompanhava do céu, decidiu que era hora de expor o descaramento de Sinca. Ele tinha quatro Deuses que assumiram a forma de camundongos. Eles rastejaram sob o robe de Sinca e roeram a corda que prendia a bola de madeira. A bola caiu ao chão.

“Eis, seu filho nasceu!”, exclamou o Mestre com um sorriso.

Os discípulos voltaram-se contra Sinca em sua ira. Eles insultaram-na; estapearam a sua face; bateram-lhe. Ela fugiu. Estava chorando de dor, vergonha e raiva. De repente, chamas vermelhas surgiram em torno dela e envolveram-na em um manto de fogo; e ela, que se atreveu a caluniar o Buda, teve um fim cruel e terrível.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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