O Mais Profundo Eu

Semelhante fato ocorre com as pessoas que procuram os verdadeiros ensinos do Buda, os encontram neste Sutra, mas continuam atribuladas com as questões mundanas. Enquanto isto ocorre, o Buda permanece oculto. Isto significa que o único Buda que uma pessoa pode “ver” é aquele que reside no espaço vazio sob si mesma, em seu próprio âmago. Neste sentido, “desejar ver o Buda” significa desejar “tornar-se um receptáculo da Lei” (Corpo de Dharma) ou desejar “vir a ser Buda” (o Bodhisattva). Este é o verdadeiro e único portal do Grande Veículo, da Via Recíproca que, em uma direção, faz penetrar a sabedoria do Buda e, na direção recíproca, representa o advento do Buda neste mundo (03/12/2005 – 05h30min).

Comentário de Marcos Ubirajara no CAP. 16: A Duração da Vida do Tathagata, pág. 294.

A Verdadeira Causa do Advento do Buda no Mundo Tríplice

“Shariputra, o Tathagata também é assim. Ele é um pai para todos os seres no mundo. Ele erradicou para sempre todos os temores, fraquezas, aflições, ignorância e obscuridade. Ele atingiu completamente a ilimitada sabedoria, visão, poder e coragem. Ele possui grande poder espiritual e o poder da sabedoria. Ele consumou os Paramitas dos Meios Hábeis e da Sabedoria. Ele é grandemente benevolente e compassivo. Incansável, sempre busca o bem, beneficiando a todos. E assim, ele nasce no Mundo Tríplice[1] que é como uma casa em chamas, com a intenção de salvar os seres viventes dos fogos do nascimento, velhice, doença, morte, dor, miséria, estupidez, indolência e dos Três Venenos[2]. Ele ensina-os e converte-os, levando-os a atingir o Anuttara-Samyak-Sambodhi”.

 “Ele vê todos os seres viventes sendo chamuscados pelo nascimento, velhice, doença, morte, dor e miséria. Eles se sujeitam aos vários sofrimentos em função dos Cinco Desejos[3], da riqueza e do lucro. Em razão do apego e da ganância, além de no presente se sujeitarem a todo tipo de sofrimentos, no futuro sujeitar-se-ão aos sofrimentos do inferno, em meio aos animais ou espíritos famintos. Se nascidos no mundo celestial ou em meio aos seres humanos, eles sofrerão da pobreza e da aflição, do sofrimento de serem separados de quem amam, do sofrimento de estarem juntos de quem odeiam, e todos os vários sofrimentos como esses. Mesmo assim, os seres viventes mergulham neste marasmo, nos esportes recreativos, inconscientes, desavisados, sem susto ou temor. Eles não se tornam saciados em seus desejos e nem buscam a libertação. Na casa em chamas do Mundo Tríplice, eles correm de um lado para outro. Embora encontrem tremendos sofrimentos, eles não estão preocupados”.


[1] Mundo Tríplice, onde imperam os três maus domínios da existência, a saber: o domínio dos desejos, o domínio da matéria e o domínio espiritual. Referindo-se ao Honrado pelo Mundo: “Ele nasce no Mundo Tríplice”; isto é, Ele, o Buda é o mortal comum que, nascido no mundo tríplice, numa casa em chamas, o faz dentre os seres viventes “para ensiná-los e convertê-los permitindo-lhes alcançar
anuttara-samyak-sambhodi”. Assim como a via do Bodhisattva é o único e verdadeiro portal para o estado de Buda, esta via é também o único e verdadeiro portal para o ingresso do Buda no mundo tríplice, ou a única e verdadeira causa do advento do Buda neste mundo. Assim, chamamo-la Via Recíproca

[2] Três Venenos: avareza, ira e a estupidez.

[3] Cinco Desejos: comida e bebida; sono; sexo; bens materiais; e fama.

Excerto do CAP. 03 – A Parábola (da Casa em Chamas), pág. 77.

A Via Recíproca que os Budas Exultam. Exultai!

Shariputra, agora você sabe,
que pessoas com pouca capacidade e escassa sabedoria,
apegadas às aparências, à arrogância,
não podem compreender essa Lei.
Eu agora exulto, não tenho receio,
e diante dos Bodhisattvas,
eu descartarei os meios hábeis, colocando-os aparte,
para pregar somente o Caminho Supremo.
Quando os Bodhisattvas ouvirem essa lei,
a rede de suas dúvidas será rompida;
e doze centenas de Arhats atingirão o estado de Buda.
Da mesma forma com que os Budas das três existências pregaram esta Lei,
assim o farei agora expondo a Lei sem distinções.

Todos os Budas vêm ao mundo muito raramente,
e são difíceis de encontrar;
e quando eles aparecem no mundo,
é muito difícil que eles preguem a Lei.
Através de incontáveis eras, também,
é muito difícil ouvir esta Lei.
E aqueles que podem ouvir esta Lei,
tais pessoas também são raras como a flor de Udumbara,
na qual todos se deleitam,
e na qual seres celestiais e humanos se comprazem,
por ela florescer senão uma vez em muito, muito tempo.
Alguém que ouve esta Lei,
mesmo que uma única palavra,
louva-a com alegria,
fazendo oferecimentos a todos os Budas das três existências;
tais pessoas são extremamente raras.
São mais raras que a flor de Udumbara.

Todos vocês não devem ter dúvidas,
de que eu sou o Rei do Dharma;
e declaro à assembléia:
‘Eu uso somente a via do Veículo Único para ensinar e converter Bodhisattvas.
Eu não tenho discípulos Ouvintes’.

Excerto do CAP. 02 – Meios Hábeis, pág. 57.

Via Recproca
Foto de Wagner Prandini. Local: Sítio da Dôra em 22/02/2008.

O Médico Excelente

“É como se existisse um bom médico, sábio e bem versado nas artes medicinais, inteligente e habilidoso na cura de uma infinidade de doenças. Este homem também tem muitos filhos, talvez dez, vinte ou mesmo cem. Então, solicitado pela clientela distante, ele viaja para um longínquo país estrangeiro. Neste ínterim, as crianças tomam algum veneno, que lhes faz rolar no chão em delírio”.

 “Apenas então seu pai retorna para casa. Em razão de terem tomado veneno, alguns dos filhos perderam os sentidos, enquanto outros não. Vendo seu pai à distância, ficaram todos muito felizes. Eles curvaram-se para ele, ajoelharam e depois lhe informaram: ‘Seja bem-vindo em paz e segurança. Em razão de nossa tolice, tomamos algum veneno por engano. Rogamos que nos recupere, cure-nos, e devolva-nos nossas vidas’”.

 “Vendo seus filhos em tal agonia, o pai consultou suas receitas médicas e então procurou por finas ervas, boas na cor, no aroma e no sabor. Ele então as moeu, peneirou-as, misturou-as e deu aquele composto para seus filhos tomarem. E disse-lhes: ‘Este é um excelente remédio de boa cor, aroma e sabor. Tomem-no. Sua agonia será aliviada, e não sofrerão mais tormento’. Alguns entre as crianças não haviam perdido seu sentido. Vendo aquele fino remédio com sua boa cor e aroma, imediatamente tomaram-no e sua doença foi curada completamente”.

“Embora os outros que haviam perdido os seus sentidos tenham se alegrado com a chegada do seu pai, tendo indagado sobre o seu bem-estar e procurado a cura para a sua enfermidade, recusaram-se a tomar o remédio. Qual a razão? O veneno havia penetrado-lhes tão profundamente que eles tiveram a perda dos seus sentidos, e assim diziam que o remédio de boa cor e aroma não era bom[1]”.

 “O pai então pensou: ‘quão lamentáveis são estas crianças! O veneno confundiu seus pensamentos. Embora tenham se alegrado em ver-me e me solicitado que os recuperasse e curasse, ainda assim recusam um remédio tão bom como este. Devo agora utilizar-me de um meio hábil para induzi-los a tomar este remédio’. Imediatamente ele disse: ‘Saibam que já estou velho e fraco, e minha morte está próxima. Deixarei aqui este bom remédio para seu benefício. Não tenham preocupações de que ele não os curará’. Tendo instruído-lhes dessa maneira, ele então retornou para aquele longínquo país estrangeiro e de lá enviou um mensageiro para anunciar: ‘Seu pai morreu’”.

 “Quando as crianças ouviram que seu pai havia morrido, seus corações encheram-se de dor, e eles pensaram: ‘se nosso pai estivesse aqui, ele seria compassivo, sentiria piedade de nós, e teríamos um salvador e protetor. Agora ele abandonou-nos ao morrer num outro país, deixando-nos órfãos, e sem ninguém em quem confiar’. Constantemente sofrendo, suas mentes então despertaram. Eles compreenderam que aquele remédio possuía boa cor, aroma e sabor. Tomaram-no imediatamente, e sua doença por envenenamento foi completamente curada. O pai, ouvindo que seus filhos tinham sido completamente curados, então retornou e todos eles viram-no[2]”.

 “Bons homens, o que pensam, poderíamos dizer que este bom médico cometeu a ofensa do falso testemunho”?

 “Não, Honrado pelo Mundo”.


[1] Naqueles filhos que se encontravam fora de si, surgiu o obstáculo da dúvida. Esse remédio é a fé na verdade subjacente aos ensinos deste Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa. O Buda lhe confere atributos físicos como cor, fragrância e sabor apenas como um meio hábil para explicar a excelência do remédio.

[2] Semelhante fato ocorre com as pessoas que procuram os verdadeiros ensinos do Buda, os encontram neste Sutra, mas continuam atribuladas com as questões mundanas. Enquanto isto ocorre, o Buda permanece oculto. Isto significa que o único Buda que uma pessoa pode “ver” é aquele que reside no espaço vazio sob si mesma, em seu próprio âmago. Neste sentido, “desejar ver o Buda” significa desejar “tornar-se um receptáculo da Lei” (Corpo de Dharma) ou desejar “vir a ser Buda” (o Bodhisattva). Este é o verdadeiro e único portal do Grande Veículo, da Via recíproca que, em uma direção, faz penetrar a sabedoria do Buda e, na direção recíproca, representa o advento do Buda neste mundo (03/12/2005 – 05h30min).

Extraído do CAP. 16: A Duração da Vida do Tathagata.

A Jóia Escondida no Âmago de Todos os Seres

Naquela ocasião, os quinhentos Arhats, tendo recebido as profecias do Buda, saltaram de alegria. Eles levantaram-se dos seus assentos e foram para diante do Buda, e curvaram-se com suas cabeças aos seus pés. Arrependendo-se dos seus erros, eles reprovaram-se, dizendo: “Honrado pelo Mundo, sempre pensamos que já tínhamos obtido a extinção final. Agora sabemos que éramos como ignorantes. Por que isto? Porque poderíamos ter obtido a sabedoria do Tathagata, mas ao invés disso contentamo-nos com a pequena sabedoria”.

 “Honrado pelo Mundo, é como uma pessoa que vai à casa de um amigo íntimo, embriaga-se de vinho e adormece. Seu amigo, que precisa ir a um importante encontro de negócios, introduz uma pérola de valor inestimável no forro da sua roupa como um presente, e então sai. Aquela pessoa, no auge da embriagues, nada percebe. Levantando-se, ela prossegue a sua viagem indo a um outro país, onde, na busca de roupa e comida, ela despende muitos esforços, empreende trabalhos pesados, e está satisfeita com o pouco que consegue ganhar”.

 “Mais tarde, seu amigo íntimo encontra-se com ele novamente e diz: ‘Hei amigo! Como você pôde, por roupa e comida, chegar a essa situação? Há tempos atrás, desejando dar-lhe paz, felicidade, e a satisfação dos Cinco Desejos; em tal dia, mês e ano; eu introduzi uma pérola de valor inestimável no forro da sua roupa. Desde aquele tempo até agora, ela está ai, mas você não sabe dela. Por essa razão você tem labutado e sofrido para ganhar sua subsistência. Quão estúpido você foi. Você pode pegar essa jóia agora, trocá-la pelo que você necessita, e terá sempre o que desejar e ficará livre da pobreza’”.

 “O Buda também é como aquele amigo. Quando ele era um Bodhisattva, ele ensinou e converteu-nos, fazendo com que aspirássemos a Grande Sabedoria. Mas, mais tarde esquecemo-nos completamente, tornando-nos ignorantes e inconscientes. Tendo atingido a Via do Arhat, dissemos acerca de nós mesmos que havíamos obtido a extinção. Em meio à dificuldade de manter a nossa subsistência, ficávamos satisfeitos com o pouco que ganhávamos. Todavia, nossos votos para residir na Grande Sabedoria não foram perdidos. Agora, o Honrado pelo Mundo, nos desperta, dizendo: ‘Monges! Aquilo que vocês obtiveram não é a extinção final! Há longo tempo eu os tenho levado a plantar boas raízes para o estado de Buda. Como um meio hábil, eu mostrei-lhes os sinais do Nirvana. Vocês disseram acerca de vocês mesmos, que haviam efetivamente atingido a extinção’”.

 “Honrado pelo Mundo, agora sabemos que pelo menos somos
verdadeiramente Bodhisattvas[1], tendo obtido uma profecia para o Anuttara-Samyak-Sambodhi. Por esta razão alegramo-nos grandemente, tendo ganhado o que nunca tivéramos antes.[2]


[1] Este é o verdadeiro propósito da pregação deste Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa: despertar os seres presentes na assembléia para a Via do Bodhisattva ou Veículo Único. Em várias passagens deste sutra o Buda admoesta: “…um ensino para instruir Bodhisattvas”. No Capítulo 2 – Meios Hábeis, o Buda faz uma rigorosa admoestação: Shariputra, se um discípulo meu autodenomina-se Arhat ou Pratyekabuda, mas nunca ouviu ou soube que de fato todos os Budas, os Tathagatas, somente ensinam e convertem Bodhisattvas, então ele não é um discípulo do Buda, nem é um Arhat, e nem um Pratyekabuda. Outra profunda sabedoria contida no ensino do Veículo Único é a de que a Via do Bodhisattva nunca deixa de conduzir um discípulo à Iluminação do Buda, pois para esse discípulo que a abraça, a consecução do Anuttara-Samyak-Sambodhi foi profetizada pelo Buda no remoto passado.

[2] Somente um Bodhisattva pode receber uma profecia do Anuttara-Samyak-Sambodhi, consagrando o princípio de unicidade entre Pessoa (Bodhisattva) e Lei (Buda), subjacente ao ensino do Veículo Único do Buda, também interpretado aqui como Via Recíproca.

Extraído do CAP. 08: A Concessão de Profecias aos Quinhentos Discípulos

Flor de Lotus
Foto de Marcos Ubirajara. Local: Sítio da Dôra em Maio/2007.

A Verdadeira Jóia Real do Sutra de Lótus

“Shariputra, todos deveriam compreender que aquilo que o Buda diz por suas palavras, não é de forma alguma em vão ou falso. Shariputra, todos os Budas pregam a Lei de acordo com o que é apropriado, mas sua intenção é difícil de compreender. Qual é a razão? Eu preguei extensivamente todas as Leis através de incontáveis meios hábeis, várias causas e condições, analogias, parábolas e expressões. Esta Lei não pode ser compreendida através do discernimento (ponderação) ou da distinção (análise) [1]. Somente os Budas podem compreendê-la. Por que isto? Todos os Budas, os Honrados pelo Mundo, somente aparecem no mundo em razão de causas e condições de uma grande importância”.

 “Shariputra, qual é o significado de ‘Todos os Budas, os Honrados pelo Mundo, somente aparecem no mundo em razão de causas e condições de uma grande importância’? Os Budas, os Honrados pelo Mundo, aparecem no mundo porque desejam levar os seres viventes a vislumbrar a sabedoria e a visão dos Budas e purificarem-se. Eles aparecem no mundo porque desejam demonstrar a todos os seres viventes a sabedoria e a visão dos Budas. Eles aparecem no mundo porque desejam levar os seres viventes a despertar para a sabedoria e a visão dos Budas. Eles aparecem no mundo porque desejam levar os seres viventes a entrar no Caminho da sabedoria e da visão dos Budas.[2]

 “Shariputra, estas são as causas e condições de grande
importância pelas quais todos os Budas aparecem no mundo”.

O Buda disse a Shariputra: “Todos os Budas, Tathagatas, ensinam e convertem somente Bodhisattvas. Todas as suas ações são sempre visando um único interesse, que é unicamente demonstrar e iluminar os seres viventes para a sabedoria e visão do Buda. Eles usam somente o Veículo Único do Buda. Não há outros veículos, nem sequer dois ou três. Shariputra, a Lei de todos os Budas das dez direções é assim


[1] Isto é, não é uma Lei que a racionalidade humana possa equacionar ou compreender.

[2] Esta passagem estabelece inequivocamente o Veículo Único do Buda, que significa haver uma e somente uma Via para a consecução do estado de Buda: a Via do Bodhisattva (o mortal comum que se tornará Buda). Este interprete refere-se a esta Lei sutil do Veículo Único do Buda como Via Recíproca, porque ela é biunívoca, significando que existe uma e somente uma Via para o aparecimento do Buda neste mundo: a Via do Bodhisattva (o Buda tornado mortal comum). Esta é a Verdadeira Jóia Real deste Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, que nos revela que a verdadeira e única causa para o aparecimento do Buda neste mundo é tornar os seres viventes iguais a Ele.

Extraído de CAP. 02: MEIOS HÁBEIS

Sutra de Lótus
Foto de Marcos Ubirajara. Local: Sítio da Dôra em 03/03/2007.

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