Santai ( As Três Verdades ) – II

Transitoriedade:

Sendo a mais perceptível das três verdades, é também a mais remotamente conhecida. Desde os primórdios da humanidade o ciclo do nascimento, crescimento, declínio e morte tem despertado a capacidade de indagação dos seres inteligentes. O homem primitivo assistia à morte de seu semelhante sem compreender o trânsito do Sol, da Lua e das estrelas; não compreendia o fluxo e o refluxo das marés; não compreendia a sucessão das estações climáticas, tampouco o desabrochar e o despetalar de uma simples flor. Tudo ao seu redor encontrava-se em movimento, ou seja, trânsito. Ele nada percebia, mas já intervinha e interferia no ciclo vital das plantas e dos animais para se nutrir. Matava. Com o passar dos tempos, o crescente apego aos objetos e relações de seu cotidiano despertou os sentimentos da perda, da angustia, da percepção do passado e da incerteza do futuro. Tudo em razão do apego. Esse mesmo homem veio, mais tarde, a aceitar a impermanência de todas as coisas, mas ainda sem compreendê-la. Pensou na eternidade, um mundo sem mutações e repleto dos bens que o apraziam e, claro, sem problemas. Criou assim a ilusão do céu e, em sua oposição, o inferno das dores do parto, do frio, da fome, da ansiedade, da ira, das lamentações e outros infernos. Portanto, tudo se reduziria à questão de para onde ir após a morte: céu ou inferno? Sem perceber o absurdo dessas idéias, as quais concorriam para interromper o ciclo da própria vida, aquele homem postulou o bem e o mal; personificou-os como deuses e colocou-os respectivamente no céu e no inferno. Fez mais: iconizou-os, fê-los a sua semelhança, mas eternos; transformou suas próprias lamentações e desejos em preces; e as lamentações e desejos dos seus deuses em pragas. Estavam lançadas as bases das religiões primitivas. Aquelas das práticas de austeridades e mortificações inspiradas na idéia de que podiam ser extintas as causas do sofrimento em vida e depois da morte. Muitas das crenças contemporâneas estão impregnadas desses conceitos.

Não-Substância:

Mais difícil de aceitar e de compreender do que o aspecto da transitoriedade, a percepção do aspecto não-substancial incorporado a todos os fenômenos vem numa fase posterior do conhecimento humano. Necessário para explicar o sentimento, a alma e outras coisas de existência indiscutível, o aspecto da não-substância foi logo imaginado como algo distinto e discreto da matéria. Algo que, “habitando” a matéria, animava-a e, desabitando-a, despojava-a. Isto então seria a própria vida e seus dons. Nascia o conceito do espírito capaz de dotar a matéria de vida, inspiração, talentos, destino e missão. Quem seria o grande espírito? É lógico: Deus. Somente muito recentemente, nos primórdios do século vinte, é que a ciência descobriu a equivalência de matéria e energia (ou seja, que são unas na existência da entidade física) e o comportamento dual, isto é, entidades que ora se apresentam como matéria ou corpos com dimensões finitas, e ora como onda (algo não-substancial e sem dimensões finitas). Muitas outras descobertas se sucederiam como a radiação emitida por alguns elementos químicos e a avassaladora energia liberada pela simples “quebra” da ligação das minúsculas partículas de um núcleo atômico. Todas essas descobertas viriam revelar e evidenciar a natureza não-substancial dos corpos materiais e de suas combinações na formação de entidades físicas complexas. A natureza ondulatória dessas “forças”, todavia, viria a abalar muitas convicções filosóficas e religiosas. Por exemplo, a convicção de que os espíritos entram e saem dos corpos; a convicção de que o universo seria constituído por corpos materiais visíveis e finitos; a convicção de que Deus “morava” no céu, apenas para exemplificar. Mas, retroagindo, estávamos ainda no tempo dos ensinos Mahayana Provisórios. A ciência humana é que tardou a chegar.

Caminho Médio:

As inquietações deixadas pelos encantos da percepção do aspecto não-substancial dos fenômenos, dentre eles o fenômeno da vida, estimulou e impulsionou sobremaneira o pensamento filosófico, agora ocupado em explicar os “mecanismos”, por assim dizer, de interação entre os corpos e os “espíritos”. Como estávamos há cerca de 600 (seiscentos) anos antes de Cristo, a ciência humana ainda nada sabia sobre a natureza ondulatória de todos os fenômenos transitórios e não-substanciais. Como o pensamento era essencialmente “mecânico”, separou-se o espírito dos corpos que não podiam estar em mais de um lugar ao mesmo tempo, e se lhes atribuiu a onipresença, ou seja, a incrível capacidade de encontrar-se em vários lugares ao mesmo tempo. Essas idéias permearam o pensamento filosófico e religioso por muitos séculos. Isto iria acontecer, todavia, a revelia das últimas pregações do Buda Shakyamuni da Índia, as quais, naquela época, faziam referência explícita ao Caminho Médio, ou seja, nem só matéria, nem só espírito; mas sim, ambos. Isto significando que, na verdadeira entidade da vida, o aspecto transitório (matéria) e o não-substancial (espírito) são unos e indissociáveis. Por que as grandes correntes filosóficas seguiram em frente, ignorando e escamoteando as bases de um ensino tão superior? Possivelmente porque lhes era incompreensível. Não dominavam os muito recentes conhecimentos da ciência sobre a dualidade da matéria, da transmutação nuclear, do imenso vazio que são os átomos constituintes dos corpos e sobre o grande vácuo ou o nada que parece sustentar o universo conhecido. Todas essas coisas são hoje conhecimentos corriqueiros a derrubar dogmas e crenças absurdas. Dentre esses conhecimentos, o mais surpreendente é o de que a matéria é uma onda que se propaga através dos seus micros constituintes, fazendo-os vibrar em torno de suas posições de equilíbrio. Mas isto ainda é insatisfatório, porque algo que oscila harmonicamente em torno do equilibro, na média, encontra-se no ponto zero e não apresentaria propriedades físicas. Descobriu-se então a anarmonicidade do movimento dos micros constituintes da matéria. Uma distorção, um desvio do movimento que, em média, os colocava afastados do ponto zero. A esse afastamento os cientistas chamaram Caminho Médio. Não é surpreendente que algo enunciado há milênios torne-se, comprovadamente, existente?

O Efeito Túnel

ORROZ

Tunelamento é um efeito quântico que, quando compreendido, permitiu um grande avanço na física atômica e nuclear, ou física das partículas elementares. Trata-se de uma probabilidade que há de uma partícula elementar transpassar uma barreira potencial maior do que a sua energia total valendo-se da sua dualidade partícula-onda[1]. Do ponto de vista clássico isso seria impossível, mas, como de fato se comprovou acontecer, é como se a partícula desaparecesse num ponto e aparecesse em outro, daí o nome efeito túnel ou tunelamento. Na nossa história, onde o aspecto da dualidade já foi tratado de um modo bastante conservador, ou seja, referindo-se apenas aos pares opostos complementares, nesse ponto, evoca um dos princípios mais fundamentais da Filosofia Budista que é o SANTAI ou TRÊS VERDADES: Transitoriedade (partícula-matéria), Não-Substancialidade (onda), e Caminho Médio (túnel). A ciência humana levou séculos para adquirir alguma compreensão disto. Assim, o que de fato ORROZ descobriu diante daquelas escarpas intransponíveis foi o Caminho Médio, e não qualquer forma de ‘auto-superação’ ou ‘mapa da mina’. É como se sua parte pura transpassasse as barreiras potenciais de sua caminhada de volta, representadas por aquelas escarpas, mas ao sair dos túneis reacoplasse com a escória de sua existência deixada para trás ao entrar. A bifurcação da trilha a certa altura do caminho foi um artifício? Entenda como quiser entender, mas a escória é ‘El Diablo’ a segui-lo como a sombra segue o corpo. Isto não é uma história de realismo fantástico, mas é o mais fantástico realismo aplicável à vida mundana de todos os seres.

 


 

[1] Dualidade essa descrita pela equação de onda associada a uma partícula devida ao físico austríaco Erwin Schrödinger (1887-1961) proposta em 1926.

 

 

 

 

A Doutrina das Três Verdades de Tien-t’ai

Chih-i

Pintura do Shramana Chih-i. Imagem Via Wikipédia.

Chih-i sentia alguma insatisfação com a análise metafísica essencialmente negativa dos ensinamentos do Madhyamaka (como é visto pelo fato de que, nos ‘Cinco Períodos’ do seu esquema de classificação doutrinária, o período do Prajñā-pāramitā não é o período final). Assim, Chih-i propôs as Três Verdades: as verdades da vacuidade (śūnyatā), transitoriedade, e (caminho) médio. Chih-i também resgatou essa verdade do caminho médio de um tratado da ontologia do ser (concebido como tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres) que afirmava haver um agente operacional dentro do universo. Ao passo que os ensinamentos da vacuidade do Madhyamaka afirmavam como as coisas existiam de forma seca e estática, Chih-i caracterizou a natureza final das coisas como consciência (vijñāna), cunhando o termo ‘Natureza-de-Buda do Caminho-Médio’. A mente onisciente do Buda presente em toda a realidade fenomenal, e assim todas as coisas no mundo eram parte da consciência do Buda. Dessa forma, essa mente absoluta operava através de todas as coisas trabalhando compassivamente pela libertação de todos os seres. O fato de que essa mente encontrar-se-ia tanto nos fenômenos puros como impuros, levou T’ien-t’ai a abraçar um ensino único: que a mente absoluta possui aspectos tanto puros como impuros; em outras palavras, que as coisas imorais e impuras no mundo serviam como o veículo para a atividade de salvação do Buda, tanto quanto as coisas que eram puras. T’ien-t’ai é a única escola do Budismo Chinês que atribui aspectos impuros à Mente-do-Buda. Para T’ien-t’ai, todavia, isto era simplesmente uma consequência lógica da atribuição da onisciência à Mente-do-Buda que perceberia todas as coisas, e assim incorporaria todas as coisas em si, quer puras ou impuras, e faria uso dessas para chegar a todos os seres.

Fonte: DAMIEN KEOWN. “T’ien-t’ai.” A Dictionary of Buddhism. 2004.Extraído  da  Encyclopedia.com: http://www.encyclopedia.com/doc/1O108-Tientai.html

Tradução livre para português brasileiro por muccamargo.

O Sutra de Lótus na China

Templo Budista na Montanha de Li Cheng (c. 919 - c. 967 AD), China

Templo Budista na Montanha de Li Cheng (c. 919 - c. 967 AD), China

Budismo Chinês

By Jayaram V

A escola de T’ien-t’ai ou do Lótus Branco (Fa-Hua): A escola do Lótus Branco teve por base os mais elevados ensinamentos do Buda, mas se comparada com a escola Avatamsaka, o fez a partir de uma perspectiva mais elaborada da realidade cósmica.

Foi fundada por um monge chinês chamado Chih-i (538-597 DC), que viveu na província Chekiang na China, e que formulou suas doutrinas com base no Saddharma-Pundarika Sutra, ou o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, um antigo texto Budista, que ele compreendia ser o veículo de todas as outras verdades.

De acordo com esta escola, a Verdade operava a partir de três níveis ou aspectos: Em um extremo ficava o vazio ou a vacuidade, o desconhecido ou a não substância, acerca da qual nada mais poderia ser especulado exceto falando em termos da negação. No outro extremo ficava a transitoriedade, ou a impermanência, que estava numa realidade inexistente, mas que se manifestaria temporariamente ou momentaneamente, devido à atividade dos sentidos, como uma espécie de ilusão ou como uma imagem sobre a tela. O terceiro nível é um estado médio, ou caminho médio, “médio” para a nossa compreensão, mas não necessariamente meio ou metade, “diferente” para a nossa compreensão, mas não necessariamente diferente ou distinto, uma vez que esse estado médio unifica os dois extremos e apresenta-os em fusão como uma Verdade Maior. Estes três níveis da verdade também não são separados ou diferentes entre si. Eles são os aspectos de uma mesma realidade que é universal, assim como onipresente.

A escola defendeu a prática da concentração e do insight (Chih e Kuan) para compreender a transitoriedade das coisas e atingir o estado de Buda, no qual os três aspectos da Verdade acima mencionados residem em perfeita harmonia. Chih-i tornou-se muito popular durante a sua vida, chamando a atenção do Imperador que doou as receitas de um distrito para a manutenção de seu monastério. A escola do Lótus Branco foi introduzida no Japão no século IX DC e tornou-se popular como Tendai ou Tendai Hokke.

Fonte dos textos: HINDUWEBSITE

Fonte da Imagem: Wikipedia, a enciclopédia livre.

Sobre Direitos da Imagem.

Veja também em Cristal Perfeito Santai (As Três Verdades).

Que os Jogos Olimpicos 2008 na China transcorram em clima de paz e harmonia entre os Povos.

Namu-Myoho-Rengue-Kyo

As Três Verdades – 3a. Parte

3ª parte

Os materiais no estado sólido são arranjos geométricos de lugares ocupados por átomos ou moléculas. Chamamos esse arranjo de “rede cristalina”; e ao material no estado sólido chamamos genericamente de “cristal”. Tal como numa rede, os átomos ou moléculas ocupam os “nós” daquela rede, ligando-se um ao outro pelo “fio” da rede. Cada “nó” da rede é o centro da posição de um átomo e este é o seu estado fundamental. Todavia, o átomo não fica “estacionado” no seu lugar na rede. Ele vibra, oscila como um pêndulo em torno dessa posição, e é essa vibração que o torna visível e que confere as propriedades físicas à matéria. A visibilidade da matéria e a sua própria consistência advêm dessa constante vibração dos átomos ou moléculas em torno das suas posições de equilíbrio. Essa vibração, todavia, não é caótica e sim regida por uma lei que se propaga através do material, como uma onda; isto é, o movimento é coletivo e ondulatório. Isto significa que nunca todos os átomos passam pelo centro das suas posições ao mesmo tempo. Se assim não o fosse, a matéria teria uma existência “pulsante”, perdendo a visibilidade e consistência momentaneamente, cada vez que todos os seus átomos constituintes passassem ao mesmo tempo pela posição de equilíbrio. Por essa razão, a matéria, tal como a conhecemos, é um fenômeno ondulatório e a sua própria “existência” é conseqüência de um nível mínimo de vibração que lhe confira propriedades físicas. A este nível mínimo de vibração chamamos “energia do ponto zero”.

Como no modelo anterior, a amplitude de oscilação de um átomo em torno da sua posição de equilíbrio na rede também é discretizada (ou seja, quantizada, uma escada); isto é, existem estados ou modos de vibração. Aqui os pacotes mínimos de energia ou “quantas” absorvidos ou emitidos pelos átomos recebem o nome específico de “fônons”, os quais são unidades e agentes portadores da energia de vibração. O átomo pode ser “arrancado” da sua posição ao absorver uma quantidade de energia maior que a energia que o prende na sua posição própria da rede. É como se arrancássemos uma laranja do galho onde ela se prende à árvore. Com um pouco de força, ela sai. Quando isto acontece, o átomo migra (fica vagando) através dos vazios da rede, deixando atrás de si uma lacuna (um buraco). O número de saltos pela rede que um átomo dá até encontrar o seu lugar – ou o lugar deixado por outro átomo semelhante também deslocado – reassumindo uma posição própria, convencionou-se chamar de caminho-médio na Física. A identidade de um átomo é de natureza dinâmica e ele só existe como uma individualidade durante o tempo em que ele “vaga” sem encontrar um lugar. No mais, quando preso a uma posição própria da rede, ele é parte de uma superestrutura que dá consistência ao material, não existindo o átomo como uma individualidade. Com os “buracos” (lacunas) ocorre o mesmo. Eles só possuem uma identidade transitória, enquanto não ocupados pelos átomos. Tanto o deslocamento médio em torno da posição de equilíbrio da rede como o número de saltos que um átomo dá até encontrar um lugar (lembre-se da dança das cadeiras), fenomenologicamente são a mesma coisa: imperfeições, distorções, coisa fora do lugar. Portanto, tudo o que vemos, sondamos ou medimos pelos métodos físicos (ou seja, por interferência), são sistemas de pequenos defeitos associados dentro da perfeição (um campo primordial?). Isto me faz aceitar o fenômeno da vida, e o próprio universo conhecido, como um sistema de falhas associadas ( os nove estados ) dentro da perfeição ( Buda ). Do lado oposto de Buda (perfeição) está a amorfia, ou seja, ausência da ordem, entropia máxima, o caos ( estado de inferno ).

Temos agora um paralelo da Física para a possessão mútua (degraus entre os andares), para a transitoriedade (trânsito entre posições próprias), para a não-substancialidade (a lacuna) e para o caminho-médio (o átomo deslocado do seu lugar).

As Três Verdades – 1a. Parte.

As Três Verdades – 2a. Parte.

Espetáculo das Imperfeições
O caos no núcleo de Orion. Um assombroso espetáculo das imperfeições. “Courtesy NASA/JPL-Caltech.”

As Três Verdades – 2a. Parte

2ª parte

Simplificando o modelo atômico, os elétrons, girando em torno do núcleo tal como a Terra e os demais planetas giram em torno do Sol, são uma mesma entidade em estados diferentes (energias diferentes, órbitas diferentes). Quanto maior o nível de excitação (energia absorvida) de um elétron, maior a distância deste para o seu estado fundamental. Ilustrativamente, imagine as motocicletas dentro do “globo da morte”. Ao serem aceleradas, recebendo energia dos seus motores, as motocicletas “grudam” no globo e, girando em órbitas cada vez maiores, atingem o seu topo. Se faltar aceleração, elas vão caindo até estacionarem no ponto mais baixo do globo. Este ponto mais baixo é o estado fundamental e a passagem das motocicletas por todos os outros pontos é o trânsito. O fenômeno que pode “arrancar” um elétron do seu estado fundamental, ou reconduzi-lo a este, é um fenômeno transitório bem conhecido. O elétron o faz, como a motocicleta, absorvendo ou emitindo energia em quantidades mínimas, ou pacotes de energia. Na Física, esses pacotes mínimos de energia receberam o nome de “quantas” (uma designação genérica para os pacotes). Os “quantas” de energia absorvidos ou emitidos pelos elétrons recebem o nome específico de “fótons”, os quais são unidade e agentes portadores da radiação luminosa (luz). O fato de o elétron só poder receber ou ceder energia em pacotes, revela a existência de estados intermediários entre um estado energético qualquer e o estado fundamental. Esses pacotes de energia são como degraus de uma escada, do topo à base, por onde transitam os elétrons.

Pois bem, as órbitas possíveis são macro-estados como os andares de um edifício. Entre esses andares, existem micro-estados ou os degraus das escadas que os unem. Neste caso, a transição poderá se dar entre os macro-estados (diretamente de um andar para o outro) ou entre micro-estados (degrau por degrau da escada), dependendo da natureza do fenômeno.

Temos aqui um paralelo da Física para a transitoriedade (trânsito entre os andares) e para a possessão mútua (os degraus da base ao topo dos andares, interligando-os).

As Três Verdades – 1a. Parte.

As Três Verdades – 3a. Parte.

As Três Verdades – 1a. Parte

1ª parte

Talvez, nenhum princípio budista aponte mais diretamente para o Verdadeiro Ensino do que o SANTAI (san = três, tai = verdade ). Esse princípio incorpora as três grandes fases de pregações do Buda Sakyamuni, as quais deram origem a um sem número de seitas e crenças budistas. Porém, sob a estrita ótica da “ordem temporal de pregação”, este princípio estabelece unicamente o Grande Veículo, a saber: (1) transitoriedade ou impermanência de todas as coisas como a verdade parcial que deu origem aos ensinos Hinayana da primeira fase; (2) não-substancialidade ou vacuidade inerente a todas as coisas como a verdade parcial exposta nos ensinos Mahayana provisórios e, finalmente, o caminho-médio como a Verdade Última de todos os fenômenos, revelada nos ensinos Mahayana Verdadeiros ou o Sutra de Lótus.

O conceito dos 10(dez) estados de vida não existe dissociado da transitoriedade. Um estado (ou instância da vida), por sua vez, não tem substância e, por essa razão, um estado não pode ser auto-contido ou estanque. Então, se um estado não tem “fronteiras”, ele se assemelha a um caminho que não tem início e nem fim. E, por não ter início ou fim, este caminho contém todos os outros caminhos. A isto, no Budismo, chamamos possessão mútua; ou seja, um caminho contém todos os outros.

A vida, assim entendida, é um veículo de transição e não existe em outro aspecto. Isto significa que os 10(dez) estados e a possessão mútua não podem existir dissociados do fenômeno vida, um fenômeno transitório por excelência, regido pela Lei Mística.

O quê é a Lei Mística? Essa Lei é chamada mística apenas por revelar aspectos intangíveis pela razão humana. É a Lei da continuidade do universo, que o faz fluir. É a ligação entre o não-substancial e o substancial, revelada no caráter dual de todos os fenômenos. É a Lei da causa e efeito no seu profundo sentido: a causa é não-substancial (latência); o efeito é substancial quando manifesto (trânsito). A causa fundamental de nossas existências é única. Todavia, o estado de Buda é o único entre os demais que reflete a verdadeira e única causa da vida, a qual é insondável por não ter substância. O estado de Buda é o encontro do homem consigo mesmo em todas as outras pessoas. A única circunstância em que isso poderá acontecer é através da vida. O Buda Sakyamuni revela essa Lei extensivamente e sem obstáculos no Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosas.

As Três Verdades – 2a. Parte.

As Três Verdades – 3a. Parte.

O Homem e o Meio Ambiente – 2a. Parte

Um paralelo da Física para a visão Budista das inter-relações entre o homem e o meio-ambiente

2ª. Parte

Porém, a própria investigação científica começaria a desestruturar muitas das nossas convicções no início do século XX. Aquela ciência que estava ao nosso serviço começou a ensaiar seus próprios passos. Notável foi a revolução do pensamento científico com os desenvolvimentos das teorias quântica e relativística. Em particular, na teoria quântica fomos levados a reconhecer a “probabilidade” como uma característica fundamental da realidade que governa os processos atômicos e mesmo a própria existência da matéria[15]. A “certeza da vida” sofreu aqui um golpe contundente. Essa “probabilidade” ou “incerteza” inerente à existência da matéria, e à ocorrência de todos os fenômenos, é tão bem conhecida dos Budistas através do SANTAI (Três Verdades – da transitoriedade ou existência temporária, da não-substância ou vacuidade, e do caminho-médio ou dualidade).

Diferente da “certeza da vida” e do “universo constituído de objetos observáveis e manipuláveis”, que são noções fundamentais da ciência analítica, o mundo atômico revelou-se ser constituído de partículas que não existem com “certeza” em pontos (lugares) definidos; mas, apresentam “tendências a existir”. De forma semelhante, os eventos atômicos não ocorrem com “certeza” em momentos definidos e de modo definido; mas, apresentam “tendências de ocorrer”[15].

As inter-relações de uma partícula no mundo atômico, nunca isoladamente, irão determinar o padrão de probabilidades que representa as suas tendências a se encontrar nas diversas regiões do mundo atômico. Se uma partícula elementar do átomo possui um Carma, este Carma é o seu padrão de probabilidades. O ponto importante é que o padrão todo (ou seja, o somatório de todas as probabilidades, que é igual a 1) é que representa a partícula e lhe dá uma identidade. A partícula, portanto, não pode existir fora daquele padrão de probabilidades.

Isto implica na inseparabilidade da identidade da partícula e do conjunto de relações que determinam o seu padrão de existência. A teoria quântica revela assim, um estado de interconexão essencial entre a partícula e seu mundo (o átomo). A teoria quântica mostra que não podemos decompor o mundo atômico em suas menores partes, capazes de existir independentemente, sem perda das suas propriedades e relações essenciais naquele mundo. Mais do que isso, a teoria quântica força-nos a encarar o Universo Atômico não sob a forma de um conjunto de objetos, mas, sob a forma de uma complexa rede de inter-relações das partes num todo harmonioso e unificado[15]. Isto é facilmente aceitável para nós porque, em relação ao mundo atômico, a nossa visão segue uma ordem de longo-alcance, ou seja, podemos perceber o todo.

Por outro lado, investigar, observar e realizar medidas no mundo dos átomos significa interferir nessa rede de inter-relações. O cientista, portanto, não pode ser visto como um mero “observador” distanciado do processo. Ele se envolve, participa e influencia nas propriedades e no comportamento dos objetos observados. Isto é tão importante que, recentemente, foi proposta na Física a substituição da palavra “observação” por “participação”. Essa idéia, entretanto, é antiga e familiar aos Budistas.

A noção de “participação” é assim fundamental na reformulação de conceitos e na determinação de uma nova atitude básica do homem com relação ao mundo exterior. O Budismo levou essa noção ao extremo em que o observador e o observável; ou seja, Sujeito(TI) e Objeto(KYO) são inseparáveis no princípio do ESHO-FUNI.

Em “Resposta a Shijo Kingo”, o Buda Mestre da Lei Nitiren Daishonin revela:

“… A verdadeira entidade manifestada em todos os fenômenos indica os dois Budas, Sakyamuni e Taho. Taho representa todos os fenômenos, e Sakyamuni a Verdadeira Entidade. Os dois Budas também indicam os dois princípios do Objeto(KYO) e o Sujeito(TI) ou a Realidade Objetiva e a Sabedoria Subjetiva. Buda Taho significa Objeto, e Sakyamuni, Sujeito. Embora sejam dois, estão unidos na Iluminação do Buda. Essa entidade nada mais é senão o Nam-Myoho-Rengue-Kyo”(1).

A teoria quântica aboliu a noção de objetos fundamentalmente separados, introduziu o conceito de participação ao invés de observação, e pode vir a considerar necessário incluir a consciência, ou a “vontade”, ou a “determinação” humana em sua descrição do mundo[15]. Conforme alguns investigadores científicos, existem partículas elementares (subatômicas) que, sujeitas ao “campo mental” de diferentes observadores, exibem diferentes comportamentos.

Aqui, para provarmos a Teoria Quântica na Prática Budista, basta estendermos o que já é amplamente aceito pela primeira no restrito campo da Física das Partículas para o macrocosmo ou o Universo de todos os fenômenos. Eho significa meio-ambiente; Shoho significa todos os fenômenos ou entidade da vida independente; Funi significa inseparáveis, daí a expressão Esho-Funi. Com toda certeza, essa noção de participação ao permear as relações do homem com a natureza e as relações deste na sociedade; forçará esse mesmo homem a rever as relações da sua mente para consigo mesmo, sua individualidade concreta, seu corpo. Essa verdadeira revolução humana, efeito e causa simultâneos de uma nova atitude básica do homem, como uma bola de neve, constituirá fonte inesgotável de soluções para os problemas que afligem a humanidade neste final do século XX.

John Lennon, numa de suas canções mais inspiradas dizia: “imaginem um mundo sem fronteiras…”. Não é difícil. Basta iniciar pela remoção da fronteira entre o indivíduo e seu próprio mundo (interior e exterior). O indivíduo só existe como uma fusão destes dois mundos. Como a entidade da vida poderá sobrexistir à destruição de qualquer um deles?

[15] Capra, Fritjof – O TAO DA FÍSICA – Ed. Cultrix – São Paulo, 1983.

O Homem e o Meio Ambiente – 1a. Parte

O Homem e o Meio Ambiente – 3a. Parte.

Santai ( As Três Verdades )

Transitoriedade:

Sendo a mais perceptível das três verdades, é também a mais remotamente conhecida. Desde os primórdios da humanidade o ciclo do nascimento, crescimento, declínio e morte tem despertado a capacidade de indagação dos seres inteligentes. O homem primitivo assistia à morte de seu semelhante sem compreender o trânsito do Sol, da Lua e das estrelas; não compreendia o fluxo e o refluxo das marés; não compreendia a sucessão das estações climáticas, tampouco o desabrochar e o despetalar de uma simples flor. Tudo ao seu redor encontrava-se em movimento, ou seja, trânsito. Ele nada percebia, mas já intervinha e interferia no ciclo vital das plantas e dos animais para se nutrir. Matava. Com o passar dos tempos, o crescente apego aos objetos e relações de seu cotidiano despertou os sentimentos da perda, da angustia, da percepção do passado e da incerteza do futuro. Tudo em razão do apego. Esse mesmo homem veio, mais tarde, a aceitar a impermanência de todas as coisas, mas ainda sem compreendê-la. Pensou na eternidade, um mundo sem mutações e repleto dos bens que o apraziam e, claro, sem problemas. Criou assim a ilusão do céu e, em sua oposição, o inferno das dores do parto, do frio, da fome, da ansiedade, da ira, das lamentações e outros infernos. Portanto, tudo se reduziria à questão de para onde ir após a morte: céu ou inferno? Sem perceber o absurdo dessas idéias, as quais concorriam para interromper o ciclo da própria vida, aquele homem postulou o bem e o mal; personificou-os como deuses e colocou-os respectivamente no céu e no inferno. Fez mais: iconizou-os, fê-los a sua semelhança, mas eternos; transformou suas próprias lamentações e desejos em preces; e as lamentações e desejos dos seus deuses em pragas. Estavam lançadas as bases das religiões primitivas. Aquelas das práticas de austeridades e mortificações inspiradas na idéia de que podiam ser extintas as causas do sofrimento em vida e depois da morte. Muitas das crenças contemporâneas estão impregnadas desses conceitos.

Não-Substância:

Mais difícil de aceitar e de compreender do que o aspecto da transitoriedade, a percepção do aspecto não-substancial incorporado a todos os fenômenos vem numa fase posterior do conhecimento humano. Necessário para explicar o sentimento, a alma e outras coisas de existência indiscutível, o aspecto da não-substância foi logo imaginado como algo distinto e discreto da matéria. Algo que, “habitando” a matéria, animava-a e, desabitando-a, despojava-a. Isto então seria a própria vida e seus dons. Nascia o conceito do espírito capaz de dotar a matéria de vida, inspiração, talentos, destino e missão. Quem seria o grande espírito? É lógico: Deus. Somente muito recentemente, nos primórdios do século vinte, é que a ciência descobriu a equivalência de matéria e energia (ou seja, que são unas na existência da entidade física) e o comportamento dual, isto é, entidades que ora se apresentam como matéria ou corpos com dimensões finitas, e ora como onda (algo não-substancial e sem dimensões finitas). Muitas outras descobertas se sucederiam como a radiação emitida por alguns elementos químicos e a avassaladora energia liberada pela simples “quebra” da ligação das minúsculas partículas de um núcleo atômico. Todas essas descobertas viriam revelar e evidenciar a natureza não-substancial dos corpos materiais e de suas combinações na formação de entidades físicas complexas. A natureza ondulatória dessas “forças”, todavia, viria a abalar muitas convicções filosóficas e religiosas. Por exemplo, a convicção de que os espíritos entram e saem dos corpos; a convicção de que o universo seria constituído por corpos materiais visíveis e finitos; a convicção de que Deus “morava” no céu, apenas para exemplificar. Mas, retroagindo, estávamos ainda no tempo dos ensinos Mahayana Provisórios. A ciência humana é que tardou a chegar.

Caminho Médio:

As inquietações deixadas pelos encantos da percepção do aspecto não-substancial dos fenômenos, dentre eles o fenômeno da vida, estimulou e impulsionou sobremaneira o pensamento filosófico, agora ocupado em explicar os “mecanismos”, por assim dizer, de interação entre os corpos e os “espíritos”. Como estávamos há cerca de 600 (seiscentos) anos antes de Cristo, a ciência humana ainda nada sabia sobre a natureza ondulatória de todos os fenômenos transitórios e não-substanciais. Como o pensamento era essencialmente “mecânico”, separou-se o espírito dos corpos que não podiam estar em mais de um lugar ao mesmo tempo, e se lhes atribuiu a onipresença, ou seja, a incrível capacidade de encontrar-se em vários lugares ao mesmo tempo. Essas idéias permearam o pensamento filosófico e religioso por muitos séculos. Isto iria acontecer, todavia, a revelia das últimas pregações do Buda Shakyamuni da Índia, as quais, naquela época, faziam referência explícita ao Caminho Médio, ou seja, nem só matéria, nem só espírito; mas sim, ambos. Isto significando que, na verdadeira entidade da vida, o aspecto transitório (matéria) e o não-substancial (espírito) são unos e indissociáveis. Por que as grandes correntes filosóficas seguiram em frente, ignorando e escamoteando as bases de um ensino tão superior? Possivelmente porque lhes era incompreensível. Não dominavam os muito recentes conhecimentos da ciência sobre a dualidade da matéria, da transmutação nuclear, do imenso vazio que são os átomos constituintes dos corpos e sobre o grande vácuo ou o nada que parece sustentar o universo conhecido. Todas essas coisas são hoje conhecimentos corriqueiros a derrubar dogmas e crenças absurdas. Dentre esses conhecimentos, o mais surpreendente é o de que a matéria é uma onda que se propaga através dos seus micros constituintes, fazendo-os vibrar em torno de suas posições de equilíbrio. Mas isto ainda é insatisfatório, porque algo que oscila harmonicamente em torno do equilibro, na média, encontra-se no ponto zero e não apresentaria propriedades físicas. Descobriu-se então a anarmonicidade do movimento dos micros constituintes da matéria. Uma distorção, um desvio do movimento que, em média, os colocava afastados do ponto zero. A esse afastamento os cientistas chamaram Caminho Médio. Não é surpreendente que algo enunciado há milênios torne-se, comprovadamente, existente?

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