1ª. Parte
“A decadência é inerente a todas as coisas compostas. Trabalhem diligentemente para a própria salvação”. – Sidharta Gautama (o Buda Shakyamuni), segundo se diz, em suas últimas palavras aos monges ao seu redor, antes de falecer (10).
Desde os maiores sistemas de mundos conhecidos, os sistemas (aglomerados) de galáxias, passando pelo mundo interior das galáxias, pelo mundo das estrelas, pelo mundo dos planetas, pelo mundo dos seres vivos, até o mundo dos átomos; desde o maior até o menor sistema de mundos, todos conhecerão um fim. A rigor, segundo o Budismo, esses sistemas passam por 4(quatro) estágios, a saber: formação, estabilidade, declínio e desintegração (vacuidade). Isto é tão natural quanto respirar. Todos esses organismos nascem, desenvolvem funções, executam-nas, declinam e morrem. Essa morte, todavia, não significa extinção, mas sim, um refluxo da própria vida.
A humanidade, mesmo com todo o avanço científico experimentado nestes últimos séculos, debate-se com dois dilemas fundamentais: a percepção desses quatro estágios fechando o ciclo da vida, e a morte (ou, o não-ser) em si, o último estágio. Será o primeiro?
Quanto à percepção, o maior estorvo que encontramos é o tempo, já que a noção de espaço tem-se ampliado bastante com as observações astronômicas. Nossos observadores têm movido as fronteiras do Universo para lugares cada vez mais remotos, falando-se hoje em bilhões de anos-luz. Isto, eu penso, tende a aumentar até encontrarmos a nós mesmos. Todavia, a noção de estágios dentro de um ciclo está tão presa ao conceito de tempo que a sua percepção torna-se difícil quando nos voltamos para as entidades superiores. Afortunadamente não somos um átomo, mas sim um organismo superior que pode perceber os quatro estágios nos organismos hierarquicamente inferiores; ou seja, nas células, nos microorganismos, mas também no mundo animal, culminando com a percepção dos 4(quatro) estágios em nossa própria espécie: nascemos, amadurecemos, declinamos e morremos. A dificuldade está na percepção desses estágios nos organismos hierarquicamente superiores ao nosso. Nossa vida individual, bem como a vida desse organismo chamado humanidade, não dura o bastante para registrar os estágios do planeta Terra, muito menos do Sol, da Via Láctea e, assim por diante, num crescente de complexidade. Nós acabaremos antes do mundo, da forma como o conceituamos. Isto é certo.
Para a humanidade falar em “fim do mundo”, soa no mínimo como presunção demais. O mundo que percebemos limita-se ao que a visão humana alcança; isto é, dentre os dez estados de vida admitidos pelo Budismo, percebemos apenas os seis mundos inferiores do inferno, fome, animalidade, ira, tranqüilidade (humanidade) e alegria (êxtase); quando muito. O restante da nossa percepção é constituído por verdadeiros enigmas a desafiar a razão humana quando esta é norteada apenas pelas sensações desses seis mundos inferiores. O que são esses enigmas? Nada mais que a obra de algumas mentes pródigas que, na tentativa de galgar estágios superiores como a erudição e a absorção (auto-realização), em sua grande maioria, só fizeram por naufragar na arrogância. São muitos os exemplos. As Pirâmides do Egito são exemplos notáveis de muitos conhecimentos acumulados através de muitas gerações na Antigüidade e que se tornaram um monte de pedras. A arte e a filosofia gregas, pela sua abstração e altivez, não mereciam (ou mereciam?) o saque que sofreram por bárbaros até quase desaparecerem. Por falar em bárbaros, mesmo a saga dos grandes impérios como o Romano e o Mongol, no afã de possuírem o mundo massacrando culturas superiores como a cultura Árabe e as culturas do extremo oriente, tornaram-se outros grandes exemplos da arrogância humana; naufrágios.
Os exemplos acima, os quais nos remetem há 4.000 anos (Egito), há 2.000 anos(Grécia e Império Romano) e há pouco menos de 1.000 anos(Império Mongol); são fundamentais para compreendermos a questão dos quatro estágios e o conceito da não-extinção dentro desse organismo chamado humanidade. Se utilizássemos exemplos muito próximos da nossa época, seríamos fatalmente iludidos ou ludibriados pela “hipótese do boot-strap”. Segundo essa hipótese, existiria um gigante que, de tão forte, levantar-se-ia alçando-se pelas próprias botas. Isto não existe e, talvez, esta seja a maior das ilusões do homem contemporâneo: a hipótese de um organismo auto-sustentável. A mais crua verdade é que erigimos nosso mundo sobre os escombros daqueles outros, e está mais do que na hora de refletirmos seriamente sobre o refluxo da experiência humana.
Quanto à morte (desintegração), o único conselho que podemos buscar é na sua correta percepção, enquanto um estágio inerente ao ciclo da vida, assim como o são os outros três (nascimento, amadurecimento e declínio). Essa correta percepção deve apoiar-se na observação dos organismos hierarquicamente inferiores. O nascimento e a morte das células do nosso corpo são fundamentais e indispensáveis para a multiplicação das mesmas, formando os órgãos e permitindo-lhes executar funções. Só vivemos o quanto vivemos graças a esse fenômeno de replicação da vida. Se isto é verdade para esses organismos inferiores, por que conosco, que somos como “células” da espécie humana, haveria de ser diferente? Se nós desejamos uma espécie humana melhor e próspera, temos que assim perceber a nossa vida: uma contribuição; mas também, uma oportunidade para o auto-aperfeiçoamento, já que mantida a escala de complexidade crescente, o indivíduo em si (o ser individual) também constitui um sistema de mundos.
E o tempo? Um dos mais fundamentais conceitos da Física é, sem dúvida, o Princípio da Incerteza. Entre outras relações, este princípio enuncia que o produto do tempo de duração de um fenômeno de transição entre estados pela variação energética intrínseca do fenômeno é constante. Peço desculpas àqueles não familiarizados com esse tipo de linguagem; mas, em outras palavras, isto significa que quanto mais energia é exigida para uma transição, menos tempo ela dura. Contrariamente, quanto menor a variação energética exigida, maior o tempo de duração do fenômeno de transição. As coisas parecem calmas por ali não?

