O Sistema de Classificação Doutrinária de Tien-t’ai

Chih-i

Pintura do Shramana Chih-i. Imagem Via Wikipédia.

Tien-t’ai (Chih-i) é conhecido por três aspectos inovadores: seu sistema de classificação doutrinária, seu sistema de meditação altamente articulado, e sua doutrina das Três Verdades.

Um dos problemas com os quais Chih-i relutava era o de dar sentido à massa desordenada de textos Budistas que haviam sido traduzidos para o Chinês até o final do sexto século. O Budismo foi introduzido na China na ocasião em que os ensinamentos do Mahayana estavam apenas entrando em destaque na India. Ambas as doutrinas e suas escrituras continuavam em evolução, ao passo que antigos textos do Hinayana também circulavam. Era difícil compreender como essas escrituras heterogêneas, e às vezes contraditórias, apresentadas como sendo palavras do Buda, pudessem constituir qualquer tipo de ensino unificado.

Embora algumas tentativas de sistematização doutrinária tivessem ocorrido antes, em grande parte essas tentativas foram baseadas no julgamento do grau de precisão com que um texto traduzia o ensinamento do Buda. Chih-i criou um conjunto de critérios que contextualizava as escrituras de acordo com três padrões: o período da vida do Buda no qual uma escritura foi pregada, a audiência para a qual foi pregada, e o método de ensinamento que o Buda empregara para transmitir a sua mensagem.

O primeiro critério produziu o esquema de ‘Cinco Períodos’:

  1. O período Avatamsaka (três semanas) imediatamente seguintes à iluminação do Buda, sobre o que foi pregado enquanto ele ainda estava num estado de êxtase para transmitir todo o conteúdo da sua visão. Todavia, os seres eram incapazes de apreender a totalidade da sua mensagem, de tal maneira que o Buda rapidamente mudou (adaptou) o seu ensinamento.
  2. No período Āgama (doze anos) o Buda pregou as escrituras Hīnayāna no sentido de prover uma introdução fácil aos ensinamentos.
  3. No período Vaipulya (oito anos) o Buda começou introduzir a temática Mahāyāna aos poucos e ceifar os ensinamentos dos períodos anteriores, bem como preparar o caminho para a compreensão plena.
  4. No período Prajñā-pāramitā (vinte e dois anos) o Buda ensinou a completa doutrina da vacuidade universal (śūnyatā) do Mahayana.
  5. Durante o período dos Sutras de Lótus e Sutra do Nirvana (oito anos) o Buda passou da linguagem pessimista dos Sutras Prajñā-pāramitā para a linguagem otimista do Sutra de Lótus, o qual afirmava a Natureza de Buda de todos os seres e a identidade e objetivo único dos assim chamados ‘Três Veículos’ do Budismo. Em razão de nessa ocasião (do quinto período) o Buda ter retomado o ensino do pleno conteúdo de sua iluminação, o Sutra de Lótus é considerado a mais elevada de todas as escrituras e a mais expressiva do significado de Buda para a escola de Tien-t’ai.

O critério da audiência (público-alvo) produziu quatro divisões nas escrituras:

  1. Os ensinamentos Pitaka foram concedidos para os dois veículos dos Sravakas e Pratyekabudas;
  2. Os ensinamentos comuns foram dirigidos aos dois grupos acima, e também para Bodhisattvas iniciantes no caminho do Mahayana;
  3. Os ensinamentos específicos foram apenas para os Bodhisattvas no caminho do Mahayana; e
  4. Os ensinamentos perfeitos davam um relato completo da totalidade da realidade para os Bodhisattvas superiores.

Finalmente, o critério do método de ensino produziu outras quatro categorias:

  1. O ensino abrupto visava sacudir (chocar) os praticantes para uma súbita percepção da realidade completa;
  2. O ensino gradual seguia uma aproximação passo-a-passo para ensinar e conduzir os praticantes sistematicamente até à percepção da verdade;
  3. O ensino secreto é aquele no qual o Buda pregou para uma grande multidão, mas veiculou a sua mensagem tal que somente uma ou mais pessoas específicas pudessem apreender o seu significado – este também indica uma situação na qual nem todos os membros da audiência estão cientes (da presença uns) de outros, como ocorre em várias escrituras do Mahayana quando se revela que deuses e Bodhisattvas estão a ouvir um discurso do Buda não detectado pelos membros menos avançados espiritualmente – e;
  4. Os ensinos indeterminados, nos quais os membros da audiência estão cientes da presença uns dos outros, mas o Buda fala a cada um individualmente embora pareça dirigir-se à multidão como um todo.

Fonte: DAMIEN KEOWN. “T’ien-t’ai.” A Dictionary of Buddhism. 2004.Extraído  da  Encyclopedia.com: http://www.encyclopedia.com/doc/1O108-Tientai.html

Tradução livre para português brasileiro por muccamargo.

1 Comentário

  1. João Santos said,

    08/12/2014 às 14:12

    Muito bom! Existia um texto sobre as práticas da Tien-T’ai no antigo site dharmanet, porém não encontro mais.


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