O Caçador

Siddhartha corta seu cabelo

Siddhartha corta seu cabelo. Click na imagem para site de origem

Então ele pegou uma espada que Chandaka estava segurando. O punho era de ouro e cravejado de jóias; a lâmina era afiada. Com um golpe ele cortou o seu cabelo, e então ele lançou a espada ao ar onde brilhava como uma estrela (super)nova. Os Deuses a pegaram e a seguraram em grande reverência.

Mas o herói ainda estava vestindo o seu suntuoso robe. Ele queria um mais simples, mais adequado para um eremita. Foi quando então um caçador apareceu, vestindo uma roupa grosseira feita de um material avermelhado.  Siddhartha disse-lhe:

“O seu humilde robe é como aqueles usados pelos eremitas; está estranhamente em contraste com o seu arco selvagem. Dê-me sua roupa e pegue as minhas em troca. Elas lhe servirão melhor.”

“Graças a essas roupas”, disse o caçador, “eu posso enganar os animais na floresta. Eles não me temem, e posso matá-los a curta distância. Mas se você tem necessidade delas, meu senhor, dar-lhe-ei de bom grado e pegarei as suas em troca.”

Siddhartha alegremente vestiu a (roupa) grosseira e avermelhada pertencente ao caçador, e o caçador reverentemente aceitou o robe do herói, e então desapareceu no céu. Siddhartha percebeu que os próprios Deuses desejavam presenteá-lo com seu robe de eremita, e alegrou-se. Chandaka ficou cheio de admiração.

Vestido em seu robe avermelhado, o herói sagrado se pôs a caminho do eremitério. Era como o rei das montanhas envolto em nuvens ao entardecer.

E Chandaka, com pesar no coração, pegou a estrada de volta a Kapilavastu.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Os Portões de Kapilavastu

Kanthaka

Siddhartha ao deixar o palácio em seu cavalo Kanthaka. Click na imagem para site de origem.

Ele chamou o seu escudeiro, o rápido Chandaka.

“Traga-me o meu cavalo Kanthaka, imediatamente”, disse ele. “Permanecerei fora, para encontrar a eterna bem-aventurança. Sinto a profunda alegria, a força indomável que agora sustenta a minha vontade, a segurança de que tenho um protetor muito embora esteja sozinho, todas essas coisas me dizem que estou prestes a atingir o meu objetivo. Chegou a hora; estou no caminho para a libertação.”

Chandaka tinha conhecimento das ordens do rei, mas sentiu algum poder superior compelindo-o a desobedecer. Ele foi buscar o cavalo.

Kanthaka era um animal esplêndido; era forte e dócil. Siddhartha acariciou-lhe calmamente, e então disse-lhe numa voz terna:

“Muitas vezes, oh nobre animal, meu pai montou-lhe na batalha e derrotou os seus poderosos inimigos. Hoje, irei à busca da suprema bem-aventurança; empresta-me a sua ajuda, oh Kanthaka! Companheiros nas armas ou nos prazeres não são difíceis de encontrar, e quando nos propomos a adquirir riquezas, nunca carecemos de amigos (logo muitos se apresentam). Mas os companheiros e amigos nos abandonam quando é o caminho da santidade que iremos tomar. No entanto, disto estou certo: aquele que ajuda outro a cometer o bem ou o mal, compartilha daquele bem ou mal. Então saiba, oh Kanthaka, que é um impulso virtuoso que me compele. Empreste-me sua força e sua rapidez; a salvação do mundo, e a sua própria, está em jogo.”

O príncipe falou a Kanthaka como falaria a um amigo. Montou com decisão a sela, e parecia como o sol montado numa nuvem de outono.

O cavalo teve o cuidado de não fazer barulho, pois a noite era clara. Ninguém no palácio ou em Kapilavastu estava acordado. Pesadas trancas de ferro protegiam os portões da cidade, um elefante poderia levantá-las somente com grande dificuldade, mas, para permitir a passagem do príncipe, os portões abriram-se silenciosamente, de sua própria vontade.

Deixando seu pai, seu filho e sua gente, Siddhartha saiu da cidade. Não sentiu arrependimento, e numa voz firme, ele bradou:

“Até que eu veja o fim da vida e da morte, não retornarei à cidade de Kapila.”

Os Potões de Kapilavastu

O Portão Leste, através do qual o Príncipe Siddhartha deixou a vida mundana. Click na imagem para o site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Rei Suddhodana e a Rainha Maya – O Cenário

Remains of some structures (houses or the Roya...

Remanescências da cida de Kapilavastu. Image via Wikipedia

O Cenário

Serena e magnífica era esta cidade onde outrora habitou o grande eremita Kapila. Parecia ser edificada a partir de fragmentos do céu: as muralhas eram como nuvens de luz, e suas edificações e jardins irradiavam um esplendor divino. Pedras preciosas cintilavam em todos os lugares. Para dentro de seus portões, a escuridão era tão pouco conhecida quanto a pobreza. À noite, quando raios prateados de luar tocavam cada torre, a cidade tornava-se parecida com um lago de lírios; ao dia, quando os terraços eram banhados pela luz dourada (do sol), a cidade tornava-se parecida com um lago de lótus.

O Rei Suddhodana reinou em Kapilavastu. Ele era o seu mais brilhante ornamento. Era gentil e generoso, modesto e justo. Ele perseguiu seus mais valentes inimigos, os quais caíram diante dele na batalha como elefantes abatidos por Indra; e como a escuridão é dissipada pelos penetrantes raios de sol, assim os ímpios foram vencidos pela sua glória radiante. Ele trouxe a luz para o mundo, e apontou o verdadeiro caminho para aqueles que estavam juntos a ele. Sua grande sabedoria atraíram-lhe muitos amigos, muito corajosos, amigos sagazes, e assim como as luzes das estrelas intensificam o brilho da lua, intensificava-se o brilho do seu esplendor.

Soddhodana, Rei do Clã dos Shakyas, havia desposado muitas rainhas. Sua favorita dentre aquelas era Maya.

Ela era muito bela. Era como se a própria Deusa Lakshmi devaneasse pelo mundo. Quando ela falava, era como o cântico dos pássaros na primavera, e suas palavras eram doces e agradáveis. Seus cabelos eram da cor da abelha negra; sua fronte tão casta quanto um diamante; seus olhos tão ternos quanto uma jovem folha do lótus azul; e nenhuma carranca demarcava as curvas requintadas das suas sobrancelhas.

Era virtuosa. Desejava a felicidade de seus súditos; era atenciosa quanto aos preceitos piedosos (recebidos) de seus professores. Era verdadeira, e sua conduta exemplar.

O Rei Suddhodana e a Rainha Maya viveram felizes e tranqüilamente em Kapilavastu.

Rei Suddhodana e a Rainha Maya

Rei Suddhodana e a Rainha Maya

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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