Ao Apartar-se de um Grande Amigo

Kanthaka

Kanthaka, o cavalo do Príncipe Siddhartha, click na imagem para site de origem.

Bravamente, Kanthaka o carregou a uma grande distância. Quando o sol finalmente olhou por entre as pálpebras da noite, o mais nobre entre os humanos viu que ele estava próximo a uma floresta onde habitavam muitos eremitas devotos. Cervos estavam dormindo sob as árvores, e pássaros esvoaçavam destemidamente. Siddhartha sentiu-se descansado, e pensou que não necessitava prosseguir. Ele desmontou e gentilmente acariciou seu cavalo. Havia felicidade em seu olhar e em sua voz quando ele disse a Chandaka:

“Realmente, um cavalo tem a força e a rapidez de um Deus. E você, querido amigo, por fazer-me companhia, provou-me quão grande é sua afeição e a sua coragem. Foi um gesto nobre e muito me agrada. Aqueles que, como você mesmo, possam combinar energia e devoção são realmente raros. Você tem demonstrado que é meu amigo, e não espera qualquer recompensa de mim! No entanto, é geralmente um interesse egoísta que conduz homens juntos. Asseguro-lhe, você me fez muito feliz. Pegue seu cavalo agora e retorne para a cidade. Encontrei a floresta que estava procurando.”

O herói tirou as suas jóias e entregou-as a Chandaka.

“Pegue este colar”, disse ele, “e vá até meu pai. Diga-lhe que acredite em mim e não dê lugar à sua tristeza. Se eu adentrar um eremitério, não é porque estou carente de afeição por meus amigos ou porque meus inimigos provocam a minha ira; nem é porque busco um lugar entre os Deuses. A minha é uma razão digna: destruirei a velhice e a morte. Portanto, não entristeça, Chanda, e não permita que meu pai sinta-se infeliz. Deixei minha casa para livrar-me da infelicidade. A infelicidade nasce do desejo; digno de piedade é o homem que é um escravo das suas paixões. Quando um homem morre, há sempre herdeiros para a sua fortuna, mas herdeiros para as suas virtudes são raramente encontrados, nunca são encontrados.  Se o meu pai disser-lhe: “Ele partiu para a floresta antes do tempo determinado”, você responderá que a vida é tão incerta que a prática da virtude nunca é inoportuna. Diga isto ao rei, oh meu amigo, e dê o melhor de si para fazer-lhe esquecer de mim. Diga-lhe que não possuo virtude nem mérito; pois um homem sem virtude nunca é amado, e aquele que nunca é amado nunca é lamentado.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Os Portões de Kapilavastu

Kanthaka

Siddhartha ao deixar o palácio em seu cavalo Kanthaka. Click na imagem para site de origem.

Ele chamou o seu escudeiro, o rápido Chandaka.

“Traga-me o meu cavalo Kanthaka, imediatamente”, disse ele. “Permanecerei fora, para encontrar a eterna bem-aventurança. Sinto a profunda alegria, a força indomável que agora sustenta a minha vontade, a segurança de que tenho um protetor muito embora esteja sozinho, todas essas coisas me dizem que estou prestes a atingir o meu objetivo. Chegou a hora; estou no caminho para a libertação.”

Chandaka tinha conhecimento das ordens do rei, mas sentiu algum poder superior compelindo-o a desobedecer. Ele foi buscar o cavalo.

Kanthaka era um animal esplêndido; era forte e dócil. Siddhartha acariciou-lhe calmamente, e então disse-lhe numa voz terna:

“Muitas vezes, oh nobre animal, meu pai montou-lhe na batalha e derrotou os seus poderosos inimigos. Hoje, irei à busca da suprema bem-aventurança; empresta-me a sua ajuda, oh Kanthaka! Companheiros nas armas ou nos prazeres não são difíceis de encontrar, e quando nos propomos a adquirir riquezas, nunca carecemos de amigos (logo muitos se apresentam). Mas os companheiros e amigos nos abandonam quando é o caminho da santidade que iremos tomar. No entanto, disto estou certo: aquele que ajuda outro a cometer o bem ou o mal, compartilha daquele bem ou mal. Então saiba, oh Kanthaka, que é um impulso virtuoso que me compele. Empreste-me sua força e sua rapidez; a salvação do mundo, e a sua própria, está em jogo.”

O príncipe falou a Kanthaka como falaria a um amigo. Montou com decisão a sela, e parecia como o sol montado numa nuvem de outono.

O cavalo teve o cuidado de não fazer barulho, pois a noite era clara. Ninguém no palácio ou em Kapilavastu estava acordado. Pesadas trancas de ferro protegiam os portões da cidade, um elefante poderia levantá-las somente com grande dificuldade, mas, para permitir a passagem do príncipe, os portões abriram-se silenciosamente, de sua própria vontade.

Deixando seu pai, seu filho e sua gente, Siddhartha saiu da cidade. Não sentiu arrependimento, e numa voz firme, ele bradou:

“Até que eu veja o fim da vida e da morte, não retornarei à cidade de Kapila.”

Os Potões de Kapilavastu

O Portão Leste, através do qual o Príncipe Siddhartha deixou a vida mundana. Click na imagem para o site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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