A Súplica de Brahma

O Buda começou a imaginar como ele propagaria o conhecimento. Ele disse para si:

“Descobri uma profunda verdade. Foi difícil perceber; será difícil entender; somente o sábio a compreenderá. Num mundo conturbado, onde humanos levam uma vida agitada, todavia gostam de viver num mundo cheio de confusão. Como então poderão entender a cadeia das causas e efeitos? Como poderão entender a lei? Eles nunca serão capazes de reprimir seus desejos; nunca romperão com os prazeres mundanos; nunca adentrarão o Nirvana. Se eu pregar a doutrina, não serei compreendido. Talvez ninguém sequer me ouça. Qual é o objetivo de revelar para os humanos a verdade que tive que lutar para conquistar? A verdade permanece oculta para aqueles dominados pelo desejo e pelo ódio. A verdade é difícil de encontrar; permanece sempre como um mistério. A mente vulgar nunca a captará. Nunca conhecerá a verdade aquele cuja mente está perdida na escuridão, e que está presa aos desejos mundanos.”

E, assim, o Bem-Aventurado não estava inclinado a pregar a doutrina.

Brahma is described within the Puranas as the ...

Escultura de Brahma no templo em Halebidu. Imagem via Wikipedia

Então Brahma, pela virtude de sua suprema inteligência, sabia das dúvidas que afligiam o Bem-Aventurado. Ficou assustado. “O mundo estará perdido”, disse para si, “o mundo estará desfeito, se o Perfeito, o Sagrado, o Buda, ficar indiferente agora, se ele não for entre os humanos para pregar a doutrina e propagar a sabedoria.”

E ele deixou o céu. Ele levou menos tempo para chegar à terra do que leva um homem forte para dobrar ou esticar seu braço, e apareceu diante do Bem-Aventurado. Para demonstrar a sua profunda reverência, ele descobriu um ombro, então ajoelhou-se, juntou as palmas das mãos erguidas para o Bem-Aventurado, e disse:

“Digne-se a ensinar o conhecimento, oh Mestre, condescenda a ensinar o conhecimento, oh Bem-Aventurado. Há humanos de grande pureza no mundo, pessoas a quem nenhuma impureza contaminou, mas, se não forem instruídos na sabedoria, como encontrarão a salvação? Tais pessoas devem ser salvas; oh, salve-os! Eles ouvirão a você; serão seus discípulos.”

Assim falou Brahma. O Bem-Aventurado permaneceu em silêncio. Brahma continuou:

“Até agora uma lei maligna prevaleceu no mundo. Ela levou os humanos ao pecado. Cabe a você destruí-la. Oh Homem de Sabedoria, abra para nós os portões da eternidade; diga-nos o que você encontrou, oh Redentor! Você é aquele que subiu a montanha, encontra-se no seu cume rochoso, e contempla a humanidade de longe. Tenha piedade, oh Redentor; pense nas pessoas infelizes que sofrem a angústia do nascimento e da velhice. Vá, herói conquistador, vá! Viaje através do mundo, seja a luz e o guia. Fale, ensine; haverá muitos para entender a sua palavra.”

E o Bem-Aventurado respondeu:

“Profunda é a lei que estabeleci; é sutil e difícil de compreender; está para além da razão comum. O mundo irá zombar dela; somente alguns poucos homens sábios talvez alcancem o significado e decidam aceitá-la. Se eu me propuser, se eu falar e não for compreendido, corro o risco de uma derrota vergonhosa. Permanecerei aqui, Brahma; os humanos são o joguete da ignorância.”

Mas Brahma falou novamente:

“Você atingiu a sublime sabedoria; os raios da sua luz chegam até o espaço, mesmo assim você está indiferente, oh Sol! Não, tal conduta é indigna de você; seu silêncio é repreensível; você deve falar. Levante-se! Bata os tambores, soe o gongo! Deixe a lei fulgurar como uma tocha acesa, ou como uma chuva refrescante, deixe-a cair sobre a terra ressequida. Liberte aqueles atormentados pela maldade; leve paz àqueles consumidos pelo fogo do vício! Você, que é como uma estrela em meio aos homens, apenas você pode destruir o nascimento e a morte. Veja, prostro-me aos seus pés e lhe imploro, em nome de todos os Deuses!”

Então o Bem-Aventurado pensou:

Flor de Lotus

Foto de Marcos Ubirajara em 02/12/2007. Local: Sítio da Dôra.

“Em meio aos lótus azuis e brancos que florescem num lago, há alguns que ficam sob a água, outros que sobem à superfície, e ainda outros que crescem tanto que suas pétalas sequer são molhadas. E no mundo eu vejo homens bons e homens maus; alguns têm mentes aguçadas e outros são estúpidos; alguns são nobres, outros ignóbeis; alguns me compreenderão, outros não; mas sentirei piedade de todos eles. Considerarei o lótus que se abre sob a água tão bom quanto o lótus que exibe sua grande beleza.”

E ele disse a Brahma:

“Que os portões da eternidade sejam abertos para todos! Que os que têm ouvidos ouçam a palavra e creiam! Eu estava pensando no esforço que se reserva a mim, e temendo o cansaço que viria para nada, mas a minha piedade sobrepuja essas considerações. Levantar-me-ei, oh Brahma, e pregarei a lei para todas as criaturas.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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