Uma Metáfora da Torre de Tesouro

Então, dizia:

“Estou muito satisfeito por ter iniciado esse trabalho com vocês. Doravante, nos veremos sempre. Estaremos sempre juntos com um único pensamento. O que isso pode significar? É como uma grande edificação. Não sou ‘eu’ a pensar, mas somos todos ‘nós’. Essa grande edificação, pode-se dizer, emerge do Grande Vazio e, no futuro, poderá até sofrer algumas pequenas fissuras ou pequenas perdas materiais. Mas, será sólida demais para ruir.”

Cenário:

Encontrava-me sentado num lugar central, como numa mesa redonda. As pessoas se postavam em círculo, às quais eu prelecionava. O conteúdo da preleção baseava-se num livro precioso e, ao prelecionar, já pensava no que viria a seguir. Entre essas pessoas estavam amizades recentes, mas também pessoas que há muito tempo não vejo como, por exemplo, uma amiga de faculdade para a qual eu não olhava diretamente, por estar à minha costa, mas sabia que ela estava lá.

Após a preleção, nos dirigimos para uma mesa onde muitas comidas estavam servidas. Conversávamos e falávamos das expectativas do nosso trabalho. Novamente disse: “Estou muito satisfeito”.

Acordei em 12/06/2011, às 03:30 hs. Foi apenas um sonho do qual acordei com uma sensação indescritível de bem-estar, uma satisfação plena. Levantei e pus-me a escrever o pouco que ainda recordava. Sonho? Estávamos todos lá. Pergunto-lhes: onde?

Marcos Ubirajara.

Em 12/06/2011.

a metaphor of the treasure tower.mp3

Momento de Decisão

“Para a grande assembléia, eu digo:
‘Após a minha extinção,
quem poderá proteger e ostentar,
ler, expor e recitar este Sutra’?
Agora, na presença dos Budas,
esta pessoa deverá fazer o seu voto.

O Buda Muitos Tesouros,
embora há longo tempo extinto,
através do seu grande voto,
emite o rugido do leão.
O Tathagata Muitos Tesouros,
bem como eu mesmo,
e os Budas que são emanações aqui reunidos,
desejamos saber esta vossa decisão.
Dentre todos vocês discípulos do Buda,
quem poderá proteger esta Lei?
Façam um grande voto assegurando que a Lei perdure por longo tempo.
Aqueles que puderem proteger a Lei deste Sutra,
estarão assim fazendo oferecimentos para mim e para o Buda Muitos Tesouros.

O Buda Muitos Tesouros,
residindo na Torre de Tesouro,
constantemente viaja através das dez direções,
em prol deste Sutra.

Além disso, aquelas pessoas estarão fazendo oferecimentos para todos os Budas que são emanações aqui presentes,
e que adornam com esplendor todos os mundos (das dez direções).
Se houver quem exponha este Sutra,
essa pessoa então verá a mim,
ao Tathagata Muitos Tesouros,
e a todos os Budas que são emanações.

Todos vocês, bons homens,
pensem a respeito cuidadosamente!
Este é um assunto difícil,
e requer de vocês um grande voto”.

Excerto do CAP. 11: O Aparecimento da Torre de Tesouro, pág. 225.

Momento de Decisão
Dôra diante do Lótus em Florença-It, em 14/06/2008.

Nesta viagem à Florença, Dôra foi portadora de um exemplar do Sutra de Lótus, o qual enviei para a minha amiga Ivone que, morando na Inglaterra, encontrar-se-ia com Dôra em Florença na Itália. Ao visitar o Orto Botanico de Florença, eis o que ela encontrou.

O Legado do Sutra de Lótus

Na grande assembléia, vendo os dois Tathagatas sentados na posição do lótus aberto sobre o trono de leão no interior da Torre de Tesouro, todos tiveram esse pensamento: “Os Budas encontram-se sentados tão altos e distantes. Gostaríamos que o Tathagata usasse o poder das suas penetrações espirituais e permitisse-nos a todos residir no espaço vazio[1]”.

O Buda Shakyamuni então, usou seus poderes espirituais e alçou toda a assembléia no espaço vazio. Com uma poderosa voz ele dirigiu-se à Assembléia dos Quatro Tipos de Crentes, dizendo: “Quem, neste mundo Saha, poderá amplamente expor este Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa? Agora é o tempo apropriado, porque o Tathagata em breve entrará no Nirvana. O Buda deseja legar o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa”.


[1] O Buda diz em sua preleção sobre “entrar no quarto do Tathagata, vestir o robe do Tathagata e tomar o assento do Tathagata”, que essa última condição (tomar o assento do Tathagata) significa residir no espaço vazio.

Excerto do CAP. 11: O Aparecimento da Torre de Tesouro, pág. 223.

A Abertura da Torre de Tesouro

Então, o Buda Shakyamuni, vendo que em suas emanações estavam todos reunidos ali, cada qual sentado num trono de leão, e ouvindo que todos os Budas juntos desejavam que a Torre de Tesouro fosse aberta, imediatamente alçou-se do seu assento ao espaço vazio. Todos os presentes na Assembléia dos Quatro Tipos de Crentes levantaram-se, juntaram as palmas das suas mãos e em pensamento único contemplaram o Buda.

Então, o Buda Shakyamuni, usando o seu indicador direito, abriu a porta da Torre dos sete tesouros, emitindo um grande som como o de uma tranca sendo removida de um grande portão de uma cidade. Dessa forma, todos os presentes na assembléia puderam ver o Tathagata Muitos Tesouros sentado sobre o trono de leão dentro da Torre de Tesouros, seu corpo íntegro e incorruptível como se estivesse em meditação (Samadhi) Dhyana. Eles também lhe ouviram dizer: “Excelente! Excelente! Buda Shakyamuni! Pregue logo o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa! Eu vim aqui para ouvir este Sutra”!

Excerto do CAP. 11: O Aparecimento da Torre de Tesouro, pág. 222.

O Voto do Buda Muitos Tesouros, Prabhutaratna

Então, na assembléia dos quatro tipos de crentes, vendo a grande Torre de Tesouro suspensa no ar e ouvindo a voz que vinha de seu interior, todos obtiveram a alegria da Lei e maravilharam-se com essa ocorrência sem precedentes. Eles levantaram-se dos seus assentos, juntaram as palmas das suas mãos reverentemente e postaram-se a um lado. Nisto, o Bodhisattva Mahasattva chamado Grande Deleite na Pregação, sabendo das dúvidas que estavam no pensamento de todos os seres celestiais, humanos, Asuras e outros seres de todos os mundos, dirigiu-se ao Buda, dizendo: “Honrado pelo Mundo, através de que causas e relações esta Torre de Tesouro emergiu da terra e produziu este som estrondoso”?

Então, o Buda disse ao Bodhisattva Grande Deleite na Pregação: “Dentro desta Torre de Tesouro encontra-se o corpo completo do Tathagata. Há muito tempo atrás, ilimitados milhares de miríades de milhões de Asamkhyas de mundos ao leste, numa terra chamada Pureza do Tesouro, existiu um Buda chamado Muitos Tesouros. Quando este Buda estava praticando a via do Bodhisattva, ele fez um grande voto dizendo: ‘Após tornar-me um Buda e passar à extinção, se em quaisquer terras das dez direções o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa for pregado, minha Torre aparecerá lá, tal que eu possa ouvir o Sutra, certificá-lo e louvá-lo, dizendo: Excelente! Excelente!’”

Excerto do CAP. 11: O Aparecimento da Torre de Tesouro, pág. 216.

O Som Estrondoso da Torre de Tesouro

Naquela ocasião, uma voz estrondosa foi emitida da Torre dizendo palavras elogiosas: “Excelente! Excelente! Shakyamuni, Honrado pelo Mundo, que você seja capaz de, por meio da sua grande sabedoria da não-distinção, pregar para a grande assembléia o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa[1], uma Lei para instruir Bodhisattvas da qual os Budas são os guardiões e mentores. É como disseste, é como disseste, Shakyamuni, Honrado pelo Mundo, tudo o que disseste é verdadeiro e real”.

 


[1] Na tradução de Kamarajiva para o chinês, este título é MYOHO-RENGUE-KYO, “… uma Lei para instruir Bodhisattvas da qual os Budas são os guardiões e mentores”. Acrescido do caracter “NAMU”, esse título se torna o mantra “NAM-MYOHO-RENGUE-KYO”, que corresponde à inscrição ao centro da figura, flanqueada pelo Buda Shakyamuni e pelo Buda Muitos Tesouros. A composição desse mantra é devida a Nitiren Daishonin, que o estabeleceu como núcleo da prática do Budismo de Honmon em 28 de abril de 1253. Esse poderoso mantra é o então chamado “DAIMOKU DO SUTRA DE LÓTUS”, o rugido do Leão dos Shakyas.

Torre de Tesouro
Uma interpretação da metáfora da Torre de Tesouro.

Excerto do CAP. 11: O Aparecimento da Torre de Tesouro, pág. 215.

A Gênese do Sutra de Lótus

“Dessa forma, o Buda Pura Virtude e Brilhante como o Sol e a Lua, tendo instruído o Bodhisattva Alegremente Visto por Todos os Seres, na última hora da noite entrou no Nirvana”.

“Vendo o Buda passar à extinção, o Bodhisattva ficou sensivelmente entristecido e saudoso pelo Buda. Ele então construiu uma pira de incenso de sândalo do litoral como um oferecimento ao corpo daquele Buda e ateou-lhe fogo. Quando o fogo extinguiu-se, ele juntou as cinzas; fez oitenta e quatro mil urnas de jóias; construiu oitenta e quatro mil torres[1], altas como os três mundos, adornadas com cumes dos quais pendiam estandartes, dosséis e muitos sinos cravejados de jóias”.

 


[1] Essas oitenta e quatro mil urnas contendo as cinzas do Buda, juntamente com as oitenta e quatro mil torres que as abrigam, constituem os oitenta e quatro mil caracteres do Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa. No Capítulo Onze – O Aparecimento da Torre de Tesouro, o Buda afirma: “Dentro desta Torre de Tesouro encontra-se o corpo completo do Tathagata”, significando que o Sutra de Lótus completo encontra-se dentro de cada um dos seus caracteres. Ainda naquele capítulo o Buda diz: “…onde quer que o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa seja pregado, a Torre de Tesouro contendo seu corpo completo (do Tathagata) emerge da terra diante daquele que está pregando e exprime louvores, dizendo: ‘Excelente! Excelente!’”.

Extraído do CAP. 23: Os Feitos Passados do Bodhisattva Rei da Medicina.

A Natureza Intrínseca de Todos os Fenômenos

Naquela ocasião, o Honrado pelo Mundo, desejando enfatizar este significado, falou versos, dizendo:

“Desde quando atingi o Estado de Buda,

os kalpas, que então se passaram,

são em número de ilimitadas centenas de milhares de miríades de kotis de asamkhyas.

Desde então, eu tenho pregado a Lei para ensinar e converter incontáveis milhões de seres viventes,

tal que eles possam entrar na Via do Buda.

Através desses ilimitados kalpas,

no sentido de salvar seres viventes,

expedientemente manifesto o Nirvana.

Mas, na verdade, eu nunca passo à extinção.

Eu permaneço aqui, sempre pregando a Lei.

Eu sempre estou exatamente aqui,

e usando o poder das penetrações espirituais,

faço com que os seres viventes em sua embriaguez,

embora próximos a mim, não me vejam.

 

Quando as multidões vêem-me passando à extinção,

fazem extensivamente oferecimentos para minhas relíquias.

Com todos sentindo um forte enternecimento por mim,

em seus corações surge o desejo de ver-me.

Quando os seres viventes tornam-se fiéis e dóceis,

fortes e de pensamentos condescendentes,

e em mente única desejam ver o Buda,

sem poupar as suas próprias vidas, naquele momento,

eu e a Sangha, em assembléia,

apareceremos juntos no Pico da Águia,

onde eu digo para os seres viventes que estou sempre aqui e nunca cesso de ser.

Mas usando o poder dos meios hábeis,

eu manifesto ‘cessando’ e ‘não cessando’ de ser.

Para os seres viventes em outras terras,

que sejam reverentes, fiéis e desejosos (de ver o Buda),

eu também prego a Lei Insuperável.

Mas aqueles que não ouvem isto,

pensam que passei à extinção.

 

Quando eu vejo os seres viventes afogando-se na miséria,

ainda assim, refreio-me em manifestar-me para eles,

para causar-lhes o sincero desejo de ver-me.

Então, quando seus corações encherem-se desse desejo,

eu apareço para pregar a Lei.

Dotado de tais poderes de penetrações espirituais,

através de asamkhyas de kalpas,

eu permaneço sempre no Pico da Águia,

e também resido em outros lugares.

Enquanto os seres vêem o final do kalpa,

e tudo ser consumido pelo grande fogo,

minha terra está em paz e segurança,

sempre repleta de seres celestiais e humanos[1],

jardins e bosques, salões e pavilhões,

e variados adornos preciosos.

Há árvores de jóias com muitas flores e frutos,

onde seres viventes passeiam e deleitam-se.

Seres celestiais tocam tambores celestiais,

constantemente fazendo vários tipos de música,

e flores de mandarava são espalhadas sobre o Buda e a grande assembléia.

Minha Terra Pura é indestrutível,

embora as multidões vejam-na sendo queimada inteiramente.

 

Aflitos, aterrorizados e miseráveis,

os seres viventes encontram-se por toda a parte.

Todos esses seres com suas ofensas,

em razão das suas más causas e relações cármicas,

passam através de asamkhyas de kalpas sem ouvir sequer o nome dos Três Tesouros.

Mas todos aqueles que tenham cultivado méritos e virtudes,

que são complacentes, agradáveis e honestos;

ver-me-ão aqui, pregando a Lei.

 

Às vezes para esta assembléia,

eu prego sobre a ilimitada duração da vida do Buda.

Para aqueles que vêem o Buda somente após um longo tempo,

eu prego o Buda como sendo difícil de encontrar.

O poder da minha sabedoria,

a ilimitada iluminação da minha sabedoria,

é tal que a minha duração de vida é de incontáveis kalpas,

tendo atingido isto através de longa prática e trabalho.

Aqueles que são sábios dentre vocês,

não devem ter dúvidas sobre isto.

Erradiquem-nas, eliminem-nas por completo,

porque as palavras do Buda são verdadeiras, e não falsas.

Elas são como os inteligentes meios hábeis do médico que,

para curar suas crianças insanas,

está de fato vivo, contudo diz que está morto,

e ninguém pode dizer que ele pregue falsidades.

Eu, também, sou como um pai para o mundo,

salvando todos do sofrimento e da aflição.

 

Mas para os seres viventes, embriagados como estão,

eu prego sobre a extinção, embora de fato aqui permaneça.

De outra forma, se constantemente me vissem,

tornar-se-iam crescentemente arrogantes e preguiçosos.

Teimosos e apegados aos cinco desejos,

cairiam nos maus caminhos.

Estou sempre ciente do que fazem os seres viventes.

Aqueles que praticam a Via e aqueles que não praticam.

Eu prego várias Doutrinas em seu benefício,

para salvá-los da maneira apropriada.

Medito constantemente:

‘Como posso levar os seres viventes a adentrar a Via Insuperável e, rapidamente,

adquirir o corpo de um Buda’?”.

 


[1] Nessa passagem o Buda afirma que o estado de Buda possui também, além do estado de Bodhisattva, os demais estados, estando a sua terra “sempre repleta de seres celestiais e humanos”; afinal, neste Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, o Buda provê a iluminação de todos os seres de todos os mundos das 10(dez) direções. Isto sugere que, à semelhança do Buda e dos Bodhisattvas da Terra, os seres celestiais e humanos das 8(oito) direções são também emanações daqueles que se encontram na Terra do Buda. Sendo emanações, não há nascimento e nem extinção dos seres e de toda a fenomenologia daqueles mundos das oito direções. A revelação de que os Budas das oito direções são suas emanações encontra-se no capítulo sobre o “Aparecimento da Torre de Tesouro”. Por sua vez, a revelação de que os Bodhisattvas das oito direções são emanações dos Bodhisattvas da Terra encontra-se no capítulo “Emergindo da Terra”. Neste capítulo sobre “A Duração da Vida do Tathagata” está a revelação de que todos os seres celestiais e humanos das oito direções também são emanações daqueles que se encontram na Terra Búdica. A partir dessas 3(três) revelações pode-se entender qual é a Verdadeira Entidade de Todos os Fenômenos, geratriz de toda a fenomenologia das dez direções. Um aspecto dessa entidade é revelado no capítulo “Emergindo da Terra” quando o Buda, juntamente com os 4(quatro) líderes dos Bodhisattvas da Terra, forma a “célula básica” que possui a forma piramidal. Essa célula, ao ser replicada preenche todo o espaço sob a Torre de Tesouro que também é piramidal com 500 yojanas de altura e 50 yojanas de lado. Essa entidade também é representada pelos dois Budas: o Buda Shakyamuni Original, que é o Buda do estado de Buda e corresponde à sabedoria subjetiva; e o Buda Muitos Tesouros ou Buda Taho, que é o Buda do estado de Bodhisattva ou o Portal Original e corresponde à realidade objetiva. Esses dois Budas encontram-se sentados na Torre de Tesouro e representam a Verdadeira Entidade de Todos os Fenômenos. Esses são aspectos que o Buda revela e utiliza como um meio hábil, pois, a compreensão da Verdadeira Entidade de Todos os Fenômenos está para além do que a razão humana pode conceber ou ponderar.

Extraído do CAP. 16: A Duração da Vida do Tathagata.

O Prelúdio dos Ensinos Essenciais

Naquele momento o Buda emitiu um raio de luz do seu tufo de cabelos brancos que tornou visíveis os Budas das terras na direção leste, iguais em número aos grãos de areia de quinhentas miríades de milhões de Nayutas de rios Ganges. Todas aquelas terras Búdicas tinham o solo de cristal, e eram adornadas com árvores e mantos de jóias. Incontáveis milhares de miríades de milhões de Bodhisattvas preenchiam-nas. Eles eram cobertos com dosséis e mantos de jóias. Os Budas naquelas terras, com um grande e maravilhoso som, estavam pregando a Lei. Também eram vistos ilimitados milhares de miríades de milhões de Bodhisattvas preenchendo aquelas terras e pregando a Lei para as multidões. Assim foi também na direção sul, oeste, norte, nas quatro direções intermediárias, bem como acima e abaixo, em toda a parte onde a luz do tufo de cabelos brancos resplandeceu.

Naquela ocasião todos os Budas das dez direções dirigiram-se aos seus séqüitos de Bodhisattvas, dizendo: “Bons homens! Devemos agora ir ao mundo Saha, para o lugar onde está o Buda Shakyamuni e fazer oferecimentos à Torre do Tathagata Muitos Tesouros”.

Então o mundo Saha foi transformado numa terra de pureza, tendo lápis-lazúli como solo e adornado com árvores de jóias. Seus oito caminhos foram demarcados com cordas de ouro. Nele não mais havia cidades, vilas, oceanos, rios, córregos, montanhas, talvegues, florestas ou matas. Preciosos incensos eram queimados e flores de Mandarava cobriam completamente o chão. Acima dele esvoaçavam mantos de jóias e em estandartes pendiam sinos cravejados de jóias. Somente aqueles na assembléia permaneceram. Todos os demais foram removidos para uma outra região.

Então todos os Budas, cada qual trazendo consigo um grande Bodhisattva como assistente, chegaram ao mundo Saha e assentaram-se sob uma árvore de jóias. Cada árvore de jóias media quinhentas Yojanas na altura e era adornada com galhos, folhas, flores e frutos. Sob cada árvore de jóias estava um trono de leão medindo cinco Yojanas na altura e adornado com grandes jóias. Então, cada um dos Budas sentou-se na postura de lótus, cada qual no seu próprio trono.

Dessa forma, aos poucos, as terras de três milhões de grandes mundos foram preenchidas, quando ainda nem haviam chegado todas as emanações do Buda Shakyamuni de uma única direção.

Então o Buda Shakyamuni, desejando acomodar as suas emanações, em cada uma das oito direções, transformou duzentas miríades de milhões de Nayutas de terras, purificando-as todas. Elas tornaram-se sem infernos, espíritos famintos, animais ou Asuras. Os seres celestiais e humanos foram removidos para outras terras[1]. Todas as terras por ele transformadas tinham o solo de lápis-lazúli e eram adornadas com árvores de jóias tendo quinhentas Yojanas de altura, decoradas com galhos, folhas, flores e frutos. Sob cada árvore encontrava-se um rico trono de leão com cinco Yojanas de altura e decorado com vários tipos de gemas preciosas. Não havia oceanos, rios ou córregos; nem as montanhas Mucilinda ou Mahamucilinda; nem as montanhas do Círculo de Ferro ou do Grande Círculo de Ferro; e nem o Monte Sumeru ou quaisquer outros tipos de montanha. Todas aquelas terras tornaram-se terras do Buda. A rica terra era lisa e plana, inteiramente coberta com dosséis bordados de jóias e estandartes pingentes. Preciosos incensos eram queimados e preciosas flores celestiais cobriam o chão.

 


[1] O Buda Shakyamuni purificou as terras das 8(oito) direções tornando-as terras Búdicas. Para isso, as transformou, tornando-as livres dos baixos estados, nomeadamente: inferno, fome, animalidade e ira. Livrou-as igualmente dos estados ilusórios ou intermediários, a saber: tranqüilidade (humanidade) e alegria, correspondendo a seres humanos; e erudição (ouvinte) e absorção (pratyekabuda), estes correspondendo aos seres celestiais. Este cap. 11 – O Aparecimento da Torre de Tesouro é, em essência, o início da pregação da Verdadeira Lei, tendo esta sido pronunciada e testemunhada pelo Buda Muitos Tesouros. Por essa razão são purificadas as terras Búdicas das oito direções, pois, o que está para ser pregado é “um ensino para instruir Bodhisattvas”. As emanações do Buda que se encontravam naquelas terras das oito direções, estavam a pregar ensinos provisórios, através dos meios hábeis, para conduzir os seres a este Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa. Os capítulos anteriores a este podem ser vistos como meros expedientes ou meios hábeis também. Agora, o Buda irá revelar a Verdade diretamente para uma assembléia de Bodhisattvas, agora Mahasattvas. Os Budas que são suas emanações, e que vêm dessas terras já purificadas, chegam ao mundo Saha acompanhados apenas de um Grande Bodhisattva, pois, a entrada de um Buda neste mundo pode unicamente acontecer através do Portal do Bodhisattva ou do Grande Veículo. Esse poder de purificar os mundos das oito direções é que fará com que o Buda profetize a iluminação de Devadatta (um ser do estado de inferno) no capítulo seguinte. A compreensão deste poder é que torna a pessoa uma verdadeira devota deste Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa.

Extraído do CAP. 11: O Aparecimento da Torre de Tesouro

Myoho Rengue Kyo

Naquela ocasião, emergiu diante do Buda uma Torre feita das sete jóias. Ela media quinhentas Yojanas na altura e duzentas e cinqüenta Yojanas na largura. Ela elevou-se da terra e permaneceu suspensa no espaço vazio, adornada com todos os tipos de objetos preciosos. Possuía cinco mil parapeitos e milhares de miríades de aposentos. Incontáveis estandartes e flâmulas também lhe serviam de adorno. Colares de jóias pediam-lhe enquanto miríades de milhões de sinos cravejados de jóias ficavam suspensos em seu topo. A essência de Tamalapatrachandana exalava por todos os seus quatro lados, perfumando o mundo inteiro. Todos os seus estandartes e dosséis eram feitos das sete jóias: ouro, prata, lápis-lazúli, madrepérola, carnelian, pérolas verdadeiras e ágata; alcançando ao alto o palácio dos quatro reis celestes.

Do Céu Trayastrimsha choveram flores celestiais de Mandarava como um oferecimento à Torre de Tesouro. Todos os seres celestiais, dragões, Yakshas, Gandharvas, Asuras, Garudas, Kinnaras, Mahoragas, humanos, não-humanos e assim por diante, milhares de miríades de milhões deles, fizeram oferecimentos à Torre de Tesouro de todos os tipos de flores, incenso, contas, estandartes, dosséis e música instrumental, honrando-a e louvando-a reverentemente.

Naquela ocasião, uma voz estrondosa foi emitida da Torre dizendo palavras elogiosas: “Excelente! excelente! Shakyamuni, Honrado pelo Mundo, que você seja capaz de, por meio da sua grande sabedoria da não-distinção, pregar para a grande assembléia o Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa[1], uma Lei para instruir Bodhisattvas da qual os Budas são os guardiões e mentores. É como disseste, é como disseste, Shakyamuni, Honrado pelo Mundo, tudo o que disseste é verdadeiro e real”.


[1] Na tradução de Kamarajiva para o chinês, este título é MYOHO-RENGUE-KYO, “… uma Lei para instruir Bodhisattvas da qual os Budas são os guardiões e mentores”. 

Extraído do CAP. 11: O Aparecimento da Torre de Tesouro

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