O Grande Corpo de uma Pessoa

Sutra:

“Subhuti, é como o grande corpo de uma pessoa”.

Subhuti disse: Honrado pelo Mundo, o grande corpo de uma pessoa é pregado pelo Tathagata como nenhum grande corpo, porquanto é chamado um grande corpo”.

“Subhuti, um Bodhisattva também é assim. Se ele dissesse: ‘Eu devo conduzir inumeráveis seres viventes à travessia para a extinção’, então ele não seria chamado um Bodhisattva. E por quê? Subhuti, não há realmente um dharma chamado Bodhisattva. Por essa razão o Buda pregou todos os dharmas como destituídos do ‘eu’, destituídos dos outros, destituídos dos seres viventes, e destituídos de uma vida”.

“Subhuti, se um Bodhisattva dissesse: ‘Eu adornarei as Terras Búdicas’, ele não seria chamado um Bodhisattva. E por quê? O adorno das Terras Búdicas é pregado pelo Tathagata como nenhum adorno. Porquanto é chamado adorno. Subhuti, se um Bodhisattva compreende que todos os dharmas são destituídos do ‘eu’, o Tathagata o chama de um verdadeiro Bodhisattva.

Comentário:

“Agora, Subhuti, por que eu disse que todos os dharmas são não dharmas, mas são apenas chamados dharmas? Eu lhe darei um exemplo: é como o grande corpo de uma pessoa”.

Subhuti ouviu o Buda dizer essas palavras e compreendeu que o Tathagata estava falando do corpo do dharma. Ele respondeu: “O grande corpo pregado pelo Tathagata é nenhum grande corpo”. O corpo do dharma é destituído de marcas, e desde que ele não possui marcas, não se pode chamá-lo de grande corpo. Porquanto é chamado um grande corpo. Se utiliza-se de um falso nome, pode-se chamá-lo de um grande corpo, e isso é tudo.

O Buda Shakyamuni novamente chamou Subhuti e disse: “Um Bodhisattva também é assim”. Se ele possui um eu e depende da palavra ‘Eu’ tal que diga: “Eu levarei os seres viventes à travessia e libertá-los-ei”, então ele não é um Bodhisattva.

“Subhuti, se um Bodhisattva diz: ‘Eu adornarei as Terras Búdicas’, então ele não é chamado Bodhisattva. Por quê? Ele ainda tem um apego ao eu, e ao adorno: ‘Eu sou alguém que pode adornar. A Terra Búdica é aquilo que eu adorno’. Na medida em que ele se apega ao sujeito e ao objeto, ele não realiza a vacuidade da marca do eu”.

Bodhisattvas conduzem seres viventes à travessia e não se apegam à marca dos seres viventes. Não somente eles não se apegam à marca dos seres viventes, como eles também não se apegam à marca de um Bodhisattva. O Bodhisattva em si é também a marca dos seres viventes. Assim, não se apegar ao eu é também não se apegar aos seres viventes. Quando um Bodhisattva adorna as Terras Búdicas, não há nem quem possa adornar e nem aquilo que é adornado. Quando for feito, estará feito. Não é necessário nutrir pensamentos do mérito obtido.

Quando uma pessoa comum realiza ações meritórias ela torna-se apegada ao sujeito e objeto: “Eu realizei aquelas ações meritórias. Ele é o beneficiário das minhas boas ações”. Essa é a maneira como as pessoas comuns pensam.

Bodhisattvas devem adornar as Terras Búdicas sem o pensamento de adorná-las. Isto não quer dizer que eles não devam adornar as Terras Búdicas. Significa que eles devem adorná-las como se eles nada tivessem feito.

Adornar uma Terra Búdica é fazer com que o país de um Buda seja especialmente belo. Nossos oferecimentos de flores, frutos e incenso aos Três Tesouros são adornos das Terras Búdicas. Isto não quer dizer que você não deva adornar as Terras Búdicas. Significa que você deve adorná-las, e no entanto não adorná-las. Oferecimentos aos Três Tesouros de flores, frutos e incenso também servem como adornos para as Terras Búdicas.

Do ponto de vista da verdade comum, existe o adorno da Terra Búdica. Do ponto de vista da verdade real, não existe adorno. Se visto da doutrina que é perfeitamente una e sem obstrução, o adorno é meramente um nome e nada mais. Assim é dito:

Dentro dos portais da obra do Buda

nenhum dharma é rejeitado.

Na natureza da verdadeira talidade

não há um único grão de pó.

Dentro dos portais do Estado de Buda não há dharma que não seja Budadharma. Cada dharma que se considera é Budadharma. No entanto, na natureza da verdadeira talidade nem mesmo o menor grão de pó está estabelecido. Se um Bodhisattva pode compreender o estado no qual todos os dharmas não possuem um eu, então o Tathagata o chama de um autêntico Bodhisattva.

Sutra Diamante – Capítulo 17 – Em Última Análise, Não Há Um Eu.

Original

O Grande Corpo de um Bodhisattva

Ele deve produzir aquele coração sem persistência em qualquer lugar. Ele deve, sem ter qualquer apego, produzir aquele coração. Ele não deve ter nenhum pensamento. Se você puder não ter nenhum pensamento, você não estará apegado a lugar algum. Se você puder não ter nenhum pensamento, você poderá produzir aquele coração sem persistência em qualquer lugar. O Buda usou um outro exemplo: “Suponha uma pessoa que tenha um corpo como o (Monte) Sumeru, o Rei das Montanhas… Aquele corpo seria grande?

Subhuti disse: “Muito grande”, mas adiante acrescentou: “É dito pelo Buda não haver corpo algum, porquanto é chamado um grande corpo”. O Monte Sumeru, embora grande, tem no entanto uma medida. Se você tem (o tamanho do) Monte Sumeru, você ainda tem uma medida. Se você conseguir não ter corpo, nada pode ser comparado a isto, e assim é chamado um grande corpo. Se há uma medida para ele, então o corpo não é realmente grande. Nenhum corpo, um corpo sem medida, este é realmente um grande corpo.

Sutra Diamante – Capítulo 10 – O Adorno das Terras Puras.

Original

O Coração Puro de um Bodhisattva

Novamente o Buda Shakyamuni indagou a opinião de Subhuti: “Um Bodhisattva adorna as Terras Búdicas?”  Um Bodhisattva usa os méritos e virtudes do cultivo dos seis paramitas e das dez mil práticas para adornar as Terras Búdicas?

E novamente Subhuti respondeu: “Não. Ele não adorna as Terras Búdicas. Se ele tivesse um pensamento de adornar as Terras Búdicas, então ele teria a marca do eu, dos outros, dos seres viventes, e de uma vida; ele teria um apego”. O princípio é o mesmo para a primeira, segunda, terceira e quarta fruições do Arhatship. Embora eles adornem as Terras Búdicas, não há nenhum adorno. Por quê? Se eles tivessem o pensamento de que “Eu adorno as Terras Búdicas”, eles não teriam alcançado a vacuidade das pessoas e dharmas. Quando os dharmas não são vazios, há apego aos dharmas. Quando as pessoas não são vazias, há apego ao eu. Um Bodhisattva que adorna as Terras Búdicas não pensa que ele está adornando as Terras Búdicas. O adorno das Terras Búdicas é meramente um nome e nada mais. Não possui uma substância real. Portanto, um Bodhisattva, Mahasattva, deve produzir um coração puro. Um coração puro é livre de apegos. Isto significa que você não difunde (não alardeia) as suas boas ações para assegurar que qualquer mérito e virtude que possa ter sido acumulado seja propriamente creditado. Tal coração (pensamento) é impuro. É sujo. Se você tem um pensamento de si e dos outros quando faz ações virtuosas para adornar as Terras Búdicas, então não há nenhuma ação virtuosa e não há adorno nenhum. O coração de um Bodhisattva deve ser puro, sem (a ideia de) um eu ou outros, e sem certo ou errado. Pensamentos que delineiam o eu, os outros, os seres viventes e uma vida são impuros. Um coração que está apegado às seis poeiras é impuro, e é destituído de um verdadeiro e apropriado mérito e virtude.

Sutra Diamante – Capítulo 10 – O Adorno das Terras Puras.

Original

O Adorno Das Terras Búdicas

Sutra:

O Buda disse a Subhuti: “O que você pensa? Houve algum dharma que o Tathagata obteve enquanto com o Buda Dipankara (Tocha Ardente)?”

“Não, Honrado pelo Mundo, não houve realmente nenhum dharma que o Tathagata obteve enquanto com o Buda Tocha Ardente.”

“Subhuti, o que você pensa, um Bodhisattva adorna as Terras Búdicas?”

“Não, Honrado pelo Mundo. E por quê? O adorno das Terras Búdicas é nenhum adorno, no entanto é chamado adorno.”

“Portanto, Subhuti, o Bodhisattva, Mahasattva, deste modo deve produzir um coração puro. Ele deve produzir aquele coração sem persistência nas formas. Ele deve produzir aquele coração sem persistência nos sons, odores, sabores, objetos tangíveis, ou dharmas. Ele deve produzir aquele coração sem persistência em qualquer lugar.”

“Subhuti, suponha que uma pessoa tenha um corpo como o (Monte) Sumeru, o Rei das Montanhas. O que você pensa: aquele corpo seria grande?”

Subhuti disse: “Muito grande, Honrado pelo Mundo. E por quê? É dito pelo Buda não haver corpo algum. Por isso, é chamado um grande corpo.”

Sutra Diamante – Capítulo 10 – O Adorno das Terras Puras.

Original

O Segredo da Não Distinção

Toda, absolutamente toda a ciência humana convergirá para um único aspecto, o décimo aspecto[1], que diz: consistência do princípio ao fim ou “não é diferente”!

Da escala subatômica à escala supragalaxial, perceber-se-á que “não é diferente”.

Então, a ciência que se notabilizou pela distinção dos fenômenos, pelas medidas e pela percepção dos limitados sentidos humanos, que são impuros, perderá um pouco do seu status, dando lugar à ciência do todo, a sabedoria que abarca todos os fenômenos. Compreenderá que não há trânsito, quaisquer manifestações impermanentes, sem a anuência do Perfeito. Todos os sentidos convergirão para Dhyana, o sentido verdadeiro e imutável.

Tudo, então, emergirá de uma compreensão do não-nascimento e da não-extinção; do não-refluxo e da vacuidade. Neste vazio está o nosso passado mais remoto: a Terra Búdica. O caminho mais curto para lá, e único, encontra-se na compreensão da nossa própria natureza.

Em 25/08/2008.


[1] Isto é: os aspectos da aparência, natureza, entidade (substância), poder, influência (função), causas (inerentes), relações, efeitos (latentes), retribuições (efeitos manifestos), e consistência do princípio ao fim. Ver em CAP. 02: Meios Hábeis do Sutra de Lótus.

A Beleza de Uma Única Cor

A Beleza de Uma Única Cor - Foto de Dôra em seu sítio em 09/08/2008.

Manjushri, o Príncipe do Dharma

Quando o Buda projeta esse raio de luz,

eu e os outros nesta assembléia vemos,

dentro daqueles reinos e terras[1],

as muitas maravilhas especiais.

O poder espiritual dos Budas e a sua sabedoria são muito raros,

emitindo uma única e pura luz,

eles podem iluminar ilimitadas terras.

Vendo isto, todos têm obtido aquilo que nunca tivéramos antes.

Discípulo do Buda, Manju,

por favor, elimine as dúvidas da assembléia.

 

A multidão dos quatro tipos de crentes, com alegria,

olha para você, humano, e para mim.

Por que o Honrado pelo Mundo emitiu tal resplandecente luz?

Discípulo do Buda, responda agora,

elimine nossas dúvidas, para que possamos exultar.

Que benefício está para ser ganho a partir da emissão dessa luz brilhante?

Que Lei maravilhosa o Buda alcançou quando ele tomou o assento do Dharma?

Ele deseja pregá-la agora?

Ou ele fará profecias?

As manifestações das terras Búdicas,

adornadas com muitas jóias e purificadas,

bem como a visão dos Budas não prenuncia pequenas coisas.

Manju, como seria de se esperar,

a assembléia dos quatro tipos de crentes, dragões e espíritos,

olha para você, humano, com esperança;

o que está para ser pregado?”

 

Naquele momento, Manjushri dirigiu-se ao Bodhisattva e Mahasattva Maitreya e a todos os grandes senhores, dizendo: “Bons homens, em minha opinião, o Buda, o Honrado pelo Mundo, agora deseja pregar a grande Lei, fazer cair a grande chuva da Lei, tocar a grande concha da Lei, bater o grande tambor da Lei, e proclamar a grande doutrina da Lei”.

CAP. 01 – Introdução, pag. 16

O Buda Shakyamuni disse a Sabedoria Acumulada: “Bom homem, espere mais um momento. Há um Bodhisattva chamado Manjushri com o qual você deve reunir-se e discutir a Lei Maravilhosa. Então, você poderá retornar à sua terra”.

CAP. 12 – Devadatta, p. 235

O Príncipe do Dharma Manjushri, vendo as flores de lótus, perguntou ao Buda: “Honrado pelo Mundo, qual é a razão deste presságio, esses muitos milhares de miríades de flores de lótus, suas hastes de ouro de Jambunada, suas folhas de prata, seus pistilos de diamante e seus cálices de kumshuka”?

CAP. 24 – O Bodhisattva Som Maravilhoso, p. 377


[1] Tornam-se igualmente iluminados. Adquirem a mesma iluminação do Buda ou visão do Buda. Nesta visão, o Bodhisattva Maitreya do presente revela-se ser o discípulo Ávido da Fama do passado, e o Bodhisattva Manjushri era então o Mestre da Lei Luz Maravilhosa como será visto adiante.

Manjushri
Manjushri em escultura japonesa em bronze.

Sanskrito:  Mañjuśrī
Chinês:
  文殊, 文殊師利
Japonês:
  Monju, Monjushuri
Tibetano:
  Jampelyang
Coreano:
  Munsu
Vietnamita:
  Văn-thù-sư-lợi

Imagem obtida de Wikipedia, a enciclopédia liver.

A Purificação das Terras Búdicas

Então, o mundo Saha foi transformado numa terra de pureza, tendo lápis-lazúli[1] como solo e adornado com árvores de jóias. Seus oito caminhos foram demarcados com cordas de ouro. Nele não mais havia cidades, vilas, oceanos, rios, córregos, montanhas, talvegues, florestas ou matas. Preciosos incensos eram queimados e flores de Mandarava cobriam completamente o chão. Acima dele esvoaçavam mantos de jóias e em estandartes pendiam sinos cravejados de jóias. Somente aqueles na assembléia permaneceram. Todos os demais foram removidos para uma outra região.

Então, todos os Budas, cada qual trazendo consigo um grande Bodhisattva como assistente, chegaram ao mundo Saha e assentaram-se sob uma árvore de jóias. Cada árvore de jóias media quinhentas Yojanas na altura e era adornada com galhos, folhas, flores e frutos. Sob cada árvore de jóias estava um trono de leão medindo cinco Yojanas na altura e adornado com grandes jóias. Então, cada um dos Budas sentou-se na postura de lótus, cada qual no seu próprio trono.

Dessa forma, aos poucos, as terras de três milhões de grandes mundos foram preenchidas, quando ainda nem haviam chegado todas as emanações do Buda Shakyamuni de uma única direção.

Então o Buda Shakyamuni, desejando acomodar as suas emanações, em cada uma das oito direções, transformou duzentas miríades de milhões de Nayutas de terras, purificando-as todas. Elas tornaram-se sem infernos, espíritos famintos, animais ou Asuras. Os seres celestiais e humanos foram removidos para outras terras[2]. Todas as terras por ele transformadas tinham o solo de lápis-lazúli e eram adornadas com árvores de jóias tendo quinhentas Yojanas de altura, decoradas com galhos, folhas, flores e frutos. Sob cada árvore encontrava-se um rico trono de leão com cinco Yojanas de altura e decorado com vários tipos de gemas preciosas. Não havia oceanos, rios ou córregos; nem as montanhas Mucilinda ou Mahamucilinda; nem as montanhas do Círculo de Ferro ou do Grande Círculo de Ferro; e nem o Monte Sumeru ou quaisquer outros tipos de montanhas. Todas aquelas terras tornaram-se terras do Buda. A rica terra era lisa e plana, inteiramente coberta com dosséis bordados de jóias e estandartes pingentes. Preciosos incensos eram queimados e preciosas flores celestiais cobriam o chão.

 


[1] Lápis-lazúli ou Lazurita: cristal isométrico, dodecaédrico de cor azul-violeta, do grupo dos feldspatóides.

[2] O Buda Shakyamuni purificou as terras das 8 (oito) direções tornando-as terras Búdicas. Para isso, as transformou, tornando-as livres dos baixos estados, nomeadamente: inferno, fome, animalidade e ira. Livrou-as igualmente dos estados ilusórios ou intermediários, a saber: tranqüilidade (humanidade) e alegria, correspondendo a seres humanos; e erudição (ouvinte) e absorção (pratyekabuda), estes correspondendo aos seres celestiais. Este capítulo sobre “O Aparecimento da Torre de Tesouro” é, em essência, o início da pregação da Verdadeira Lei, tendo esta sido pronunciada e testemunhada pelo Buda Muitos Tesouros. Por essa razão são purificadas as terras Búdicas das oito direções, pois, o que está para ser pregado é “um ensino para instruir Bodhisattvas”. As emanações do Buda que se encontravam naquelas terras das oito direções, estavam a pregar ensinos provisórios, através dos meios hábeis, para conduzir os seres a este Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa. Os capítulos anteriores a este podem ser vistos como meros expedientes ou meios hábeis também. Agora, o Buda irá revelar a Verdade diretamente para uma assembléia de Bodhisattvas, agora Mahasattvas. Os Budas que são suas emanações, e que vêm dessas terras já purificadas, chegam ao mundo Saha acompanhados apenas de um Grande Bodhisattva, pois, a entrada de um Buda neste mundo pode unicamente acontecer através do Portal do Bodhisattva ou do Grande Veículo. Esse poder de purificar os mundos das oito direções é que fará com que o Buda profetize a iluminação de Devadatta (um ser do estado de inferno) no capítulo seguinte. A compreensão deste poder é que torna a pessoa uma verdadeira devota deste Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa.

Excerto do CAP. 11: O Aparecimento da Torre de Tesouro, pág. 218.

lazurita
Cristal lapidado de lápis-lazúli ou lazurita

Informações e imagens do lápis-lazúli obtidas do Atlas de Minerais e de Rochas – Museu Heinz Ebert – UNESP

Ver em Cristal Perfeito: O Solo de Cristal das Terras Búdicas.

O Solo de Cristal das Terras Búdicas

Naquele momento o Buda emitiu um raio de luz do seu tufo de cabelos brancos que tornou visíveis os Budas das terras na direção leste, iguais em número aos grãos de areia de quinhentas miríades de milhões de Nayutas de rios Ganges. Todas aquelas terras Búdicas tinham o solo de cristal, e eram adornadas com árvores e mantos de jóias. Incontáveis milhares de miríades de milhões de Bodhisattvas preenchiam-nas. Eles eram cobertos com dosséis e mantos de jóias. Os Budas naquelas terras, com um grande e maravilhoso som, estavam pregando a Lei. Também eram vistos ilimitados milhares de miríades de milhões de Bodhisattvas preenchendo aquelas terras e pregando a Lei para as multidões. Assim foi também na direção sul, oeste, norte, nas quatro direções intermediárias, bem como acima e abaixo, em toda a parte onde a luz do tufo de cabelos brancos resplandeceu.

Excerto do CAP. 11: O Aparecimento da Torre de Tesouro, pág. 218.

Terras Búdicas
Foto de Marcos Ubirajara. Local: sítio da Dôra em 01/06/2008.

Ver em Cristal Perfeito: A Purificação das Terras Búdicas.

A Natureza Intrínseca de Todos os Fenômenos

Naquela ocasião, o Honrado pelo Mundo, desejando enfatizar este significado, falou versos, dizendo:

“Desde quando atingi o Estado de Buda,

os kalpas, que então se passaram,

são em número de ilimitadas centenas de milhares de miríades de kotis de asamkhyas.

Desde então, eu tenho pregado a Lei para ensinar e converter incontáveis milhões de seres viventes,

tal que eles possam entrar na Via do Buda.

Através desses ilimitados kalpas,

no sentido de salvar seres viventes,

expedientemente manifesto o Nirvana.

Mas, na verdade, eu nunca passo à extinção.

Eu permaneço aqui, sempre pregando a Lei.

Eu sempre estou exatamente aqui,

e usando o poder das penetrações espirituais,

faço com que os seres viventes em sua embriaguez,

embora próximos a mim, não me vejam.

 

Quando as multidões vêem-me passando à extinção,

fazem extensivamente oferecimentos para minhas relíquias.

Com todos sentindo um forte enternecimento por mim,

em seus corações surge o desejo de ver-me.

Quando os seres viventes tornam-se fiéis e dóceis,

fortes e de pensamentos condescendentes,

e em mente única desejam ver o Buda,

sem poupar as suas próprias vidas, naquele momento,

eu e a Sangha, em assembléia,

apareceremos juntos no Pico da Águia,

onde eu digo para os seres viventes que estou sempre aqui e nunca cesso de ser.

Mas usando o poder dos meios hábeis,

eu manifesto ‘cessando’ e ‘não cessando’ de ser.

Para os seres viventes em outras terras,

que sejam reverentes, fiéis e desejosos (de ver o Buda),

eu também prego a Lei Insuperável.

Mas aqueles que não ouvem isto,

pensam que passei à extinção.

 

Quando eu vejo os seres viventes afogando-se na miséria,

ainda assim, refreio-me em manifestar-me para eles,

para causar-lhes o sincero desejo de ver-me.

Então, quando seus corações encherem-se desse desejo,

eu apareço para pregar a Lei.

Dotado de tais poderes de penetrações espirituais,

através de asamkhyas de kalpas,

eu permaneço sempre no Pico da Águia,

e também resido em outros lugares.

Enquanto os seres vêem o final do kalpa,

e tudo ser consumido pelo grande fogo,

minha terra está em paz e segurança,

sempre repleta de seres celestiais e humanos[1],

jardins e bosques, salões e pavilhões,

e variados adornos preciosos.

Há árvores de jóias com muitas flores e frutos,

onde seres viventes passeiam e deleitam-se.

Seres celestiais tocam tambores celestiais,

constantemente fazendo vários tipos de música,

e flores de mandarava são espalhadas sobre o Buda e a grande assembléia.

Minha Terra Pura é indestrutível,

embora as multidões vejam-na sendo queimada inteiramente.

 

Aflitos, aterrorizados e miseráveis,

os seres viventes encontram-se por toda a parte.

Todos esses seres com suas ofensas,

em razão das suas más causas e relações cármicas,

passam através de asamkhyas de kalpas sem ouvir sequer o nome dos Três Tesouros.

Mas todos aqueles que tenham cultivado méritos e virtudes,

que são complacentes, agradáveis e honestos;

ver-me-ão aqui, pregando a Lei.

 

Às vezes para esta assembléia,

eu prego sobre a ilimitada duração da vida do Buda.

Para aqueles que vêem o Buda somente após um longo tempo,

eu prego o Buda como sendo difícil de encontrar.

O poder da minha sabedoria,

a ilimitada iluminação da minha sabedoria,

é tal que a minha duração de vida é de incontáveis kalpas,

tendo atingido isto através de longa prática e trabalho.

Aqueles que são sábios dentre vocês,

não devem ter dúvidas sobre isto.

Erradiquem-nas, eliminem-nas por completo,

porque as palavras do Buda são verdadeiras, e não falsas.

Elas são como os inteligentes meios hábeis do médico que,

para curar suas crianças insanas,

está de fato vivo, contudo diz que está morto,

e ninguém pode dizer que ele pregue falsidades.

Eu, também, sou como um pai para o mundo,

salvando todos do sofrimento e da aflição.

 

Mas para os seres viventes, embriagados como estão,

eu prego sobre a extinção, embora de fato aqui permaneça.

De outra forma, se constantemente me vissem,

tornar-se-iam crescentemente arrogantes e preguiçosos.

Teimosos e apegados aos cinco desejos,

cairiam nos maus caminhos.

Estou sempre ciente do que fazem os seres viventes.

Aqueles que praticam a Via e aqueles que não praticam.

Eu prego várias Doutrinas em seu benefício,

para salvá-los da maneira apropriada.

Medito constantemente:

‘Como posso levar os seres viventes a adentrar a Via Insuperável e, rapidamente,

adquirir o corpo de um Buda’?”.

 


[1] Nessa passagem o Buda afirma que o estado de Buda possui também, além do estado de Bodhisattva, os demais estados, estando a sua terra “sempre repleta de seres celestiais e humanos”; afinal, neste Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, o Buda provê a iluminação de todos os seres de todos os mundos das 10(dez) direções. Isto sugere que, à semelhança do Buda e dos Bodhisattvas da Terra, os seres celestiais e humanos das 8(oito) direções são também emanações daqueles que se encontram na Terra do Buda. Sendo emanações, não há nascimento e nem extinção dos seres e de toda a fenomenologia daqueles mundos das oito direções. A revelação de que os Budas das oito direções são suas emanações encontra-se no capítulo sobre o “Aparecimento da Torre de Tesouro”. Por sua vez, a revelação de que os Bodhisattvas das oito direções são emanações dos Bodhisattvas da Terra encontra-se no capítulo “Emergindo da Terra”. Neste capítulo sobre “A Duração da Vida do Tathagata” está a revelação de que todos os seres celestiais e humanos das oito direções também são emanações daqueles que se encontram na Terra Búdica. A partir dessas 3(três) revelações pode-se entender qual é a Verdadeira Entidade de Todos os Fenômenos, geratriz de toda a fenomenologia das dez direções. Um aspecto dessa entidade é revelado no capítulo “Emergindo da Terra” quando o Buda, juntamente com os 4(quatro) líderes dos Bodhisattvas da Terra, forma a “célula básica” que possui a forma piramidal. Essa célula, ao ser replicada preenche todo o espaço sob a Torre de Tesouro que também é piramidal com 500 yojanas de altura e 50 yojanas de lado. Essa entidade também é representada pelos dois Budas: o Buda Shakyamuni Original, que é o Buda do estado de Buda e corresponde à sabedoria subjetiva; e o Buda Muitos Tesouros ou Buda Taho, que é o Buda do estado de Bodhisattva ou o Portal Original e corresponde à realidade objetiva. Esses dois Budas encontram-se sentados na Torre de Tesouro e representam a Verdadeira Entidade de Todos os Fenômenos. Esses são aspectos que o Buda revela e utiliza como um meio hábil, pois, a compreensão da Verdadeira Entidade de Todos os Fenômenos está para além do que a razão humana pode conceber ou ponderar.

Extraído do CAP. 16: A Duração da Vida do Tathagata.

O Prelúdio dos Ensinos Essenciais

Naquele momento o Buda emitiu um raio de luz do seu tufo de cabelos brancos que tornou visíveis os Budas das terras na direção leste, iguais em número aos grãos de areia de quinhentas miríades de milhões de Nayutas de rios Ganges. Todas aquelas terras Búdicas tinham o solo de cristal, e eram adornadas com árvores e mantos de jóias. Incontáveis milhares de miríades de milhões de Bodhisattvas preenchiam-nas. Eles eram cobertos com dosséis e mantos de jóias. Os Budas naquelas terras, com um grande e maravilhoso som, estavam pregando a Lei. Também eram vistos ilimitados milhares de miríades de milhões de Bodhisattvas preenchendo aquelas terras e pregando a Lei para as multidões. Assim foi também na direção sul, oeste, norte, nas quatro direções intermediárias, bem como acima e abaixo, em toda a parte onde a luz do tufo de cabelos brancos resplandeceu.

Naquela ocasião todos os Budas das dez direções dirigiram-se aos seus séqüitos de Bodhisattvas, dizendo: “Bons homens! Devemos agora ir ao mundo Saha, para o lugar onde está o Buda Shakyamuni e fazer oferecimentos à Torre do Tathagata Muitos Tesouros”.

Então o mundo Saha foi transformado numa terra de pureza, tendo lápis-lazúli como solo e adornado com árvores de jóias. Seus oito caminhos foram demarcados com cordas de ouro. Nele não mais havia cidades, vilas, oceanos, rios, córregos, montanhas, talvegues, florestas ou matas. Preciosos incensos eram queimados e flores de Mandarava cobriam completamente o chão. Acima dele esvoaçavam mantos de jóias e em estandartes pendiam sinos cravejados de jóias. Somente aqueles na assembléia permaneceram. Todos os demais foram removidos para uma outra região.

Então todos os Budas, cada qual trazendo consigo um grande Bodhisattva como assistente, chegaram ao mundo Saha e assentaram-se sob uma árvore de jóias. Cada árvore de jóias media quinhentas Yojanas na altura e era adornada com galhos, folhas, flores e frutos. Sob cada árvore de jóias estava um trono de leão medindo cinco Yojanas na altura e adornado com grandes jóias. Então, cada um dos Budas sentou-se na postura de lótus, cada qual no seu próprio trono.

Dessa forma, aos poucos, as terras de três milhões de grandes mundos foram preenchidas, quando ainda nem haviam chegado todas as emanações do Buda Shakyamuni de uma única direção.

Então o Buda Shakyamuni, desejando acomodar as suas emanações, em cada uma das oito direções, transformou duzentas miríades de milhões de Nayutas de terras, purificando-as todas. Elas tornaram-se sem infernos, espíritos famintos, animais ou Asuras. Os seres celestiais e humanos foram removidos para outras terras[1]. Todas as terras por ele transformadas tinham o solo de lápis-lazúli e eram adornadas com árvores de jóias tendo quinhentas Yojanas de altura, decoradas com galhos, folhas, flores e frutos. Sob cada árvore encontrava-se um rico trono de leão com cinco Yojanas de altura e decorado com vários tipos de gemas preciosas. Não havia oceanos, rios ou córregos; nem as montanhas Mucilinda ou Mahamucilinda; nem as montanhas do Círculo de Ferro ou do Grande Círculo de Ferro; e nem o Monte Sumeru ou quaisquer outros tipos de montanha. Todas aquelas terras tornaram-se terras do Buda. A rica terra era lisa e plana, inteiramente coberta com dosséis bordados de jóias e estandartes pingentes. Preciosos incensos eram queimados e preciosas flores celestiais cobriam o chão.

 


[1] O Buda Shakyamuni purificou as terras das 8(oito) direções tornando-as terras Búdicas. Para isso, as transformou, tornando-as livres dos baixos estados, nomeadamente: inferno, fome, animalidade e ira. Livrou-as igualmente dos estados ilusórios ou intermediários, a saber: tranqüilidade (humanidade) e alegria, correspondendo a seres humanos; e erudição (ouvinte) e absorção (pratyekabuda), estes correspondendo aos seres celestiais. Este cap. 11 – O Aparecimento da Torre de Tesouro é, em essência, o início da pregação da Verdadeira Lei, tendo esta sido pronunciada e testemunhada pelo Buda Muitos Tesouros. Por essa razão são purificadas as terras Búdicas das oito direções, pois, o que está para ser pregado é “um ensino para instruir Bodhisattvas”. As emanações do Buda que se encontravam naquelas terras das oito direções, estavam a pregar ensinos provisórios, através dos meios hábeis, para conduzir os seres a este Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa. Os capítulos anteriores a este podem ser vistos como meros expedientes ou meios hábeis também. Agora, o Buda irá revelar a Verdade diretamente para uma assembléia de Bodhisattvas, agora Mahasattvas. Os Budas que são suas emanações, e que vêm dessas terras já purificadas, chegam ao mundo Saha acompanhados apenas de um Grande Bodhisattva, pois, a entrada de um Buda neste mundo pode unicamente acontecer através do Portal do Bodhisattva ou do Grande Veículo. Esse poder de purificar os mundos das oito direções é que fará com que o Buda profetize a iluminação de Devadatta (um ser do estado de inferno) no capítulo seguinte. A compreensão deste poder é que torna a pessoa uma verdadeira devota deste Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa.

Extraído do CAP. 11: O Aparecimento da Torre de Tesouro

« Older entries

%d blogueiros gostam disto: