A Sina de Bimbisara

“Oh grande Rei! Bimbisara (o pai do Rei Ajatasatru) certa vez caiu num mau estado mental e saiu para caçar na Montanha Vipula. Ele vagou por toda a selva, mas não encontrou caça. Ele viu um Rishi que era dotado com os cinco poderes divinos. Vendo-o, a ira e os pensamentos distorcidos surgiram em sua mente; ele pensou que a razão de não conseguir caça vinha do fato de que o Rishi poderia ter causado a fuga dos animais de caça. Ele disse aos seus assistentes para matar o Rishi. O Rishi, quando estava para dar o seu último suspiro, caiu num mau estado mental. Ele perdeu os seus poderes divinos e fez um juramento: ‘Eu sou realmente inocente. Mas você, através da sua boca, impiedosamente levou a cabo o ato de matar. Na vida que virá – como você fez – causar-lhe-ei a morte através da minha boca’. Então o rei, ouvindo isso, arrependeu-se. Ele cremou o corpo morto com oferecimentos. Assim se deu com o ex-rei. A conseqüência cármica foi leve, e ele não caiu no inferno. Em contraste com isso, você nada fez desse gênero, assim, como você poderia sofrer no inferno? O ex-rei fez a coisa em si e teve que pagar por ela. Como poderia você dizer, Rei, que você fez a matança e que você tem que sofrer? Você diz que seu pai era inocente. Como poderia você dizer que ele era inocente? Ora, uma pessoa que pecou tem que sofrer por aquilo que ela fez. Uma pessoa que não pecou não tem que sofrer pelas retribuições cármicas. Se o seu falecido pai, o rei, não tivesse cometido pecado, como poderia haver qualquer retribuição cármica? Bimbisara adquiriu boas e más retribuições cármicas em sua vida. Em razão disto, nada era determinado com o rei falecido. Sendo indeterminado, o assassínio também era indeterminado. O assassínio sendo indeterminado, como pode você dizer que terá que cair no inferno?”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 25 – Sobre Ações Puras 5.

O Âmago do Dharma Maravilhoso

Então o Buda disse a Ajatasatru: “Oh grande Rei! Agora lhe falarei sobre o âmago do Dharma Maravilhoso. Ouça-me atentamente com todo seu pensamento! Os mortais comuns devem sempre meditar sobre 20 coisas: 1) este corpo é vazio e não há nada lá que seja imaculado, 2) não há raiz saudável nele, 3) não há nenhum ajuste no nascimento e na morte, 4) cai-se num poço profundo e não há lugar onde não se possa ter medo, 5) através de quais meios pode-se ver a Naturez-de-Buda?, 6) como se pode praticar meditação e ver a Natureza-de-Buda?, 7) nascimento e morte são sempre causa de sofrimento e lá não há o Eterno, o Êxtase, o Eu, e o Puro, 8 ) não é possível separar-se das oito situações inoportunas, 9) sempre se é perseguido por inimigos, 10) não há um dharma que possa livrar-se de todas as coisas que existem, 11) não há alguém emancipado dos três reinos do infortúnio, 12) várias visões distorcidas acompanham (uma pessoa), 13) nenhum barco está à mão para passar alguém através das águas dos cinco pecados mortais, 14) nascimento e morte se sucedem indefinidamente e nenhum limite para isso é alcançado, 15) quando nenhum karma é criado, não há retribuição a seguir, 16) nenhuma fruição surge para outros por aquilo que alguém tenha feito para si mesmo, 17) sem a causa da felicidade, não pode haver o resultado (efeito) da felicidade, 18) uma vez que a semente do karma seja plantada, o resultado não será perdido, 19) a ignorância evoca a vida e por ela se morre, 20) o que se tem ao longo dos três tempos do passado, do presente e do futuro é indolência.

Oh grande Rei! Os mortais comuns devem sempre meditar sobre essas vinte coisas. Tendo meditado assim, a pessoa não virá mais a desejar nascimento e morte. Se nenhum desejo existe de nascimento e morte, ganhar-se-á o samatha-vipasyana [tranqüilidade e insight (introspecção)]. Então, de uma maneira ordenada, a pessoa meditará sobre o que se obtém em relação ao nascimento, vida e extinção. Assim, ela segue com o dhyana, sabedoria, esforços e preceitos (shila). Tendo meditado sobre o nascimento, vida e extinção; se vem a saber o que se obtém com a mente sujeita aos preceitos morais. Abstendo-se do mal até o fim, não pode haver medo da morte ou dos três reinos do infortúnio. Qualquer pessoa cuja mente não está atenta para essas 20 coisas possui uma mente indolente, e não haverá fim do mal que ainda não está feito.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 25 – Sobre Ações Puras 5.

A Mente Imutável do Buda

Então o Buda disse para o povo ao seu redor: “O Rei Ajatasatru ainda tem dúvidas. Agora vou fixar a minha mente.”

Naquela ocasião, havia lá um Bodhisattva chamado ‘Todo-Perseverança’. Ele disse ao Buda: “Oh Honrado-pelo-Mundo! Como você, o Buda, estabeleceu anteriormente: todas as coisas não têm um estado fixo (imutável). A matéria não tem uma forma imutável, e Nirvana também não tem uma forma imutável. Como é que você, o Tathagata, diz que para o benefício de Ajatasatru você atingirá uma mente imutável?”

O Buda disse: “Bem falado, bem falado, oh bom homem! Agora atinjo uma mente imutável para o benefício de Ajatasatru. Por quê? Se as dúvidas do rei forem aniquiladas, isto significa que não pode haver formas imutáveis para todas as coisas. Em razão disto, para o benefício de Ajatasatru, atingirei uma mente imutável (fixa). Saiba que essa mente (do rei) não é algo imutável. Oh bom homem! Se a mente do rei fosse imutável, como se poderiam destruir os pecados mortais do rei? Como não existe um estado imutável, podemos de fato esmagar o pecado. Portanto, para o benefício de Ajatasatru, atingirei uma mente imutável (estado da Mente Búdica).”

Então o grande rei foi para a floresta das árvores sala, foi para onde o Buda se encontrava, olhou e viu as 32 marcas distintivas da perfeição e as 80 características menores de excelência, todas as quais se manifestavam como uma toda-maravilhosa montanha dourada.

Então o Buda emitiu os oito tipos de vozes e disse: “Oh grande Rei!”

Então Ajatasatru olhou para a direita, para a esquerda, e disse: “Quem é o grande rei em meio a todos aqueles que estão aqui? Eu sou um pecador e não possuo virtudes que mereçam ser mencionadas. Dessa forma, o Tathagata não pode estar se dirigindo a mim.”

Então o Tathagata novamente o chamou: “Oh grande Rei Ajatasatru!”

Ao ouvir isto, o rei ficou enormemente satisfeito e disse: “O Tathagata usa palavras amáveis para mim. Agora sei que o Tathagata verdadeiramente tem grande piedade para todos nós seres; ele não faz distinções (não julga, portanto, Mente Imutável).” E ainda disse ao Buda: “Oh Honrado-pelo-Mundo! Agora acabei eternamente com as dúvidas. Definitivamente, sei agora que o Tathagata é realmente o Grande Mestre Insuperável.”

Então, o Bodhisattva Kashyapa disse a Todo-Perseverança: “O Tathagata atingiu uma Mente Imutável para o benefício de Ajatasatru.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 25 – Sobre Ações Puras 5.

O Bom Amigo da Via

O rei disse a Jivaka: “Se as coisas se procedem assim com o Tathagata, amanhã consultarei a sorte do dia e as estrelas para ver se são favoráveis, e então irei.”

Jivaka disse ao rei: “Não há que descobrir os melhores dias e estrelas nos ensinamentos do Tathagata. É como com uma pessoa sofrendo de uma doença grave: ela não escolhe o bom ou mau dia e ocasião, mas procura um médico. Ora, a sua doença, Rei, é grave e você está à procura de um médico, que é o Buda. Por favor, não fale sobre se é um bom ou mau dia. Oh grande Rei! Isto é como no caso do fogo do sândalo e da eranda, os quais queimam da mesma maneira, sem qualquer diferença. É o mesmo com os melhores dias e aqueles de mau-agouro. No lugar (onde se encontra) o Buda, ganha-se a mesma expiação dos pecados. Por favor, oh grande Rei, corra para lá hoje!”

Então o grande rei deu ordens a um ministro chamado ‘Auspicioso’, dizendo: “Oh você ministro! Hoje eu resolvi ir ao Buda-Honrado-pelo-Mundo. Apressa-te e apronte as coisas para os oferecimentos!”

O ministro disse: “Oh grande Rei! Bem falado, bem falado! Temos já todas as coisas prontas para os oferecimentos.”

O Rei Ajatasatru tinha com ele a sua consorte real. Os palanquins nos quais eles montaram eram em número de 12.000; seus grandes e potentes elefantes eram 50.000. Sobre cada elefante estavam três atendentes, que seguravam estandartes e parassóis em suas mãos. Não faltavam flores, incenso ou instrumentos musicais. Tudo estava completo. Havia 180.000 cavalos à frente e na retaguarda. As pessoas de Magadha que seguiam o rei eram em número de 580.000. Naquela ocasião, o povo de Kusinagara ocupava uma área de 12 yojanas no tamanho. Todos viram o Rei Ajatasatru e seus seguidores vindo de longe, perguntando o caminho.

Então, o Buda falou à congregação: “Todos vocês! O mais estreitamente relacionado ao Insuperável Bodhi é o Bom Amigo da Via. Por quê? Se Ajatasatru não tivesse seguido as palavras de Jivaka, ele morreria no sétimo dia do próximo mês e cairia no inferno. Por essa razão, não há ninguém melhor que o mais estreitamente relacionado e Bom Amigo da Via.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 25 – Sobre Ações Puras 5.

A Audição de Todos os Seres

A Parábola do Bom Médico e o Icchantika

O rei disse: “Oh Jivaka! Certa vez ouvi que o icchantika é uma pessoa que não acredita, ouve, vê ou compreende o significado. Como o Tathagata poderia falar do Dharma para uma pessoa como aquela?”

Jivaka respondeu: “Oh grande Rei! Como uma ilustração: existe um homem que contrai uma doença grave. À noite, a pessoa vai a um pagode (‘one pillared palace’, por ex., o ‘Ek Thambia Mahal’), compartilha da manteiga, a esfrega no seu corpo, deita em cinzas, come cinzas, sobe em uma árvore morta, brinca com macacos, senta e reclina com eles, e mergulha na água ou lama. Ele salta de uma edificação alta, de uma montanha alta, de árvores, elefantes, cavalos, vacas e carneiros. Ele veste roupas coloridas de azul, amarelo, vermelho ou cores escuras; ri, canta e dança. Ele contempla corvos, águias, raposas e guaxinins. Seus dentes e cabelos caem; ele está nu, dorme com cães como seu travesseiro em meio aos excrementos e imundícies. Além disso, ele caminha, vive e fica em meio aos mortos, de mãos dadas com eles, e ali ele come. Nos sonhos, ele vê que serpentes venenosas cobrem o caminho por onde ele deve passar. Ou ele abraça uma fêmea coberta de pelos, e veste roupas feitas de folhas de tala (espécie de palmeira). Ele sonha que está viajando num carro quebrado puxado por um burro ou está brincando na frente dele. Tendo sonhado assim, sua mente está preocupada. Devido a essa preocupação, sua doença agrava. Como a doença agrava, todas as pessoas e seus parentes enviam para lá um médico. O menino de recados despachado para (levar) o médico é de pequena estatura e mutilado. Sua cabeça está suja, ele veste roupas esfarrapadas, e pretende carregar o médico numa carroça quebrada. Ele diz para o médico: ‘Rápido! Entre no carro!’

Então, o bom médico pensou para si: ‘Ora, esse mensageiro parece doente e desagradável. Eu sei que a pessoa doente é difícil de curar’. Ele também pensa: ‘O mensageiro não me parece muito auspicioso. Consultarei agora a sorte do dia (horóscopo) e verei se posso curar [o paciente] ou não. O quarto, sexto, oitavo, décimo-segundo e décimo-quarto dias são maus, quando as doenças não se curam’. Além disso, ele pensa: ‘Este é um mau dia. Consultarei as estrelas e verei se posso curá-lo ou não. Se for tempo de estrelas como Marte, Revati, Krttika, Apabharani, Shissho e Mansho, as doenças são difíceis de curar’. Ele também pensa: ‘Como as estrelas não estão numa constelação auspiciosa, olharei agora o tempo. Se for outono, inverno, anoitecer, meia-noite, (noite) sem lua, então as doenças são difíceis de curar’. Ele também pensa: ‘Muito embora todos esses aspectos indiquem maus presságios, as coisas podem ser definidas ou indefinidas. Agora verei a pessoa doente, eu mesmo. Se a sorte for favorável, haverá uma cura; se não, nada ajudará’.

Pensando assim, ele segue adiante com o mensageiro. No caminho, ele pensa novamente: ‘Se a pessoa doente estiver destinada a viver longamente, sua doença será curada. Se não, não poderá haver cura’. E na frente do carro, ele vê duas crianças brigando e lutando, pegando cada um a cabeça do outro, puxando seus cabelos, atirando cacos e pedras, brandindo e batendo com espadas e bastões. Ele vê pessoas rumo ao fogo, que desaparecem espontaneamente, ou pessoas derrubando árvores, ou pegando na pele e levando, puxando, ou coisas abandonadas no caminho, ou pessoas segurando coisas vazias, ou um Shramana caminhando sozinho, sem uma companhia, ou um tigre, lobo, corvo, águia ou raposa. Vendo isto, ele pensa: ‘Eu vejo o mensageiro que foi enviado, tudo o que está acontecendo na estrada, e vejo que todos esses sinais indicam maus presságios. Sei que essa doença será difícil de curar’. Ele também pensa: ‘Embora os presságios sejam maus, que as coisas sejam como devem ser. Eu irei e verei essa doença’. Assim pensando, ele ouve isto no caminho: ‘Coisas como o esquecimento, morte, colapso, quebra, esfolamento, queda, queimadura e mal súbito não podem ser curadas’. Também, ao sul ele ouve os gritos de pássaros e bestas como corvos, águias, sarika, cães, ratos, raposas, porcos e lebres. Ouvindo todas essas coisas, ele pensa: ‘Sei que será difícil curar essa pessoa doente’.

Então ele chegou ao lugar e viu o homem doente. Frio e calor acometiam-no vez ou outra; suas juntas estavam doloridas, seus olhos vermelhos, e o zumbido em seu ouvido podia ser escutado de fora. Sua garganta estava tomada por convulsões e dores, e a superfície da sua língua estava rachada. A pessoa estava com uma cor verdadeiramente escura, e sua cabeça em desalinho. Seu corpo estava ressecado; nenhuma transpiração ocorria. Todos os sinais vitais estavam comprometidos; seu corpo estava extraordinariamente inchado e nas cores escarlate e vermelho, muito diferente daquelas que se tem em condições normais. Não havia equilíbrio em sua voz, que era às vezes forte e às vezes fraca. Manchas podiam ser vistas em todo o seu corpo, estranhamente azuis e amarelas na cor. Sua barriga estava inchada e sua fala não era clara.

O médico, vendo isto, indagou o atendente do paciente: ‘Como o paciente se sente?’

A resposta veio: ‘Oh grande Doutor! Esse homem previamente respeitava os Três Tesouros e todos os devas. Agora, essa pessoa mudou e não mais os respeita. Antigamente, ele doava de bom grado, mas agora se tornou avarento. No passado, ele comia com moderação, mas agora ele come demais. Antes, ele harmonizava com o bem, mas agora ele é mau. Outrora, ele tinha amor filial e respeitava seu pai e sua mãe, mas agora ele não tem em mente respeitá-los’.

O doutor, ao ouvir tudo isto, caminhou adiante e o cheirou. O que ele (o paciente) cheirava era à utpala, uma mistura de cheiros da agaru, prikka, tagaraka, tamala-pattra, kunkumam, sândalo, cheiro de carne assada, cheiro de vinho, cheiro de vértebras e ossos queimados, cheiro de peixe, e cheiro de excremento. Tendo sentido esses bons e maus odores, ele caminhou adiante e tocou o corpo [do paciente] que era tão delicado e suave como a seda, o algodão ou a flor do algodoeiro. Ou era tão duro quanto uma pedra, ou frio como gelo, ou quente como o fogo, tão áspero quanto a areia. Vendo tudo isto, o bom médico sente que o homem certamente morrerá. Disto ele não tem dúvida. Mas ele não diz que a pessoa certamente morrerá. Ele diz para o atendente do homem doente: ‘Estou ocupado agora. Voltarei amanhã. Deixe o homem comer o que quer que deseje, não diga não’. E retorna para casa. No dia seguinte o mensageiro vem, a quem o médico novamente diz: ‘Meu negócio ainda não está concluído; além disso, o remédio ainda não foi inventado’. O sábio deve saber que essa pessoa doente certamente morrerá.

Oh grande Rei! É o mesmo também com o Honrado pelo mundo. Ele conhece bem o que o icchantika é, e ainda assim ele lhe fala sobre o Dharma. Por quê? Se ele não falasse do Dharma, os mortais comuns diriam: ‘O Tathagata não tem compaixão. Se tiver, diremos ‘onisciente’; se não tiver, como poderíamos dizer que ele é onisciente?’ Assim eles diriam. Por essa razão, o Tathagata profere sermões para os icchantikas. Oh grande Rei! O Tathagata vê todas as pessoas doentes e sempre distribui o remédio do Dharma. O Tathagata não é culpado se o doente não toma o remédio. Oh grande Rei! Existem dois tipos de icchantikas. Um obtém a raiz saudável [‘kusala mula’] no presente, e o outro (obterá) a raiz saudável na vida que virá. O Tathagata sabe bem quais dos icchantikas ganharão a raiz saudável nesta vida. Assim, ele fala do Dharma. Mesmo para aqueles cuja raiz saudável se efetivará na próxima vida, ele fala do Dharma. O resultado pode não surgir agora, mas ele cria uma causa para a vida que virá. Por essa razão, o Tathagata fala do Dharma para o icchantika. Existem ainda outros dois tipos de icchantika. Um é aguçado, e o outro é de grau médio. O que é de inteligência aguçada ganha a raiz saudável nesta vida; o que é de inteligência mediana ganhará na próxima vida. O Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo não fala em vão. Oh grande Rei! Por exemplo, uma pessoa que está limpa cai na latrina; um bom mestre da Via vê, sente piedade, vai lá, agarra-o pelos cabelos e puxa-o para fora. Assim se procedem as coisas com o Buda-Tathagata. Ele vê todos os seres caindo na fossa dos três reinos do infortúnio. Ele recorre a expedientes e lhes salva. É por essa razão que o Tathagata realmente fala do Dharma mesmo para icchantikas.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 25 – Sobre Ações Puras 5.

O Samadhi do Luar

Então, o Honrado-pelo-Mundo, o Guia Todo-Compassivo, entrou no Samadhi do Luar para o benefício de Ajatasatru. Ao entrar neste Samadhi, uma grande luz emanou. A luz era pura e fria, e foi para onde estava o rei e resplandeceu sobre o seu corpo. As feridas do seu corpo sararam, e as dores dilacerantes desaparecem. Liberto das dores das feridas e sentindo pureza e frescor no corpo, o rei disse a Jivaka: “Certa vez, ouvi pessoas dizerem que quando o kalpa chega ao fim, três luas aparecem simultaneamente. Naquela ocasião, os sofrimentos dos seres são todos extintos. Esse tempo (do final do kalpa) ainda não chegou. Então, de onde vem essa luz? Ela resplandece sobre mim e toca-me; cura todas as minhas feridas e meu corpo se sente em paz.”

Jivaka respondeu: “Não é que o kalpa esteja acabando e três luas estejam aparecendo e brilhando. Isto também não é a luz de Marte, o Sol, ou as constelações, ou uma erva medicinal, uma jóia, ou a luz dos céus.”

O rei ainda disse: “Se isto não é a luz das três luas, ou de uma jóia, então que luz é esta?

“Oh grande Rei! Essa é a luz do Deus dos deuses. Essa luz não tem fonte; ela é ilimitada. Não é quente, nem fria, nem eterna; não morre; não é matéria, nem não-matéria; não tem expressão exterior; nem é não-fenomenal; não é azul, nem amarela, nem vermelha e nem branca. É vista somente onde há um desejo de salvar. Ela tem suas características e (não) pode ser explicada. Ela tem uma fonte, limite, calor, frio, azul, amarelo, vermelho e branco. Oh grande Rei! Embora essa luz possua tais aspectos de um fenômeno, não é possível explicá-la. Ela não pode ser vista; e nem há nela o azul, o amarelo, o vermelho ou o branco.”

O rei disse: “Oh Jivaka! Por que o Deus dos deuses emite essa luz?”

Jivaka respondeu: “Ora, esses sinais auspiciosos são para você, grande Rei. Oh Rei! Há pouco você disse que não havia um bom médico no mundo que pudesse curar seu corpo e mente. Por essa razão, essa luz foi enviada previamente. Ele (o bom médico) primeiro cura seu corpo, e então sua mente.”

O rei disse: “Oh Jivaka! Será que o Tathagata-Honrado-pelo-Mundo pensa em nós?”

Jivaka respondeu: “Como um exemplo: uma pessoa tem sete filhos. Um dos sete está doente. Não é que o pensamento do pai e da mãe não seja equânime, mas sua mente se inclina para aquele que está doente. Oh grande Rei! O mesmo se passa com o Tathagata. Ele é imparcial, mas ainda assim o seu pensamento está concentrado naquele que é pecador. A compaixão se volta para aquele que é indolente, e sua mente é liberada daquele que é não-indolente. Quem é não-indolente? Isto se refere aos Bodhisattvas do sexto estágio. Oh grande Rei! O Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo não vê qualquer diferença de casta, se é jovem, velho ou de meia-idade; se é rico ou pobre; o tempo, sol, lua, constelações; se humilde, pajem, empregada, ou a habilidade para o trabalho; mas vê, em meio aos seres, aquele que tem uma boa mente. Se alguém tem um bom pensamento, sua compaixão age. Oh grande Rei! Por favor, saiba que esses sinais auspiciosos indicam o fato que o Tathagata agora está no Samadhi do Luar. Por isso, essa luz.”

O rei indagou: “Samadhi do Luar?”

Jivaka respondeu: “Isto é como a luz do luar, que faz com que todos os botões da utpala (lótus) abram esplendorosamente suas pétalas. Assim também age o Samadhi do Luar. Ele abre completamente as pétalas do bom pensamento dos seres. Assim, o chamamos ‘Samadhi do Luar’. Por exemplo, a luz do luar realmente alegra o coração de todos que viajam. Assim faz o Samadhi do Luar. Ele realmente desperta a alegria nas mentes daqueles que viajam sob a proteção do Nirvana. Portanto, dizemos ‘Samadhi do Luar’. Oh grande Rei! A luz da lua aumenta diariamente na sua forma e brilho, do primeiro dia do mês (lunar) até o décimo-quinto dia. O mesmo se passa com o ‘Samadhi do Luar’. A raiz do primeiro rebento de todas as boas ações cresce gradativamente, e termina na realização do Grande Nirvana. É também por essa razão que dizemos ‘Samadhi do Luar’. Oh grande Rei! Por exemplo, a forma e o brilho do luar, do décimo-sexto ao trigésimo dia, diminuem gradualmente em tamanho. É o mesmo com o Samadhi do Luar. Onde quer que ele resplandeça, ele reduz, gradualmente, todas as impurezas. Assim dizemos ‘Samadhi do Luar’. Oh grande Rei! Em tempos de grande calor, todos os seres sempre pensam no (frescor do) luar. Conforme o luar aparece, o calor sufocante se vai. É o mesmo com o Samadhi do Luar. Ele dissipa completamente a febre da ganância e das preocupações. Oh grande Rei! Por exemplo, a lua-cheia é a rainha de todas as estrelas e é chamada ‘amrta’ [ambrosia da imortalidade]. Todos os seres a amam. É o mesmo com o Samadhi do Luar. Ele é o rei de todas as boas ações, é o amrta, e é amado por todos. Por essa razão, dizemos ‘Samadhi do Luar’.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 25 – Sobre Ações Puras 5.

Sutra do Nirvana – Cap. XX – Ações Sagradas 2

Kashyapa disse ao Buda: “Oh Honrado pelo Mundo! Certa vez o Buda foi às margens do Ganges, na floresta de Simsapavana. Naquela ocasião, o Tathagata arrancou um pequeno ramo de árvore com algumas folhas e disse aos Monges: ‘São muitas as folhas que eu seguro em minhas mãos, ou são muitas todas as folhas das gramas e árvores de todos os solos e florestas’? Todos os Monges disseram: ‘Oh Honrado pelo Mundo! As folhas das gramas e árvores de todos os solos são muitas e não podem ser contadas. Aquelas que o Tathagata segura em suas mãos são poucas em número e não merecem menção’. (Então o Tathagata disse): ‘Oh todos vocês Monges! As coisas que eu vim a conhecer são como as folhas das gramas e árvores da grande terra; aquilo que eu compartilho com todos os seres é como as folhas em minhas mãos’.”

O Honrado pelo Mundo então disse: “As inumeráveis coisas que são conhecidas pelo Tathagata estão contidas em mim somente se elas couberem dentro das Quatro Nobres Verdades. Se não, deveria haver cinco Verdades.”

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Destaques deste Capítulo:

O Desejo como um Débito a Pagar

O Desejo como uma Mulher Rakshasa

O Desejo como uma Bela Flor

O Desejo Como Gula Odiosa

O Desejo como uma Mulher Sensual

O Desejo como uma Semente de Maruka (Glicínia)

O Desejo como uma Carne Esponjosa

O Desejo como uma Tempestade

O Desejo como um Cometa

Os Cinco Dharmas Seculares

A Verdade Real

A Transitoriedade da Mente

A Transitoriedade da Existência Física

O Impresumível Giro da Roda da Lei

Ações Sagradas

As Virtudes do Grande Nirvana

O Voto de Kashyapa

A Admoestação do Shakra Devanam Indra

A Doutrina do Todo-Vazio

O Conselho do Doutor Jivaka

“Se há arrependimento pela maldade que foi cometida, e se nos sentimos envergonhados, o pecado se extingue. Oh grande Rei! Mesmo pequenas gotas de água enchem um grande vaso. É o mesmo com o bom pensamento. Cada bom pensamento [boa volição] esmaga completamente uma grande maldade. Se escondemos a maldade, ela aumenta e cresce. Se a desnudamos e nos arrependemos, o pecado se extinguirá. Por isso que todos os Budas dizem que o sábio não esconde seus pecados. Bem feito, bem feito, oh grande Rei! Você crê na lei da causalidade, no carma, e na retribuição que acontece. Por favor, oh grande Rei, não tenha preocupação ou medo! Existem seres que, perpetrando todas as más ações, não se arrependem, não sentem vergonha e não vêem a lei da causalidade e a retribuição que se seguirá. Eles não indagam outros para se orientarem, e não se aproximam de um Bom Mestre da Via. Essa pessoa não pode ser curada por um bom médico ou pela enfermagem. É como a lepra, para a qual a medicina secular não concebe uma cura. Uma pessoa que esconde seu pecado é como aquilo. Por que dizemos que o icchantika é pecaminoso? O icchantika não acredita na causalidade, não se arrepende, não acredita no carma, não vê o presente e o futuro, não se aproxima de um Bom Mestre da Via, e não age em concordância com as injunções de todos os Budas. Essa pessoa é um icchantika. Essa pessoa é alguém que o Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo não pode curar. Por que não? Mesmo médicos não podem curar um corpo que está morto. O mesmo se passa com o icchantika. Essa pessoa é alguém que o Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo não pode curar. Oh grande Rei! Você não é um icchantika. Como poderia não ser curado?

Você, Rei, diz: ‘Não há meios de cura’. Saiba, oh grande Rei! Em Kapilavastu, havia um príncipe, o filho de Suddhodana. O nome da sua família é Gautama, e o seu nome é Siddhartha. Sem que ninguém o ensinasse, ele despertou para a Verdade e espontaneamente atingiu o insuperável Bodhi, adornando seu corpo desse modo com as trinta e duas marcas da perfeição e as 80 características menores de excelência, obtendo os 10 poderes e os quatro destemores. Ele conhece e vê tudo. Altamente compassivo, ele é piedoso com todos os seres assim como é com o seu próprio filho, Rahula. Ele realmente segue o modo de vida dos seres, assim como um bezerro segue sua mãe. Ele sabe quando falar e quando não. Suas palavras são verdadeiras, puras, maravilhosas e legítimas, e uma simples palavra dele corta os laços das impurezas de todos os seres. Ele conhece completamente a natureza dos sentidos orgânicos e da mente de todos os seres. Ele age de maneira a ajustar-se à ocasião e promulga expedientes, e nada há que não seja conhecido por ele. Sua sabedoria é imensa, como o Sumeru. É profunda e vasta como o grande oceano. Esse Buda-Honrado-pelo-Mundo possui a Sabedoria Adamantina, que acaba completamente com todas as maldades dos seres. Nada há que não seja possível para ele. Agora, a 12 yojanas daqui, na cidade-castelo de Kusinagara, entre as árvores sala gêmeas, ele está prelecionando para inumeráveis asamkhyas de Bodhisattvas tudo sobre coisas como: ‘é’ ou ‘não-é’, o criado ou o não-criado, a falha [‘asvara’], a retribuição-cármica da impureza ou a retribuição-carmica da Boa Lei, matéria ou não-matéria, ou não-matéria.not.não-matéria. Eu ou não-Eu, ou não-Eu.not.não-Eu, o eterno, ou o não-eterno, ou o não-eterno.not.não-eterno, Êxtase, ou não-Êxtase, ou não-Êxtase.not.não-Êxtase, características ou não-características, ou não-características.not.não-características, segregação ou não-segregação, ou não-segregação.not.não-segregação, o secular ou o não secular, ou o não-secular.not.não-secular, veículo ou não-veículo, ou não-veículo.not.não-veículo, auto-doação e auto-recepção, ou recepção dos outros, e não-doação e não-recepção.

Oh grande Rei! Você deveria ouvir no local onde se encontra o Buda, tudo sobre cometer (fazer) e não-receber. Todos os pecados graves serão expiados. Oh Rei! Ouça-me por um momento! Quando Sakrodevendra (Shakra Devanan Indra) estava prestes a ver o fim da sua vida, cinco coisas foram vistas, a saber: 1) roupas exalando um mau-cheiro de óleo, 2) desvanecimento da flor na sua cabeça, 3) seu corpo exalava um mau-cheiro, 4) suor (perspiração) nas axilas, 5) não encontrava prazer onde ele estava sentado. Então, o Shakra, como ele sentou-se num lugar calmo, viu um Shramana ou Brâmane e pensou que fosse o Buda. Então o Shramana ou Brâmane, vendo o Shakra chegar, ficou feliz e disse: ‘Oh Shakra! Eu agora tomo refúgio em você’. Ouvindo isto, o Shakra viu que essa pessoa não era o Buda. Ele também pensou para si: ‘Se essa pessoa não é o Buda, não posso mudar os cinco sinais da extinção’.

Naquele momento, o cocheiro Pancashiki disse ao Shakra: ‘Oh Kausika! Existe um gandharva cujo nome é ‘Mirage’. Ele tem uma filha chamada Subhadra. Se você me der essa mulher, lhe direi como acabar com os sinais de declínio’.

O Shakra respondeu: ‘Vemacitra, o rei dos asuras, tem uma filha chamada ‘Saci’, a quem eu respeito. Se você puder dizer-me quem pode acabar com esses sinais do meu declínio, a darei para você, quanto mais então Subhadra!’

(O cocheiro disse): ‘Oh Kausika! Existe um Buda-Honrado-pelo-Mundo chamado Shakyamuni. Ele se encontra agora em Rajagriha. Se você for lá e indagá-lo sobre os sinais de declínio, certamente eles desaparecerão’.

(O Shakra disse): ‘Oh bom homem! Se o Buda Honrado-pelo-Mundo pode de fato acabar com eles (os sinais), conduza-me até lá’.

Naquela ocasião, o cocheiro, com essas palavras, conduziu o Shakra à Rajagriha, até Gridhrakuta. Chegando ao lugar onde o Buda se encontrava, o Shakra prostrou-se e, tocando os pés do Buda, assim prestou homenagem ao Buda. Afastando-se, ele tomou assento a um lado

Sakra-Devanam-Indra disse ao Buda: ‘Dentre todos os devas, quem é que nos aprisiona?’

A resposta veio: ‘Oh Kausika! A mente avarenta, cobiçosa e invejosa!’

Ele (o Shakra) ainda indagou: ‘De onde vem a mente avarenta, cobiçosa e invejosa?’

A resposta veio: ‘Vem da ignorância’.

Novamente ele indagou: ‘De onde vem a ignorância?’

A resposta foi: ‘Da indolência’.

Questionou novamente: ‘De onde vem a indolência?’

A resposta foi: ‘De uma inversão [da verdade]’

E uma nova questão: ‘De onde vem a inversão?’

A resposta indicou: ‘De uma mente dúbia’.

(O Shakra disse): ‘Oh Honrado pelo Mundo! Você diz que a inversão surge de uma mente dúbia. É como o ensinamento Budista. Por quê? Eu tinha uma mente dúbia dentro de mim. Com tal dúvida, eu tinha uma inversão. Eu confundi com você alguém que não era o Honrado-pelo-Mundo. Agora eu vejo o Honrado-pelo-Mundo e todas as minhas dúvidas se dissiparam. Como minhas dúvidas deixaram-me, a inversão também se foi. Através do fim da mente invertida, a mente avarenta, cobiçosa e invejosa também se foi’.

O Buda disse: ‘Agora você diz que não tem uma mente avarenta e invejosa. Você é um Anagamin? Um Anagamin não tem uma mente cobiçosa. Se você não tem uma mente cobiçosa, por que é que veio até mim, à busca de vida? Um verdadeiro Anagamin não busca a vida’.

(O Shakra disse): ‘Oh Honrado pelo Mundo! Se existe uma inversão, existe uma busca pela vida. Se não há inversão, não há busca pela vida. O que eu busco é o Corpo-do-Buda e a Sabedoria-do-Buda’.

(O Buda disse): ‘Oh Kausika! Se você busca o Corpo-do-Buda e a Sabedoria-do-Buda, certamente você obterá isso na vida que virá’.

Então, como Sakrodevendra ouviu o sermão do Buda, os cinco sinais de declínio desapareceram de repente. E ele levantou-se, prestou homenagem, circundou a pessoa do Buda por três vezes, juntou respeitosamente as palmas das suas mãos e disse: ‘Oh Honrado-pelo-Mundo! Agora estou morto e sou nascido; perdi minha vida e a ganhei. Agora digo que, como tomei a Via do Buda, alcançarei o insuperável Bodhi. Isto é um renascimento. Isto é ganhar a vida novamente. Oh Honrado pelo Mundo! Por que os humanos e seres celestiais aumentam em número? E por que eles declinam em número?’

‘Oh Kausika! Em razão das contendas e disputas, o número de humanos e seres celestiais decresce; ao viverem harmoniosamente, seu número cresce’.

‘Oh Honrado pelo Mundo! Uma vez que através das contendas decrescemos em número, de agora em diante não lutarei mais com asuras’.

O Buda disse: ‘Bem falado, bem falado, oh Kausika! O Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo diz que indulgência é a causa da Iluminação Insuperável’.

Então Sakrodevendra caminhou à frente, prestou homenagem ao Buda, recuou e seguiu seu caminho.”

“Oh grande Rei! Como o Tathagata acaba completamente com as más características, dizemos que o Buda é inconcebível. Os graves pecados que você acumulou nos dias passados, infalivelmente, se extinguirão.

Oh grande Rei! Se você acredita em minhas palavras, por favor, corra ao Tathagata. Se você acredita em minhas palavras, pondere bem o que digo. Oh grande Rei! O Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo abarca todos com grande compaixão. Ele não ama apenas uma pessoa. O Dharma Maravilhoso reina amplamente. Não há ninguém que não seja acolhido [por ele]. Sua mente é Toda-Equalitária tanto para os hostis como para os amigáveis. Sua mente não odeia e não ama. Não é o caso que somente algumas pessoas obtêm a Via e outras não. O Tathagata não é apenas meramente o mestre das quatro classes da Sangha; ele é o mestre de todos os (seres) celestiais, humanos, nagas, demônios, habitantes-do-inferno, animais e espíritos famintos. E todos os seres deveriam olhar para o Buda como olham para seu pai e mãe.

Oh grande Rei! Saiba que não é o caso que o Tathagata somente fala do Dharma para o nobre Rei Bhadrika; ele igualmente orienta o humilde Upali. Ele não aceita oferecimentos somente de Sudatta-Anathapindada, mas também aceita comida de Sudatta, um homem pobre. Ele não fala do Dharma somente para o sagaz Shariputra, mas também para o obtuso Suddhipanthaka. Ele não permite apenas pessoas sem ambição como Mahakashyapa entrarem para a Ordem, mas também pessoas tão ambiciosas quanto Nanda. Ele não permite apenas pessoas sem ilusões como Uruvilva-Kashyapa buscarem a Via, mas também aqueles cheios de ilusões que cometeram graves pecados mortais, como Sudaya, o irmão mais jovem do Rei Prasenajit. Não é o caso que ele erradica as raízes da ira porque alguém lhe oferece o galingale (ou galangal – planta de raiz aromática da família da gengibre), mas abandona uma pessoa que pretende fazer o mal. Ele não fala do Dharma somente para machos intelectuais, mas também para os mais rebaixados na vida, para casais e mulheres. Ele não capacita apenas Shramanas a atingir as quatro fruições da Via, mas também capacita pessoas leigas a ganhar as três fruições da Via. Ele não apresenta o Dharma somente para uma pessoa que abandonou as funções casuais da vida, como Puttala e outros que procuram meditar em lugares quietos, mas também para aqueles como o Rei Bimbisara, que tem que reinar sobre um estado. Não é o caso que o Dharma é falado somente para abstêmios, mas é pregado também para aqueles perdidos em bebidas fortes, como o rico homem Ugravati, e os intoxicados. Não é o caso que o Dharma é falado somente para aqueles que sentam em dhyana [meditação] como Revata, mas também para mulheres Brâmanes como Vasistha, que agora está louca após a perda da sua criança. Não é o caso que os seus sermões são pregados somente para os seus próprios discípulos, mas também para tirthikas, Nirgranthas e outros. Não é o caso que o Dharma é pregado somente para aqueles de plena virilidade aos 25 anos, mas também para idosos de 80 anos, que já são impotentes fisicamente. Ele não prega somente para aqueles que estão estreitamente relacionados com o Buda-Dharma, mas também para aqueles que não estão muito bem na pratica da Via. Ele não prega somente para Malika, mas também para uma prostituta como Utpala. Ele não recebe oferecimentos somente das melhores coisas doces e deliciosas do Rei Prasenajit; ele também recebe aquelas do homem rico Srigupta, as quais contêm veneno. Oh grande Rei! Srigupta, em tempos passados, plantou as sementes dos pecados mortais. Mas após ter encontrado o Buda e ouvido os seus sermões, aspirou à Iluminação Insuperável.

Oh grande Rei! Mesmo que alguém fizesse oferecimentos durante um mês para todos os seres, o seu mérito não poderia ser comparado a uma décima-sexta parte daquele auferido pela meditação em pensamento único sobre o Buda. Oh grande Rei! Embora alguém fizesse um homem de ouro, e o dotasse de veículos, cavalos e tesouros em número de 100; isto não se compararia a uma pessoa que aspira à Iluminação e dá um passo em direção ao Buda. Oh grande Rei! Mesmo que alguém pudesse colocar em 100 carruagens puxadas por elefantes, vários tesouros raros das terras Romanas e mulheres com artigos de joalheria, isto não se compararia à aspiração ao Bodhi e a dar um passo em direção ao Buda. Ou mesmo que alguém desse isso e as quatro coisas [isto é, comida, roupas, decocção e aposentos] para todos os seres dos três mil grandes sistemas de mil mundos, isto não se compararia à aspiração à Iluminação e a dar um passo em direção ao Buda. Além disso, mesmo que fizéssemos doações a seres tão inumeráveis quanto às areias do Ganges, isso nunca seria melhor que a ida do grande Rei para onde se encontram as árvores sala gêmeas, para onde o Tathagata está, e ouvir com sinceridade de coração o que ele diz.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 24 – Sobre Ações Puras 4.

Os Dois Tipos de Riqueza

“Oh Rei! Se você se arrepende e sente remorso, o pecado irá embora e você será puro como antes. Oh grande Rei! Existem dois tipos de riqueza. Um é possuir vários animais como elefantes, cavalos, etc., e o outro é possuir vários tesouros como ouro, prata, etc. Alguém pode possuir muitos elefantes e cavalos, mas isso não pode se igualar a uma gema. Oh grande Rei! O mesmo acontece com os seres. Um possui a riqueza vil, e o outro a boa riqueza. Muitas más ações perpetradas não podem ser comparadas com uma boa ação. Eu ouvi o Buda dizer: ‘Se alguém ganha um simples bom pensamento [estado mental, volição], isso destrói 100 más ações’. Oh grande Rei! Isso é comparável a um pequeno pedaço de um diamante, que pode esmagar o Monte Sumeru, ou como um pequeno fogo que pode reduzir tudo a cinzas, ou como uma pequena quantidade de veneno que pode causar danos aos seres. É o mesmo também com uma pequena quantidade de bondade. Ela pode esmagar grandes maldades. Dizemos uma pequena quantidade de bondade. Mas, de fato, é grande. Por quê? Porque ela esmaga grandes maldades. Oh grande Rei! Como o Buda disse, esconder [um pecado] é que incorre em falha [isto é, é uma ‘asvara’ – impureza]; não esconder é nada mais incorrer. Põe-se à mostra a maldade e se arrepende dela. Assim, não se incorre em falha. Uma pessoa faz muitas coisas más, mas se ela não as esconde e as guarda (para si), o pecado será pequeno, em razão dessa não-dissimulação.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 24 – Sobre Ações Puras 4.

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