A Parábola do Bom Médico e o Icchantika

O rei disse: “Oh Jivaka! Certa vez ouvi que o icchantika é uma pessoa que não acredita, ouve, vê ou compreende o significado. Como o Tathagata poderia falar do Dharma para uma pessoa como aquela?”

Jivaka respondeu: “Oh grande Rei! Como uma ilustração: existe um homem que contrai uma doença grave. À noite, a pessoa vai a um pagode (‘one pillared palace’, por ex., o ‘Ek Thambia Mahal’), compartilha da manteiga, a esfrega no seu corpo, deita em cinzas, come cinzas, sobe em uma árvore morta, brinca com macacos, senta e reclina com eles, e mergulha na água ou lama. Ele salta de uma edificação alta, de uma montanha alta, de árvores, elefantes, cavalos, vacas e carneiros. Ele veste roupas coloridas de azul, amarelo, vermelho ou cores escuras; ri, canta e dança. Ele contempla corvos, águias, raposas e guaxinins. Seus dentes e cabelos caem; ele está nu, dorme com cães como seu travesseiro em meio aos excrementos e imundícies. Além disso, ele caminha, vive e fica em meio aos mortos, de mãos dadas com eles, e ali ele come. Nos sonhos, ele vê que serpentes venenosas cobrem o caminho por onde ele deve passar. Ou ele abraça uma fêmea coberta de pelos, e veste roupas feitas de folhas de tala (espécie de palmeira). Ele sonha que está viajando num carro quebrado puxado por um burro ou está brincando na frente dele. Tendo sonhado assim, sua mente está preocupada. Devido a essa preocupação, sua doença agrava. Como a doença agrava, todas as pessoas e seus parentes enviam para lá um médico. O menino de recados despachado para (levar) o médico é de pequena estatura e mutilado. Sua cabeça está suja, ele veste roupas esfarrapadas, e pretende carregar o médico numa carroça quebrada. Ele diz para o médico: ‘Rápido! Entre no carro!’

Então, o bom médico pensou para si: ‘Ora, esse mensageiro parece doente e desagradável. Eu sei que a pessoa doente é difícil de curar’. Ele também pensa: ‘O mensageiro não me parece muito auspicioso. Consultarei agora a sorte do dia (horóscopo) e verei se posso curar [o paciente] ou não. O quarto, sexto, oitavo, décimo-segundo e décimo-quarto dias são maus, quando as doenças não se curam’. Além disso, ele pensa: ‘Este é um mau dia. Consultarei as estrelas e verei se posso curá-lo ou não. Se for tempo de estrelas como Marte, Revati, Krttika, Apabharani, Shissho e Mansho, as doenças são difíceis de curar’. Ele também pensa: ‘Como as estrelas não estão numa constelação auspiciosa, olharei agora o tempo. Se for outono, inverno, anoitecer, meia-noite, (noite) sem lua, então as doenças são difíceis de curar’. Ele também pensa: ‘Muito embora todos esses aspectos indiquem maus presságios, as coisas podem ser definidas ou indefinidas. Agora verei a pessoa doente, eu mesmo. Se a sorte for favorável, haverá uma cura; se não, nada ajudará’.

Pensando assim, ele segue adiante com o mensageiro. No caminho, ele pensa novamente: ‘Se a pessoa doente estiver destinada a viver longamente, sua doença será curada. Se não, não poderá haver cura’. E na frente do carro, ele vê duas crianças brigando e lutando, pegando cada um a cabeça do outro, puxando seus cabelos, atirando cacos e pedras, brandindo e batendo com espadas e bastões. Ele vê pessoas rumo ao fogo, que desaparecem espontaneamente, ou pessoas derrubando árvores, ou pegando na pele e levando, puxando, ou coisas abandonadas no caminho, ou pessoas segurando coisas vazias, ou um Shramana caminhando sozinho, sem uma companhia, ou um tigre, lobo, corvo, águia ou raposa. Vendo isto, ele pensa: ‘Eu vejo o mensageiro que foi enviado, tudo o que está acontecendo na estrada, e vejo que todos esses sinais indicam maus presságios. Sei que essa doença será difícil de curar’. Ele também pensa: ‘Embora os presságios sejam maus, que as coisas sejam como devem ser. Eu irei e verei essa doença’. Assim pensando, ele ouve isto no caminho: ‘Coisas como o esquecimento, morte, colapso, quebra, esfolamento, queda, queimadura e mal súbito não podem ser curadas’. Também, ao sul ele ouve os gritos de pássaros e bestas como corvos, águias, sarika, cães, ratos, raposas, porcos e lebres. Ouvindo todas essas coisas, ele pensa: ‘Sei que será difícil curar essa pessoa doente’.

Então ele chegou ao lugar e viu o homem doente. Frio e calor acometiam-no vez ou outra; suas juntas estavam doloridas, seus olhos vermelhos, e o zumbido em seu ouvido podia ser escutado de fora. Sua garganta estava tomada por convulsões e dores, e a superfície da sua língua estava rachada. A pessoa estava com uma cor verdadeiramente escura, e sua cabeça em desalinho. Seu corpo estava ressecado; nenhuma transpiração ocorria. Todos os sinais vitais estavam comprometidos; seu corpo estava extraordinariamente inchado e nas cores escarlate e vermelho, muito diferente daquelas que se tem em condições normais. Não havia equilíbrio em sua voz, que era às vezes forte e às vezes fraca. Manchas podiam ser vistas em todo o seu corpo, estranhamente azuis e amarelas na cor. Sua barriga estava inchada e sua fala não era clara.

O médico, vendo isto, indagou o atendente do paciente: ‘Como o paciente se sente?’

A resposta veio: ‘Oh grande Doutor! Esse homem previamente respeitava os Três Tesouros e todos os devas. Agora, essa pessoa mudou e não mais os respeita. Antigamente, ele doava de bom grado, mas agora se tornou avarento. No passado, ele comia com moderação, mas agora ele come demais. Antes, ele harmonizava com o bem, mas agora ele é mau. Outrora, ele tinha amor filial e respeitava seu pai e sua mãe, mas agora ele não tem em mente respeitá-los’.

O doutor, ao ouvir tudo isto, caminhou adiante e o cheirou. O que ele (o paciente) cheirava era à utpala, uma mistura de cheiros da agaru, prikka, tagaraka, tamala-pattra, kunkumam, sândalo, cheiro de carne assada, cheiro de vinho, cheiro de vértebras e ossos queimados, cheiro de peixe, e cheiro de excremento. Tendo sentido esses bons e maus odores, ele caminhou adiante e tocou o corpo [do paciente] que era tão delicado e suave como a seda, o algodão ou a flor do algodoeiro. Ou era tão duro quanto uma pedra, ou frio como gelo, ou quente como o fogo, tão áspero quanto a areia. Vendo tudo isto, o bom médico sente que o homem certamente morrerá. Disto ele não tem dúvida. Mas ele não diz que a pessoa certamente morrerá. Ele diz para o atendente do homem doente: ‘Estou ocupado agora. Voltarei amanhã. Deixe o homem comer o que quer que deseje, não diga não’. E retorna para casa. No dia seguinte o mensageiro vem, a quem o médico novamente diz: ‘Meu negócio ainda não está concluído; além disso, o remédio ainda não foi inventado’. O sábio deve saber que essa pessoa doente certamente morrerá.

Oh grande Rei! É o mesmo também com o Honrado pelo mundo. Ele conhece bem o que o icchantika é, e ainda assim ele lhe fala sobre o Dharma. Por quê? Se ele não falasse do Dharma, os mortais comuns diriam: ‘O Tathagata não tem compaixão. Se tiver, diremos ‘onisciente’; se não tiver, como poderíamos dizer que ele é onisciente?’ Assim eles diriam. Por essa razão, o Tathagata profere sermões para os icchantikas. Oh grande Rei! O Tathagata vê todas as pessoas doentes e sempre distribui o remédio do Dharma. O Tathagata não é culpado se o doente não toma o remédio. Oh grande Rei! Existem dois tipos de icchantikas. Um obtém a raiz saudável [‘kusala mula’] no presente, e o outro (obterá) a raiz saudável na vida que virá. O Tathagata sabe bem quais dos icchantikas ganharão a raiz saudável nesta vida. Assim, ele fala do Dharma. Mesmo para aqueles cuja raiz saudável se efetivará na próxima vida, ele fala do Dharma. O resultado pode não surgir agora, mas ele cria uma causa para a vida que virá. Por essa razão, o Tathagata fala do Dharma para o icchantika. Existem ainda outros dois tipos de icchantika. Um é aguçado, e o outro é de grau médio. O que é de inteligência aguçada ganha a raiz saudável nesta vida; o que é de inteligência mediana ganhará na próxima vida. O Buda-Todo-Honrado-pelo-Mundo não fala em vão. Oh grande Rei! Por exemplo, uma pessoa que está limpa cai na latrina; um bom mestre da Via vê, sente piedade, vai lá, agarra-o pelos cabelos e puxa-o para fora. Assim se procedem as coisas com o Buda-Tathagata. Ele vê todos os seres caindo na fossa dos três reinos do infortúnio. Ele recorre a expedientes e lhes salva. É por essa razão que o Tathagata realmente fala do Dharma mesmo para icchantikas.”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 25 – Sobre Ações Puras 5.

Por muccamargo

Físico, Mestre em Tecnologia Nuclear USP/SP-Brasil, Consultor de Geoprocessamento, Estudioso do Budismo desde 1987.

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