Danny Preach

Chuck-berry-2007-07-18
Minhas homenagens a Charles Edward Anderson "Chuck" Berry - Imagem Wikipedia

Assim se anunciava o tremor que abalaria minha vida para sempre: “Danny Preach”!

Quem era, ou o quê era “Danny Preach”?

Início da década de 60, eu então com 9 ou 10 anos. Meus pais nunca foram de igreja, sei lá por quê. Será porque era um segundo casamento? Quando nasci meu pai estava com 58 anos, minha mãe uns 30. Mas, lá estava a igreja, o Rafa (padre Rafael para os íntimos) e o salão paroquial, atrás da Igreja Nossa Senhora da Conceição em Osasco, Vila Quitaúna, cuja qual meu pai ajudou a construir contribuindo com materiais que o Rafa sempre estava a pedir.

Ali, com a anuência do Rafa, acontecia aos domingos o “Showzinho da Igreja”. Meus irmãos mais velhos, o Luizão e o Guara, eram coroinhas, faziam parte daquele movimento, embora nenhum de nós demonstrasse qualquer aptidão para tocar. Guitarras e baixos elétricos, bateria, microfones, conjuntinhos. Um desses conjuntinhos, acredite, chamava-se “The Fishers”. Algo de muito sério estava acontecendo: uma onda de rock na periferia da grande cidade de São Paulo. Estávamos em pleno esplendor da bossa nova, Brasília capital da esperança, o primeiro automóvel brasileiro chamado “Presidente”. Depois falam que o Lula gosta de aparecer.

Por que uma onda de rock quando dávamos os primeiros passos para a descolonização verdadeira do Brasil? Ah! Nunca segui os passos do Luizão e do Guara. Não fui coroinha, não gostava daquilo: missa, cruzada e tudo mais. Eu gostava mesmo era do “Showzinho da Igreja”. Ali eu me dava bem.

Então, tudo o que eu queria na vida era uma guitarra. Mas, como conseguir uma guitarra? Enquanto não era possível tê-la, deixei-me levar pela onda que, não sei por que, fazia-me sentir desgarrar daquele negócio de igreja, embora dentro dela. Foi ali!

Anunciava-se: “Danny Preach”!

Entrava um negão trajado com roupas espalhafatosas, muitas cores, lenço de seda amarrado ao pescoço. Cantava num idioma parecido com o inglês: rock! O que era aquilo? Aquela voz rouca e alta a clamar: “Camon Beibi”! Assim por diante, muito suor, platéia muda, a dor de ser negro diante dos brancos que riam. A dança? Nem falar. O palco do salão paroquial, feito de madeira, tremia, ameaçava cair. As batidas dos seus pés ecoavam salão afora, igreja adentro, como trovões em tempestade, um tremor.

Mas, aquilo era rock? Ou rock era aquela onda emergente de Beatles, Rolling Stones, dos cabelos ao vento? Aquele negão de “cabelo esticado”, parado no ar? Assim ficavam seus cabelos, parados no ar, e eu com apenas 10 anos. O pau quebrava pelos direitos civis dos negros e, até o aparecimento de Jimmy Hendrix, já no final da década de 60, fiquei preso naquele paradoxo. Em toda a minha adolescência e juventude estivera a serviço das contradições. Como construir algo a partir de contradições?

Acho que me afirmei como homem negro devido a “Danny Preach”, o qual, na vida real, chamava-se Praxedes. Vinha da “parte alta” do bairro, do gueto da Vila Isabel, família grande, festeira, promoviam bailes aos fins de semana ao som de Ray Charles, Chuck Berry, Little Richards, The Platters, etc. Eles é que sabiam das coisas. Não íamos a esses bailes porque levavam a pecha de “maloqueiros” pelas pessoas da “parte baixa” do bairro. Notou a flagrante inversão de valores?

Assim foi. Não sei por onde anda Praxedes, sequer se está vivo. Mas, sinto felicidade ao relembrar. Por que feliz? Porque me libertei daquele constrangimento que a sua figura me causava. O que não daria para vê-lo novamente naquele palco, ameaçando derrubá-lo ao bater dos pés. Onde quer que esteja, você pensa que as coisas mudaram, Praxedes? Não! Não mudaram. Sou você agora ao anunciar o tremor dos tempos. Como no grande oceano, as ondas se sucedem, sem que jovens ou velhos as compreendam. Einstein compreendeu e lançou as bases do Raio Laser. Qual é o princípio? Bater o pé! Sim, bater o pé no ritmo, na cadência correta, nos memoriais do passado. Assim, a amplitude dessa onda, na cavidade do ser, avassalará e varrerá para fora as impurezas, as inversões e as pequenas ondas.

Praxedes, estou de volta da Montanha Dourada com muitos tesouros. Aceite-os!

Marcos Ubirajara.

Em 07/11/2010.

Então, ai vai…

Por muccamargo

Físico, Mestre em Tecnologia Nuclear USP/SP-Brasil, Consultor de Geoprocessamento, Estudioso do Budismo desde 1987.

4 comentários

  1. Amado irmão meu,

    Comento a sua maravilha com uma canção minha, composta em1971.

    Viagem ao centro da Terra

    Dentro da Terra, eu estou preso.
    Já não posso enxergar a luz da vida,
    O calor do Sol.
    Tudo é silêncio!
    E, o medo já tomou lugar,
    Na minha consciência.

    Preciso voltar à tona.

    Procuro algum meio.
    Eu quero encontrar, algum objeto que produza som.
    A quietude me sufoca, me faz perceber,
    Que já não posso ver.
    Enxergar a luz da vida e sentir,
    De novo, o Sol…

    Preciso voltar à tona.

    Presença de pessoas, não me envolve mais.
    Há falta de consolo!
    Estou cansado, quero regressar.
    Viagem inutil.
    Não quero nem pensar.

    Eu quero voltar à tona outra vez.
    Eu quero voltar pra convencer o povo.
    Que o mundo, embora seja mal em algumas coisas,
    É como o paraiso!

    Quantas lembranças boas, o seu texto me fez rememorar.

    Magnífico!

    Sérgio

  2. É, Sergio! Eu gosto mesmo é de ver o Nelson cantar essa música. Precisamos gravar Viagem ao Centro da Terra com ele, o Nelson. Enquanto podemos…

  3. Eu me lembro do danny preach não só no salão da igreja como também no clube da rilsan. o danny preach era pra nós na época uma especie de tim maia na jovem guarda. Negros desbravadores,um abraço. Ah, quanto à musica viagem ao centro da terra, concordo também, o nerso deveria grava-la.

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