Os Préstimos de Udayin

O cocheiro entrou no bosque. As árvores jovens estavam em floração, pássaros esvoaçavam alegremente como que embriagados pela luz e pela atmosfera, e sobre a superfície dos tanques, o lótus curvava as suas pétalas para beber o frescor do ar.

Karnataka Apsara

Estátua em arenito do século X de uma Apsara de Madhya Pradesh, India. Fonte: Wikipedia

Siddhartha foi contra a sua vontade, como um jovem eremita, que ainda muito novo para os seus votos, teme a tentação e é levado para algum palácio celestial onde lindas Apsaras estão acostumadas a dançar. Cheias de curiosidade, as donzelas levantaram-se e vieram para a frente como se para cumprimentar um noivo. Seus olhos brilhavam com admiração, e suas mãos estendidas eram como flores. Todas elas pensaram: “Este é Kama em pessoa de volta à terra.” Mas não falaram, nem mesmo sorriram, tão tímidas ficaram em sua presença.

Udayin chamou as mais ousadas e belas, e disse-lhes:

Por que vocês me desapontaram hoje, vocês que escolhi em meio a muitas para cativarem o príncipe, meu amigo? O que lhes fez comportarem-se como uma criança tímida e quieta? Seu encanto, sua beleza, sua ousadia conquistariam mesmo o coração de uma mulher, e vocês tremem diante de um homem! Vocês me mortificam. Venham, levantem-se! Usem seus encantos! Façam-lhe render-se ao amor!” Uma das donzelas falou:

“Ele nos intimida, oh mestre; seu majestoso esplendor intimida-nos.”

“Grande como é”, respondeu Udayin, “ele não a assustaria. Pois estranho é o poder das mulheres. Permita-me lembrar-lhes de  todos aqueles que, no passado, ficaram a mercê de um olhar terno. Certa vez o grande eremita Vyasa, a quem mesmo os Deuses temiam ofender, foi chutado por uma cortesã chamada Bela de Benares, e ele não ficou descontente. O monge Manthalagotama, que era famoso por suas longas penitências, tornou-se um assistente de funerária, no sentido de ganhar os favores da devassa Jangha, uma mulher da mais baixa casta. Santa artisticamente conseguiu seduzir Rishyasringa, um homem erudito que nunca tinha conhecido uma mulher; e o mais piedoso de todos os homens, o glorioso Visvamitra que, certo dia, na floresta, rendeu-se às importunações da Apsaras Ghritaki. E eu poderia nomear muitos outros que sucumbiram à mulheres como vocês, oh lindas donzelas! Venham, não tenham medo do filho do rei. Sorriam para ele, e ele se apaixonará por vocês.”

As palavras de Udayin encorajaram as donzelas. Sorrindo, e com extraordinária graça, elas gradualmente formaram um círculo em torno do príncipe.

Elas usaram as artimanhas mais atraentes no intuito de abordar Siddhartha, de modo a esbarrá-lo ou segurá-lo, e roubar uma carícia. Uma delas fingiu tropeçar e agarrou-se à sua cintura. Uma outra aproximou-se e discretamente susurrou em seu ouvido, “digne-se a ouvir o meu segredo, oh príncipe”. Uma outra fingiu embriaguez; ela lentamente desenrolou o véu azul que atava os seus seios, e então veio e encostou em seu ombro. Uma outra pulou do galho de uma mangueira e, sorridente, tentou impedi-lo de passar. Ainda uma outra ofereceu-lhe uma flor de lótus. E uma delas cantou: “Veja, querido, essa árvore está coberta de flores, flores cujo perfume satura o ar; em seus galhos, pássaros raros gorjeiam felizes canções, como se em uma gaiola dourada.  Ouça as abelhas, pairando sobre as flores; estão excitadas e arrebatadas por um calor ardente. Olhe aquelas trepadeiras, abraçando calorosamente e árvore; a brisa agita-lhes com uma mão ciumenta. Ali, naquela clareira encantadora, você vê o lago prateado adormecido? Está sorrindo, sonolento, como uma donzela acariciada por forte raio de luar.”

Lótus Azul

Foto de Marcos Ubirajara em 17/09/2011. Local: Sítio da Dôra.

Mas o príncipe não estava sorrindo; estava infeliz, por estar a pensar sobre a morte.

Ele pensou: “Essas donzelas não sabem que a juventude é fugaz, e que a velhice virá e as privará de sua beleza! Elas são cegas para a ameaça que é a doença, embora sejam mestras nas artes mundanas. Nada sabem da morte, da morte imperiosa, da morte que destrói todas as coisas! E esse é o porquê elas podem sorrir, esse é o porquê elas podem brincar!”

Udayin tentou interromper os pensamentos de Siddhartha.

Ele disse: “Por que você é tão descortês com essas donzelas? Talvez por não lhe interessarem? O que importa! Seja gentil com elas, mesmo a custa de alguma mentira. Poupe-lhes da vergonha de serem rejeitadas. Como sua beleza poderá conquistá-lo se você é displicente? Você será como uma floresta sem flores.”

“O que há de bom nas mentiras, o que há de bom nas lisonjas”? respondeu o príncipe. “Eu não enganaria essas mulheres. A velhice e a morte estão a espreita por mim. Não tente me seduzir, Udayin; não me peça para juntar-me à nenhuma diversão vulgar. Eu vi a velhice, eu vi a doença, e estou certo da morte; nada agora pode dar-me paz no pensamento. E você queria que me rendesse ao amor? De que metal é feito o homem que sabe da morte e ainda busca o amor? Um cruel e implacável guardião (da morte) está à sua porta, e ele nem sequer chora!”

O sol estava se pondo. As donzelas tinham cessado seus sorrisos; o príncipe não tinha olhos para suas guirlandas e suas jóias. Elas sentiram que seus encantos de nada valeram, e lentamente elas pegaram a estrada de volta à cidade.

O príncipe retornou ao palácio. O Rei Suddhodana ouviu de Udayin que seu filho estava desprezando todo o prazer, que naquela noite ele não havia encontrado o sono.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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