PI e o Pé de Feijão – Episódio 1

Em ‘PI e o Pé de Feijão – Episódio 1’

(*) Hum! Parece que há uma Lei atuando sobre os 5 elementos. A entidade é individualizada por um tipo de harmonia entre os elementos, estabelecida pela Lei. A manifestação da Lei na entidade, entretanto, lhe dá uma natureza inerente única.

Isto significa que na formação da entidade, a Lei não apenas atua sobre os elementos, mas funde-se com eles nessa formação. Gente, que Lei é essa?

Muito provavelmente é o Carma. E isso é um ponto crucial neste livro. Por quê? Porque IZ (o Interlocutor Zen) e PI (o Principiante Incauto) não são feitos daqueles cinco elementos (terra, água, fogo, ar e kuu), são ideogramas. A tinta e o papel, que aqui podemos chamar de veículos, é que são feitos daqueles elementos, e utilizados para lhes atribuir uma expressão material. Este é o profundo significado da Prajna Literária (os sutras), sobre a qual já falamos, e que o Buda nos concede através de meios habilidosos, mas que constitui apenas um aspecto da Grande Sabedoria.

O Cristalino

Na verdade, aqueles cinco elementos constituem impurezas num estágio superior, pois seus microconstituintes, moléculas – átomos – partículas elementares, já o são num grau mais fundamental, a partir das quais se descrevem todos os fenômenos do universo conhecido. Há uma analogia que considero muito pertinente no modelo do cristalino. Naquele modelo, as assim chamadas impurezas estão para além da ideia de partículas elementares, abrangendo também distorções no espaço-tempo, discordâncias, e tudo que possa representar a quebra da simetria fundamental. A síntese dessas ideias pode ser vista no tópico chamado O Universo de Defeitos em Cristais desenvolvido no Cristalino. Entretanto, não é propósito deste livro sequer suscitar uma discussão mais aprofundada sobre isso.

O Ensino do Sutra de Lótus

No ensino do Lótus, esses cinco elementos constituem o lodo do qual emerge o Lótus Imaculado. Isto é uma metáfora, um meio hábil utilizado pelo Buda para expor a Via. No contexto desse ensino cabe perfeitamente a história da Vida do Buda, também consumada em um livro, que conta a saga do Príncipe Siddhartha Gautama, filho do Rei Suddhodana e da Rainha Maia, em busca da Grande Sabedoria e que, ao atingi-la, torna-se o Buda histórico Todo-Iluminado. Não há razões e nem espaço para dúvidas quanto à legitimidade (entenda-se como conformidade com o Dharma Maravilhoso) desse ensinamento, o qual é reputado por muitos como o mais elevado de todos os ensinos. E como um endosso, gostaria de citar, abaixo, uma passagem do Sutra de Lótus:

“Kashyapa, saiba que o Tathagata é o Rei de todas as Leis. Nada daquilo que ele ensina é falso. Ele proclama extensivamente todas as Leis através da sabedoria e dos meios hábeis, e quaisquer que sejam as Leis que ele prega, todas elas conduzem à mais profunda de todas as sabedorias.”

Sutra de Lótus – Capítulo 5 – Ervas Medicinais.

O Ensino do Grande Nirvana

No ensino do Grande Nirvana, esses cinco elementos constituem o Grande Veículo do Bodhisattva, o qual, através da prática das Ações Puras, atinge o Insuperável Bodhi. Naquele ensino, o Buda expõe o Supramundano, que está para além das marcas do ´é´ e do ´não-é´ do mundo secular. Lá, bem como já ocorrera no ensino essencial do Sutra de Lótus, o Buda descarta os meios hábeis dos ensinos provisórios e prega a Paramartha-satya (ou Realidade Última).

Você pergunta que Lei é essa, PI? Vamos chamá-la de Lei do Carma.

Selo Comemorativo

Resposta a William Garcia

A Vida do Buda

A Vida do Buda – click imagem para download.

Em 17/05/12, willian garcia<wgroab@…com> escreveu:

Arigatougozaimassu (agradecido pelo elo).

Olá Marcos,

Parabéns pela finalização do projeto “A vida do Buda”  ?!

Sua visita à Catedral Budista Nikkyoji surtiu inesgotável admiração por sua trajetória, tanto pelos membros, como pelos sacerdotes.

Sinto que preciso apóia-lo de alguma maneira, estou em débito contigo, portanto, preciso saber como posso auxiliá-lo…

Alguma editora se interessou sobre a obra?, quanto ficaria para publicá-la?, você já sondou algum editor?

Esta obra é maravilhosa, e precisamos adequá-la a uma mídia popular, no mais breve possível.

Estou ansioso por suas informações….

Em postura de Gasshô!

NAMUMYOHORENGUÊKYÔ

Arigatougozaimashita

Willian Garcia Ribeiro

Em resposta a William Garcia, em 18/05/2012.

Bom dia William,

Alegra-me saber as impressões deixadas em minha visita à Catedral Budista Nikkyoji. Na verdade, senti a boa acolhida pelos membros e Sacerdotes naqueles dias. Foram momentos de imensa sensação de bem-estar para mim.

Quanto ao livro “A Vida do Buda“, como você disse, é uma obra Maravilhosa, não doutrinária, mas que fascina até os mais cépticos, fazendo-lhes refletir profundamente sobre quanto tempo perderam com suas descrenças.

Não orcei a obra, não sei quanto custaria a sua transformação num livro impresso. Você sabe as razões, né? Mas, já há muitas manifestações de amigos e seguidores do blog Cristal Perfeito, que desejam obter o livro. Quando isso se tornar um desejo sincero de muitos, o recurso aparecerá. Por isso, estou tranquilo.

Nesse momento, você já prestaria grande apoio ao divulgar por ai o trabalho. Pois, a força sedutora dessa incrível história poderá levar muitas pessoas a professar o Budismo. Tenho absoluta certeza disso.

Minhas melhores recomendações a você e familiares.

Grande abraço!

Arigatougozaimashita

Marcos Ubirajara.

O Nascimento de Rahula

O Buda com Rahula

O Buda com Rahula - Fonte: Wikipedia

Então, a bela Gopa deu ao príncipe um filho, ao qual foi dado o nome de Rahula. O rei Suddhodana ficou feliz de ver sua família prosperar, e ficou tão orgulhoso do nascimento de seu neto quanto havia ficado com o nascimento de seu filho.

Ele continuou (perseverou) no caminho da virtude, vivia quase como um eremita, e suas ações eram santas; ainda que continuasse instando seu amado filho para novos prazeres, imenso era seu medo de vê-lo deixar o palácio e a cidade, e buscar o refúgio austero das florestas sagradas.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Exemplo de Suddhodana

Suddhodana regozijava com a vida que seu filho levava, embora a sua própria conduta ele julgasse com a maior severidade. Ele se esforçava para manter a sua alma serena e pura; se abstinha de cometer o mal, e cobria de presentes aqueles que fossem virtuosos. Ele nunca se entregou à indolência ou ao prazer; nunca foi queimado pelo veneno da avareza. Assim como cavalos selvagens são feitos para suportar o jugo, assim ele subjugou as suas paixões, e em virtudes ele superava seus aparentados e amigos. O conhecimento que ele adquiriu, colocou a serviço de seus companheiros, e somente estudou assuntos que eram de interesse (úteis) para todos. Ele não só buscava o bem estar do seu próprio povo, mas também desejava que todo o mundo fosse feliz. Purificava seu corpo com a água dos lagos sagrados, e purificava a sua alma com as águas sagradas da virtude. Ele nunca pronunciava uma palavra que fosse agradável, porém uma mentira; as verdades que ele falava nunca causavam ofensa ou mágoa. Ele procurou ser justo, e foi através da honestidade, e não pela força, que ele derrotou (suplantou) o orgulho de seus inimigos. Ele não atacava, nem sequer olhava com ira aqueles que mereciam a penalidade da morte; ao invés, ele dava-lhes conselhos úteis, e então a sua liberdade.

O Rei era um exemplo para todos os seus súditos, e Kapilavastu era o mais feliz e virtuoso dos reinados.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Uma Vida de Prazeres

O Príncipe Siddhartha vivia feliz com sua esposa, a princesa. E o rei, cujo amor por seu filho agora se transformara em adoração, tomava infinito cuidado para poupá-lo da visão de qualquer coisa que pudesse angustiá-lo. Ele construiu três magnificentes palácios para seu filho: um para o inverno, um para o verão, e o terceiro para a estação chuvosa; e esses (palácios) ele sempre foi proibido de deixar para vagar sobre a amplidão da terra.

Em seus palácios, brancos como as nuvens de outono e reluzentes como as carruagens celestiais dos Deuses e Deusas, o príncipe esvaziava a taça do prazer. Ele levou uma vida de conforto voluptoso; passava lânguidas horas ouvindo músicas tocadas pela princesa e suas acompanhantes e, quando bonitas as músicas, dançarinos sorridentes apareciam diante dele a realizar performances ao som de tambores (kettle-drums) dourados e, com prazer (deleitado), ele os assistia conforme se agitavam com graça e rara beleza em meio às Apsaras (ninfas do paraíso de Indra) felizes.

Mulheres lançavam olhares furtivos para ele: olhares atrevidamente oferecidos ou maliciosamente suplicantes, e seus cílios prostrados eram uma promessa de prazer inefável. Suas brincadeiras divertiam-no, seus encantos prendiam-no na servidão, e ele se comprazia em permanecer nesses palácios cheios de risos e músicas.

Vida de Prazeres

Siddhartha levava uma vida de prazeres sob a proteção de Suddhodana. Click na imagem para ir ao site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Contenda

O rei restabeleceu a sua serenidade. E proclamou por toda a cidade:

“No sétimo dia a partir de hoje, o Príncipe Siddhartha competirá com todos que se destaquem em qualquer que seja o campo (de suas habilidades).”

No dia determinado, todos aqueles que se diziam habilidosos nas artes ou em ciências compareceram ao palácio. Dandapani estava presente, e prometeu sua filha àquele que, de origem nobre ou humilde, fosse vitorioso nas competições que aconteceriam.

Primeiro, um jovem homem, que conhecia as regras da escrita, procurou desafiar o príncipe, mas o erudito Visvamitra adiantou-se à assembléia e disse:

“Jovem homem, tal competição seria inútil. Você já está derrotado. O príncipe ainda era uma criança quando foi colocado aos meus cuidados; eu deveria ensinar-lhe a arte da escrita. Mas ele já conhecia as sessenta e quatro variedades de escrita! Ele conhecia certas variedades de escrita que eram desconhecidas por mim até pelo nome!”

O testemunho de Visvamitra foi suficiente para dar ao príncipe a vitória na arte da escrita.

Então procuraram testar seu conhecimento dos números. Ficou decidido que um certo Shakya chamado Arjuna, que tinha uma ou outra vez resolvido problemas intrincados, atuaria como juiz na competição.

Um jovem homem afirmou ser um excelente matemático, e a ele Siddhartha endereçou uma questão, mas o jovem homem foi incapaz de responder.

“Ainda assim era uma questão fácil”, disse o príncipe. “Mas eis uma que é ainda mais fácil; quem a responderá?”

Ninguém respondeu essa segunda questão.

“Agora é a vossa vez de arguir-me”, disse o príncipe

Eles indagaram-lhe questões que eram consideradas difíceis, mas ele deu-lhes as respostas mesmo antes que tivessem terminado de colocar o problema.

“Deixem que o próprio Arjuna examine o príncipe!” surgiu o clamor de todos os lados.

Arjuna colocou-lhe os mais intrincados problemas, e nenhuma vez Siddhartha deixou de dar a solução correta.

Todos ficaram maravilhados com o seu conhecimento de matemática e se conevenceram que sua inteligência havia explorado a fundo todas as ciências. Eles então decidiram desafiar sua habilidade atlética, mas em salto e corrida ele venceu com pouco esforço, e na luta ele teve apenas que encostar o dedo em seu adversário, e esse cairia ao chão.

Então eles sacaram os arcos, e exímios arqueiros colocaram suas flechas em alvos que eram pouco visíveis. Mas quando chegou a vez de o príncipe atirar, tão grande era a sua força natural que ele quebrou cada arco conforme o vergou. Finalmente, o rei enviou guardas para buscar um muito antigo, muito precioso arco que era mantido no templo. Ninguém que se lembre tinha sido capaz de vergá-lo ou levantá-lo. Siddhartha pegou o arco em sua mão esquerda, e com um dedo da sua mão direita ele o vergou até si. Então ele escolheu como alvo uma árvore tão distante que somente ele podia vê-la. A flecha atravessou a árvore e, enterrando-se no chão, desapareceu. E lá, onde a flecha havia entrado no chão, uma fonte  bem formado, a qual foi chamada a Fonte da Flecha.

Tudo parecia estar encerrado, e eles levaram para o vencedor um enorme elefante branco sobre o qual, em triunfo, ele foi conduzido através de Kapilavastu. Mas um jovem Shakya, Devadatta, que era muito orgulhoso de sua força, segurou o animal pela tromba e, por diversão, bateu-lhe com o seu punho. O elefante caiu ao chão.

O príncipe olhou com reprovação para o jovem homem, e disse:

“Você cometeu uma maldade, Devadatta.”

Ele tocou o elefante com o seu pé, e ele levantou-se e prestou-lhe homenagem (reverenciou-lhe).

Então todos aclamaram sua glória, e o ar vibrou com suas aclamações. Suddhodana ficou feliz, e Dandapani, chorando de alegria, exclamou:

Gopa, minha filha Gopa, orgulhe-se de ser a esposa de tal homem.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Negativa de Dandapani

“Amigo”, disse ele, “Chegou o tempo para meu filho Siddhartha se casar. Creio que sua filha Gopa tenha caído na graça dos seus olhos. Você daria sua mão em casamento para meu filho?”

Dandapani não respondeu de imediato. Ele hesitou, e novamente o rei indagou-lhe:

“Você daria a mão de sua filha em casamento para meu filho?” Então Dandapani disse:

“Meu senhor, seu filho foi criado em meio ao luxo; ele nunca esteve para fora dos portões do palácio; suas habilidades físicas e intelectuais nunca foram postas à prova. Você sabe que os Shakyas somente entregam suas filhas em casamento para homens que sejam hábeis e fortes, bravos e sábios. Como posso entregar minha filha a seu filho que, até agora, tem mostrado gosto somente para a indolência?”

Essas palavras desconcertaram o Rei Suddhodana. Ele pediu para ver o príncipe. Siddhartha veio imediatamente.

“Pai”, disse ele, “você parece muito triste. O que aconteceu?”

O rei não sabia como dizer-lhe o que Dandapani havia expressado tão veementemente. Permaneceu em silêncio.

O príncipe repetiu:

“Pai, você parece muito triste. O que aconteceu?”

“Não me pergunte”, respondeu Suddhodana.

“Pai, você está triste, o que aconteceu?”

“É um assunto doloroso; preferiria não falar sobre isso.”

“Explique-se, pai. É sempre bom ser explícito.”

O rei finalmente decidiu relatar a conversa que ele teve com Dandapani. Quando ele terminou, o príncipe começou a rir.

“Meu senhor”, disse ele, “você está perturbado desnecessariamente. Você acredita que haja alguém em Kapilavastu superior a mim em força ou intelecto? Convoque todos os que são famosos por seus feitos em qualquer que seja o campo; ordene-lhes a medir as sua aptidões (habilidades) com as minhas, e eu lhe mostrarei o que posso fazer.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Gopa, a Consorte do Príncipe

Ele pensou sobre as qualidades que mais sobrelevaria numa mulher. Então, no sétimo dia, ele retornou a seu pai.

“Pai”, disse ele, “aquela com a qual me casarei deverá ser uma mulher de raro mérito. Se você encontrar alguém dotada com os dons naturais que enumerarei, você poderá dá-la a mim em casamento.”

E disse:

“Aquela com a qual me casarei deverá estar na flor da juventude; aquela com a qual me casarei terá a flor da beleza; no entanto, sua juventude não a tornará vaidosa, e nem a sua beleza a tornará orgulhosa. Aquela com a qual me casarei terá a afeição de uma irmã, a ternura de uma mãe, para com todas as criaturas viventes. Ela será doce e verdadeira, e não conhecerá a inveja. Nunca, nem mesmo em seus sonhos, pensará em qualquer outro homem senão seu marido. Nunca usará linguagem arrogante; seus modos serão simples; e será tão dócil quanto uma escrava. Ela não cobiçará aquilo que pertence aos outros; não fará exigências incabíveis, e estará satisfeita com o seu quinhão. Não será inclinada aos vinhos, e doces não a tentarão. Será insensível à música e perfume; será indiferente aos jogos (peças de teatro) e festivais. Ela será gentil com os meus atendentes e suas acompanhantes. Será a primeira a levantar-se e a última a dormir. Aquela com a qual me casarei será pura no corpo, na boca, e na mente.”

E acrescentou:

“Pai, se você conhece uma donzela que possua essas qualidades, você poderá dá-la a mim em casamento.”

O rei convocou o sacerdote da família. Enumerou as qualidades que o príncipe buscava na mulher com a qual se casaria, e então ordenou:

“Vá”, disse ele, “vá, brahman. Visite todos os lares de Kapilavastu; observe as jovens donzelas e interrogue-lhes. E se você encontrar uma que possua as qualidades necessárias, traga-a para o príncipe, ainda que ela seja da mais baixa casta. Pois não é pela posição e nem riqueza que meu filho procura, mas pela virtude.”

O sacerdote vasculhou a cidade de Kapilavastu. Visitou as casas, viu as donzelas, questionou-as inteligentemente; mas não encontraria nenhuma digna do Príncipe Siddhartha. Finalmente, ele veio à casa de Dandapani, que era da família Shakya. Dandapani tinha uma filha chamada Gopa. Ao deparar-se com ela, o coração do sacerdote regozijou, por ser ela muita bela e cheia de graça. Disse-lhe algumas poucas palavras, e não teve mais dúvidas.

O sacerdote retornou ao Rei Suddhodana. “Meu senhor!”, ele exclamou, “encontrei uma donzela digna do seu filho.”

“Onde a encontrou?” indagou o rei.

“Ela é filha do Shakya, Dandapani”, respondeu o brahman.

Embora tivesse grande confiança no seu sacerdote da família, Suddhodana hesitou em convocar Gopa e Dandapani. “Mesmo os homens mais sábios podem cometer enganos”, ele pensou. “O brahman pode estar exagerando em suas qualidades. Devo submeter a filha de Dandapani a um teste adicional, e meu próprio filho a julgará.”

Ele possuía muitas jóias confeccionadas em ouro e prata, e por ordem real um arauto foi enviado pelas ruas de Kapilavastu, clamando:

“No sétimo dia a partir de hoje, o Príncipe Siddhartha, filho do Rei Suddhodana, oferecerá presentes às jovens donzelas da cidade. Assim sendo, todas as jovens donzelas podem comparecer ao palácio no sétimo dia!”

No dia anunciado, o príncipe sentou-se ao trono no grande salão do palácio. Todas as jovens donzelas da cidade estavam presentes e perfilaram-se diante dele. A cada uma ele presenteou uma jóia, mas, conforme elas se aproximavam do trono, sua beleza marcante as intimidava tanto que elas abaixavam o olhar ou, voltando suas cabeças,  o desviavam para longe. Quase não tiveram tempo de receber seus presentes; algumas estavam com tanta pressa de se afastar que meramente tocaram o presente com as pontas dos seus dedos, e este caiu ao chão.

Gopa foi a última a aparecer. Ela avançou destemidamente, sem sequer fechar os olhos. Mas o príncipe já não tinha uma única jóia disponível. Gopa sorriu e disse-lhe:

“Príncipe, de que forma o ofendi?”

“Você não me ofendeu”, respondeu Siddhartha.

“Então por que você me trata com desdém?”

“Não a trato com desdém”, ele respondeu. “Você é a última, e não tenho mais jóias para lhe dar.”

Mas subitamente lembrou que sobre seu dedo ele estava usando um anel de grande valor. Ele o tirou e o entregou à jovem donzela.

Ela não pegou o anel.

Ela disse, “Príncipe, devo aceitar este anel de você?”

“Era meu”, respondeu o príncipe, “e você deve aceitá-lo.”

“Não”, disse ela, “eu não privaria você de suas jóias. Eu é que devo dar-lhe uma jóia.” E saiu.

Quando o rei soube desse incidente, ficou exultante.

“Gopa, somente, poderia enfrentar meu filho”, ele pensou; “somente ela é digna de você. Gopa, quem não aceitaria o anel que você (meu filho) tirou do seu dedo? Gopa, oh meu filho, será a sua mais bela jóia.”

E chamou o pai de Gopa ao palácio.

Siddhartha apresenta o anel para Gopa no Palácio

Siddhartha apresenta o anel para Gopa no palácio. Click na imagem para ir ao site de origem.

Fonte: Lalitavistara (Vida do Buda) em Borobudur

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Como um Lótus – Quando a Recíproca é Verdadeira

Suddhodana ficou a pensar sobre o que Asita lhe dissera. Ele não queria que sua família se extinguisse, e disse para si: “Despertarei no meu filho um desejo pelo prazer; então, talvez, terei netos, e eles prosperarão.”

Então, ele enviou (mensagem) para o príncipe, e falou-lhe nestas palavras:

“Meu filho, você se encontra numa idade quando seria bom pensar em casamento. Se há alguma donzela que lhe agrade, diga-me.”

Siddhartha respondeu:

“Dê-me sete dias para considerar, pai. Em sete dias você terá a minha resposta.”

E ele pensou:

Um mal interminável, eu sei, vem do desejo. As árvores que crescem na floresta do desejo têm suas raízes no sofrimento e na contenda, e suas folhas são venenosas. O desejo queima como fogo e fere como uma espada. Não sou daqueles que buscam a companhia de mulheres; minha sina é viver no silêncio dos bosques. Lá, através da meditação, minha mente encontrará paz, e conhecerei a felicidade. Mas o Lótus não cresce e floresce mesmo em meio ao emaranhado de flores do pântano? Não há homens com esposas e filhos que encontram a sabedoria? Aqueles que, antes de mim, buscaram a suprema sabedoria dispenderam muitos anos na companhia de mulheres. E quando o tempo veio para deixá-las pelo deleite da meditação, o fizeram por uma alegria maior. Seguirei seu exemplo.”

Lotus Azul

Quando a Recíproca é Verdadeira

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Sombra do Bodhi

A Sombra do Bodhi

Wisdom Quarterly - Click na imagem para ir ao site de origem.

Neste ínterim, o Rei Suddhodana se perguntou o que tinha acontecido com o príncipe, e enviou muitos servos à sua procura. Um deles o encontrou absorvido em meditação. O servo aproximou-se, então subitamente parou, perplexo com admiração. Pois as sombras de todas as árvores tinham se distanciado (alongado devido à posição do sol), exceto a daquela Árvore sob a qual o príncipe estava sentado. Sua sombra não havia se movido; ela ainda o abrigava.

O servo correu de volta ao palácio do rei.

“Meu senhor!”, ele clamou, “Eu vi seu filho; ele está meditando sob uma árvore cuja sombra não se moveu, muito embora as sombras de todas as outras árvores tenham se movido e alongado.”

Suddhodana deixou o palácio e acompanhou o servo para onde seu filho estava sentado. Chorando de alegria, disse para si:

“Ele é tão belo quanto o fogo no topo de uma montanha. Ele me deslumbra. Ele será a luz do mundo, e meus membros tremem quando o vejo assim em meditação.”

O rei e seu servo não ousaram mover nem falar. Mas algumas crianças passaram por ali, puxando uma pequena carruagem atrás deles. Estavam fazendo um barulho. O servo disse-lhes , num susurro:

“Não devem fazer barulho.”

“Por quê?” indagaram as crianças.

“Vêem quem medita sob a árvore? Aquele é o Príncipe Siddhartha. A sombra da árvore não o deixou. Não o perturbem, crianças; vocês não vêem que ele tem o brilho do sol?”

Mas o príncipe despertou das suas meditações. Levantou-se e aproximando-se do seu pai, disse-lhe:

“Devemos cessar o trabalho nos campos, pai; devemos buscar as grandes verdades.”

E retornou para Kapilavastu.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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